segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O doce sabor da novidade



O mais fascinante da vida é a prerrogativa da novidade... Essa história de não sabermos o que está para acontecer, as mil e uma curvas sinuosas das esquinas da existência! Refiro-me àquelas surpresas mágicas que permeiam o nosso cotidiano sem que percebamos direito o que ocorre.

Com toda a franqueza, eu amo a novidade! Ter a possibilidade de ver, descobrir ou vivenciar mil coisas diferentes!... É como ter diante dos olhos uma gama variada de formas, cores e paladares, como um tabuleiro de 49 bombons decorados diferentemente para enfeitar e dar sabor à Ceia de Natal! Providenciei isso para a minha ceia deste ano, de modo que cada bombom do tal mosaico tivesse aparência e recheio diferentes dos demais. Assim, quando alguém levava à boca a guloseima, não sabia o que iria encontrar quando o chocolate espocava, deixando descobrir o seu licor: de cereja, anis, lichia, amora?! Em analogia, que sabor, cor ou emoção terão os novos e distintos fatos que comporão o seu mosaico do  novo calendário? Já pensou quanta surpresa (quanta novidade!) poderá compor a sua mesa de ofertas em acontecimentos no próximo ano?

Pensando em tais revelações, afirmo e reafirmo que não tenho medo do que sobrevirá à incógnita dos dias, e cultivo mesmo a dinâmica de acontecimentos inimagináveis e revolucionadores. Sabe aquelas pessoas que têm medo do novo e tremem ao simples pensamento de terem sua vida modificada? Pois é... Não sou uma delas; nunca fui! Ao contrário, carrego comigo uma espécie de sensor de novidade... A cada nova passada do tempo, faço a triagem do recente com o meus radares superpoderosos de sucção do marasmo. Isso mesmo: monotonia comigo não tem vez! Nunca soube o que é rotina; invento todos os dias fórmulas novas de viver. Faço coisas em horários diferentes, renovo sempre meu guarda-roupa, invento mil misturas de fragrâncias na hora do banho, mando preparar uma receita de bombons diferentes entre si e sonho sonhos novos, os mais recentes sempre mais ousados que os anteriores!

Assim é que – quando chega o fim do ano – e me ponho a fazer aquele célebre retrospecto do meu dois mil e tal, me deparo com as surpresas impactantes da velha e boa novidade... Isso é uma coisa que me encanta em todo pré-reveillon: a possibilidade infinita de irmos ao encontro de um mundo novo! E na hora propriamente dita da virada, sempre me pergunto: que surpresas me trará este novo ano? A propósito, você já parou para pensar sobre isso? Reflita e veja, por exemplo – com aquela sua potencial lente interior – os fatos que aconteceram neste ano que passou e você não esperava... Pensou? Percebeu como aconteceram coisas que você nem imaginaria: telefonemas, e-mails, convites, viagens, surpresas?!... enfim: novidades! Novidades boas, chamamentos da sorte, mudanças bruscas e similares!

A vida é, às vezes, uma espécie de roda-gigante: põe você numa rotativa cadeirinha mágica, levando-o a passear por aí, de parada em parada nas voltas dos ares, dando-lhe a cada estágio uma visão nova e outro pedaço do horizonte... Da minha cadeirinha mágica este ano, por exemplo, eu pude vislumbrar várias nuances de horizontes que se avizinharam de mim, e outras que são, ainda, um prenúncio na faixa rósea do céu das possibilidades!

Às vésperas do brinde ao próximo ano, aposto que um milhão de novidades estão por aí – borbulhantes e saltitantes no ar – prontas a serem apanhadas pelos humanos mais intrépidos! Não deixe que tudo fique apenas no ar, numa promessa de espuma! Faça como eu: capitaneie o time da busca pelo novo... brinde à surpresa feliz da renovação e deguste o doce sabor da novidade!

P.S.: Desejo a você, no tempo que se aproxima, um tabuleiro de novidades – diferentes, coloridas e prazerosas – como os bombons da fotografia! Que você possa usufruir de toda a variedade de imagens, cores e sabores da emoção que a vida tem para oferecer! Que o calendário anunciado seja como um atrativo mosaico de coisas novas!

Por Sayonara Salvioli


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... mais: Paz, amor, fortuna e bem-aventurança aos calorosos de coração!


Deus abençoe o Ano Novo!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Poderosa intuição


Imagem: Col. LS

Minha intuição é algo com que realmente posso contar. Pelo menos, na maior parte das vezes. Mais do que isso, normalmente, ela é uma espécie de bússola, ou mesmo, uma poderosa arma no trato com o cotidiano.
Memoráveis são os casos de acerto preciso da minha antevisão intuitiva. Quero mostrar, com isso, as inúmeras vezes que previ algum fato com razoável antecedência. Normalmente, tal se dá por meio de sonhos. Costumo sonhar – na véspera ou com um intervalo de cinco a dez dias – com algo que está para acontecer. A revelação onírica pode ter conotações simbólicas ou, em casos especiais, mostrar cenas claras ou um fato evocativo sobre determinada pessoa ou situação.
Sendo mais clara, vou relatar aqui alguns desses casos intuitivos que posso classificar como especiais. Um deles aconteceu há cerca de quatro anos... Comecei a sentir, certo dia, algo estranho, uma sensação de perigo que rondava, com acurada precisão (não me deixava nenhuma dúvida) a figura de meu pai. Tremendo pânico tomou conta de mim, especialmente pelas fragilíssimas condições de saúde dele – agravadas, com o passar dos anos por uma lesão medular que lhe impedira a mobilidade natural. Diante disso, dificilmente uma ameaça, para mim, pairando sobre a cabeça de alguém seria mais grave do que aquela, terror premonitório, que apontava na direção inconteste de meu paizinho!... Coloquei uma foto dele na área de trabalho de meu computador e, na constância dos dias – ao longo de minhas atividades de escrita – fazia orações e procurava emanar eflúvios positivos na direção de seu olhar doce, estampado na minha tela. Além dos cuidados espirituais, também procurei tomar medidas práticas de prevenção: liguei para a minha mãe (eles moram a 300 Km de distância) e avisei sobre o perigo que pressentia. Alertei: Tome cuidado para que meu pai não se acidente, pois sinto que ele corre perigo por esses dias. Paralelamente a isso, pedia à minha filha, quando em vez, que também fizesse suas orações, já que infelizmente, sinto que algo irá acontecer a seu avô, sem demora.
Palavras de sibila! Cerca de dez dias depois, o telefone toca; era minha mãe... Antes mesmo que ela começasse a dizer qualquer coisa, in continenti, perguntei: O que aconteceu com meu pai? Atente-se para o detalhe de que ela me liga várias vezes durante o dia (sou filha única), mas naquele telefonema – precisamente naquele momento – minha intuição certeira me avisou do fato recentemente acontecido. Estava consumado: meu pai sofrera uma queda brutal e quebrara o fêmur; urgia ser feita uma cirurgia. Antes de tomar qualquer providência e viajar para lá, agradeci a Deus que a notícia não tivesse o atroz apelo de um ultimato. E rezei novamente para que ele se saísse bem de tudo aquilo, embora eu tivesse absoluta certeza de que – mesmo com o sucesso da operação, após a realização desta – ele não mais voltaria a andar. E assim foi.
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Outro episódio da série Intuição teve lugar numa manhã aparentemente comum, quando – depois de uma noite de sonhos truculentos – acordei com aquela estranha sensação de revelação. Da cama, com voz notadamente alterada, chamei minha filha, que tomava café da manhã. Ela veio até mim, já um pouco aflita e sem nada entender, quando lhe perguntei se ela pretendia ir ao cinema com as amigas naquele dia. Após sua negativa, eu lhe disse que então estava tudo tranqüilo, pois meu sonho premonitório de perigo só fazia sentido se ela fosse passar – com as colegas Fulana, Beltrana e Sicrana – pelo Cine Rockfield, reunindo-se com elas em frente a este. Relatei-lhe que sonhara com ela sendo assaltada, junto às colegas, na porta do cinema, num assalto em que lhes levavam os celulares.
Minha filha foi para o colégio, e eu voltei a dormir. O horário das aulas transcorreu normalmente e ela retornou a casa. Mais tarde, despertei efetivamente para o dia e fui trabalhar. No fim da tarde, o telefone tocou e Raquel o atendeu. Após ouvir uma pergunta e titubear por uns segundos, decidiu não aceitar o convite e, de modo sutil, prevenir as amigas quanto a qualquer resquício de perigo advindo dos sonhos da mãe. Isso de modo bem disfarçado, pois, como uma boa e usual adolescente, teria “brios” em falar dos poderes maternos manifestamente telepáticos (risos)... E suas amigas se dirigiram ao cinema. Horas mais tarde, minha filha fora surpreendida por novo telefonema das colegas, que, aflitas, lhe relatavam que haviam sido assaltadas em frente ao cinema e que os assaltantes levaram os seus celulares. Como o leitor pode constatar, mais precisa não poderia ter sido a minha intuição onírica.
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Outro fato, bem mais recente, aconteceu quando, após um desses painéis noturnos reveladores, acordei e disse para a minha filha: Vai acontecer alguma coisa hoje. Meu leitor, você bem pode imaginar o que não significam palavras assim emanadas de minha intuição, já célebre entre familiares e amigos. Minha filha, então (coitada!), a certo momento desenvolveu considerável pânico ante minhas bruscas e solenes declarações. E não foi diferente naquele dia, com certo agravante por parte de minha autoconsciência de preservação: constava da minha agenda um ida a determinada editora, localizada em subúrbio muito visado, ou seja, em zona de perigo. O problema, então, me parecia maior, mais forte e efetivo, de antemão. Provavelmente, algo diferente estava fadado mesmo a acontecer. Assim, contrariando Monteiro Lobato – que recomendava que as pessoas “não atentassem muito no perigo” –, acreditei na possível predestinação e comecei a tomar as prováveis providências. Primeiro, rezei. Depois, separei documentos e vi se a minha filha estava com cópias de chaves e cartões de banco. Por um ligeiríssimo átimo, até pensei em não ir à editora, mas desisti da desistência, alegando para mim mesma que eu não poderia suspender o ritmo da vida. Assim, por ser a um só tempo responsável e arrojada, impetuosa, peguei pela mão a minha coragem de sempre e tomei um táxi para a Zona Norte.
Incrivelmente, nas primeiras horas do dia, tudo parecia transcorrer com a calma sem graça das situações rotineiras. Felizmente, diga-se de passagem. E assim, no ritmo cordato das horas que se sucediam sem maiores alardes, passou toda a manhã. Bem mais atenta do que de costume (apesar da forte intuição, sou curiosa e ridiculamente distraída), durante o percurso até a editora, procurei observar, através da janela do táxi, todo o movimento do trânsito e das coisas à minha volta. Porém, nada de significativo parecia saltar às minhas vistas. Em paz também cheguei à editora. Lá chegando, tomei todas as providências de trabalho necessárias e, cerca de uma hora e meia depois, partia do local no trajeto de volta à Zona Sul.
Próximo à referida editora, existe um viaduto considerado de alta periculosidade. E profundo foi o meu suspiro de alívio ao cruzá-lo já na volta de minha missão àquele lugar. Quase não acreditei quando, após atravessá-lo – pela segunda vez, naquele dia de intenções escabrosas preconizadas –, pareci vencer o anunciado perigo. E talvez tenha sido exatamente nesse momento de relaxamento que ouvi um som truncado na traseira do automóvel. Meu coração quase saltou pela boca quando – acordada pela realidade exterior aos meus pensamentos –, pude perceber que um ônibus batera no táxi que me conduzia! Talvez vendo a minha expressão momentânea de leve pânico (risos nervosos), o taxista tentava acalmar-me: “Não foi nada, senhora. O ônibus raspou a traseira do meu táxi. Mas a senhora está bem, não está?” Ao que lhe afirmei estar bem e contei a minha história. O pobre homem ficou estupefato. Menos estarrecida só ficou a minha filha já treinada em grandes emoções... Após me conscientizar do ocorrido, peguei o celular e lhe disse: Fique calma: o perigo já passou. Imagine o que essa menina não passa, na constância dos dias!...
Após tais relatos, no entanto, eu gostaria de dizer ao leitor que também não tenho bola de cristal... Apenas sou avisada em certos momentos de perigo. E desejo, sinceramente, que em tais instantes graves, meus anjos nunca falhem. É bem verdade que – dadas as minhas vulnerabilidades humanas – há momentos em que eles podem estar dormindo... Aí a boa e velha intuição pode não me atingir a consciência a tempo, em vista, principalmente, de outras conjunções cósmicas que, porventura, possam atingir o céu da minha rotina. Ainda assim, prometo ao leitor que – na maior parte dos casos – procurarei desenvolver uma força telepática tal a ponto de livrar – com inspiração e iluminação divinas –, a mim e aos meus, dos perigos que rondam as vivências humanas. E, quem sabe, paralelamente a esse dom que tenho desenvolvido nos últimos anos, eu não possa chegar, por exemplo, a uma superclarividência lógica e desvendar os números premiados da Mega-Sena?... Aí, caro leitor, você pode apostar: não me esquecerei de sua prévia companhia aqui neste âmbito e o convidarei para integrar o bolão onírico da sorte!!!
Por Sayonara Salvioli

