sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Clara claridade




Andar alto, apartamento claro, sol da manhã, vista mar.

Provavelmente, você já viu um anúncio assim. Note que os itens claro e sol falam da mesma coisa, mas são repetidos propositalmente, ainda que num espaço-limite de caracteres, para se reforçar a idéia de que o apartamento – objeto do anúncio – esbanja luminosidade.

Até então eu não havia percebido tais nuances de intenção – tão claramente delineadas – nos costumeiros excertos publicitários de imóveis para aluguel e venda. Mas, com as experiências da minha recente mudança de residência, percebi a incidência e a reincidência de tais detalhes nos sites e nos classificados de imobiliárias. Entretanto, de certo modo, não liguei importância ao fato, imaginando tratar-se tal aspecto de apenas uma preferência de algumas pessoas.

A generosa mãe-experiência-de-todo-dia, no entanto, tem me mostrado o significado essencial do vocábulo claridade – substantivo feminino designativo de luz, luminosidade, esplendor... na minha concepção imediata de seu teor semântico. Houaiss relaciona ao termo, em algumas de suas acepções, as noções de brilho luminoso, aurora, clarão, clareza, dia, luminescência, resplandecência, resplendor, sol. Na verdade, embora eu nunca tenha prestado atenção ao teor etimológico de claridade, logicamente eu sentia e sabia a sua expressividade. Afinal, quem não sente a energia intrínseca à Luz? Sabe-se de antemão que se trata de um bem sem igual, algo que ilumina espaços e abre caminhos... É claro que sempre fui cônscia disso. O que não me chamava a atenção, contudo, era a antonímia do termo, que remete a vocábulos-ideias como escuridão, nevoeiro, obscuridade, treva. Ora, tais palavras são capazes até de assustar, não é mesmo? Lembrando esses termos, parece que percebi – como que num clique – do real efeito da antítese luz / escuridão. Deve, pois, ser mesmo verdade que lugares claros (=iluminados) trazem bonança, afinal o seu oposto significa o obscuro, a treva, o tenebroso. Ora, se o opaco é ruim, então, opostamente o brilho só pode ser bom! Parece silogismo de uma só proposição, mas é mesmo verdade: além de quase todo mundo gostar da claridade, esta é bem mais benéfica e poderosa do que se pode imaginar.

E, na esteira da etimologia, chego ao teor semântico de claridade no contexto da vida. Refiro-me ao que pode significar, na sucessão dos dias, o fato de se estar, costumeiramente, em ambientes claros e iluminados... Ora, precisei aderir a uma fase mais solar para perceber uma série de coisas que não enxergava antes! Vejo agora como os ambientes da minha casa – antigamente, quase sempre, encerrados em cortinas, ante a luz de abajoures (por força de hábitos arraigados) – podem ficar mais receptivos à luz natural do sol!... Estou habitando um apartamento clean, onde os espaços, cheios de leveza, parecem adornar-se com a suavidade da luz do dia!...

Papos metafísicos à parte – tenho mesmo me rendido a uma convivência diária com o sol, de modo mais direto. Não que eu não gostasse dele antes (já fui, inclusive, uma habituée de banhos solares matinais), mas – por haver adquirido, há uns bons anos, o hábito de me encerrar em um mundo particular, entre livros, DVDs, telas, tapetes, cortinas e laudas – não me predispunha a absorver as horas diárias em consonância com o relógio do sol. Adentrava a noite, as madrugadas (isso ainda faço, mas com certo limite) e, no raiar do dia seguinte, tinha sempre uma história de sono vespertino para acertar... Fusos particulares dentro de um mesmo espaço geográfico!


Dentro dessa ótica – recentemente reinaugurada –, sem querer fiz ilações mentais quase dignas de um estudo (sem pretensões), lembrando vários aspectos que nos remetem à importância da claridade. E cheguei à conclusão de que muitas coisas na vida atestam a verdade do adágio: Deixe a luz entrar na sua casa. Mas não se trata somente de sabedoria popular (embora esta seja muito significativa em diversos casos). Falo de outros elementos... Afinal, todos preferem casas claras e buscam tal luminosidade não por acaso. Certamente não é à toa que no cinema vemos retratado o mal num contexto de trevas, assim como na Bíblia e na acepção comum das pessoas. E o reino-poderio da claridade já começa com a própria sentença divina registrada na descrição da gênese: FIAT LUX! (Faça-se a luz!) E tudo começou...

