quarta-feira, 9 de julho de 2014



O Brasil não é mais o "País do Futebol"?

Reflexões a partir da tragédia esportiva do Mineirão

Uma das primeiras imagens que tenho de nacionalismo passam por um vislumbre do passado, em que atravesso um portão correndo, de saias plissadas azul-marinho e meias três-quartos muito alvas. Em seguida, sigo por uma calçada estreita ladeada por um jardinzinho, até chegar ao pátio, em frente a uma varanda de escola. O local era como um santuário - o educandário onde exercitei, nos primeiros anos, as letras e os números. Ali - em sessões cívicas iniciadas às sete horas da manhã - eu via, todos os dias, ser hasteada a bandeira do meu país ao som do Hino Nacional. Sinceramente, não sei se há em minha alma rememorada de menina momentos mais simbólicos do que este!



Não foi muito diferente a emoção visível no choro das crianças nas arquibancadas do Mineirão de um oito de julho inesquecível. Era, sim, um nacionalismo nascente e aviltado o que se via naqueles rostos inocentes banhados em lágrimas e sentimentos. E tal se deu não apenas - como afirmariam alguns - por causa da (errônea) vivência do futebol no Brasil. E, sim, porque um campeonato esportivo, em que se vê tremular uma bandeira, sempre terá a divisa do nacionalismo. Sim, é possível demonstrar patriotismo nos chamados verdes anos na fila da escola, numa sessão literária, num comício clamando por “Diretas Já” ou (por que não?) num estádio lotado de torcedores veementes. Não há época ou nicho para o exercício da condição cívica, fazendo bater forte no peito o sentimento pátrio. E se este anda meio fora dos corações, não é por culpa do futebol. Também não é uma atribuição do esporte de Charles Miller a obrigação de existir num país que dá certo. Ora, "dar certo" no futebol não elimina a possibilidade de a nação dar certo também em Saúde e Educação.



O Brasil poderia ser o país da Educação, da Cultura, da Arte, da Saúde, da Justiça e, paralelamente, do Carnaval e do Futebol; as primeiras condições não eliminam as últimas e vice-versa. Necessidades estruturais e plataformas fundamentais não dispensam, pragmaticamente, apelos de cultura popular. Preservar raízes da tradição é algo que nunca significou negação às prerrogativas sociopolíticas. E pedir para o brasileiro negar o futebol equivale a privá-lo de uma paixão secular. Seria o mesmo que fazer ressurgir a Grécia Antiga e decretar o fim das Olimpíadas em seus domínios. Tal não seria uma contradição?
Por tudo isso, nunca fui manifestamente contrária à realização da Copa do Mundo 2014 no Brasil; sou contra, em qualquer tempo, aos descasos com as causas públicas; não aceito um país sem políticas decentes de educação, sem hospitais aparelhados, sem segurança nas ruas e nas casas. A Alemanha - como bem se viu em campo - mantém a sua tradição de qualidade no futebol (vejam a história das Copas), mas é uma nação com uma das maiores economias do mundo, educação exemplar e IDH altíssimo [0,920 (Pnud 2012)], por exemplo. Isto quer dizer, em princípio, que não é o fato de um país privilegiar (ou mesmo cultuar) este ou aquele esporte que atrapalhará sua escalada para o progresso, como insistem alguns. Estes, os propaladores de lemas inúteis como o "Não vai ter Copa" ou "Abaixo o país do futebol", precisariam entender que extirpar tradições consolidadas de seu país significa negar suas raízes identitárias. E ferir ou mutilar a identidade nacional em nada irá ajudar nessa nossa corrida (já tão atrasada) para o desenvolvimento.
Quanto à alegação de que nós, brasileiros, sustentaríamos - em nossa carga de autoemoções tendencionistas - estigmas como a incorporação popular do futebol, vale realçar: muito pior do que ostentar simbologias consideradas baníveis, sem dúvida, é carregar nos ombros o peso massacrante de um fiasco em certame esportivo entre nações! E que mal poderá haver em manter simbologias de tradição cultural (muito mais que esporte, meramente, futebol no Brasil é rito) se existirem, também, outros atributos essenciais e qualificativos de nação?
E foram sentidos, exatamente, a identidade nacional, o grito na garganta e o amor à bandeira nessa grande lesão patriótica que foi a goleada de 7x1 da Alemanha sobre o Brasil. Todos nós vimos acordar um nove de julho triste, com transeuntes cabisbaixos, calados e envergonhados. Sim, a nossa vergonha é grande, difícil de ser esquecida. Sentimo-nos humilhados porque assistimos a uma espécie de pelada com emblema nacional! Foi o distintivo de nosso país - ali representado em esfera internacional - que esteve em jogo literalmente o tempo todo, a cada novo gol afundando a nossa rede...
Lamentavelmente, a seleção em campo - sem qualquer harmonia, desprovida de habilidade e estabilidade emocional - em nada se assemelhava às seleções do passado, de qualquer época - quer brilhantes, quer remediadoras. Então, que não percamos o direito de chorar nossas mágoas de brasileiros vilipendiados em nosso bem maior neste caso, que não é o futebol, e sim o amor pátrio. Apesar de esmaecido - bem esquecido num cenário de cores e ultratecnologias contemporâneas -, o nacionalismo ainda pode vigorar.


