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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A MULHER COR-DE-ROSA

  

A MULHER COR-DE-ROSA






Não, não se trata de uma teoria de minha autoria pura e simplesmente. Aliás, nem minha, nem propriamente teoria, do tipo consolidada. Não é absolutamente como a minha lei da véspera ou a teoria da flexibilidade das verdades... Também não é como a minha chave-mestra, que sempre apresenta soluções e decifra questões metafísicas. É apenas uma constatação discutida, talvez um enigma com raízes em Freud. Mas o fato é que acredito na essência filosófica da mulher cor-de-rosa. Porque a mulher e a simbologia do rosa representam mesmo um teorema universal! Vejamos... 

Se você não sabe nada sobre o mito urbano da mulher cor-de-rosa, não estranhe e, menos ainda, não se considere desinformada(o). Esse não é um assunto corrente. Mas eu estou certa de ter ouvido algo muito expressivo a esse respeito já há algum tempo... E a partir daí analisei questões e reforcei o teor desse pensamento. 

Explico-me: chegou até mim a rósea e conceitual ideia de que a mulher tipicamente mau-caráter nunca usa rosa. Absurdo? Impropriedade? “Teoria” furada? Nada disso! Tenho observado vida afora – desde que fiquei sabendo dessa abordagem – que mulheres de sentimentos pouco nobres não costumam vestir-se de rosa, seja qual for o matiz ou a gradação da cor. Equívoco  ou pragmatismo? Também não. Se você é mulher, provavelmente já deve estar revirando a sua memória emocional aí e concluindo, de si para si, que é verdade o que falo...

Novamente me explico: mulheres costumam ter um bom radar na memória para o perfil geral das colegas de classe. Querendo ou não, costumamos ter na mente um dossiê estilístico de uma personalidade feminina, ou seja, com um pequeno esforço podemos nos lembrar do jeito de ser ou de vestir-se de alguma conhecida nossa. Assim, numa rápida retrospectiva mental, em alguns minutos, podemos nos lembrar de perfis de mulheres pouco afáveis que não incluem o rosa em seu guarda-roupa. Já está conferindo essa verdade aí no seu arquivo de lembranças úteis, amiga? Pense naquela mulher que nunca usa rosa... e racionalize se ela é bom ou mau-caráter [Estou pensando aqui que você já começa a concordar comigo!]...

Mas aos leitores da categoria masculina – leitores talvez mais analíticos diante de casos assim – eu peço um voto de confiança para o manifesto rosa-shocking. Já, já, vocês irão entender o significado dessa teoria... Homens, por favor, não escutem apenas o seu lógico racionalismo; por outro lado, também não exercitem a sua doce tolerância para com o ser “suave e indefesamente” feminino... Sejam somente razoáveis ao analisarem o tipo humano feminino cuja definição aqui proponho... Leitores, não falo aqui de falta de aceitação ou carinho para com a visão do ser feminino. Mais uma vez: não se trata disso! A suaveza e o bom olhar devem orientar a visão do homem sobre a mulher, de um modo geral. E isso deve permear todo relacionamento! E nós, mulheres – é claro! – merecemos  mimos, compreensão e atenção. Estou apenas pedindo que, nesta análise aqui proposta, procuremos sondar a alma feminina sob um prisma neutro, sim? E assim, por uns minutos, vejamos todos nós, – mulheres e homens, juntos – se essa teoria da mulher-cor-de-rosa realmente procede...

Lembro aqui, nesse enfoque, aquelas espécimens de “filhas de Eva” que demonstram clara tendência para um mal intrínseco de alma!  Falo destas para ilustrar a necessidade de se olhar com certo cuidado para algumas, capazes que são de destruir o planeta (risos)! É evidente que não desejo me expressar contra a minha própria categoria. Apenas estou listando mentalmente uma série de mulheres que não usam rosa nunca, e estas – podem apostar! – não têm a minha sensibilidade ou a sua, cara colega! Porque o rosa é como um enfeite natural da alma feminina!... Acredite neste teorema aqui lançado: a mulher que não usa rosa nas roupas, nas unhas, na maquiagem ou na decoração, decididamente, não tem a leveza e a verdade feminina originais.  

Acreditem: as más representantes da espécie feminina não aparecerão nunca na sua frente vestidas de rosa – seja o rosa-chá, rosa-médio, fúcsia ou pink! Por vontade espontânea delas, não! A não ser por uma determinação de algum personal stylist, por força contratual ou em alguma tentativa fraudulenta de parecer quem não são... Ora, está aí praticamente uma forma de identificação à primeira vista! Não existe o emblema da boa vontade ou da sublimidade na mulher que faz negação ao rosa!