P.S.: Falei hoje da minha intuição com revelados “poderes delatores do perigo”. Outro dia, no entanto, escreverei sobre outro tipo de poder intuitivo, o qual trata da sensação leve e de regozijo que é capaz de antever momentos meio mágicos, aqueles que não se atrelam, necessariamente, a circunstâncias cabais de riscos, doenças ou acidentes. Em 1988 e em 1999, passei por coisas assim. Mas isso é matéria – e profícua! – para outro post!

sábado, 6 de dezembro de 2008

Viagem no tempo?!




Novamente, o tempo... O ano era 1984. E eu estava num lugar meio mágico, com um chão legitimamente outonal – aquele de folhas secas cobrindo o chão e pintando a paisagem de dourado. Mas não falo do outono europeu que “pintou” aí na sua imaginação. O meu lugar particular era um pomar bem nacional, com árvores de copas grandes e troncos seculares: uma fazenda no interior do Estado do Rio de Janeiro. Na verdade, o local tinha um quê de fantástico: parecia encontrar-se no âmago de um livro... folhas secas entre rizomas de celulose em forma de páginas perfiladas!...  
Não parecia, mas era um lugar real. E eu chegara lá sem a avidez das grandes vontades; apenas fora para agradar a meu pai, que trazia de volta para a família um patrimônio de gerações. Lá chegando, porém, olhei rapidamente para a sede de janelas coloniais e alpendre literário... Sem dúvida, aquele era um belo lugar! Mas a primeira paisagem que me sorriu não despertou o mesmo encantamento em meus lábios. Não quis adentrar o casarão, logo de início. Uma vontade maior moveu a minha mente e deslocou meus pés apressados em busca de algum lugar. Saí caminhando rápido, com aquela sensação de quem não sabe para onde está indo, mas conhece o caminho. E foi aí, que – clareiras depois – eu me vi rodeada de folhas por todos os lados. Aposto que, algum dia, você teve essa mesma sensação de já conhecer um lugar onde nunca esteve antes... Foi assim.  
Senti-me com a alma nos olhos, com a garganta ressequida, surpreendida pelo gosto não conhecido do inexplicável, do imponderável, do intangível. Sim, eu estava ali naquele pomar com a sensação absurda de nunca dele haver saído! Mas como, se jamais eu pisara a terra de meus avós? A lendária Santa Cruz do Retiro não passava do interessante núcleo das histórias recordadas pelo meu pai: as corridas de fantasmas, os medos-meninos, os enterros prematuros de patos... Do pomar e seu envolvente mistério, porém, ele nunca falara! Só se isso era coisa de minha bisavó, com quem tanto pareço segundo as conversas dos saudosistas. Ora, isso me parecia bem crível: a sorridente e festiva senhora devia mesmo gostar de ficar horas ali, estalando folhas pipocantes sob os pés, sentando-se naquele tapete de outono e lendo Alencar sorrindo! Praticamente um fiapo de lembrança arranhou as minhas vistas: foi como se eu a visse de repente ou – quem saberá algum dia? – trocasse de lugar com ela e sentisse, numa fração de segundo, o encantamento único daquele lugar.  
Acho que essa foi a maior sensação que tive de dé jàvu... E não falo, objetivamente, de conceitos de espiritualidade; também não estou defendendo, por outro lado, princípios de parapsicologia. Seja pelo espírito, seja pela mente, o fato é que meu pensamento voou, fazendo-me pairar por estâncias familiares estranhamente desconhecidas... Naquele instante, tive a impressão de estar revivendo os sentimentos e as impressões da minha bisavó. E, por um átimo, quase pude vislumbrá-la com seu vestido de época, sombrinha de rendas e... meu sorriso (?) na face!