E - contrariando os que são contrários à Copa -, é justamente (e só, infelizmente) em períodos como este, de campeonato externo, que os brasileiros se vestem de verde e amarelo e relembram seus valores nacionais. Mas esse não é um nacionalismo forjado; não foi algo que os organizadores da Copa (superfalhos e altamente discutíveis) impuseram. Todos sabemos que houve contas astronômicas, absurdas falhas estruturais, obras inacabadas, culpas, erros e prejuízos gritantes da administração. Contudo, no Brasil desta Copa não houve a manipulação popular prevista. Muito pelo contrário, foi essa mesma nação futebolística que, ironicamente, se manifestou contra a realização do mundial no Brasil (não falo aqui de movimentos orquestrados de rua). Faltavam poucos dias para a Copa e não se via, em qualquer parte, entusiasmo por parte dos brasileiros. E - apesar das dúvidas político-administrativas de entorno - eu me perguntava por onde andaria a paixão nacional que eu aprendera, desde os primeiros tempos, a ver como identidade num tal clamor verde e amarelo no peito... No meu caso, não pelo futebol em si (sequer acompanho torneios internos), mas pelo fato de a Copa do Mundo representar um congraçamento de nações do qual faz parte o meu país.
Certamente, houve muitas coisas erradas na preparação do evento (e até escrevi sobre isto no Yahoo), mas eu tinha a consciência de que seria preciso vivê-lo, a partir do momento em que se deflagrassem as partidas com as nossas cores. De repente, porém, com os ânimos emudecidos, torcer pelo Brasil num campeonato internacional virou coisa politicamente incorreta. Mas repito que eu não estava "no bolo". E confesso ter ficado aliviada quando vi a nação vestir, literalmente, a camisa e gritar gol - nos prédios, nos clubes, nos restaurantes, nas ruas e nos estádios. O clamor público não tem ainda - nas atuais configurações - o poder de desmontes estruturais na mesma proporção de seu vigor nacionalista. Então, que se viva a verve do patriotismo na melhor roupagem nacional! Afinal, quem torceria pelo Brasil senão nós mesmos - anfitriões e competidores do certame?
Pois bem, neste nove de julho o povo amanheceu de luto, o do tipo patriótico, aquele que dá um nó na garganta, causa gritos e lágrimas de comoção coletiva. E deixa recordações, amargas recordações pessoais, dessas que sobrevivem a décadas e gerações. Falo da pré-adolescente que ainda vive em mim, na lembrança apaixonada do Olé da Seleção de 82... 



Visualizo na memória, sem dificuldade, a minha própria imagem num quadro de três décadas anteriores: eu estava de joelhos na sala quando Abraham Klein levantou o braço e cristalizou aquele 3x2 da Itália (leia-se: de Paolo Rossi) sobre o Brasil... Uma sentença trágica para os tantos milhões de brasileiros que tinham a certeza da vitória de sua amada (e imbatível!) Seleção Canarinho, aquela que encantava o mundo com a mágica inventiva e adoravelmente estética de um futebol-arte! 