Certamente, isso não quer dizer que toda mulher admirável tenha que ser seguidora constante da Penélope Charmosa. Apenas o contrário é que parece oferecer o resumo conclusivo do conceito: as mulheres do tipo mau-caráter jamais usam tal cor! Ou seja, não é que as boas precisem estar de rosa sempre, e, sim, as más que simplesmente – e nunca – aderem à tonalidade. Você pode acreditar nisso! 

Para comprovar perante mim mesma o (já quase) dogma, resolvi buscar no meu baú de registros humanos espécimens designativas da situação. E – após destacar, imediatamente, as três mais veementes criaturas que me vieram à mente – eu concluí pela verdade absoluta e integral do mito verdadeiro da Mulher-cor-de-rosa... Veja(m) só estes três tipos aqui: 

a)    A primeira se tratava de uma mulher inculta e não-bela, e que, designada a cargo temporário de mando, o fez com jugo ditatorial, hostilidade, intolerância e equívoco. Ou seja: "meteu os pés pelas mãos" e, em sua falta de sabedoria, despertou somente antipatia. Achava que estava “abafando”, mas quem a circundava apenas a considerava inepta para o tal poder momentâneo. Foi fácil resgatar na lembrança: a pretensa tirana nº 1 jamais usou rosa! Nem por um só dia!

b)      A segunda era uma mulher de jeito e aparência vulgares que insistia na figura de esposa respeitável e boa mãe de família. Fazia notável força para parecer boa gente e forjava comprometimento com o bem-estar de todos. Na verdade, não era nada disso; desconhecia princípios elementares de ética e humanidade... E não exercia nenhum trabalho ou qualquer vocação. Ao imiscuir-se em meio decente, valeu-se de talento alheio na tentativa  de se dar bem. Certamente, ela não leu na infância a fábula “A galinha dos ovos de ouro”. E o que nos interessa aqui: nunca, em qualquer tempo, foi vista usando rosa! Jamais usou a nossa linda cor!

c)   A terceira se tratava de pessoa egocêntrica e irresponsável. Nunca se importou com o caráter humano das circunstâncias e, em suas ações, sempre objetivou o próprio interesse apenas, acima de qualquer coisa. Mal-humorada, mal-intencionada e de modos nada gentis, chegou a dizer  certa vez, textualmente, em alto e bom tom: “detesto rosa!”. Hahahaha ;) Preciso dizer mais alguma coisa? 

É claro, amigos, que o fato mero de se usar ou não uma cor não poderá medir o caráter de qualquer pessoa – seja esta pessoa uma mulher ou um homem. Mas, convenhamos, existe aplicabilidade bastante comprovada no que se refere a certas mulheres, como as que aqui mencionei, não? Acho que valeria um estudo (risos pretensamente psicanalíticos). Por isso, sugiro: verifique a má amiga, a má familiar, a má namorada, a má funcionária, a má vizinha.. E repare no dia-a-dia se ela usa rosa! Aposte que não!

Por outro lado, nada mais simpático do que a representante do protótipo do bom humor e das boas intenções, aqui defendida nessa pré-apologia, e que podemos chamar de A MULHER COR-DE-ROSA – aquela figura feminina adorável que usa e adota o rosa em seu dia a dia: nas roupas, na parede do quarto ou na fachada do escritório! Esta mulher, sim, é símbolo de suavidade e força ao mesmo tempo... Porque o rosa é uma filosofia de vida! E reflete, como na teoria propagada, a seguinte verdade: a mulher-cor-de-rosa pode ser considerada um símbolo de harmonia e verdade universal! Porque os bons sentimentos – refletidos na roupagem rosa pink, por exemplo (o antigo e famoso rosa-shocking) –trazem na personalidade a marca da transparência e do sucesso! Por isso, a Mulher Cor-de-rosa sempre estará na moda e será indiscutivelmente podeROSA! 


