terça-feira, 30 de agosto de 2011

Magia proustiana



É claro que vi Meia-noite em Paris mais de uma vez. Esse filme de Woody Allen me parece daquelas obras que colecionamos com prazer, com o intuito e a necessidade de sempre rever – assim como os bons livros, que adquirem lugar cativo em nossa estante de preferências. Quem não sabe, por exemplo, que as grandes obras são eternas e precisam ser relidas, refletidas e revisitadas o tempo todo?...

No caso do filme, eu acho que tamanha magia de remissão ao passado – com as evocações de uma nostalgia boa – operam uma viagem no inconsciente do telespectador. Especialmente nos mais saudosistas, o que no meu caso é premissa indiscutível. A respeito, narrei neste blog – em janeiro deste ano – incrível e coincidentemente (a magia está no ar!), algumas de minhas evasões mentais por um outro tempo... Pareceu-me mesmo que eu passeava pelo Rio Antigo, em recantos que seriam o coração da cidade naquela época. Destaco:

Hoje acordei com vontade de passear pelo Rio Antigo... Isso mesmo! Arroubos de uma imaginação além-tempo! (...) Nessas oscilações em nível espaço-tempo, em quaisquer lugares ou épocas – Décima Segunda Dinastia egípcia, Grécia de Ouro, Pompéia, 44 D.C., Era Vitoriana, Paris dos anos 20 ou o Rio das primeiras décadas do século passado – o fato é que a impossibilidade de realizar meu intento gera uma tremenda frustração, visto não haver (ou pelo menos eu não poder reconhecer) um portal que me leve a outros momentos históricos. (...) Mas se a ciência não respondeu concretamente ao meu ideal de infância, pelo menos tenho o meu pensamento, que tudo pode! Imagine o leitor o quanto, lá pela segunda infância, fiquei feliz quando constatei que o meu pensamento habitava uma espécie de reinado pessoal (...) um recôndito particular, onde se podiam realizar todas as aspirações do mundo: as minhas.

No meu post, tal como no filme de Woody Allen, evocavam-se as rodas literárias de um passado fascinante, no meu caso, alguns dos ícones do Rio das primeiras décadas do século XX!... E, com toda a certeza, no tour sem-tempo proposto pela minha fantasia, também não foi possível passar imune aos encantamentos da Paris dourada: a Cidade-Luz lá estava entre os lugares que eu gostaria de visitar em outras épocas!... E essa viagem deliciosa me proporcionou, meses depois - visualmente -, o approach do cineasta, embalada que fiquei nas cenas viajoras de Gil Pender! Com o cenário e os personagens de uma era tão grandiosa quanto fantástica, não poderia ser outro o efeito do filme... E tal foi a atmosfera de magia no momento em que deixei a sala de cinema que acreditei veementemente numa imaginária viagem possível!... Seria terrível, naquele instante, acreditar que viajar no tempo e nos desejos seria algo irrealizável! A tal frustração de que falo no post – a de não existir ou não se poder reconhecer um portal temporal – foi negada pela arte do roteirista e diretor americano. Woody Allen – com o talento e a sensibilidade de sua evasão artística – me convenceu de que é possível congelar pessoas e lugares, que nossos ídolos literários podem – meio Einsenstein, meio Bazin – estar entre nós, numa espécie de dimensão paralela. Convenceu-me, afinal, de que em algum ponto de nossa cidade predileta pode pairar a existência surreal de nossos mitos...

Foi assim que saí do cinema: toda nuvens! E, ao atravessar o portal físico da realidade, avistei pela vidraça da livraria próxima uma espécie de magia concretizável: vi a vitrine e acreditei ser possível me deparar com a França da Belle Époque (por que não?)... Pensei:


Se magia existe, é claro que eu vou encontrar ali, naquela livraria, os livros que há um mês procuro por toda parte e não acho em lugar nenhum! (Eu me referia à coletânea completa Em busca do tempo perdido, de Proust).

Para localizar o leitor, devo esclarecer o seguinte: a tal coleção que eu buscava – produzida pela Ediouro há uns anos, com tradução do Fernando Py – praticamente já se tornou relíquia do mercado editorial recente, visto que se esgotou quase completamente. Até então, parecia até que completamente, pois eu havia ido a uma grande diversidade de livrarias e feito exaustivas buscas on-line... E nada! O “produto-box”, como chamam os livreiros, da obra de Proust parecia mesmo haver desaparecido de nossa dimensão concreta. Nas minhas incursões a livrarias, na última delas, cheguei a ter uma rápida esperança, já que o vendedor me dissera haver localizado um remanescente em Recife e outro em Fortaleza... Mas se tratava de um dúbio engano: ele ligou para as filiais naquelas cidades e constatou que o produto já acabara, sem que retirassem as unidades do sistema.


Então, depois de toda a minha peregrinação em busca de Proust, finalmente eu acreditava, sem qualquer base real (como mostra o parágrafo anterior) que ali, naquele momento mágico, eu poderia me deparar com ele (em forma de livro)!... E adentro a livraria, olho ao meu redor e... não vejo a capa do(s) livro(s)!... Mas insisto em não deixar de acreditar na minha fantasia possível, como a do filme. E me dirijo à vendedora:

Olá! Você teria (futuro do pretérito, melhor não arriscar uma contraverdade sabida) a obra Em busca do tempo perdido – os sete livros – de Proust?