Este parecia ressurgir dos videotapes repletos de maravilhas do passado, dos lances inacreditáveis das históricas Copas de 58, 62 e 70.





Ora, o jogo derradeiro de 82 dos brasileiros na Espanha - na chamada Tragédia do Sarriá - nunca me saiu da memória, nem mesmo quando, 12 anos depois, aconteceu a aguardada revanche, na Copa de 94, nos Estados Unidos. Evidentemente, fiquei feliz com a vitória do Brasil, mas aquele resultado favorável nos pênaltis não matou em mim a dor-menina de um dia... Do mesmo modo, as crianças de hoje não esquecerão (jamais!) essa dor de goleada, capaz de deixar marcas indeléveis em seus coraçõezinhos nacionalistas. Igualmente para os que vivenciaram o "Maracanazzo", a lembrança de uma partida fatídica, perdida em cenário nacional, é como um estigma histórico, um marco inapagável no tempo do sempre.




Mas desta vez (e deixem que eu curta o meu doído sentimento patriótico!), o baque foi maior. O gol que "Barbosa deixou passar", como na acusação de muitos, num Maracanã recém-inaugurado, veio sete vezes maior, se é que pode haver precisão nessa conta... Isso porque não perdemos um jogo com dignidade, com um belo time em campo - como em 50 ou em 82 - e sim porque perdemos em brio o mesmo número de lances, adagadas repetidas em nossa pele de brasileiros, de guardiões nacionais - do futebol e da Pátria. E isso ninguém poderá negar: guardamos agora mais um episódio-padrão de sofrimento esportivo-nacionalista; acumulamos na História das Copas no Brasil - precisamente na segunda realizada em solo nacional - um registro dos mais marcantes e lamentáveis: a tragédia da goleada alemã no Mineirão!
Após tudo isso - dor vivida, coração brasileiro em frangalhos -, é hora de entrar em aquecimento, novamente, para correr e lutar nos campos da realidade. É preciso aprender a jogar melhor em todas as posições - Saúde, Educação, Arte, Economia, Segurança Pública, Justiça, Agricultura, Tecnologia, Turismo, Comércio e Indústria, Trânsito e Urbanismo - para uma vitória gradual e completa.
Quanto ao esporte de Garrincha, Didi, Tostão, Pelé, Zico, Romário, Ronaldo e Neymar, muito pode ser feito, com toda a certeza. Num país de memoráveis talentos individuais - que certamente fazem a diferença em campo -, é preciso remodelar sistemas, treinar equipes, regulamentar e bem administrar clubes e federações. Urge que se desfaçam as oligarquias dos desportos e se implante uma gestão transparente e precisa da CBF. Depois de arrumada a casa, por certo não será difícil retornar aos tempos áureos em que o craque nacional exibia ao mundo a ginga inigualável do brasileiro! E, então, será possível que o Brasil - potencial e plausível campeão em escolas, hospitais, Plenário e sociedade - volte a ser o "País do Futebol"! E com muita honra. Avante, Brasil, que no mundo "não haverá Nação como esta"! 



terça-feira, 3 de setembro de 2013


Nº 1 da fila




Contudo, o acaso – que nunca dá trégua à nossa protagonista – apronta mais uma das suas...

Você, leitor, já conheceu as peripécias de Marina no episódio A MÃO INVISÍVEL DO GUARARAPES. Pois bem, foram narradas as aventuras da protagonista desde que recebeu o telefonema do presente (o afilhado!) até a chegada da feliz madrinha em solo recifense, depois de perder e reencontrar os famigerados óculos da irmã Colette (se não leu ainda, faça-o agora porque as memórias merecem a sua curiosidade!)... Pois bem, a viagem de Marina até Recife, no entanto, com o objetivo único de batizar o seu afilhadinho passou por alguns impedimentos até que finalmente se consumasse. Mas essa história é recheadíssima de acontecimentos e – no dia em que Marina estava correndo para viajar, em momento de pressa e preparativos...


64 números adiante...