E o homem começou a habitar a Terra, e a inventar seus modos de viver. E o que marcou, então, primórdios primordiais desse tempo? A descoberta do fogo! Portanto, a luz!... No compasso da História, acontecimentos e simbologias também foram marcando a dicotomia claridade X treva. Haja vista a denominação Século das Luzes (século XVIII). Aqui se lembre o clarão ocorrido no campo das ideias: o Iluminismo. Na verdade, o movimento significou, justamente, intrínseca oposição aos preceitos da Idade Média, denominada de Idade Escura, justamente por lhe faltar a liberdade de pensamento do homem. Com o Iluminismo – a luz, pois! –, surgiu, ou se re-descobriu o clarão da razão humana, vindo à tona a ideia de valorização do homem como ente pensante e propiciador: mente iluminada!... E tal se refletiu na organização social e política da época. Como resultado natural de um novo pensamento humano – com conscientização e aprimoramento do antropos –, foram implantados os estados-nação, ampliaram-se os direitos das pessoas, enfraqueceram-se as oligarquias tão arraigadas... Abriu-se, então, caminho para a Revolução Francesa: liberdade, igualdade e faternidade... a partir da luz de uma razão recém-descoberta.

E Thomas Alva Edison inventou a lâmpada elétrica! E levou luz a toda parte! Fim absoluto de um tempo de sombras na casa e no cotidiano da humanidade. A claridade aí veio em forma de progresso, conforto e possibilitação energética. A propósito, você já pensou se não houvesse luz elétrica? Já se imaginou vivendo em uma época “clareada” apenas com tochas ou lamparinas? Impensável, não? Isso sem contar que toda a nossa vida diária estaria impossibilitada, afinal é impossível imaginar qualquer movimento dentro de casa sem um eletrodoméstico ou similar.

Fugindo ao contexto doméstico, nas matas também encontramos a força da antítese claridade / treva. Ou você não imagina como deve ser uma floresta à noite?... E também não é à toa que se chama de clareira o vão possibilitador em que não há vegetação dentro de uma mata...
Outro dado para esse tratado (risos) é o próprio símbolo de ideia, criatividade, insight, iluminação reveladora: a lâmpada! Quando se quer mostrar, simbologicamente, que se teve uma idéia, desenha-se uma lâmpada! Como a Lampadinha do Professor Pardal... Aliás, qual foi o símbolo escolhido para ilustrar a companhia permanente do cientista genial dos quadrinhos? A lâmpada – leia-se a luz –, e realmente não poderia ser outra!... Também quando as pessoas pensam não haver saída para os seus problemas, mas de repente acham a solução, costumam dizer que encontraram “a luz no fim do túnel”...

Aqui nos reportemos também ao tal ofuscante clarão divino, explicado até pela Ciência que as pessoas costumam dizer ter visto após saírem de uma EQM (experiência de quase morte)!...
Mas a idéia de claridade, do que é iluminado, não se restringe apenas a simbologias como essas. A luz é muito mais: como sugere o Gênesis – que a instalou no começo dos começos –, ela é essencial à vida! De fato, a Ciência mostra que sem a luz do Sol não haveria vida na Terra. A propósito, o Sol!... E a Lua! É preciso falar algo mais sobre o significado do resplendor?

Enfim, da sua mente à sua casa ou ao seu planeta, LUZ ( = CLARIDADE) é energia pura e poderosa para a sua vida! Aproveite-a, pois, e execute aquela mensagem diária da sua mãe (que, por sua vez, ouviu de sua avó): Abra as janelas, e deixe a luz do Sol entrar!

Por Sayonara Salvioli

P.S.: Eu estava com este texto escrito, prestes a ser publicado aqui no blog, quando houve o apagão!... Coincidências metafísicas ou não, os exemplos lembrados só vêm fazer coro a uma necessidade, conceitual ou prática, que temos: LUZ, em todos os sentidos, no conteúdo e na vida!

sábado, 31 de outubro de 2009

Desinventaram o relógio de pulso?