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Algumas correntes científicas defendem a tese de que o dé jávu seria uma reação disparada por ação neuroquímica no cérebro, algo que não estaria ligado, de jeito nenhum, a determinada experiência do passado. Por outro lado, correntes populares e histórias pessoais manifestam uma verdade tal que sensações assim, tão fascinantes e enigmáticas, costumam permear os personagens da literatura e do cinema. E a imaginação das pessoas, é claro! Quem, por exemplo, não se deixou encantar pelo mistério romântico de Richard Collier e Elise Mackenna? (Em algum lugar do passado, 1980). Ou, ainda, não se envolveu na placidez contraditória das águas extemporâneas de Kate Foster e Alex Wyle? (A casa do lago, 2006). Mais recentemente – tenho certeza! – muitos foram os que deixaram o cinema fascinados com a experiência do agente especial Doug Carling (Dé Jàvu, 2007). Em qualquer dos três casos, um fio faz a interseção da história: a vertente ficcional (ou não) de uma viagem no tempo. 
Assisti também a dois curta-metragens que me atingiram em cheio o interesse e a curiosidade pelo fenômeno do tempo relativo: um nacional – Loop, escrito e dirigido por Carlos Gregório, com o desfecho impactante de um filme de seis minutos que, literalmente, extrapola a ideia convencional de tempo; e um alemão – escrito e dirigido por Chris Stenner, Arvid Uibel e Wittlinger Heidi, cuja temática dá conta de uma oscilação entre o tempo geológico e o tempo humano. Haja profundidade de enfoque!... 
Confesso que tenho a trilogia Back to the Future (1980) e – entre pipocas e Coca-Cola – sempre me reencontro com meu amigo Doc Brown, personagem inesquecível de Christopher Lloyd... Que genialidade a do Einsten pós-moderno criado pelo cinema quântico! Mas, voltando ao que eu dizia, a ideia de viajar no tempo, comum aos filmes que citei, constitui, a meu ver, um dos motes mais interessantes para a imaginação daqueles que sempre quiseram saber mais do que o mero e o palpável. Eu sempre fui uma dessas pessoas: quando criança desejei ser abduzida por uma equipe de cientistas verdes, tentei falar com fantasmas (ainda não consegui, mas continuo não tendo medo deles) e tive como sonho de consumo uma máquina do tempo! A certa altura, a obsessão era tão forte que eu acreditava mesmo poder embarcar em uma, e que – de algum modo – iria poder, a qualquer dia, descer na Grécia de Sócrates, desembarcar às margens do Nilo de Amenófis IV ou aportar num heliponto doméstico do século XXIII. No entanto, como o caprichoso Dr. Tempo ainda não me levou a conhecer o seu supersônico, vou me contentando com vôos esparsos nas galáxias da imaginação... Para tal, sei que não basta ler G. J. Whitrow, Guillaume Musso, Lee Smolin ou, ainda, J. J. Benítez. Também reconheço não ser suficiente conhecer avançadas teorias de Física Quântica. Aposto mais, mesmo, nas dimensões imaginárias – ou não – a que meu cérebro voador pode me levar... Estas, sim, representam as estâncias da possibilidade tornada real, esse tal gérmen do homem, que o tem feito inventar de bússola a ônibus espacial.  
Deixando um pouco de lado as verdades científicas, fascina-me mais a possibilidade de fazer uma viagem no tempo sem usar máquinas ou mecanismos complexos, como fez o teatrólogo de Em algum lugar do passado... Quando assisti ao filme pela primeira vez, ainda criança, eu tentei repetir a tática: deitei-me em meu quarto, fechei os olhos, tentei olhar para o mais profundo de meu cérebro e codificar a mensagem numérica de um outro ponto no tempo-espaço... Não adiantou, como você pode supor. Mas a minha vontade-menina permanece em mim e, sempre que travo contato com alguma aventura dessas no cinema, quase consigo me reportar a uma situação-verdade imaginativa, passando pela vereda – nem um pouco estreita – que meu cérebro me permite. Assim foi com a experiência atrativíssima de A casa do lago: dois apaixonados que se correspondem magicamente, havendo entre eles a divisória temporal de dois anos(?!)... Alex vivia em 2004, e Kate em 2006. Ele pôde travar rápido contato com ela no passado por meio das mensagens que recebia do futuro. Tinham em comum o fato de haverem morado na mesma casa e um desses amores dignos de cinema. O filme é tocante, em vários aspectos. E altamente inquietante é o paradoxo proposto em sua story line: uma médica assiste a uma morte e, por isso, se retira de sua rotina estressante, indo morar numa plácida casa sobre um lago. A partir daí se desenrola a trama. Mas como isso se torna possível se, somente daí em diante, irá se encontrar e conviver com aquele que, no início da trama, parece ser a pessoa que morre?!... Se ela saiu de um futuro em que ele morria sem que, de fato, o houvesse conhecido, como ele poderia estar no passado de sua nova casa e nos recônditos de um tempo-vácuo vivenciado por ambos? Uma história de trás pra frente?! Algo mágico, que pressupõe curvas dramáticas mirabolantes... Ora, paradoxos sempre existirão em histórias como essa, mas vê-las ou lê-las sempre vale a pena. Sem contar que a própria história da origem das espécies se esbarra com a primordial incógnita: afinal, quem surgiu primeiro: o ovo ou a ave?!


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Mas essa linguagem dos paradoxos parece ser mais facilmente compreendida por aqueles que conseguem conceber a teoria do pão de forma. Eu tenho uma amiga, por exemplo, que afirma algo nessa linha. Ela diz que – mesmo antes de ler a respeito – quando criança, ao divagar em suas brincadeiras, cogitava a hipótese de existência de várias versões de si mesma, cada qual num filete de tempo, de forma independente... Difícil de entender?! Pois foi justamente isso que nos propôs o roteirista de Dé Jàvu, quando – no desfecho da história – vemos duas versões do intrépido Doug: uma com ele parecendo sumir sob as águas e outra, antagônica, em que ele chega, ileso, de um passado que fora reinstalado. Aí também o paradoxo de uma vida e uma lembrança depositadas em algum ponto aparentemente desconhecido do passado... Se você viu o filme, pode me entender, por certo. Caso contrário, veja... ou apenas acredite: é uma experiência marcante uma tal possibilidade de se chegar a um lugar, se ver uma peça de roupa manchada de sangue, dentro de um cesto, e se ter a sensação de já haver visto aquele quadro antes... (e já se tinha visto, realmente!) Um dé jàvu sensacional, insólito, não um desses em que parece apenas que a alma voa, por uma circunstância de outra vida, numa esfera espiritualista... E, sim, um dé jàvu desta vida mesmo, apenas uma questão de passagem de tempo entre o que se vive agora e um passado próximo, no qual se pode readentrar, com a possibilidade de se fabricar um novo futuro e, com isso, modificar positivamente o presente. 
Pensando em toda essa história, mesmo que o leitor duvide das arrojadas e bem-engendradas teorias expressas no filme, impressionou-me muito a ótica principal da trama: a possibilidade científica de se viajar para o passado, utilizando-se o mecanismo de uma antevisão... É mais o menos o seguinte: uma equipe de agentes cientifizados observa, através de mecanismos extraordinários, cenas da vida real – do passado de alguns dias anteriores – da protagonista, cuja morte era investigada. Tais imagens, entretanto, diante da visão do agente Doug parecem evocar algo tão real que ele, impressionado, tem um insight: e se aquele painel ainda tivesse vida? E se aquela mulher (novamente, a teoria do pão de forma!) ainda estivesse vivendo aquele momento, do modo exato como as cenas mostravam? Sendo assim, era lógico que ele voltasse no tempo e pudesse encontrá-la, interferindo nos fatos e evitando assim sua tragédia... Uuuhhh... Que loucura!... 
Se deixei você com vários pontos de interrogação na mente, saiba que também os tenho, todos. E mais alguns que me impregnam os sentidos e a imaginação... Assim, para que ambos possamos nos localizar, de alguma forma, dentro desse intrincado labirinto espaço-tempo, será bom assistirmos aos vídeos abaixo (reportagem de algum tempo atrás, que encontrei e achei bem propícia na abordagem do tema, e o trailer do filme), que desenham dimensões de tão vasta concepção metafísica... Veja:





quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Os Jetsons estão entre nós




Ah, ele estava ontem às voltas com você, hoje o acompanha e amanhá continuará no seu encalço! Sim, falo do Senhor Tempo, essa entidade implacável!... Esse tal ente-fenômeno opulento e misterioso, capaz de inspirar, acalentar e assustar os humanos. 
Com todas as suas prerrogativas e encantamentos, trata-se de matéria inesgotável para sucessivas postagens eletrônicas, laudas celulósicas e produções audiovisuais. Neste último caso, a face mais contemporânea de uma produção antiga me remete aos Jetsons e sua rotina pós-galáctica com suas máquinas maravilhosas! Ultimamente, aliás, tenho constatado o quão a ficção do desenho se assemelha ao cotidiano atual. Nem parece que foi criada, pelos imaginativos William Hanna e Joseph Barbera, ainda no início dos anos 60... Impressionante! Naturalmente, nos remetemos à lembrança dos anos 80, quando de sua marcante exibição no Brasil (também há registros de outra mais antiga, pela Excelsior).

Parece que o futurista, simplesmente, se transformou em contemporâneo. Acho que nem mesmo nos demos conta, mas o fato é que temos hoje – tal como no contexto do desenho – robôs com expressões humanas e até o fantástico carro que voa! Este, se você ainda não viu, possui seu protótipo revolucionador nos Estados Unidos; notícia de 2007 já relatava sua criação e aprovação em testes. Prevê-se que, daqui a alguns anos, ele estará disseminado no mercado, com a diminuição gradual de seu custo, que hoje seria orçado entre 1,5 e 3,5 milhões de dólares.

Com esta notícia, temos que nos render: o futuro bate à nossa porta, ou melhor, nos lança aos ares!... Daqui a pouco, sem qualquer utopia, já teremos um trânsito congestionado num céu de carros voadores, exatamente como numa cena comum dos Jetsons! Ora, que maravilha seria fugir do trânsito caótico das ruas e emergir às alturas, ocupando os amplos espaços aéreos, não é mesmo? Foi pensando exatamente nisso que me dei conta de que os Jetsons estão entre nós! Pense comigo... Parece ou não coisa dos astrais personagens do desenho a telecomunicação interpessoal com imagem na tela (previsão consumada), a máquina de lavar pratos (lembra-se da de Jane Jetson?), os computadores arrojados – paineis cibernéticos inteiros no escritório de George e no gabinete de Mr. Spacely – os complexos sistemas virtuais e demais invenções multifuncionais dos paraísos da tecnologia?... Chegamos ao tal futuro e nem percebemos! Tudo isso já se tornou tão normal! Da fita-cassete ao iPod, da máquina de escrever ao Macintosh, da simples cafeteira à máquina de café expresso... Coroando todo esse mundo de seres do futuro e suas engenhosas invenções tecnocientíficas, temos o jornal eletrônico QR-LPD da Bridgestone... Como é isso?! Se você está lembrado do jornal de Mr. Jetson – “surgido” todas as manhãs naquela tela fininha, já na época um aparelho específico de recepção de noticiário –, então estamos falando da mesma coisa (o iPad que temos hoje?!)... Incrível, não?