Dia de viajar para Recife. Pouco tempo antes do momento de se dirigir ao aeroporto, novo telefonema... Só que era “de poucos amigos”, totalmente diferente do de Vivi... Do outro lado da linha, no entanto, Marina finalmente consegue o “sim” do proprietário do apartamento que ela tentava insistentemente comprar. O cara era duro na queda, mas chegou “no seu preço”. E resolveu fazê-lo – propondo acordo prévio de pagamento imediato de sinal – horas antes de seu embarque para outra cidade... Aff! O que fazer, Marina? Deixar para a volta? Não! Como houvesse mais dois interessados “de botuca” no apartamento, era preciso formalizar logo a situação (arranjando-se tempo Deus-sabia-como no dia da viagem). Na verdade, era caso de se passar logo a escritura. Mas isso também não seria possível... Além do horário apertado para o voo, era uma sexta, quase final de expediente, e o proprietário ainda pedira um tempinho para reunir papelada. Como fazer? Marina pensou três segundos e concluiu que o acordo precisava ser imediatamente fechado com um sinal. Ela estava atravessando a rua quando Vivi ligou:

– E aí? Malas prontas?

– Ah, sim, tudo pronto. Tudo legal.

– Algum problema?

O celular desligou sozinho quando Marina quase foi atropelada pelo árabe do triciclo – com seu possante vermelho sem-teto, brilhante e musical –, bem no meio da Rio Branco. [É claro que Marina nunca seria atropelada por um celta prata, não? Mas não foi mesmo, graças aos Céus, que sempre deram conta de suas providências].

1-      De como Marina mudou as regras do jogo e venceu o primeiro round da viagem



Do outro lado da rua se achava o tal proprietário, do alto de quase dois metros de sisudez. Marina se esticou no salto de 14 centímetros e olhou firme para ele:
– Vamos entrar logo, antes que o banco feche. Uma pena o senhor não haver aceitado um TED.
– Só se fosse um depósito on-line caindo instantaneamente na minha conta. Agora, esperar 24 horas?... Aliás, mais de 72, já que amanhã é sábado... E a senhora ainda vai viajar. Decididamente, não. Tenho mais dois interessados no negócio, senhora.

Marina não quis discutir; não seria prudente. Na verdade, ela havia decidido não fazer nem um nem outro, pois queria garantir a assinatura do vendedor do imóvel quando da transferência do dinheiro [Onde já se viu passar tanto dinheiro num negócio sem papel assinado em tempo real e presencial?].
E o homem era antipático:
– É capaz de não dar tempo.
– Vai dar, sim, meu senhor. Eu tenho sorte.
Com ar levemente irônico, o sujeito se calou, e ambos entraram no banco. Marina levou a mão à cabeça: a fila para o caixa era interminável; ela contou 52 pessoas!
– Ai, meu Deus, vou perder meu voo! – em raro momento de desespero.
E o sujeito:
– O problema nem é a senhora perder o voo: eu que não vou esperar essa fila toda!
Marina precisava agir rápido, e simplesmente disse:
– Vamos até outra agência, um quarteirão adiante. Com certeza, a fila lá deve estar menor.
O proprietário fez cara feia, mas a seguiu. Uma vez lá, pior: 64 pessoas! Expressão de pavor de Marina. Nem daria tempo de voltar à agência anterior, pois o banco já fechara. Mas desistir sempre foi verbo fora do seu glossário:
– Aguarde-me, senhor, que eu vou ali convencer o caixa e o primeiro da fila que preciso ser atendida na frente de todos.




O homem, incrédulo, ameaçou gargalhar. Mas Marina não se deixou intimidar: fez cara feia, esticou-se no salto e levantou o queixo.
Nove minutos depois estava de volta. Ergueu as mãos:
– Aqui está, senhor, o seu comprovante de depósito; confira-o, por favor – passando-lhe também o contrato do sinal. 
O homem, pasmo, estava sem cor. Perguntou, engasgando-se todo, enquanto assinava o papel:
– Mas o que a senhora disse para convencê-los? Como conseguiu???
Ficou sem resposta o proprietário, digo, o ex-proprietário, inteiramente perplexo:
– Nunca vi disso em toda a minha vida.
Ela limitou-se a dizer:
– Nada de extraordinário. Eu precisava fazer o depósito, não precisava? Foi bastante simples: disse três frases, com muita verdade, o que pareceu mexer com a consciência deles, que atenderam prontamente ao meu pedido e ainda me desejaram sorte. [Até hoje nem Vivi sabe que argumentos – em três frases! – Marina usou para convencer dois desconhecidos, ao mesmo tempo em que driblava o interesse e a fúria de 64 pessoas numa fila de fim de expediente de sexta-feira! Ufa!]... Se Vivi descobrir e me contar, narrarei em detalhes aqui no próximo episódio da série Guararapes...



