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sábado, 13 de setembro de 2008

A interatividade contemporânea e a lauda eletrônica






Custei a aderir à prática tão usual e produtiva do blog. Talvez porque, no início, tenha visto neste formato uma nova versão dos antigos diários, agora repaginados pelo arrojo da virtualidade. E como – apesar de escrever durante toda a vida – nunca tenha tido hábito de fazer diário (aquele convencional, relatando os acontecimentos do dia em detalhes), rejeitei a idéia, equivocadamente.
Agora, no entanto, vejo no blog uma necessidade de interação entre pessoas, grupos e contextos do ciberespaço. Sob esse enfoque, é uma ferramenta a serviço de uma dinâmica globalizada, que pressupõe uma troca constante, uma espécie de vitrine na dimensão do tal tempo real... É mesmo interessante poder dispor de uma revista eletrônica, de um jornal virtual em que o próprio pensamento é fonte de interesse coletivo. Assim é que o blog alcança esse extraordinário poder de influência e mediação em relação a outros pensamentos, de diferentes contextos. O antigo diário, portanto, deixa de ser apenas um arquivo de relatos para tornar-se uma potencial fonte de notícias paralelas e agregamento de idéias transformadoras.
O planeta virtual é mais que ágil: é galopante, sedutora e absolutamente galopante! E essa velocidade é plenamente compatível com a vitrine móvel da contemporaneidade, já que o mundo nos oferece, todos os dias, milhares de assuntos e encantamentos para a lauda eletrônica. Essa incessante peculiaridade rotativa – na proporção das ações das pessoas – é a grande força motriz dos acontecimentos de nossa era. Quem não acompanhar este ritmo, portanto, estará à margem do momento.

Está inaugurado o meu blog. A partir de agora, dez anos após eu haver me conectado à Internet, estabeleço um link ainda mais direto com a virtualidade.
Seja bem-vindo a esse bate-papo eletrônico, que é informal, mas traz a responsabilidade indiscutível da democratização do pensamento e da inter-relação do individual com seu entorno (risos)... Não é que eu queira ser formal, mas é exatamente o significado deste arranjo de palavras o que eu quis dizer.

E começo a nossa interação com uma crônica que escrevi, já há algum tempo, sobre o constante processo de exposição de idéias a que estamos vinculados na oferta ou na recepção de mensagens, de produtos... Veja:


Venda de ideias


Todo o complexo das relações humanas está, ininterruptamente, suscetível às compras e às vendas da sociedade de costumes. Afinal, vivemos numa estrutura social de consumo. Mais do que capitalismo econômico, é esse sistema de coexistência uma espécie de capitalismo ideológico, que atinge todos os patamares de relacionamento.
Parece curioso, mas todos somos vendedores de plantão, autônomos de ideias comercializáveis na dinâmica da rotina. A todo momento, estamos expondo nossos produtos na vitrine das relações humanas.
Constantemente vendemos (às vezes, implicitamente) mercadorias, ideologias e preferências. E mesmo quando não estamos fazendo uma negociação mercadológica explícita, estamos tentando passar nosso produto ou ideal adiante. Ainda que a nossa oferta não seja permutada por moeda, temos uma tendência natural a pregar determinada proposta, suas vantagens e promissoras susceptibilidades. E assim vendemos artigos que não advêm de produções próprias, pois propagamos independentemente até a nossa opinião ou gosto pessoal. Nesse sentido, é delicioso, às vezes, convencer o nosso interlocutor da qualidade de determinado produto que consumimos. Sem querer, falamos daquela marca de sorvete ou de nosso perfume predileto, porque parece necessário persuadirmos alguém quanto à qualidade daquilo que defendemos. É assim que, numa sociedade explícita de venda de ideias, estamos todos no jogo de um comércio inevitável, que nos acompanha por toda a vida.
E multifacetada é a venda ideológica permanente de que se acometem os grupos humanos. E tal se dá não somente dentro dos shoppings ou diante dos apelos de outdoors. Incessantemente, e em todo lugar, ocorre o já aculturado processo de ofertas e demandas do comércio social...
Ora, é o mundo um incessante intercâmbio de ideologias, proposições e seduções em todos os níveis. Na sociedade contemporânea, somos mercadores de tendências que se agrupam nos núcleos de intercomunicação. Comercializamos, além de produtos materiais, imagens, palavras, atitudes e sobretudo ideias, as mais latentes! Nesses casos, tentamos repassar ao "receptor mercadológico" aquela verdade que nos impomos e desejamos divulgar, levar adiante, numa venda antipecuniária de opiniões pessoais. É claro que nesse terreno devemos cultivar, preferencialmente, as searas da identificação e da aesão espontânea.
Neste momento, vende o balconista na loja, vende o ambulante no espaço urbano, vende o cambista na Bolsa, vende o publicitário a nova campanha, vende o doutorando a sua tese, vende o psicanalista o estádio do espelho de Lacan; vendem a doméstica, o corretor de imóveis, o escritor, o ator, o estatístico e o professor. Cada qual vende, em transferência construtiva, o seu pensamento e a sua ideologia. E eu, que não tenho liame direto com qualquer câmbio, fico, por vezes, um tanto perdida nesse campo de concretismo incontestável. O que fazer se, puramente, tenho alma abstrata de poeta?... Contudo, afinal, nesse movimentado mercado de ideias, acaso consegui "vender-lhe" a apologia da minha crônica?



Por Sayonara Salvioli



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