quarta-feira, 23 de junho de 2010

O QUE FICA PARA SEMPRE...


Quando morre um escritor, é como se o mundo ficasse mais vazio... E fica mesmo: forma-se um vão temporário daqueles sentimentos e expressões que, peculiarmente, aquele artista das letras possuía. O mundo fica mais triste, e as pessoas – seja de que área da diversidade humana forem – adotam um emblema de luto respeitoso, de silêncio reverente. Afinal, um escritor normalmente tem a peculiaridade de emocionar, de aproximar os espíritos humanos. E, por isso, é como uma dádiva para as pessoas: estimula, esclarece, embevece e aquieta os corações.

Lembro-me, com perfeição, de quando morreram Drummond e Vinícius. O mineiro de Itabira deixou a esfera terrena quando eu tinha 19 anos; já o poetinha partiu quando eu era ainda criança. Mas ambos deixaram, no momento em que se foram, um vácuo em meu coração. Na verdade, era como se os conhecesse, já que viajara tanto na sua emoção, passeando pelos recônditos mais profundos de sua sensibilidade. Da morte de Drummond eu soube pela TV; uma reportagem do Jornal da Globo trazia alguns de seus versos e lembranças mais notáveis. E eu lamentei profundamente não tê-lo conhecido. Esbocei-lhe alguns versos e descerrei sentidas lágrimas. Sete anos antes, em 1980 (precisamente  julho de 80), o mundo perdia o homem Vinícius. Sim, porque o poeta – apelidado imorredouramente de poetinha – este viveria (reinaria) para sempre! Nos versos e canções, na prosa elegante, profunda e sofisticada! Vinícius vive e revive cada vez que se escuta Bossa Nova, que a garota de Ipanema vai ao mar aqui ou toca em Nova York ou em Hong Kong. Tudo será infinito enquanto durar, ou seja, no tempo vasto do sempre. E é nessa temporalidade, a um só tempo relativa e absoluta, que o vate me encanta. E descubro, mais e mais a cada dia, como ele tinha razão!...

Essas duas mortes – do itabirano ferrenho e do carioca boêmio – me marcaram com a agudeza das lembranças fortes das tristezas inevitáveis... E agora morreu Saramago, um escritor-mago da nossa contemporaneidade atribulada. Considerado o grande artífice do reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa, o escritor tratou de temas históricos, sociais, filosóficos... e de impasses do mundo com uma pena extremamente personal, capaz de registrar em sépia as diversas nuances do espírito humano. Coerente e lúcido, foi – segundo o crítico norte-americano Harold Bloom – um dos últimos gigantes do gênero romance nas sociedades contemporâneas. E Saramago acreditava nos faltar o exercício mais amplo e continuado do pensamento (“Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”). Com esse enfoque analítico, foi um dos grandes e atuais proponentes artísticos da reflexão e de uma filosofia estética, com conteúdo, forma e proposta. Ao falar do que sabia, sabia como fazê-lo. É isto, pois, característica de um nato e respeitabilíssimo escritor. E, com essa forte condução, ele nos levava em seu passeio, nos enredava em seu enleio. E a ficção se fazia mais realidade e oportunidade. Oralidade e retórica como que condensadas a serviço da escrita!

Percebi que o mundo se emocionou bastante com a morte do célebre e admirável escritor português – um Prêmio Nobel de Literatura –, um arauto contemporâneo de dilemas de contexto. Mas também – creio veementemente! – que se pôde entender o quanto dele permanece entre nós, algo como uma sombra projetada junto à cadência ritmada do caminhante: deixou os vestígios, em suas obras – seus pensamentos, suas ideologias –, que irão nos conduzir nas buscas e descobertas de mundo.

Enfim, Drummond, Vinícius e Saramago – e quaisquer que sejam os ícones imortais das letras, tornados luzes na nossa acepção intelectual de todos os dias –, eles reinarão para sempre: na página, na nossa mente analítica e na emoção dos leitores – ávidos, férvidos, apaixonados!...

