quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Invadindo a cabine do Comandante


Invadindo a cabine do Comandante

Para quem já conhece o episódio de Marina indo a Recife por razões muito especiais, não será surpresa o tom de aventura das linhas seguintes. Porém, para quem não sabe por que ela viajou repentinamente para a terra de Carvalhinho, vale conferir aqui, primeiro, antes do reinício de jornada: http://sayonarasalvioli.blogspot.com.br/2013/08/a-mao-invisivel-do-guararapes.html                                                                                                  ).






Porém, se você estiver com pressa – no meio do trânsito, com mil coisas a fazer e 12 horas diárias apenas para tudo realizar etc. - pode ler daqui em diante mesmo que garanto compreensão.

A coisa se deu assim: Marina fez a tal viagem, na qual tudo correu bem (depois do aeroporto, quero dizer), e na capital pernambucana passou bons e alegres momentos: cumpriu a tarefa sagrada da viagem, passeou com a amiga Viviane e seus lindinhos, reforçou seus laços de amizade com a cicerone Cristina,  confirmou a lindeza de Olinda e se deleitou com bolo de rolo e bolo Souza Leão. Mas a verdade é que – como pano de fundo emocional – duas (pre)ocupações não saíam de sua cabeça loura:

– O negócio que ela precisaria realizar (e realizou mesmo!) quando chegasse;

– O tal presságio que a perseguiu, todo  o tempo, desde o início... A mesma sensação de aviso ruim no ar que sentiu desde os momentos prévios ao embarque.

Fazer o que se ela era sibila?

Pois bem, Marina decolou levando sua profecia junto: algo parecia prestes a acontecer! O lance era, como no lembrete bíblico, “vigiar e orar”. E sem tréguas. Quando algo paira sobre a sua cabeça, assim, Marina não descansa um só segundo... E esse certamente foi um dos motivos das profundas olheiras que ela manteve durante a viagem. Então: Marina flanava pela cidade e se preocupava, ia para a igreja e filosofava, andava no calçadão da Praia da Boa Viagem e se evadia,





ia ao restaurante predileto de carne de sol e seu pensamento a ameaçava... Sempre com aquela nuvenzinha cinza de desenho sobre a cabeça! Sim: a natureza prometia tempestade! O fato era que ela só podia mesmo confiar aos Céus o pedido de desvio das águas... ou dos ares!

Como a moça imaginou desde o começo: o perigo estava nos ares. Só que a turbulência começou antes mesmo da decolagem... Foi assim:

Marina foi para o aeroporto certa – repito – de que o Guararapes guardava uma mensagem incógnita. Dessa vez não se atrasou nem perdeu nada, sequer pegou fila para despachar a bagagem. Era a primeira, tão cedo chegou! Com os olhos arregalados, à moda Louise.

Então, nossa protagonista estava lá – sentadinha e bonitinha – diante do seu respectivo (e confirmadíssimo) portão quando percebeu que o voo estava atrasado... Muuuito atrasado!... Passaram-se 20, 40 minutos... 1 hora e meia... duas horas... e nada! Assim foi que – exatamente três horas, quarenta e oito minutos depois – uma comissária,  com ares mais solenes que sérios, aproximou-se dos passageiros-de-espera e disse:




– Atenção, passageiros do voo 4739 eu peço que não se alarmem, mas o voo está atrasado por um pequeno problema técnico nas poltronas...

Ao que um senhor de boina azul interrompeu:

– Ah, o voo está atrasado?... Duas horas depois o voo está atrasado ainda???

Clamor geral. Burburinho e confluência de vozes, alarde prévio em uníssono.

Exclama uma ruiva com camisa de time de polo e botas de montaria:

– Isso é inaceitável! Tenho treino no Jockey... Vou participar de competição esportiva amanhã!... E tudo isso por causa de irregularidades em poltronas?

Nisso, um comissário – ao lado da primeira interlocutora da companhia aérea – intervém:

– O problema foi precisamente uma pane na poltrona 11B e...