Não indo tão longe, podemos relembrar as cotidianas conversas do Sr. Spacely com seu empregado George e vê-las, hoje, como flashes de uma realidade corriqueira, afinal o msn, o skype, a videoconferência... aí estão como versões contemporâneas do que aqueles roteiristas imaginaram para o ano de 2062! Muito do previsto, de fato, aconteceu e bem antes do esperado!

Home theaters, cirurgias mecanizadas, prédios inteligentes... E as esteiras eletrônicas, tão impossíveis para a época, que hoje encontramos em quaisquer centros comerciais, no metrô e nas casas?... Lembro-me, inclusive, de uma frase da Sra. Jetson: “Ah, essas esteiras são tão lentas que, acho, eu iria mais rápido se caminhasse normalmente!” Você nunca pensou isso, num dia de pressa, nos longos percursos da Cardeal Arcoverde? Eu, já, algumas vezes. Nessas horas, bem que seria útil o tal protótipo X1500, o traje voador, aquela roupa que Mr. Jetson usou por acidente e, com a força do pensamento, se pôs a voar em qualquer direção determinada pela sua vontade... Já pensou se pudéssemos fazer isso? Pois pasme: uma notícia fresquinha vinda de além-ar nos mostra a aventura de um homem cruzando um desfiladeiro com um jato acoplado ao corpo! Isso mesmo: um precursor chamado Eric Scott atravessou um abismo usando um jato pessoal movido a hidrogênio, atado às suas costas... Ora, homem voando sozinho – sem o invólucro de uma nave ou cápsula – já é uma autêntica aventura nas estrelas! Não importa se vôo movido a pensamento ou a hidrogênio, concorda? A certeza é que o tal tempo prometido já chegou. Como dizem os nossos adolescentes: fato!

Talvez o lado contraditório de toda essa história seja, apenas, o nosso descrédito inconsciente... Essa situação aparentemente improvável que nos apanha distraídos ante a evolução dos anos. Por vezes, ao caminharmos a passos largos, não fazemos pequenas paradas para admirarmos a paisagem. Um dia, então, passamos por ali e percebemos que tudo mudou. Tal se aplica ao progresso tecnológico no contexto de nosso cotidiano. É claro que a criatividade dos ficcionistas americanos se elevou a saltos inimagináveis, configurando coisas que até hoje parecem impossíveis, como a transformação do carro-nave de George Jetson em uma mala quando ele chega ao trabalho, por exemplo... Por certo, aí houve recurso para uma licença ficcional, pelo menos na concepção da ideia àquele tempo... sim, àquele tempo! Porque nos próximos – ou distantes – tempos, tudo poderá acontecer! Afinal, quem imaginaria uma época como a nossa, na qual se estabeleceriam comunicações em tempo real e se reproduziriam vidas – anda que imitativas – de seres como a ovelha Dolly ou gatos fluorescentes em laboratórios? Tais fenômenos, agora, não passam de coisas já sabidas, conhecidas, prováveis, reais; coisas até mesmo simples diante de outras exacerbações da ciência humana.

Afinal, o paradoxo entre ficção e realidade é ainda muito grande, porém aparentado com a viabilidade do vindouro e do susceptível. E foi certamente antevendo isso que os roteiristas da série The Jetsons conseguiram ser tão proféticos! Assista ao vídeo e passeie pelas deliciosas possibilidades imaginadas, já presentes na abertura da série...


Por Sayonara Salvioli




P.S.: Acesse também e confira, com seus próprios olhos biológicos, a matéria do robô que expressa emoções ( http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM917102-7823-ROBO+REPRODUZ+EXPRESSOES+FACIAIS+EM+TEMPO+REAL,00.html) e o vídeo do carro voador.










quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Tic tac... tic tac... tic tac...

Foto: L.S.
Tenho feito posts bastante voltados a tipos humanos... Não que isso seja algo proposital. Na verdade, a lauda – eletrônica ou celulósica – sempre me concede a liberdade natural da franca Literatura! E o faço com a fluidez de nuances variadas que surgem espontaneamente, sem correntes ou correntezas...
E hoje a minha lauda quer falar do tempo e seus distintivos, os amigos – para alguns, opressores?! – relógios e similares...
Tic tac... tic tac... tic tac...
Não se trata de uma simples onomatopéia. Nem daquelas balinhas de progressivas mudanças de sabor, da famosa doceria italiana. É o alarido estridente de um relógio pequeno, mas desastroso, que veio parar em meu quarto. Por quatro ou cinco noites até convivi com o intruso... Mas lá pela quinta ou sexta – irritada que estava com o tic tac constante –, olhei para ele com aquele olhar de fulminância, levantei-me no ímpeto e avancei sobre a “criatura”! Alcancei-o como a uma presa indefesa e retirei-o do criado-mudo, levando-o para o ponto mais distante possível de meus tímpanos não menos irritados que afetados. Saí pela casa com uma postura quase maquiavélica de quem estuda todas as possibilidades de se livrar de um fenômeno indesejado. Juro que entendi a obsessão do Capitão Gancho (nunca pensei que pudesse estabelecer qualquer empatia com ele.. tsc tsc tsc)... Parecia mesmo que ouvia o tal crocodilo com o relógio na barriga o tempo todo! Um horror!
Mas o fato é que estou livre do estranho objeto metálico de engrenagens rotativas obsessivas. Talvez só não o tenha espatifado porque – além de ser contra destruições –, não costumo despender esforços demasiados por pequenas coisas; não gasto minha energia com situações menores. Sabe aquela história de não se tentar matar um mero mosquito com uma bala de canhão? É isso: o reloginho não era tão importante que merecesse maiores atenções ou intenções de minha parte, nada que demandasse mais do que três ou quatro minutos. Apenas o abandonei num canto qualquer.
Na verdade, não tenho nada contra relógios. Quando criança, até os colecionava. Em 1982, eu tinha vinte e oito relógios, inclusive um mais que pós-moderno, rosa pink (acredita?), o máximo para a época... tsc tsc tsc (estou com síndrome de HQ)... Mas, voltando aos tais instrumentos cronológicos, me dou bem com eles, essencialmente porque tenho uma ótima relação com o tempo. Sou apaixonada pela vida e, realmente, curto o que cada segundo pode me proporcionar; assim, lido com o tempo com toda a intensidade que me é peculiar. E – como todo humano mortal –, me utilizo de algumas formas para marcá-lo, procurando ajustá-lo às minhas necessidades de momento. Assim, nunca é cedo ou tarde para eu fazer determinada coisa; se é preciso fazê-la, fabrico ou manipulo tempo ou ocasião para a sua realização; se não dá para fazê-la durante a utilidade convencional do dia, providencio a ação para a noite, madrugada adentro... mas nada, absolutamente nada do que tenho a fazer, fica sem se realizar! Literalmente, não brinco em serviço.
De modo específico para acordar – como não costumo saudar a primeira face das manhãs, diga-se de passagem –, me utilizo de alguns “despertadores alternativos”: chamada 134 + dois celulares, tooodos tocando ao mesmo tempo! Assim, quando amanhece, todas as alvoradas de modernos galos eletrônicos retinem a meus ouvidos, abruptamente separados do onírico (meus vizinhos devem adorar!)... Mas a verdade é que eu nem preciso de tanto: tenho um despertador interno, supereficaz, que me chama no momento exato de despertar, uma intuição poderosa que não me deixa perder o compromisso. Tanto que, ao longo de toda a minha vida, poucas vezes perdi a hora... Na verdade, nem me lembro da última vez em que isso aconteceu.

Mas toda essa rotação de conteúdo em torno do instrumento de engrenagens robóticas trabalhando simultaneamente, por um breve instante de 30 segundos, me fez pensar no poder de Mister Chronos sobre a aventura humana. E aqui me ponho a um rápido retrospecto das buscas do homem através dos milênios: do original relógio de sol até os mais arrojados cronômetros atômicos, é impressionante a força devastadora do tempo, e igualmente instigante a nossa forma de vê-lo, dimensioná-lo e utilizá-lo com os melhores fins. Afinal, seja em que versão for, os marcadores temporais parecem dar-nos a dimensão exata do quanto é preciso nos empenharmos nesse sentido, do quanto necessitamos empreender para que o “nosso tempo” não passe em vão. Esse é um outro sentimento temporal que sempre tive: as contas que – sei – preciso ajustar com Mestre Tempo... Não coleciono mais relógios nem mesmo uso aquele convencional de pulso (desenvolvi alergia cutânea a seu uso constante), mas agora incumbo o celular de ser meu companheiro visionário das horas... 

Resta-nos agir com o que poderíamos chamar de consciência cronológica, a fim de satisfazermos as proposições do tempo, em seus arbítrios e movimentos irrecorríveis!
...tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac...
Por Sayonara Salvioli
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P.S.: Partindo de referência que fiz no texto, sugiro a leitura da história dos engenhosos implementos formatados por Santos Dumont e Louis Cartier, na fascinante Paris do começo do século XX.

sábado, 8 de novembro de 2008

Motorista movido a álcool




Cosme era, autenticamente, um motorista movido a álcool. Força de expressão? Não! O álcool era a força motriz de um estranho organismo, um corpo frágil que andava daqui e para ali à base de ingestões seguidas de tragos etílicos. Complicado? Impossível?! Absolutamente, não! Beber sempre foi seu hábito mais sagrado, uma espécie de religião e modo de viver. Tristemente, o álcool era o seu prazer e a sua refeição.
Cosme era um sujeito magro, de olhos esbugalhados, meio manchados de vermelho, e dentes deformados. Quando não estava dirigindo, trazia invariavelmente um cigarro na mão esquerda e um copo na mão direita. Apresentava, também, algumas características que lhe marcavam a conturbada personalidade de bebedor profissional: risada solta, jeito displicente e passadas largas, meio que sem destino ou objetivo.