Por Sayonara Salvioli

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Tributo a Graham Bell


Poucos inventores da humanidade me parecem ter tanto mérito quanto Alexander Graham Bell. Apesar da controvérsia histórica entre ele e o italiano Antônio Meucci – que teria, supostamente, vendido a patente do telefone para Graham Bell –, a ele continuo creditando a minha telealegria na constância dos dias.
Ora, nem mesmo posso imaginar como seria o mundo sem telefone, pois entendo que, tecnologicamente, ele é a medida mais próxima de uma saudade, de um reencontro, de um anúncio de vitória, de um comunicado de simples ou importante notícia. Mesmo na era da virtualidade – em que a web parece demarcar todos os caminhos possíveis – ainda pego o atalho da voz que se escuta a distância, pelo fio da telecomunicação. Para mim, nada substitui o “tempo real” de uma discagem imediata, dessas que trazem o interlocutor para tão perto que é como se ele compartilhasse o espaço-tempo presente. Meus pais moram a 300 Km de distância (sou filha única) e me sinto próxima deles graças ao telefone, que nos interliga cerca de cinco vezes por dia.
Aqui se lembre que as novas implementações e plataformas congêneres – todas! – partiram da ideia precursora de Graham Bell. Quanto ao significado de virtualidade, antes mesmo que o termo fosse aplicado com a acepção que tem hoje, o utilizei e absorvi, de antemão. Trabalhei, desde há muito, as amplas potencialidades da web. Considero-me, assim, uma boa adepta da filosofia do internauta. Mas faço uso convencional do telefone, independentemente de novas acoplagens que são feitas hoje, na mesclagem interativa de instrumentos de comunicação. Nunca abandonei a antiga mania de acessar o “objeto de desejo a distância”, teclando os números do acesso imediato. É claro que o e-mail e seus similares (mensagens do FB, conversas por msn) – sem os quais já não se pode ficar – constituem uma revolução de costumes, mas, em certos casos, nada como a voz e a presença que se detectam de imediato. E isso, mesmo que sob novos formatos (o skype, por exemplo, com a implementação da imagem), é, sem dúvida, a grande herança de Graham Bell, meu cientista benfeitor predileto.
Tenho dois telefones residenciais e dois celulares. Há pessoas que me perguntam: “Mas para que tanto telefone?” Para me comunicar, ora. Necessito disso como quem precisa de complementos de energias: preciso da voz que está do outro lado, necessito da notícia que se situa a quilômetros de distância...
Também sou daquelas pessoas que ligam para os amigos só para saber se estão bem, o que se passa em seu cotidiano, se há algo de novo e revolucionário em suas vidas para contar!... Não ligo, como a maioria das pessoas (segundo dizia Vinícius), para pedir algum favor ou falar de algo exclusivamente meu, e sim para saber, simplesmente, como vai aquela pessoa... Ainda segundo o poetinha – que, você há de convir, é um parâmetro e tanto! –, esse interesse espontâneo sobre as pessoas configura qualidade rara (e olhe que eu nem imaginava tanto... pensava até ser normal a atitude), estabelecendo-se somente entre amigos de verdade. E, com toda a honestidade, acho que sou uma boa adepta da manutenção desse liame, dessa corrente de lealdade que não se perde com a distância. Assim, apesar de eu ser um pouco cíclica em minhas aparições mesmo entre as pessoas diletas (leia-se aqui o meu sumiço ocasional), sempre reapareço, de preferência com um longo e detalhado telefonema – horas a fio no fio de Graham Bell!
Hoje mesmo tenho uma lista que suplanta meia dúzia de amigos queridos com os quais necessito manter contato urgente. Dentre eles, uma amiga que aniversariará no segundo decanato de julho, e cujo aniversário não esperarei chegar para ouvir a sua voz. Aqui também lembro uma outra amiga que, depois de uns dois anos sem conviver comigo (compartilhávamos a rotina colegial), me ligou e ficou, pacientemente, me escutando (ela é muito introspectiva)... até que eu dissesse: Mas fala você um pouco agora... Estou aqui falando o tempo todo e você sequer pôde me contar o que talvez deseje! Ao que ela disse: Não, não; fala você. Eu liguei pra isso mesmo: pra te escutar! Bonito, não? E aí eu falei e falei, como é de meu feitio, e demos boas risadas.
Já passei, literalmente, horas seguidas matando saudades de amigos e familiares por telefone, ante a narração de detalhes os mais efusivos!... E penso que – em pontos equidistantes – nenhuma ligação pode ser mais forte e cristalina que a propiciada pelo inaugural telefone. Afinal, a ideia da comunicação a distância surgiu do engenho de Graham Bell. E a telecomunicação é, sem dúvida – na esteira das grandes deduções e invenções humanas – o instrumento mais próximo de duas realidades opostamente espaciais. Afinal, notas e arquivos sonoros parecem guardar todo o DNA de fraternas e emblemáticas relações humanas...
No fim de contas – mesmo com os novos apetrechos comunicacionais –, quando a saudade aperta, a preocupação é grande, a notícia é urgente ou o comunicado é importante, todos recorrem mesmo ao velho e bom telefone... Teclam-se com rapidez e energia os números da mágica telecomunicacional e, instantaneamente, se dá o recado, e em decorrência... se comunica o fato, se consuma o ato, se assina o contrato... se dissipa a dúvida, se esclarece o momento e se providenciam soluções, encontros, reuniões, possibilidades!
Meu tributo, pois, a Graham Bell, por esse serviço inestimável que ele prestou à humanidade! Todos elogiam tantos ícones da Ciência... e ele passa batido, esquecido até quando... toca o telefone! Que se faça, afinal, justiça a seu prodígio!
Por Sayonara Salvioli

