Ser mulher é ter coragem – o que me veio à mente como obrigação no Dia Internacional da Mulher
Às mulheres
cabem direitos e obrigações, como aos homens, aliás como a quaisquer indivíduos
/ cidadãos participantes da dinâmica do mundo, seja em que organização
cultural, geográfica ou política for. Mas também a elas cabem atributos e
atribuições de toda natureza. À mulher foram endereçadas a feminilidade e a
resistência, a compreensão e uma tal inflexibilidade, a suavidade mais tênue e
a resistência à dor mais brutal.
Não só a mulher
de hoje como a de todos os tempos – desde a de Neanderthal – teve de enfeitar
os cabelos, orientar e alimentar os filhos e, ainda, guarnecer o seu homem
de cuidados e carinhos, bem como carregar nas costas o mundo, não importando o
seu peso ou a velocidade de sua rota orbital.
É claro que ser
homem não deve ser melhor do que ser mulher, mas plausivelmente é mais fácil.
Porque ao feminino estão reservadas as noites febris dos filhos, o seu
acompanhamento na escola, o terno e a gravata do marido [isso não é mentalidade
machista; é realidade corriqueira no cotidiano da maior parte das casas – quer por um zelo amoroso, quer como herança do patriarcado], o provimento da
despensa, a governança do lar, a supremacia do clã, a diplomacia com os
vizinhos, a administração do escritório e, muitas vezes, a prefeitura das
cidades. Vou pular a parte da "dita diretiva feminina" do Brasil de hoje. Ou seja – como em Gales,
na Índia ou nas Filipinas –, a grandes mulheres já coube e cabe a soberania das nações!
Além de tudo, a
mulher às vezes precisa ser samaritana e abarcar o mundo em seus braços
(amamentar filhos alheios, viabilizar acordos impossíveis, conceder perdão e
“apascentar rebanhos”), do mesmo modo que a ela – histórias das civilizações
afora – são atribuídas guerras e rupturas as mais radicais.
Mas vamos também
estabelecer com o ser feminino relações de prazer e primazia, como a da
maternidade, a do reinado familiar, a do poder de sedução, a do ornato de uma
jóia, a do caimento de um vestido, a da compra de sapatos(!), a do recebimento
de flores!... Sim, porque mulher gosta de se arrumar, frequentar salão de
beleza, cuidar da pele, ser acompanhada e receber mimos de ditos e
experimentados cavalheiros. Qual o problema em lhe abrirem a porta do carro, em lhe darem chocolates ou a precederem na descida da escada? E que mulher não gosta de ouvir palavras
gentis e receber cuidados, por mais decidida e forte que seja? Ora, mulher pode
ter a pele suave, o cabelo sedoso, mãos pequenas e pés delicados que – mesmo
assim, em espírito e determinação – sempre constituirá páreo para generais! E
não precisa de armas: silente, ela pode mover um exército ao perscrutar e
direcionar retaguardas, incitando ao conflito ou à paz.
Mas, além da saia ou do scarpin, dos brincos e das lantejoulas, mulheres têm
que ter mesmo elmo e capacete para as planícies e as encostas. Acho que todas
temos que usar seda, passar batom e, ao mesmo tempo, lustrarmos o metal da
adaga da casa. Por isso, creio que – além da profundidade dos olhos e a perícia
do oitavo sentido – a mulher precisa mesmo é de coragem! Esta me parece – com
boa possibilidade de acerto – a maior característica, muito possivelmente a
qualidade mais importante do arsenal feminino. Mulher necessita de coragem para
a hora do parto, para o exame da mamografia e para ir embora! Mulheres têm
mesmo as prerrogativas de decisão do adeus e de encampamento da solidão
escolhida. Mulher possui, de fato, força de defesa nos dentes, potência nos
braços para abarcar o planeta e asas nos pés para – viajante intrépida – sobrevoar o
mundo!