Cosme trazia os bolsos sempre cheios de cédulas de baixo valor – amassadas, de mau aspecto (arghh!) – e moedas, usadas para comprar suas doses homeopáticas de álcool. Aqui e ali, entre os diversos pontos do itinerário de seus patrões, ao parar o carro, as usava nos botecos que descobria nas proximidades. Não importando onde estivesse, ele sempre achava um. Era incrível: mesmo em locais distantes – onde antes ele nunca estivera –, ele se movimentava com uma facilidade tal que logo encontrava bares, e fazia seus novos e rasos amigos... Muito simpático e falastrão, se enturmava com qualquer trupe que falasse a sua linguagem de copos.

Diferentemente do motorista movido a álcool, era o seu irmão gêmeo: Damião. Este era tímido, reservado e – incrivelmente – não bebia! Isso mesmo: era um empregado-padrão, que nunca negligenciava suas obrigações. Andava sempre arrumado, com a barba feita, apresentando-se com a discrição de seu temperamento assentado. A única semelhança ou interseção entre os gêmeos era a sua sincronicidade em sensações... Aquela conhecida simultaneidade que ocorre, principalmente, com univitelinos: um passa mal e o outro sente. No caso dos dois, toda vez que Damião – que tinha uma saúde frágil (apesar de não beber!) – passava mal, Cosme apresentava o mesmo sintoma. Até onde se sabia, contudo, Damião não sofria as consequências das bebedeiras de Cosme. Sorte a dele, visto que – em caso contrário – não teria mais paz orgânica ou de espírito. Segundo alguns, no entanto, não seria “à toa que ele tinha aquela saúde tão ruim... Talvez fosse por causa dos hábitos alcoólicos do irmão"!

Cosme, na verdade, era um bebedor inveterado de cachaça, mas não desses que ficam cambaleantes, se arrastando e beijando o chão... Não! Ele andava pelo mundo, em sua costumeira alegria, de modo tranqüilo e descontraído. Junto ao volante ou longe dele, nunca deixava perceptível o grau de acometimento etílico de sua corrente sanguínea. Era impressionante como a ingestão contínua da droga alcoólica não lhe afetava as atitudes e, principalmente, os reflexos na condução de um veículo. Ainda assim, certa vez, o patrão o chamou:

– Cosme, assim não dá... Não é preciso nenhum bafômetro para perceber o seu “grau”. A partir de agora, você vai conduzir os veículos da empresa; não vai mais dirigir pra minha família.

E assim foi. O novo motorista da casa, Seu Nicanor, era um senhor cortês, polido, com ares e hábitos sérios, ou seja, não professava a fé da bebida; ao contrário, trazia sempre consigo uma Bíblia: seu alimento era o Evangelho. A patroa de Cosme, embora não desgostasse do antigo motorista, aprovou a nova contratação: Seu Nicanor era um motorista mais formal, dentro dos moldes convencionais exigidos pela profissão: concentrado, sensato e, essencialmente, sóbrio 24 horas por dia!

A rotina da casa pareceu ficar mais tranquila com a chegada do novo motorista: horários ingleses e chofer a postos no automóvel. Nada de “fugidas” para o bar mais próximo, deixando o carro sozinho. Nunca mais houve atrasos ou displicências. E assim tudo correu, maravilhosamente bem, por 17 dias. No 18º, Seu Nicanor bateu com o carro, estando a filha dos patrões, de oito anos, a bordo. Batidinha sem maiores conseqüências, nada grave, mas que constituiu fato suficiente para afastar o novo motorista da função. E para a alegria da menina – que era muito amiga de Cosme – voltava ao cargo o motorista que ela conhecia desde que se entendia por gente.

A verdade era que todos da família gostavam muito de Cosme e, mesmo, o preferiam aos outros que passaram pelo volante da casa. Ele era bom de se lidar, prestativo e bem-humorado, apesar dos problemas que enfrentava na rotina de seu próprio lar: vez por outra, segundo a empregada, lá chegava com os cabelos inundados de Mucilon... A mulher dele – talvez irritada ou com ciúmes da rival cachaça – derramava sobre a sua cabeça todo o conteúdo da mamadeira de Cosme Júnior.


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Probleminhas cotidianos à parte, Cosme retomou as funções em grande estilo e cheio de conversa:

– O Nicanor é bonzinho, coitado... Mas é barbeiro que só ele... Bater com a menina no carro! Vê se pode... Comigo isso nunca vai acontecer!

E não aconteceu mesmo. Cosme jamais deixou seu amigo álcool se apresentar diante da família do patrão. Segundo as pessoas da casa, a sua condição de bêbado era algo que não se percebia do banco de trás: “Vez por outra, um odorzinho desagradável se espraiava pelos ares, mas nada que trouxesse grandes incômodos".
Certamente, o conhecido “bafo” de Cosme não podia incomodar a distância a patroa e a patroinha. Além disso, era minimizado por um estratégico e constante consumo de "balinhas camuflantes"... E outros hábitos pouco ortodoxos do motorista já haviam se modificado com os anos; na verdade, quando fora admitido como “condutor oficial” da família, já fazia uma figura melhor: segundo os amigos, já até adquirira o hábito cotidiano do banho, prática que não adotava antes de trabalhar na casa. Segundo se conta – nos domínios do posto de gasolina onde trabalhava –, certa vez os colegas Bem-te-vi e Pardal o pegaram à força para uma limpeza devastadora: jogaram-no debaixo do chuveiro e aplicaram-lhe o tal “sabonete-do-diabo”. Para quem não conhece, este é um tipo falso de sabão, que, quanto mais friccionado na pele, mais a suja. Falou-se que fizeram a maior festa com o coitado. Parece até que foi a partir daí que Cosme se despediu da abstinência do banho.

Abstinência da bebida, porém, esta Cosme nunca conheceu. Não costumava almoçar ou jantar, mas fazia várias “refeições” líquidas por dia: um cardápio de diferentes aperitivos compunha a sua alimentação. Muito brincalhão, ao chegar à casa dos patrões, sempre procurava pela cozinheira – junto à qual fazia suas investidas –, pedindo-lhe um cafezinho:

– Me dá um cafezinho aí, minha fror.

Fror dava o cafezinho a ele. E ainda lhe oferecia comida, mas ele nunca aceitava. Houve um dia em que a patroa, ao ouvir a voz de Cosme na área de serviço, dirigiu-se até lá, para pedir à cozinheira que servisse almoço a ele. Lá chegando e o vendo sem camisa (a empregada estava tirando uma mancha de aveia do traje de motorista), ficou estarrecida com a magreza de Cosme e exclamou:

– Cosme, você precisa se alimentar e parar de beber. Se continuar assim, você vai morrer!

Mais proféticas não poderiam ter sido as palavras da patroa de Cosme. Não muito tempo depois, se soube que ele fora internado em estado grave. “Assim, de repente?!”, as pessoas se perguntavam. Não tão de repente assim. Na verdade, o álcool foi corroendo o seu organismo aos poucos, como um veneno letal de efeitos de longa duração. Segundo os médicos que o atenderam, seu esôfago estava "regado de sangue"... Na realidade, Cosme resistiu à morte o máximo que um organismo poderia suportar; provavelmente, a medicina refutaria a sua sobrivência, anos a fio, com aquela TAS tão elevadamente absurda!... Os males foram se acumulando e, um dia, numa dessas surpresas cabais da vilã doença, seu corpo – aparentemente sem sequelas – combaliu-se, de uma vez, e caiu por terra. Literalmente.

Depois de uns poucos dias no hospital, Cosme foi enterrado no alto de uma colina. Ao seu lado, em concomitância absoluta, jaz o seu irmão Damião, que havia morrido pouco tempo antes.

Apesar do desfecho fatídico de sua história, Cosme deixou um milhão de amigos e simpatizantes. Sempre que se lembram dele, as pessoas riem, descontraídas, numa espécie de recordação relaxante. Seu jeito alegre e descompromissado fazia dele uma pessoa leve, dessas que nos trazem boas lembranças. Neste caso, também se construiu um emblema: Cosme era o estereótipo perfeito do motorista movido a álcool!

Por Sayonara Salvioli


P.S.: Talvez o leitor que me conhece estranhe o conhecimento etílico aqui expresso (risos), mas é que fui testemunha da história de Cosme... Na verdade, o "Cosme da realidade" era meu empregado: foi meu motorista por dezesseis anos!
Apesar do fato de o protagonista desta história ter combinado, por muito tempo, dois elementos inconciliáveis: volante e bebida, fica aqui o alerta conhecido e compreensível: "Se beber não dirija; se dirigir, não beba!" A respeito, acesse:

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O gordo da banca da esquina


Apesar de ser do interior, originariamente, tenho alma urbana. Gosto de barulho, ruas cheias e cenários de concreto em cubos (prédios) entremeando árvores com projetos paisagísticos. Apaixonam-me menos os campos esparsos das fazendas que os parques urbanisticamente gramados das grandes cidades. Minha preferência de alma é tamanha que, mesmo em cenários paradisíacos, se silenciosos, fico triste no quarto dia e penso em voltar para casa.