O homem – agora totalmente vencido – assinou o termo, arranjou um sorriso não se sabe de onde, apertou a mão de Marina e disse:
– É um prazer negociar com a senhora.
– O prazer é todo meu, Capitão. Espere pela minha volta.
Dali, Marina correu e se encontrou com sua providente secretária, já no Santos Dumont com as malas. Pegou-as e partiu. Quando ia atravessar o portão de embarque, ouviu um grito:
– Marina, espere!
(...)
E o resto que aconteceu você viu...




Mas quem disse que – depois das aventuras propriamente passadas em Recife (você ainda vai saber) – a volta para o Rio constituiu evento comum? Duvide disso... Digo mais: o feito da vez foi até mais difícil do que ultrapassar 64 pessoas numa fila! Aguarde o próximo episódio, digo... crônica!



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A mão invisível do Guararapes

A mão invisível do Guararapes


– De como Marina ganhou um presente e as peripécias vividas até ir recebê-lo

Marina, ao consagrar-se uma balzaquiana, recebe um telefonema bem no meio da noite de aniversário. 


Do outro lado do fio de Graham Bell, uma voz familiar:

– Amiga, o meu presente é o seu afilhado: estou grávida do João Filipe; escolhi você pra ser a madrinha dele – surpreende Viviane, a eterna Vivi do colegial. As duas não se viam havia uns onze ou doze anos.

Marina fez estardalhaço. Esse sempre foi o seu modo de reagir à alegria, à surpresa, ao susto ou ao pranto. Sua irmã, Colette, sempre diz: “Marina é espalhada”. Mas, além de espalhada e boa amiga, a balzaquiana nº 1 sabe também como ser uma amiga sumida, dessas que sobem para uma nuvem de distância e ficam por lá, provisoriamente, longe de seus entes mais queridos.

Pois bem... Depois do telefonema de aniversário, Marina sumiu das vistas de Vivi mais uma vez. Mas ambas não eram muito normais: Viviane tinha a capacidade de sempre tudo entender e ponderar; era a própria flor da sensatez. Já Marina sempre foi louca mesmo. E as duas sempre se deram harmoniosamente.

O tempo passa: três anos! João Filipe já tem mais de dois anos quando Marina marca finalmente a data do batizado com a amiga. Circunstância meio arrastada, apesar do forte elo das colegas de adolescência. Compromissos, trabalhos, fatos novos e adiamentos. Mas Marina sempre soube quando não podia mais adiar uma situação. Desta vez, não era momento de sair do Rio (ainda menos que das outras vezes não-idas), mas Marina tinha certeza de que não haveria prorrogação depois do segundo tempo. A paciente Viviane pedira até seu documento de identidade:

– É porque preciso apresentar na secretaria da igreja.

Marina entendeu; nem Vivi perdoaria nova protelação. Mas já estava mesmo decidido que viajaria; Marina podia ser enrolada, mas nunca fugira de guerra que fosse sua. Se achava que esse era o seu papel, era capaz até de enfrentar um leão (não duvide!).

Contudo, o acaso – que nunca dá trégua à nossa protagonista – apronta mais uma das suas... E justo no dia de viajar para Recife, acontece algo com Marina que quase a impede de ir (ainda narrarei aqui no blog o episódio, que merece descrição de detalhes)... Mas nesse momento Marina vence o improvável e corre para o aeroporto em cima da hora.

Já no Santos Dumont, encontra-se com sua providente secretária, que lhe entrega as malas (no dia difícil, nem teve como voltar a casa para apanhá-las). Pegou-as e partiu. 