E ela:

Humm... tenho, sim.. eu acho que estava por aqui... era uma caixa com vários livros...

Instante meu de estremecimento. Sim, eu estava acreditando encontrar ali todos os volumes, ainda que avulsos... Já seria bom, pois não os encontrara todos numa mesma livraria (faltavam alguns fundamentais), em nenhuma mega store, diga-se de passagem. Achar ali naquela pequena livraria já seria pouco provável, mas algo perfeitamente plausível ao meu desejo. Agora... achar o tal produto-box... opss... afinal, ela dissera “caixa”... isso seria mesmo mágico! Foi quando meus olhos brilharam, estremecidos, e eu tive certeza de que a magia do filme continuava...


E a simpática atendente completou:


Achei, achei! Estava aqui embaixo, olha... Eu sabia que estava em algum lugar por aqui.


Apesar de minha mente fantasiosa – que sempre acreditou poder alçar voo em Pegasus –, eu arregalei os olhos, quase incrédula, quando os pousei sobre a imagem – viva, concreta – do que havia visto apenas em ilustrações naquelas últimas semanas de procura. Só pude sorrir. Mas não poderia deixar de perguntar:


Diga-me, por favor, você teria mais algumas unidades?


- Não, é o último!

Sim, só havia aquela caixinha, guardada ali para mim, naturalmente (risos)!... Comprei a minha desejada coleção e fui para casa, cantarolando... Proust e eu; eu e Proust! Parecia mesmo que o autor, em pessoa, em sua eterna busca temporal estava a me segredar que ele, Machado de Assis, Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein... e Flaubert, Balzac, Shakespeare e todos os outros estavam sempre, todos – guarnecidos pela redoma de seu próprio tempo perpétuo – a viverem suas emoções de literatos por aí...



Por Sayonara Salvioli




sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Mentalidade de gourmand


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Outra das minhas excentricidades de gourmant é sentir o cheirinho de determinada iguaria!... Hummmm! Sou dos que acham que o olfato e a visão contribuem bastante para a plenitude do paladar. Assim se dá comigo ao ver o garçom derramando sobre a minha taça de profiteroles aquele chocolate quentinho e cheiroso, reformando os bules de vez em quando. Se não reformar os bules... ah, eu reclamo! (risos)... Quanto ao cheiro, é quase envergonhável confessar, mas vou fazê-lo, e justamente a uma lauda – ou seja, confissão por escrito! Desenvolvi, certa vez, uma mania estranhíssima... Eu morava, na ocasião, num condomínio que eu considerava meio triste, mas que tinha uma característica-benesse fantástica: uma padaria providíssima dos melhores quitutes que você possa imaginar, meu leitor... Como diriam os literatos antigos, “coisa finíssima, de primeira”. Olha, eram fileiras de canapés enfeitados, sanduíches fartos e salgados coloridos de tão bem guarnecidos, bolos de todos os sabores e recheios (parecia a congregação das festas de aniversário; exposição permanente de variedades de brunch), doces e docinhos repletos de coberturas e cremes e frutas decorativas.. hummm... guloseimas a se desmancharem literalmente na boca de gulosos e contidos... A vitrine alimentar daquela padaria era tal que até os não aficionados por comida se deslumbravam com as suas ofertas aos olhos! Até quem não liga para comer (sim, isso existe!), lá se entregava a uma leve feição de glutão. Posso afirmar, com certeza, que aquela padaria me prendeu por lá, ainda que o contexto geral do lugar não fosse alegre ou movimentado.

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sábado, 2 de julho de 2011

Cavalgada ao quarto-crescente






Era o vilarejo mais distante do mundo. O chamado lugar em que Judas perdeu as botas, lá onde o vento faz a curva... De tão longe, quase ninguém ousava mais aparecer por aquelas bandas. Mas, na solidão de seus recônditos inimagináveis – e praticamente impalpáveis ao mundo – coisas estranhas aconteciam, na casa do pitoresco...
Segundo diziam os fanfarrões do expediente da lua, domiciliados junto à murada do rio, em Vida Feliz ocorriam coisas absurdas, dessas em que ninguém acredita. A cidadezinha tinha algo mais que praça, capela, coreto e um rio passante. Tinha uma rotina de burro cismante e espetáculos ao luar... Rotina de burro cismante porque cada novo dia trazia só a renovação do sol na manhã. Além dos fenômenos naturais alternando diariamente sol e lua, nada mais acontecia. Era a própria terra das inocorrências.

Mas se coisas deste mundo não afetavam a constante pasmaceira da vila, o mesmo não acontecia com as assombrações... Vida Feliz abrigava gentilmente, na candura de seus recônditos inocentes e pouco habitados, alguns fantasmas simpáticos e, mesmo, camaradas, como nos filmes de boa vontade.