Por Sayonara Salvioli

domingo, 12 de setembro de 2010

A rosa artificial


Melina guardava lembranças um tanto insólitas da sombria figura de Carlota Sholstein. Lembrava-lhe, sobretudo, a personalidade extravagante e desproporcionada, aquele vozeirão autoritário, de tom grave, saído surpreendentemente de uma mulher de estatura pequena. Carlota media cerca de 1,50 m, mas sua audácia e imponência pareciam forçar a sua imposição sobre o mundo.
Carlota, porém, e a despeito de personalidade tão pouco simpática, era ainda uma mulher bonita em sua face de sessenta e poucos anos e olhos verdes. Seus traços harmoniosos provavam que fora realmente bela na juventude e induziam à idéia de que, como sempre afirmava, tivera os homens a seus pés. Se isso fora verdade, não se sabe, o fato é que Carlota guardava ares abusivos e pretensiosos, aquele jeito de quem pisoteia o mundo e as pessoas, e acha que pode fazer isso.
Mas um detalhe se perdia nas histórias de vantagens da mulher: depois de seus alardeados anos de glória feminina, vivia agora solitária e amarga numa casa de cinco quartos que mais parecia um castelo-fortaleza medievo em tempos de hoje. Em lugar dos antigos saltos-agulha, usava chinelões fofos de matelassê, confortáveis e anatômicos. E as suas roupas agora eram discretas, assentadas no corpo, porém sem o destaque curvilíneo e aprumado de seus dias de diva. Restava-lhe, ainda assim, um pouco da silhueta: quem a olhava de relance podia vislumbrar um desenho esguio de corpo, em formas delineadas de elegância pessoal. Mas a sua persona, esta sim, não fazia bem aos olhos ou sentidos de quem quer que fosse, pois à sua visão se somavam certos pedantismo e artificialidade incapazes de causar qualquer empatia.
Melina se lembrava, por exemplo, de algumas frases repreensíveis da mulher, quando lhe fora apresentada a esta por Heloísa, sua amiga e sobrinha de Carlota. Dentre outras pérolas, a mulher disparara:
– Mas essa sua amiga é mesmo muito sem gracinha, Heloísa. Mulher tem que ser imponente! – e para Melina: – Você até que é bonitinha, menina, mas um pouco suavezinha demais para quem já tem catorze anos... Uma mulher, mesmo novinha, tem que aprumar o corpo e empinar o nariz quando passa por algum lugar, para todos saberem quem é que está passando por ali. Você tem que ser mais metida, Melina!
Heloísa até ficava com vergonha do jeito e das palavras equivocadas da tia. Carlota era uma mulher estranha, dessas típicas figuras estereotipadas de histórias exóticas, meio estapafúrdias mesmo. Embora quisesse parecer fina, primava pela deselegância de atitudes, e luzia um letreiro em sua fronte, o que era perceptível até mesmo para meninas suavezinhas de catorze anos.
Além das frases e dos trejeitos peculiares, Carlota contava muitas histórias, que pareciam cobertas de lenda, como por exemplo a da do “devotamento” de seu antigo noivo [noivado de 25 anos?!], que lhe oferecia, todos os dias, a lua e o sol de presente... Pífias histórias! Também gostava de narrar glórias de riquezas passadas, tentando esconder os louros - em ouro e euros – do presente. Heloísa, a respeito, afirmava com todas as letras que a tia era dona de considerável fortuna:
– Ela é cheia do ouro, literalmente: ouro em barra que ela guarda no banco!... tabletes e mais tabletes!!! Também tem aplicações que lhe rendem mais de 40 mil euros ao mês!
Mas Carlota, apesar dessa riqueza apregoada, não passava de uma sovina de marca. E o que era, de fato, verdade em sua vida não se sabe. O que ficou, afinal, de todas aquelas conversas de visitas vespertinas, junto de Heloísa, à casa de Carlota foi a imagem de uma mulher cheia de artificialidades, tantas que faziam dela uma espécie de biscuit humano fora de época. A lembrança de uma mulher falsa, fútil e carregada de maquiagem forte e apetrechos de mau gosto. Mas uma imagem forte, sem dúvida. Tanto que – mais de uma década depois – toda vez que Melina passa em frente à grande casa de Carlota, não consegue deixar de olhar para a sacada e procurar a rosa vicejante... O que vem a ser esta/ isto? Ahhnn... é a flor “de mentira” que Carlota amarrava à planta do centro da varandinha, para que todos a vissem lá de baixo. Ela dizia:
– Todos que passam pela calçada do outro lado da rua devem ficar imaginando como é que a moradora desta casa consegue cultivar uma planta assim?!... Tão fecunda que tem sempre uma rosa linda, enorme, vicejando e aberta! Que mãos de fada essa mulher tem! Nunca vi uma rosa tão bonita!... Ah ah ah ah!
Era uma vaidade boba, e que parecia mais boba ainda ao ser proferida por Carlota. No entanto, até hoje, quando passa diante da casa de Carlota, Melina estica o pescoço para ver se avista a flor.. E a encontra lá, invariavelmente, bela e magnetizante, fingindo ao mundo que é rosa! A moça imagina que, no dia em que levantar os olhos e não avistar a rosa, em todo o seu viço de mentira, entenderá que Carlota morrera.
No fim de contas, o que mais impressiona Melina na história de Carlota não é a sua imagem nem sua personalidade, e sim a lição do embuste de uma flor sintética amarrada a uma planta de verdade. Melina sempre pensa a respeito e põe-se a refletir sobre a branda inocência dos passantes da vida – transeuntes ignaros – que, muitas vezes, avistam ao longe uma flor artificial julgando tratar-se de uma linda rosa!
Por Sayonara Salvioli