Prestes a atravessar o portão de embarque, ouve um grito:

– Marina, espere!

Era sua irmã Colette, que conseguia alcançá-la. As duas se abraçaram. Com expressão meio exasperada, Colette falou:

– Tive um sonho... Premonição. Vai mesmo viajar?

– Claro, né, Colette! Como não, minha irmã? Como João Filipe poderá fazer Primeira Comunhão daqui a uns poucos anos?

Colette sorriu aquele seu sorriso de superior equilíbrio e falou:

– Só mesmo você, Marina, para pegar um avião, viajar do sudeste ao nordeste do país, para fazer um batizado! – e riu-se. [Afinal, o que fazer se Deus lhe dera uma irmã assim? Ela sabia que Marina iria batizar João Filipe mesmo que fosse em Galápagos ou nas Maldivas. Aliás, quanto mais inesperada a situação, mais chance de acontecer em sua vida].

É claro que a madrinha levou quatro malas para ficar três dias. Tudo bem: as malas eram suas. O que ela não podia levar estava mesmo na bolsa de mão: aqueles óculos emprestados de Colette... Marina é excêntrica, mas Colette... Ah, Colette!... Aquela lá é personal, brava, uma fera! Ai de quem perder algo seu: risco de elotrocução pelo olhar! Deus nos livre!

– Do voo e da chegada de Marina a Recife 




Sentada em sua confortável poltrona, Marina pensou em descansar; nas três últimas noites só havia dormido por prestação, ou seja, duas horas e meia num dia, quatro horas noutra noite, três horas na mais recente. Mas eis que um casal falastrão se posiciona ao seu lado. A mulher a olha e sorri com um sorriso-de-todos-os-dentes. Marina faz cara de antipática [não lhe interessava, depois de tanto estresse, estabelecer vínculos de viagem]! Necessitava mesmo, com todos os seus neurônios, de um sono de ciclos de cinco estágios. Mas a curta viagem nem daria para tanto... A balzaquiana respira fundo, silente (como nunca antes). Passam-se dois minutos... lentos. A estranha sorri novamente. Marina permanece impassível debaixo das lentes dos óculos Emporio Armani. A mulher, claro, puxou – digo, forçou – papo:

– Você também é de Recife?

Marina volta ao seu exercício diário de boa educação, mas uma educação espartana:

– Não.

– Ah, é paulista?

– Não.

– Hummm... já sei: pelo sotaque, é de Brasília!

– Não, senhora; sou do Rio.

Não houve jeito. A mulher queria falar e falar. Marina entregou os ouvidos. E também para o irmão da falastrona:

– Ah, não são marido e mulher?

– Que nada, menina, esse é meu irmão: Aleixinho. Meu maninho, dois anos mais novo; cuido dele desde criança – disse, com o olhar enternecido e uma repulsiva fala molhada.

– A senhora não quis se casar?

– Querer, eu quis, sim... Ah, e como eu quis! Ah, menina, você não conhece a triste história de Marinalva Praxedes. Prazer, menina: Marinalva!

– Prazer. Marina.

– Ora que nossos nomes combinam! Tão bonitinha, com o nome parecido com o meu... veja, Aleixinho!

E Marinalva, Marina e Aleixinho trocaram palavras a viagem toda. Marinalva contou até o motivo do não-casamento:

– ...Aí, minha filha, o meu noivo fugiu com a noiva de Aleixinho... Uma tragédia em família no agreste! Coisa de cordel, menina! – E cochichou: – E me mantive intacta, pra todo o sempre, Nossa Senhora sabe. – Voltando ao alto tom de brados: – Ele também! – apontando o irmão: Aleixinho também é virgem! – Meio avião voltou seus olhares, entre comentários ruidosos, aos virgens cinquentenários.

Marina nem se deu ao trabalho de afundar na cadeira. Já que não pudera dormir, participar do espetáculo era o de menos. Afinal, tudo aquilo não chegaria a três horas. E realmente logo estavam aterrissando no Aeroporto de Guararapes.