Antes que terminasse a fala, a comissária deu um beliscãozinho disfarçado nele, como se estivesse a falar demais...

– Pane???? – gritaram todos, já apavorados.

A aeromoça tenta desconversar:

– Bom, senhores e senhoras, o que houve na verdade já está sendo controlado com as devidas medi...

– Ah, está sendo controlado ainda? E a companhia permite que embarquemos num voo furado desses, com uma pane não-resolvida? – pergunta um executivo.

O comissário volta a colocar panos quentes:

– A verdade, senhor, que uma pane nem sempre é grave, dessas de...

 – De derrubar avião? – questionou um metaleiro.

Novo burburinho. Faíscas no ar.

O rapaz tenta continuar:

– Uma pane é uma interrupção não-programada no funcionamento de algum mecanismo da aeronave.

– E quem me garante que não houve uma pane séria, dessas que fazem aviões caírem, como o garoto ali disse?...– bradou um halterofilista de uns dois metros.

Marina, com estranha expressão no rosto, mantinha-se quieta diante de tudo. Mais que todos, ela tinha praticamente a certeza da gravidade. Sim, deve ter havido uma pane mesmo! Imaginativa, nossa protagonista praticamente vislumbrou as faíscas nos ares de sua imaginação...

Eis que um terceiro comissário chega e transmite o comunicado do comandante sobre as perfeitas condições da aeronave, conseguindo acalmar a todos (ah, humanidade teleguiada!), iniciando-se um embarque normal.



Marina seguiu o fluxo, mais apavorada do que pela distração costumeira. Mas, no fundo, tinha a consciência responsável de que só adentraria a aeronave para observar o estado da tal poltrona, ou das poltronas, e verificar – também pelo discurso do comandante – se a situação era de real periculosidade. Bom, seus botões já haviam conversado entre si... Aliás, um intercolóquio de dias! Realmente, a situação era séria... e Marina começou a sofrer aqueles vácuos de respiração abruptos que tinha cada vez que uma ameaça se colocava bem diante dela... Minutos depois, olhou em volta, mais uma vez, e - não conseguindo ver sinal de nenhuma poltrona “reparada” –, bruscamente se levantou e foi – em passo impetuoso – direto até a cabine do comandante. Já na entrada, um terceiro comissário tentou impedir a sua passagem...



No entanto, resoluta, a moça adentrou o espaço, já se dirigindo com ares austeros ao comandante:

– Comandante, me desculpe pela invasão, mas de fato não irei nesse voo se não souber exatamente – e pelo aval do senhor – o que aconteceu com esta aeronave para ela atrasar mais de duas horas e, ainda assim, os comissários se atrapalharem totalmente no comunicado lá fora... – Marina falava sem parar, num só resfolegar.

É claro que ela não falou de sua premonição de dias (ele zombaria dela), embora viesse bem a calhar naquele momento (quanto a isso, nós três concordamos, não é?)...

O comandante parecia entre meio petrificado e com raiva. Mas se limitou a dizer:

– Senhorita...

– Senhora  – a moça rebate, com olhos de husky siberiano.

Parece até que o comandante ficou com medo por dois segundos. Se o teve, todavia, disfarçou:

– Como eu dizia, senhora, tivemos uma pane el...

– Ah então foi uma pane... elétrica?

– Quem disse para a senhora que foi uma pane elétrica?

– Ah, então foi isso que aconteceu, meu Deus?! Uma pane elétrica! Pode até explodir o avião!

 – A senhora é quem está dizendo.

– Nada disso! O senhor estava dizendo e peguei o termo “elétrica” bem no meio e, então, percebi a forjação!

– Mas que forjação, senhora?...

– Senhor, não adianta tentar me enganar: fiz cursos de Neurolinguística e Controle Emocional. E, até pelo seu respirar, posso mensurar o nível de verdade de suas palavras... Portanto, depois de toda essa aflição, me diga: há possibilidade de voltarmos a ter uma pane?... Assim... em pleno voo?