Por tudo isso – e mais uma infinidade de quesitos que enumerarei crônica a crônica –, gosto de morar no Rio de Janeiro. O Rio adorável da exuberância natural do Pão de Açúcar ornado com os trilhos do bondinho em sua rotina de ir e vir, poeticamente, sobre cabeças cariocas – e baianas e pantanenses e gaúchas e potiguares e estrangeiras...

Depois de horas ao computador, escrevendo textos técnicos ou artísticos, gosto de descer e observar a correria do mundo e a multidiversidade de seus personagens. Dou-me, então, uns merecidos intervalos e me entrego à eterna curiosidade sobre o fenômeno humano. Ao atravessar os portões do condomínio, observo a minha síndica (merece uma crônica!), com seu carioquês sui generis a fiscalizar o trabalho de um contingente de dez sofridos porteiros. Depois me misturo aos rostos desconhecidos da calçada, na captação de semblantes e energias próprias de multidão. Olho para a fileira de carros no sinal, a calçada com seus transeuntes e a diversidade de pontos comerciais da rua: restaurantes – peruano, chinês, japonês e colonial –, além da cervejaria de modalidades raras e a casa de produtos nordestinos. Do Intihuasi à Herr Brauer, do China in Box e Nobu Matsuhisa à Sorveteria do Nordeste (merchandising gratuito para todos eles!), aprecio as diversificadas ofertas – nacional e multinacional – de gostos e paladares. Mas, no fim, sempre volto ao bom e velho restaurante com cara nacional, para o consumo cotidiano de sua picanha fatiada, seu caldo verde e suas pizzas.

Além dos restaurantes, também há na minha rua (uma delas, pois meu prédio é de esquina) uma papelaria de que sou habitué, o salão de beleza de nome (e preço) francês que freqüento e um prédio com cinco agências de modelos (que de nada me servem, diga-se de passagem). Ah, já ia me esquecendo da academia de ginástica (esta, então, inexiste para mim!), da floricultura, da loja de assistência técnica de eletrodomésticos, das farmácias e das clínicas. Porém, úteis mesmo são os restaurantes! São eles os meus points de visita prediletos na prática de atividades diárias!... Sou adepta da boa mesa e cometo, na constância dos dias, um tal pecado capital de gula que me traz as duras penas dos quilinhos adicionais! Falando nestes – e abominando-os naturalmente –, logo me vem à mente outro ponto de atração da minha rua: uma banca de jornal, com seu peculiar dono de larga fachada (é sem vírgula mesmo, pois a fachada a que me refiro é a do dono, um gordo de mais ou menos 130 Kg e, com boa vontade de minha parte, 1.50m de altura). Pois bem, o gordo da banca da esquina intenta ser o personagem central desta crônica narrativo-descritiva, de humor despretensioso e leves toques de concepção poética da realidade.

Na verdade, nos últimos meses, o gordo tem sido uma figura esmaecida na minha imaginação, já que não tenho visitado a banca em fluência coadunante com as minhas vontades. Uma destas era a minha mania de dirigir-me até lá, não para comprar jornais ou revistas, mas – siim!!! – para comprar balinhas não-dietéticas de deliciosas e “puxantes” calorias condensadas (existem guloseimas mais gostosas que essas balas aderentes aos dentes?)... Pois é...

Então, há alguns bons meses (mudei, temporariamente, minha mania de balas para mousses e tortas), eu tinha um hábito praticamente religioso de passar na banca todos os dias e comprar 20 balinhas. Atitude de pouco exercício cerebral, visto que seria mais inteligente comprar – de uma só vez – 100 delas, a fim de tê-las em casa, o que evitaria a peregrinação diária à minha Meca doce. O(a) leitor(a) não acha? Imagino que sim. Mas a verdade era que eu distribuía assim a minha compra de balas avulsas. Possivelmente, como narrei acima, para descer às calçadas e misturar-me com o mundo.

À época de minha freqüência diária à banca do gordo, eu passava por algumas suaves crises de raiva quando me deparava com aquela cara larga dele, a me sorrir com seu sorriso farto, como se a dizer: “Ah! Já voltou de novo pra comprar balas? Elas engordam, sabia? Veja como fiquei!” Gordo chato, gordo feio, gordo abusado! E o pior nem era esse meu pensamento a pressupor a plausibilidade do dele. Pior ainda que isso era o fato de ele parecer me considerar uma integrante do seu grupo de gordinhos tarados por balas... Era como se ele dissesse: “Lá vem ela de novo! Está viciada mesmo!”... Mais que isso, me irritava profundamente a impressão nítida que ele me causava: parecia demonstrar que já me considerava no seu futuro bloco de gordos! A coisa era tal que, ao chegar em casa, muitas vezes eu analisava no espelho se estavam visíveis as minhas recentes aquisições calóricas!... Viagens paranóicas por culpa do gordo! Ora, que acinte, que despautério (como diriam os literatos antigos)! Que abuso! Posso estar um pouquinho acima do peso (sem contar que mulher sempre acha que está), mas nem mesmo um decênio de ingestão daquelas balas poderia operar tamanha transformação na minha aparência! Aquele gordo se mostrava totalmente no sense ao pensar que seria eu uma de suas colegas por afinidade de gula... Por afinidade de gula, podia até ser, mas não por similaridade de peso, isso jamais!

E ainda havia outro detalhe: se eu passasse, no mesmo dia, pela segunda vez em frente à banca, ele se adiantava na minha direção - com as mãos cheias! - na intenção clara de aliciar-me para novos consumos e calorias! Eu ficava com tanta raiva que passava direto; sequer olhava na direção da banca! Outra coisa que ele fazia, a acirrar-me uma "ira branca", era ofertar duas ou três balinhas a cada compra: "Estas são de cortesia". Mas não era cortesia, nada! Apenas mais uma de suas intenções sarcásticas. E a minha reação (o(a) leitor(a) bem pode imaginar) era jamais aceitar tais ofertas! Mas ele nem se tocava com a minha veemente atitude de retaguarda; parecia não se dar conta de sua inconveniência, tampouco de sua figura... Tenho mesmo a impressão de que ele ficou gordo assim por permanecer lá, o dia inteiro, alheio ao mundo durante algumas décadas, a chupar aquelas balas... E declaro que não quero ser sua seguidora na seita do açúcar e do mel (Ah, as balinhas de mel!)...

Mas o fato é que abandonei essas frivolidades de rotina e, sempre que passo pela banca, sorrio para o gordo com ares de vitória e superioridade! Ah, ah! Você não pôde comigo, penso. Ele, no entanto, com aquela expressão cínica que lhe é peculiar, continua a sorrir-me seu sorriso debochado de dentes feios e mínimos, claramente afetados pelo açúcar dos anos! Às vezes, animada que fico por havê-lo vencido, ainda viro a cabeça para trás, dou novo sorriso e acrescento com o olhar: Gordo bobo, olhe só como sou diferente de você! Nem preciso dessas balas! Ih!... Não é que, ao narrar esses fatos de recente passado corriqueiro, momentaneamente, fiquei com saudades das tais balinhas... Humpf! Tudo por culpa daquele gordo da banca da esquina!

Por Sayonara Salvioli


P.S.: Deixo claro aqui que tenho amigas e amigos gordinhos, que são pessoas maravilhosas e das quais gosto muito. O meu problema é só com o gordo da banca da esquina!


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A mulher e o gato



Texto publicado, em 1999, no site cultural Pátio, no espaço Crônica do Dia, e em 2000 na "Gatolândia", antologia editada pela Blocos.

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Conheci a mulher na vizinha casa dos Santos Abud. Lembro-me bem da primeira impressão que me causou: não me despertou simpatia. Suscitou-me, antes, um sentido de desconfiança, denunciado pela frieza do olhar. Sem querer parecer junguiana, costumo conceber, numa pretensa análise de almas, a grande variedade dos tipos humanos. Meu grande hábito é observar as pessoas, delas buscando intuir a essência do espírito. Assim vou acumulando um arsenal múltiplo de personalidades estudadas. E, estranhamente, aquela mulher desconhecida remetia-me a análises profundas da alma humana.

Era uma criatura opaca, dessas que o viço e a transparência há muito abandonaram. Mulher do povo que era, trabalhava como doméstica e emprestava à vida dos patrões um pouco da sua. Seu dia a dia confundia-se com o dos habitantes da casa, que adotara como sua responsabilidade. Apesar da impressão inicial negativa que me despertou, aos poucos foi ganhando a minha credibilidade.

Em seus sessenta e poucos anos, malfadados pelos maus-tratos do ofício, tinha rosto cansado e pele alquebrada. Trazia sempre um desbotado lenço estampado sobre a cabeça e trajava roupas preferencialmente exuberantes, numa perceptível desproporção e assimetria de cores e formas. Era morena, tinha o rosto achatado e um certo ar inflexível. O olhar era brilhante, porém calculista. Falava pelos cotovelos e, ao que se sabe, tal característica a impeliu, por diversas vezes, à perda do emprego. Essencialmente porque, ao falar tanto, já não sabia se fazer ouvir. Também raramente se predispunha a escutar o que lhe era dito, fator preponderante de irritação da patroa.