A moça bem que tentou se desvencilhar do casal de convictos (ou seria invictos?) na chegada. Mas a quase xará não deixou, claro. Deu-lhe o braço e fez com que seguisse com eles até o desembarque. Na hora de pegar as malas, Marina tentou escapar, mas houve um atraso e as suas não apareciam nunca na esteira...  Senhorita Praxedes aproveitou, então, para tirarem retrato.

– Vamos tirar uns retratinhos pra marcar esse dia?



E foi aí que a viagem de Marina começou a ficar séria... A balzaquiana – a essa altura toda estropiada e mais atarantada que de costume – não teve outro remédio senão fazer as vontades da mulher. Tira que tira foto daqui e dali!... Marinalva fez a coitada até atravessar todo o saguão do aeroporto, já distante da esteira para onde teriam de voltar depois do susto... Sim, um terrível susto! Não é que, de repente, Marina percebeu que não tinha mais os óculos escuros que usava?! Sim, os óculos Emporio Armani... Ai meu Deus, os óculos de Colette, os preciosos óculos que a irmã trouxera de sua última viagem à Europa!... Marina se agitou e remexeu a gola... Sim, a grande gola de sua estilosa blusa preta. Pensou para que tanta e tão exótica gola, toda enrolada, cheia de pano... para os óculos se perderem naquele bolo de tecido?! Sim, uma gola daquelas jamais seguraria uns óculos tão delicados!... E valiosos, pois tinham dona:

– Deus tenha piedade! Estou perdida! Colette vai me matar!

Marina percebera que, ao tirar os óculos para fazer as fotos, não os recolocara... Procurou-os, então, pela bolsa, avidamente, desesperadamente... Ai, meu Deus! Descontrolada, a irmã mais velha – que parecia uma criança amedrontada (mas todos, sem exceção, tinham medo de Colette mesmo!)  – sentou-se no banco mais próximo e começou a revirar a bolsa... Mas... nada de achar os óculos! Só encontrou a embalagem. Aí, então, Marina fez algo que só uma mulher em ebulição de desespero é capaz de fazer: virou a bolsa “de boca pra baixo” em cima do banco! Senhor, só quem viu uma cena assim tem noção do que é o conteúdo de uma bolsa de mulher “ejetado” à vista de todos! Olhos curiosos de todos os lados se voltaram para aquele turbilhão de pequenos pontos, multicoloridos e desorganizados, de todas as formas e tipos: batons, pincéis, canetas, cartões, fragmentos de carteira, moedas, cédulas, molhos de chaves, documentos, celulares, carregadores, câmera, iPod, agenda, microagenda, post-its, termômetro, escova, pente, prendedor de cabelo, perfume, álcool em gel, enxaguante bucal, spray de fixação de maquiagem, estica-cílios, drágeas e... embalagens de óculos! Ufa! Nossa Senhora das necessidades primeiras! Marina chegou a começar a inspirar e expirar com uma constância mais equilibrada quando tateou a primeira embalagem e... encontrou algo! O Senhor seja louvado! Os óculos! Marina abriu-a e pein-pein-pein-pein: eram os seus óculos de grau! Puxa!... Mesmo com toda a necessidade que tinha deles, não se importaria de tê-los perdido para poder achar os valiosos (e imperdíveis) óculos de Colette! Enfim, a coisa estava feia!... Mas havia, ainda, uma segunda embalagem, e esta, sim, era a embalagem Armani; abriu-a como quem abre um tesouro, mas... decepção: estava vazia! O desespero bateu ainda mais forte. E agora, como faria? Que contas iria prestar a Colette, a irmã mais brava do Brasil?! E o pior: desta vez nem poderia fazer como de tantas outras: comprar uma réplica e colocar no lugar sem que a bravíssima percebesse, pois afinal não existia, ainda, daquele modelo novo à venda no país! Ai, meu Deus, estou perdida!

Com os pensamentos em polvorosa, Marina atravessou todo o saguão, ante as exclamações da matraqueira e aquele seu irmão panaca, que ria mansamente de tudo, todo o tempo, sem motivo. Marina estava roxa de raiva! Tudo por causa daquele casal esdrúxulo!... A mulher até que era simpática, coitada, apesar de desregulada... Desregulada, Marina pensou: quem era ela para falar de alguém que não regulava as próprias atitudes?!