O homem balançava a cabeça.

Numa última tentativa, falou:

– Senhora, tenho 46 anos, uma carreira sólida e uma linda família. A companhia me paga bem, as aeronaves passam por revisão, e eu por treinamentos constantes. Assim como a senhora, também não quero morrer, deixar minha filha de 15 anos, meu filho corintiano e minha mulher, que foi miss e de quem eu morro de ciúmes, sozinhos aqui nessa Terra de vândalos! Portanto, vou fazer um trato com a senhora: o comissário Gesualdo Augusto vai acompanha-la até sua poltrona, e no caminho vai mostrar-lhe que, em lugar da poltrona 11C...

Uma Marina já mais complacente diz:

– Mas eu não a vi, em nenhum momento!

– É claro que a senhora não pôde vê-la... Como eu lhe dizia, o comissário Gesualdo irá mostrar-lhe o vão – ou seja, o espaço vazio – que ficou no lugar da poltrona retirada. Assim, se a senhora não constatar isso, poderá deixar a aeronave.

Marina viu razoabilidade na proposta. E disse:

– Ok, Comandante. Parece-me que o senhor fala a verdade. Talvez as incoerências tenham surgido da insegurança dos comissários a transmitirem a notícia. Mas lhe digo: se eu não confirmar o vão dessa tal poltrona, sairei e ainda direi o motivo, conclamando a todos  que façam os mesmo para salvarem suas vidas!

– A senhora vai causar pânico no acidente sem necessidade.

– Melhor pânico agora que gritos de horror depois com a aeronave embicando pra baixo...

O pobre homem suspirou alto. Marina ainda o fitou bem no profundo dos olhos, emudecida, e saiu.

No caminho para a sua poltrona, a moça verificou mesmo o vazio deixado pela tal 11B. Além disso, a 11A também apresentava uns reparos de ocasião. Mas algo superficial, que parecia simples. 




A moça resolveu que iria no voo, afinal parecia que o Comandante falara a verdade... e Louise e o Rio a aguardavam! Entretanto, sabia que, mesmo não tendo medo de avião, daquela vez iria rezando...

E foi concluindo um Pai-Nosso feliz e devotado que ela aportou no Rio de Janeiro – cerca de três horas depois –, depois do voo de mais quantitativas – e terríveis! – turbulências de sua vida!

Mas... e a intuição de tantos dias prévios? Simples: Marina atribuíra o fato à perda de um pendente antigo que trazia ao pescoço num dos trajetos pela Boa Viagem... Qual a relação entre uma coisa e outra? Bom, ela desenvolveu uma teoria de que – havendo no ar algum tipo de presságio, tal energia ruim confluiu para um objeto, especificamente, e aí se dissiparam os eflúvios de perigo, do mesmo modo que seu perdeu o pendente... Como se tudo tivesse sido descarregado nele, entende? Fim de contas: com o sumiço da peça, também seguira com ela a promessa de acontecimento infeliz... Marina estava certa disso. E entendeu que o prenúncio não-sólido se desmanchou no ar!... 

3 comentários:

figbatera disse...

Com sua tardia resposta a um comentário (antigo) meu, foi-nos dada a oportunidade de um "reencontro"...
Agradeço seu contato e fiquei feliz ao poder voltar aqui.
Com a advento do Facebook muitos blogs (assim como o meu) foram abandonados e esquecidos na selva digital. Parabenizo-a pela persistência em continuar com os seus escritos, no que fez muito bem.
Voltarei a visitá-la (eventualmente). Um abraço, saúde e sorte!

Guilherme Freitas disse...

Vim por causa da postagem do lançamento. Mas resolvi explorar mais o blog! E encontrei este texto leve e divertido! Meus parabéns!

Ana Carla disse...

Viagem com muitas emoções e diversões! Haha.