Sua rotina começava cedo; iniciava as tarefas da casa nas primeiras horas do dia. Entre ininterruptas narrativas e "uma coçadinha" de cabeça, mesclava seus afazeres. Era estabanada na execução de algumas funções, mostrando-se, porém, inigualável cozinheira. Seus pratos eram verdadeiros petiscos de deuses! Sabia, como ninguém, imprimir ao sabor da comida a prazerosa sensação de paladar satisfeito. O arroz-com-feijão de cada dia era uma verdadeira ambrosia; todos da casa lambiam-se de prazer à hora das refeições!...

Havia dias em que estava estupidamente mal-humorada, debatendo-se em reclamações constantes. Era realmente de causar mal-estar até mesmo à gentil Dona Cândida, que, como seu nome, emanava uma certa placidez de espírito. Esta era normalmente calma e paciente, irritando-se, contudo, com Dona Anísia. Vez por outra, perdia as estribeiras, a ponto de quase despedir a falastrona. 

Eu, que convivia no ambiente, passava a me interessar, cada vez mais, pelas estranhas atribuições pessoais daquela senhora. Ela misturava em si qualidades e defeitos que pareciam não combinar. Parecia pouco plausível que uma pessoa tão dedicada ao trabalho pudesse ter aquela expressão no olhar e nos gestos. Também era estranho que, com tanta respeitabilidade pessoal e moral (mostrava elementares princípios de ética), não se deixasse afetar pelo amor da convivência. Dona Anísia não fazia mal a ninguém, mas também não se tomava de amores por aqueles com quem convivia. Talvez sua vida passada de sacrifícios e sofrimentos pudesse explicar aquele jeito avesso.

Confidenciou-me, certo dia, que fora casada com um homem que não gostava de tomar banho. Afora as asquerosas condições higiênicas do companheiro, este ainda a maltratava e atrapalhava... Por causa do fulano, já até perdera "importantes empregos”... Seus filhos viviam longe, e a sua companhia era um bonito animalzinho branco e peludo: um gato angorá chamado Mano. Era esquisita e improvável a relação dos dois. Eu, que nunca estudara animais, vi-me subitamente interessada pela psicologia de ação do bichano. Este acompanhava a pobre solitária na ida e na vinda do trabalho. Dona Anísia morava dentro do espaço da chácara, a cinquenta metros da residência dos patrões. E, apesar da curta distância que a separava do local do emprego, compromissava-se o gato a fazer-lhe companhia, impreterivelmente, pela manhã e à noite.

O gato chegava logo cedo com Dona Anísia à casa dos Santos Abud. A seguir, Mano retornava ao casebre próximo da empregada, onde permanecia por todo o dia. Não se via ou ouvia qualquer sinal do animal, que se mantinha oculto no interior da casinha branca de Dona Anísia. Somente à noite o bichano apontava ao longe, ressabiado, desmascarado apenas pelo olhar ofuscante. Silencioso, prostrava-se sob uma árvore próxima à cozinha, diante da qual esperava, deitado, o retorno da amiga. Noite clara ou tenebrosa (nem mesmo tempestades o desobrigavam da missão, apesar da natural aversão de gatos por água), lá estava ele a perscrutar os passos da companheira, que com ele retornaria, mais uma vez, ao lar compartilhado...

Era profundamente impressionante ver a precisão cronológica do gato, que, na hora determinada e constante da saída da mulher, assomava à casa de seus patrões. Tal cumplicidade irracional (seria realmente?) chegava a assustar-me. Como poderia um animalzinho, com tanta acuidade, compreender e efetuar aquela sistemática de vida? Mano, notadamente, não sabia ver horas e falar, mas marcava o tempo como um humano, além de parecer aveludar, com falas caladas, a vida rústica daquela mulher.

Ainda hoje me lembro com carinho da pobre criatura, que abandonou a casa de meus vizinhos meses depois. Diante de seu natural desapego, ela não se fixava, permanentemente, em um emprego. Tal fato (como tudo nela) impressionava a quem quer que fosse, já que detinha em si algumas qualidades desejáveis. O caçula da casa, inclusive, apegara-se a ela. Acho que entendi o motivo: Dona Anísia imprimia uma certa ordem e segurança ao lar, apesar do quê de insatisfação e afastamento que, desde o início, percebi em seu olhar. Mas ela não criava raízes, simplesmente porque não as tinha em seu espírito. Seu liame era apenas o gato.

Valores e estranhezas à parte, a maior lembrança que tenho de Dona Anísia é a sua incomum relação de amizade. Normalmente, o cachorro é considerado o grande amigo do homem. Todavia, naquele caso, o amigo fraternal era um pequeno felino.

Minha alma de poeta faz-me, comumente, divagar por essa lembrança. Vez por outra, pareço vislumbrar em pensamento o olhar enigmático, longínquo e soturno de Mano... E, ainda que eu viva cem anos, nunca me esquecerei da estupenda história real daquela mulher e seu gato.


Por Sayonara Salvioli

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terça-feira, 23 de setembro de 2008

A rainha dos pombos

foto: W. I



O cenário pode ser a paisagem londrina de Trafalgar Square, a Piazza di San Marco, o Central Park ou um largo do Rio de Janeiro. Não importa onde. Sempre será possível encontrar na realidade, assim como no cinema, a figura mítica da mulher dos pombos... Quem não se lembra, por exemplo, daquela cena do filme Esqueceram de mim, em que a enigmática mulher atemoriza Kevin, que depois estabelece com ela um simbológico laço de amizade?

Essa espécie de peregrina dos animais é uma mulher de semblante pálido e olhar perdido, com características de viventes de rua, a sair por aí como que abandonada da própria vida... A mulher dos pombos de qualquer país destaca-se no meio da multidão justamente por ser aquela que não segue o fluxo dos humanos; ao contrário, para no meio da praça a conversar com as aves, acariciando-as e ofertando-lhes comida... Talvez a solidão humana explique esse subterfúgio das andarilhas sem rumo que parecem ver nas pequenas aves seus parentes mais próximos.

Se você é carioca – ou já viveu no Rio de Janeiro –  e sabe do que eu estou falando, provavelmente já deve ter se deparado, num largo da cidade, com a mulher dos pombos que por ali passeia com ares de ermitã fora de contexto. Figura quase saída de uma Commedia delle maschere, ela protagoniza uma espécie de personagem sem rumo, que se mascara e esconde do mundo. Aliás, esta mulher dos pombos versão carioca – envolta em seus mistérios de aparência e personalidade – representa uma bem contemporânea lenda urbana.

Como protagonista de uma boa história, nossa heroína das ruas se diz soberana: Rainha Elizabeth, segundo ela, é o seu nome. E um certo ar de nobreza realmente não lhe falta: além de algo implícito na fisionomia, veste-se com roupas sobrepostas umas às outras: saias longas, blusas de amplas mangas sob casacos pomposos... Ela parece uma caminhante das ruas, mas não uma mulher do povo. É bem verdade, porém, que a primeira impressão causada pela dita rainha é a de um ente fantasmagórico movendo-se por entre a multidão, como se a este mundo já não pertencesse. A primeira vez em que a vi, por exemplo, fiquei profundamente impressionada com a sua expressão vaga, um jeito de quem não está ligada à temporalidade da vida... Rainha Elizabeth abordou-me na rua, olhou-me com olhos de vidro embaçado e falou:

– Quer comprar um lencinho?

E estendeu-me as mãos longas e ossudas com dois ou três lencinhos. No mesmo instante, parei e pus-me a  contemplá-la de alto a baixo... Alta, magra, de pele bem alva, ela me lembrava mesmo a ideia de fantasma que povoou a minha mente de criança. Por um átimo, quase murmurei meu espanto ao olhar para o seu rosto branco, branco, parecendo a encarnação própria de um ente de outro tempo, de outra vida! Deti meus olhos na face estranha e pude perceber que em sua superfície havia uma espécie de pancake ou algo como um creme branco derretido... O que era aquilo, meu Deus? Teria ela saído de um palco de época?! No minuto seguinte, eu estava a fitá-la firmemente, propondo-lhe um de meus costumeiros questionamentos de quando desejo alcançar a alma alheia:

– Por que quer me vender lencinhos? É você quem os faz?

Ela reagiu apenas com um sorriso enigmático, desses que substituem a fala quando esta não quer se fazer ouvir. Eu insisti nas perguntas:

– Você mora por aqui?

Novamente Rainha Elizabeth não se curvou à minha curiosidade. Estendeu-me as mãos com os lencinhos, ainda uma vez, e ofertou-me outro sorriso, tão doce quanto melancólico. Senti um misto de piedade e respeito humano. E não comprei seus produtos, pois acreditei que, se o fizesse, estaria lhe oferecendo algum tipo de esmola. Não me pareceu justo tratar desse modo quem necessitava de outro tipo de ajuda, talvez psíquica ou amistosa. Fixei meu olhar em sua imagem e, de novo, me chamou a atenção seu estilo personal, no jeito e na composição das roupas, as quais, apesar de mal arranjadas, davam ideia de alguma opulência. A respeito, depois confirmei minha impressão, quando fiquei sabendo de seu endereço: um prédio nobre nas imediações do largo que frequentava na companhia dos pombos.