Marinalva ajudou a atarantada a atravessar saguão e adjacências, por onde procuraram que procuraram os óculos... e nada! Até que voltassem ao banco, onde a bolsa de Marina ficou abandonada aos cuidados do virgem sorridente, barrigudinho e cinquentão. E foi aí que a protagonista da saga do batismo a distância fez o que se pode fazer nesses casos: sentar e chorar, não sem parar de remexer os seus pertences espalhados sobre o banco e revirando todos os bolsos internos da bolsa!... Foi quando Marinalva a cutucou: Marina levantou os olhos e se deparou com Vivi e o marido, Renato, que haviam chegado para buscá-la.

É claro que a boa e velha Viviane do Ensino Médio deu aquele sorriso de canto de boca... Então, não estava acostumada com o jeitinho peculiar da amiga? Apenas perguntou, já com o riso da placidez:

– O que houve, Marina?

Balzaquiana nº 1 então narra toda a saga da chegada ao aeroporto quando se lembra de que precisava voltar à esteira para apanhar suas malas... Foi quando viu o amigo recente de quase nenhuma fala lhe trazendo gentilmente a bagagem. Despediram-se os três, a falastrona até quieta.

Balzaquiana nº 2:

– Vamos, Marina?

– Claro que não, Vivi! Você me desculpe, sei que você e Renato estão esperando, mas daqui não saio, daqui não arredo pé enquanto não achar os óculos de Colette!...

Renato, pessimista, não disfarçou:

– Não vê que não vai conseguir, Marina? Você perdeu esses óculos! Isso já era!

Mas Marina não se deu por vencida. Quando isto irá acontecer na vida?

– Espere aqui, Vivi, que vou falar com aquele segurança.


Vivi foi atrás.

– Bom dia, senhor. Eu estou com um problema sério: perdi uma coisa muito importante, uns óculos de alto valor simbólico para a minha irmã e...

– Se a senhora perdeu, é difícil achar de novo, dona.
Marina suspirou.

– O senhor tem um supervisor, não tem?

– Tenho. É o Seu Lenivaldo. A senhora vai lá em cima: segundo andar, no setor de resgate, mas lhe adianto: não vi ninguém achar nada aqui hoje, não, senhora...

Marina subiu como um foguete. Lá chegando, dirigiu-se a um senhor de bom semblante:

– Bom dia, amigo! Eu poderia falar com o supervisor do setor, o Senhor Lenivaldo?

– Já está falando, senhora. Em que posso ajudar?


Marina disse, então, o que buscava, enquanto o homem ouvia, quieto, a sua narrativa tresloucada. Ao final, com um tom compassado de voz, ele disse:

– Ah, um óculos assim pretinho, com uns prateadinhos em cima...

Bingo! Marina respirou aliviada. A descrição daquele detalhe – sui generis para um homem – revelava que os óculos de Colette haviam sido encontrados pela segurança do aeroporto. A nossa heroína não sabia como agradecer àquele senhor e a toda a sua equipe pela extrema eficiência e rapidez no resgate de um objeto perdido. Ao avistar, de novo, o objeto precioso de seus temores,


garantiu ao chefe dos seguranças que mandaria um e-mail elogioso para a ouvidoria do Aeroporto, destacando a sua competência e boa vontade.

Marina deixou Seu Lenivaldo muito satisfeito enquanto Vivi a levava rumo a casa para ver seu afilhado. No caminho, Viviane praticamente infligiu uma medida à amiga:

– Marina, você promete que nunca mais vai pegar nada emprestado com Colette?

A trapalhona assentiu com a cabeça, mas seu pensamento já voava longe... Ela só conseguia pensar em como o aeroporto recifense podia ter uma segurança tão eficiente capaz de – em segundos e sem quaisquer vestígios – ser capaz de efetuar aquela sistemática de ação: resgatar para os donos, antes que larápios os vissem, objetos perdidos em brevíssimos ínterins!

O carro encostou na garagem do prédio de Viviane quando Marina fazia seu agradecimento comovido à mão invisível do Guararapes. 





Por Sayonara Salvioli