Era o que se dava nos tais espetáculos ao luar... Gentes esbranquiçadas e anuviadas de outro mundo se moviam por todos os lados! Era o caso da mulher-fantasma com cara de lua cheia que aparecia para uma vizinha do cemitério. Berenice morava bem ao lado do portão do campo santo, e via – todos os dias ao anoitecer – um espectro feminino pela janela de sua casinha caiada. E a visita-fantasma formulava seu pedido eterno, em voz de vibrações do além:

– Águaaaaaaaa!

A boa mulher ia até a cozinha buscar a encomenda, e quando voltava já não havia nenhuma pedinte sedenta com a cara na janela. Espantos de Vida Feliz.

Afora isso, ou melhor, essa, havia o barqueiro bonachão que dava remadas noturnas em seu bote verde. Muitos juravam que ouviam o bater do remo nas águas e – na balaustrada junto à beira-rio – chegavam mesmo a escutar, num fio de voz ao longe, sua conversa macia de falastrão, com aquele jeito agradável de intercoloquiar-se com o próximo, conversa quase melódica de causeur de província.

Mas não se trata do primeiro nem do segundo fantasma o objeto desta noite-narrativa. Venho falar dos ares da madrugada trazendo a poeira levantada na estrada por um cavaleiro misterioso... Era o fantasma do Sr. Abud Richa, o morador mais antigo da localidade! Tanto que cem anos após sua morte ainda se podia ouvir o trote de Radamés, seu cavalo de pernas tortas, a saracotear por Vida Feliz.

Em vida, o velho Abud Richa foi um fazendeiro notável – dono de milhares de bois, centenas de cavalos, milhões de árvores e umas sessenta casinhas de colono espalhadas pela propriedade. Também lá, na Fazenda Mirante, mantinha sua família de catorze filhos e vinte e dois netos, além de oitenta e sete empregados herdados à (lamentável) escravaria histórica do lugar. Tinha bens, prole e nome. E, até onde se sabe, o brio de um homem decente. Alguém que vivia, obrigatoriamente, para o latifúndio e tudo que a ele se relacionava: dos louros às mantenças.

Só que o tempo trouxe os ares lúgubres do outro mundo para a sede da Fazenda Mirante, e o velho Abud nem percebeu. A danada de capa preta levou-o para um destino similar aos dos bois quando vão para o matadouro... Diferentemente dos bois, porém, que cismam em todo o trajeto da última viagem, ele nem se deu conta do embuste final. E é por isso que as boas línguas de Vida Feliz não se cansam de matraquear:

– Abud Richa? O fantasma daquele turco passeia a cavalo, toda noite de lua crescente, pela rua da frente!

– E na rua de trás, também.

– E também lá na Vila Roca, em volta do coreto... subindo o morrinho da igreja...

– Decerto nem sabe que morreu.

Adonias Bonito, que de bonito nada tinha – antigo fiscal local do ócio – contava em detalhes que, em toda fase de lua crescente, depois da meia-noite, o velho Abud saía pelo vilarejo saracoteando o cavalo no pó da estrada... Segundo ele, na calada noturna, podia-se escutar perfeitamente o trote de Radamés vindo das bandas da Mirante, lá no comecinho da vila... O caipira afirmava ainda, de pés juntos, que a várzea de arroz, na parte da propriedade que margeava a estrada, estava sempre daquele jeito, tão verdinha, por causa dos olhos do dono defunto que “nutriam a terra”!... Adonias narrava, com voz ofegante, olhos esbugalhados, gestos largos e um sotaque caipira carregado nos erres:

– Se ocê quiser ver é só ficar acordado de madrugada, sentado bem em frente à estação de trem... Primeiro ocê vai escutar o baruio do pangaré chegando: pocotó, pocotó, pocotó... Depois é só esfregar os zoio e... ocê vai ver, bem diante docê, o falecido turco tirando o chapéu panamá e te cumprimentando em frente à venda... É batata, minha fia! Senta na calçada da venda de Dona Alicinha e do velho Borge que ocê vai dar de cara com o pobre... digo, com o rico, o fazendeiro morto que ainda acha que tá vivo! E tem mais... virge santa.. que num acaba aí! A amásia do turcão também acompanha o homem nas lua.... Ainda intur dia eu tava sentado ali do lado da venda do Borge, em frente à varanda do João Bastim, e tive a visão mais espantada de minha vida interinha: a mulher voejava assim, em volta do cavalo dele... vinha e parecia beijar o rosto do Abud... ela parecia leve feito pruma, e os lábios roxim dela parecia até macio!... Ela beijava ele muitas vez e depois saía voando... Acho que a bonitona do outro mundo até me enfeitiçô, pruque – quando dei por mim –, esfreguei os zoio di novo e vi ela bem lá no arto do firmamento, pertim das estrela! Então cê acredita que vi a Marvina sentadinha em cima do quarto crescente? É verdade, bota sentido que ocê vai ver!... Firma as vista bem atenta nas noite da lua crescendo e ocê vai acompanhar o cavargar do turco pela vila intera... até desaparecer na manhãzinha lá perto da figuera de Nhá Ceição... É fato visto e confirmado, criança!

Por Sayonara Salvioli