A mulher –
rainha e soberana na Terra de todos os tempos, a fada, a maga, a feiticeira – é
acima de tudo a guerreira bandeirante que desbrava o inóspito, abre canaviais
ou águas de Mar Vemelho para a sua passagem. Mas à mulher é exigida também a
tal da coragem simples, principalmente aquela de acreditar, de apostar no
sucesso e na concretização de seus planos, a coragem de sempre achar que ainda
é cedo para a felicidade e a vitória, pois mais ainda pode chegar! A coragem de domar o sono, a noite e a
selva das hostis relações da coexistência. A coragem de ser mãe e pai ao mesmo
tempo. A coragem de publicar ao mundo o inadmissível. A coragem de segurar os
ponteiros do relógio e ajustá-los às necessidades de luz ou ordem no planeta da
ebulição humana.
Como
representante da categoria, eu louvo aquelas que não se deixam abater e são capazes do desbravamento da própria clareira. Mulheres são entes sensíveis que absorvem
a intenção e as variações – climáticas, cronológicas e espaciais – do planeta.
E, além de tudo, colecionam esperanças e amores, jóias, plumas, livros de Antropologia, Astrologia, Física Quântica e Culinária, armas, sapatilhas, gamelas e flores!... Mulheres guiam ou expandem
tornados horizontes afora com a mesma decisão e naturalidade com que amamentam
ou embalam o berço do caçula. Mulheres sofrem de atrocidades na TPM e do
excesso de emoção dos regozijos!... Mas a elas cabem mesmo – e definitivamente
– a história do legado da coragem e da decisão da humanidade. Mulher pode decidir sobre divisas de
quintal ou acordos internacionais, derruba a dinastia do sutiã e o reinventa
mais personal, e, além de todo o resto, exerce a arte exigente da coragem do
sentimento.
Como mulher e
como ser humano, tenho vários defeitos de personalidade, mas procuro preservar
a minha mais genuína coragem: a coragem da escolha do sentido da estrada, a do
desafio ante o desconhecido, de tentativa de controle do tempo, a coragem,
sobretudo, de acreditar na certeza do hoje e na promessa do amanhã. A coragem de decepar a
rosa escarlate no recipiente real se esta for um problema para o reino!... A
mulher necessita de coragem para vencer céus, terras, leões e sauros para a
proteção dos filhos. A coragem de decidir exatamente, e com a devida fluidez, o que escrever na lauda em branco; a coragem da "mira convicta" no homem que escolheu para si, antes mesmo que este o soubesse. A coragem de não
temer o imponderável e o vindouro, na aposta certa da suplantação do mal, do
vazio e do ocaso. A coragem simples e cabal de vencer o fantasma, a ideia e a
figura estereotipada do medo. De insistir e persistir diante da
teimosia voluntariosa do não. De lutar tanto quanto possa contra o
poderio brutal e arraigado da morte. A coragem da fé, a mesma e tal antiga que
desloca as montanhas de lugar e muda a direção do vento!
Reiterando, penso
ter que me adonar da coragem de guiar o meu sonho e reinventar o meu próprio eu,
todos os dias, a cada novo cair de noite e no resfolegar da manhã... E creio
que um misto de todas essas ambiciosas intenções seja condição fundamental para
exercer a missão valente de ser uma mulher no mundo.
Por Sayonara Salvioli
6 comentários:
Ufa! Não sabia que ser mulher dava tanto trabalho... Estou até me sentindo a Mulher Maravilha depois de ler seu post! rs Brincadeiras à parte, só o dom de uma escritora aliado à sensibilidade feminina seria capaz de criar um texto tão forte e delicado ao mesmo tempo. Parabéns por ser essa mulher que inspira a todas nós!
Querida amiga escritora, seu texto traz o estímulo e a certeza de vitória que nós, mulheres, necessitamos para o enfrentamento de tudo que nos cerca e envolve!
E é muito bom poder ser representada por você na blogosfera, você que é um orgulho da nossa classe!
Obrigada!!!!
Parabéns pelo belo texto! Fiquei emocionada e com mais "coragem" depois que li sua mensagem de Dia da Mulher!!
Ameeiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
E VIVA a nossa classe, sutil e corajosa!!!
Parabéns pelo texto!!! lindo..
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