P.S.: Que tal se, em vez de endeusarmos ícones de ciência e tecnologia mais recentes, recorrêssemos à lembrança de verdadeiros precursores de épocas de obscurantismo, que - como Graham Bell - contribuíram para melhorar o mundo? Thomas Alva Edison, por exemplo. Você já parou para pensar em como seria o mundo atual, seu trabalho, sua casa... sem os fios da eletricidade, que conectam seu cotidiano a todas as parafarnélias sem as quais você não saberia viver... a começar por este computador aqui?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Confirmando Goethe



Dentre as célebres sentenças do genial escritor e pensador alemão Johann Wolfgang von Goethe, talvez não se lhe atribua, comumente, aquela em que ele fala da amizade comparando-a aos títulos honoríficos: “...quanto mais velha, mais preciosa”.

Eu era bem pequena quando a li, pela primeira vez, num livro de pensamentos. Lembro-me que, no mesmo instante, me pus a pensar sobre a profundidade daquela reflexão. E, apesar da natural inconsistência infantil, desde aquele momento procurei valorar as amizades e os sentimentos sólidos, datados, com certificado de autenticidade e selo de ouro. Pensei, primeiro, na minha família; depois nos amigos da escola e, por fim, nas pessoas que conviviam comigo – em casa, no bairro, na cidade – e que me faziam tão bem.

Você pode estar imaginando se uma criança pode pensar tais coisas, ao que respondo: pode, sim. Eu devia ter uns oito ou nove anos, e já tinha opiniões e vontades razoavelmente firmes para a idade; já lia alguns clássicos da Literatura e, mesmo, exercia meus desejos mais veementes junto a meus pais. E esses atos não constituiriam algum tipo de vantagem extraordinária se comparados ao que vemos hoje nas crianças, em sua apreensão e evolução cibernética, por exemplo. Contudo, afora tudo isso, o mais importante para essa discussão é o teor de profundidade – de análise ou sentimento – que se pode atribuir a uma verdadeira amizade, dessas que se alicerçam na distância dos anos. Falo também daquela nostalgia boa e suave que rememora a turma do colegial, as alegrias insubstituíveis de uma época!

Foi em alusão à sentença de Goethe que ontem relembrei velhas e adoráveis amizades, que realmente não se perderam na linha do tempo! E, por incrível coincidência, um dos amigos de que mais me lembrei (aquele engraçadíssimo, que fazia a turma inteira rir!) – e com quem não falava havia aanoosss! – me ligou hoje. Disse-me: Lembrei-me muito de você ontem. Senti que precisava te ligar. Não é incrível? Pois já estou até acostumada a tais arroubos intuitivos... Mas a prévia intuição não diminuiu o impacto da surpresa do dia. E ali estávamos nós, meu velho amigo e eu, relembrando alegrias e abobrinhas antigas pelo fio de Graham Bell (aliás, a este devo um post gigantesco!).

E meu amigo de escola, trazido num fio de saudade pela ternura dos anos, me fez pensar numa grande galeria de amigos – revi seus rostos e atitudes na lembrança –, todos (e individualmente) marcados por suas características pessoais tão definidas. E atentei para o fato feliz de gostar das pessoas por seus atributos pessoais, suas qualidades próprias e notáveis. Afinal, quão fascinante é o registro de individualidade nos humanos! Já parou para pensar no quanto ama seu amigos por tais e tais qualidades – e até defeitos?! – que lhes são inerentes, especialmente aquela característica que cada qual – e só ele – possui? Ri sozinha ao lembrar de vários desses amigos que se mantêm na minha lembrança, habitando ainda meus sentimentos... Lembrei-me do amigo-bem-mais-que-engraçado (que reapareceu ainda mais pândego), o extremamente sensato, que tudo ponderava e previa – e quase nunca errava(!); o dinamicamente elétrico, quase capaz de reconstruir o mundo em apenas um dia da semana (risos); o maluco de pedra; o gentil e solícito, educadíssimo(!); o solidário e confidente; o fofoqueiro (que atualizava a turma com as news de todos); o estatístico preciso (sabia medir o grau de cada coisa ou evento); o contador de histórias; o defensor dos oprimidos; o pessimista (seguidor-mor da Lei de Murphy); o lunático (vivia fora do mundo), o genialmente criativo... Todos unidos pelo elo mágico da lembrança... dos aniversários, das aventuras de férias, daquela risadaria em sala de aula, daquela sessão do Grêmio, daquela gincana explosiva, do teatro da turma, da banda de rock do melhor amigo, da excursão inesquecível, das aulas cabuladas (eu nunca fazia isso), da festa de formatura! Todos delimitados, tão-somente, pela linha constante da amizade plena, a tal honorífica, que mesmo a distância nunca morre... Feliz daquele que tem amigos assim! Ou de quem simplesmente pode relembrá-los, pois isso é coisa que o acompanha para o resto da vida! Goethe que o diga...


Por Sayonara Salvioli