Correm pelo bairro diversos boatos sobre Rainha Elizabeth do Largo... Uns dizem que ela usa assim tantas roupas e mantém o rosto coberto de creme branco porque sofre de uma doença epitelial rara, o que a impediria de tomar sol normalmente. Numa versão dentro da outra, dizem que tal doença seria uma consequência de contaminação pelo contato estreito com os pombos, os quais constantemente trazia ao colo, beijava e aconchegava junto ao peito... Outras pessoas já atribuem suas anomalias comportamentais a um distúrbio de ordem psicológica, surgido com um problema de amor: ela teria sofrido uma grande decepção com seu antigo noivo – um piloto da Força Aérea – e, desde então, passara a isolar-se do mundo real e a tornar-se personagem de um reino que imaginara para si. Ainda sobre seu suposto e propalado autorreinado, disseram-me certa vez que ela ficava feliz quando alguém a chamava de Majestade. Assim, no outro dia em que a vi, quando ela se aproximou, eu lhe disse com ar solene:

– Bom dia, Majestade! Como tem passado?

Foi impressionante a sua reação! Ela colocou, no mesmo instante, um sorriso complacente nos lábios e respondeu:

– Muito bem. O czar da Rússia lhe manda lembranças.

E afastou-se, sem mesmo me oferecer os lencinhos, não sem antes deixar de me ofertar um novo e amplo sorriso, que parecia me devotar amizade pelo resto da vida, já que eu partilhava do seu sentimento de nobreza.

Houve, ainda, uma outra vez em que a encontrei: sentada bem no meio do largo, próximo ao chafariz, ela estava cercada de pombos por todos os lados... Pensei em aproximar-se, no desejo de falar melhor com ela, talvez até para uma entrevista, uma aproximação mais detida. No entanto, fiquei quase paralisada ao perceber que os pombos interagiam com a sua protetora... Parecia que a comprendiam e – mais ainda – que a amavam! Rainha Elizabeth e seus pombos praticamente formavam uma pintura: os pequenos pássaros pareciam caminhar em seus braços e aconchegar-se na roda de sua longa saia! Ante a visão de quem quer que olhasse, misturavam-se mulher e pombos: não se sabia onde começava uma e onde terminavam outros... Diante de tamanha harmonia, até desisti de aproximar-me. Não, decididamente, eu não poderia influir – com a minha humana pessoa – naquela quase estátua de praça na forma de mulher dos pombos!

Rainha Elizabeth também externa certos medos e reações à tecnologia. Os que afirmam ter ela problema de memória (há também esta corrente) atribuem sua repulsa ao moderno a uma tentativa constante de voltar ao passado. Teria ela um medo exacerbado de entregar-se ao momento presente, já que para ela o amor e a alegria ficaram para trás, num tempo distante... Desse modo, ela teme elevadores e câmeras. Conta-se que, certa vez, reagiu quase agressivamente quando um colegial tentou tirar uma fotografia sua:

– Não faça isso! Vai roubar a minha alma!...

De tempos em tempos, Rainha Elizabeth some das ruas. É quando todos afirmam vê-la muito pouco, quase nada, às vezes nunca. Proclama-se, então, que ela morreu. E a população fica triste: adultos, crianças e adolescentes sentem falta do ente esquálido que por eles passa feito vento... e tão bem representa a fantasia em seu imaginário coletivo!... Rainha Elizabeth é importante no meio em que “figura"; não querem que ela deixe de reinar!

Fazia muito tempo que eu não a via. Mas, determinado dia, minha intuição certeira pareceu avisar-me de sua presença. Estava no largo e, de repente, meus olhos se encheram com uma revoada abrupta, num deslocamento meio apoteótico de pássaros... Depois, novo ajuntamento das aves; dezenas delas aterrissavam em seu habitat urbano, já quase demarcado pelo pouso diário. Ouvi o arrulhar dos pombos que se reuniam no estacionamento próximo, junto à igreja. Virei-me para o lado e vi uma cena que não mais me saiu da cabeça: Rainha Elizabeth - como se no âmago de seu castelo, rodeada de súditos - lá estava a acenar-me, sorrindo-me um sorriso plácido, a ostentar o peso suave de um pombo em seu ombro...

Por Sayonara Salvioli


sábado, 13 de setembro de 2008

A interatividade contemporânea e a lauda eletrônica






Custei a aderir à prática tão usual e produtiva do blog. Talvez porque, no início, tenha visto neste formato uma nova versão dos antigos diários, agora repaginados pelo arrojo da virtualidade. E como – apesar de escrever durante toda a vida – nunca tenha tido hábito de fazer diário (aquele convencional, relatando os acontecimentos do dia em detalhes), rejeitei a idéia, equivocadamente.
Agora, no entanto, vejo no blog uma necessidade de interação entre pessoas, grupos e contextos do ciberespaço. Sob esse enfoque, é uma ferramenta a serviço de uma dinâmica globalizada, que pressupõe uma troca constante, uma espécie de vitrine na dimensão do tal tempo real... É mesmo interessante poder dispor de uma revista eletrônica, de um jornal virtual em que o próprio pensamento é fonte de interesse coletivo. Assim é que o blog alcança esse extraordinário poder de influência e mediação em relação a outros pensamentos, de diferentes contextos. O antigo diário, portanto, deixa de ser apenas um arquivo de relatos para tornar-se uma potencial fonte de notícias paralelas e agregamento de idéias transformadoras.
O planeta virtual é mais que ágil: é galopante, sedutora e absolutamente galopante! E essa velocidade é plenamente compatível com a vitrine móvel da contemporaneidade, já que o mundo nos oferece, todos os dias, milhares de assuntos e encantamentos para a lauda eletrônica. Essa incessante peculiaridade rotativa – na proporção das ações das pessoas – é a grande força motriz dos acontecimentos de nossa era. Quem não acompanhar este ritmo, portanto, estará à margem do momento.

Está inaugurado o meu blog. A partir de agora, dez anos após eu haver me conectado à Internet, estabeleço um link ainda mais direto com a virtualidade.
Seja bem-vindo a esse bate-papo eletrônico, que é informal, mas traz a responsabilidade indiscutível da democratização do pensamento e da inter-relação do individual com seu entorno (risos)... Não é que eu queira ser formal, mas é exatamente o significado deste arranjo de palavras o que eu quis dizer.

E começo a nossa interação com uma crônica que escrevi, já há algum tempo, sobre o constante processo de exposição de idéias a que estamos vinculados na oferta ou na recepção de mensagens, de produtos... Veja:


Venda de ideias


Todo o complexo das relações humanas está, ininterruptamente, suscetível às compras e às vendas da sociedade de costumes. Afinal, vivemos numa estrutura social de consumo. Mais do que capitalismo econômico, é esse sistema de coexistência uma espécie de capitalismo ideológico, que atinge todos os patamares de relacionamento.
Parece curioso, mas todos somos vendedores de plantão, autônomos de ideias comercializáveis na dinâmica da rotina. A todo momento, estamos expondo nossos produtos na vitrine das relações humanas.
Constantemente vendemos (às vezes, implicitamente) mercadorias, ideologias e preferências. E mesmo quando não estamos fazendo uma negociação mercadológica explícita, estamos tentando passar nosso produto ou ideal adiante. Ainda que a nossa oferta não seja permutada por moeda, temos uma tendência natural a pregar determinada proposta, suas vantagens e promissoras susceptibilidades. E assim vendemos artigos que não advêm de produções próprias, pois propagamos independentemente até a nossa opinião ou gosto pessoal. Nesse sentido, é delicioso, às vezes, convencer o nosso interlocutor da qualidade de determinado produto que consumimos. Sem querer, falamos daquela marca de sorvete ou de nosso perfume predileto, porque parece necessário persuadirmos alguém quanto à qualidade daquilo que defendemos. É assim que, numa sociedade explícita de venda de ideias, estamos todos no jogo de um comércio inevitável, que nos acompanha por toda a vida.
E multifacetada é a venda ideológica permanente de que se acometem os grupos humanos. E tal se dá não somente dentro dos shoppings ou diante dos apelos de outdoors. Incessantemente, e em todo lugar, ocorre o já aculturado processo de ofertas e demandas do comércio social...
Ora, é o mundo um incessante intercâmbio de ideologias, proposições e seduções em todos os níveis. Na sociedade contemporânea, somos mercadores de tendências que se agrupam nos núcleos de intercomunicação. Comercializamos, além de produtos materiais, imagens, palavras, atitudes e sobretudo ideias, as mais latentes! Nesses casos, tentamos repassar ao "receptor mercadológico" aquela verdade que nos impomos e desejamos divulgar, levar adiante, numa venda antipecuniária de opiniões pessoais. É claro que nesse terreno devemos cultivar, preferencialmente, as searas da identificação e da aesão espontânea.
Neste momento, vende o balconista na loja, vende o ambulante no espaço urbano, vende o cambista na Bolsa, vende o publicitário a nova campanha, vende o doutorando a sua tese, vende o psicanalista o estádio do espelho de Lacan; vendem a doméstica, o corretor de imóveis, o escritor, o ator, o estatístico e o professor. Cada qual vende, em transferência construtiva, o seu pensamento e a sua ideologia. E eu, que não tenho liame direto com qualquer câmbio, fico, por vezes, um tanto perdida nesse campo de concretismo incontestável. O que fazer se, puramente, tenho alma abstrata de poeta?... Contudo, afinal, nesse movimentado mercado de ideias, acaso consegui "vender-lhe" a apologia da minha crônica?



Por Sayonara Salvioli



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