Acho que já falei aqui no blog que Santos Dumont encomendou o primeiro relógio de pulso a seu amigo joalheiro, o francês Louis Cartier, o mesmo da griffe de relógios, fundador da famosa joalheria. Na ocasião, segundo nos relata a história, o gênio da aviação inventara a parafernália ultramoderna porque estava cansado de usar o tal relógio de bolso... Afinal, a antiga geringonça requeria um tempo para ser tirada do bolso, sem contar que muitos modelos ainda tinham uma tampa que precisava ser retirada para que se pudessem ver as horas!... É fácil imaginar que isso não era nada cômodo para quem saía por aí dirigindo máquinas voadoras!

Muito bem, o tempo passou, e parece que as coisas foram revertidas: agora as pessoas deixam de usar o relógio de pulso, e, mesmo com todo o incômodo, preferem abrir a bolsa ou a mochila para tirar o celular e ver as horas!... Experimente, na rua, perguntar a alguém "que horas são"... Verá que a pessoa logo levará a mão dentro de uma bolsa, tateando até achar o celular, a fim de verificar a quantas anda o tempo e responder à sua pergunta! O que aconteceu, afinal: desinventaram o relógio de pulso?! Sim, hoje você pode contar nos dedos as pessoas que mantêm o uso do relógio; o marcador do celular é hoje o novo design de ponteiros-cronômetros!

E o grande paradoxo disso tudo é que a tecnologia – que, primordialmente, deve servir para tornar as coisas mais práticas – acabou invertendo o jogo dos valores, e, neste caso, traz de volta um hábito antigo de se buscar num bolso ou bolsa algo que, há mais de um século, já se podia trazer, fácil e acessível, visível no pulso!

Lembrei-me que, na infância e na adolescência, eu colecionava relógios e – mais que isso! – via o artefato-jóia como peça fundamental do vestuário e, acessoriamente, um elemento consagrado do modismo. Mas o tempo passou, e – com as novas tendências – temos hoje aparelhos pós-moderníssimos que exercem, entre mil outras, a função de relógio.

Às vezes me pergunto sobre que categorias de pessoas mantêm o uso do convencional relógio de pulso. Mas não posso responder com a precisão britânica de um francês (Cartier... risos), visto que o utilitário ainda se encontra em pulsos mirins com adornos cor-de-rosa, em pulsos aristocráticos abaixo de um rosto sisudo ou em pulsos rotineiros que, na emergência do trabalho, carregam no braço o fiscal das horas!

Paralelamente, não me furto a pensar na plausibilidade de uma diminuição de mercado, já que hoje a humanidade aprecia de tão diversos modos o fascínio do tempo marcado!... Não vemos na atualidade, por exemplo, um modismo tal que mexa em estruturas nesse sentido... E tal nem mesmo poderia se dar! Até porque tal impacto já teve lugar há mais de cem anos, quando uma nova febre agitava Paris: o Santos – protótipo feito por Cartier especialmente para Santos Dumont – havia aderido à reprodutibilidade em círculo nobilíssimo: o novo adereço adentrava os salões da alta roda masculina parisiense (sim, porque o relógio de pulso feminino já tinha sido inventado umas décadas antes)... E o design da obra de Cartier, seguindo inspirações do gênio brasileiro, era um tanto diferente e mais que inovador: uma caixa de metal, retangular, e alças de couro. Um deslumbre – e funcionalíssimo! – para a época! Louis Cartier passou, então, a comercializar o protótipo em sua famosa boutique na Rua de La Paix. E o modelo se consolidou na história da relojoaria... Tanto que, mesmo hoje com as tais cibernéticas invasões (celulares, iPhones, iPods), ainda há lugar para a tradição elegante de um legítimo Cartier. Um modelo tradicional ao estilo Santos, lançado em 2009 (mais de um século depois!) – com caixa de carbono e pulseira de lona –, por exemplo, é adquirido por seus apreciadores pela bagatela de R$20.330,00. E as pessoas nem usam mais relógios!...

Por Sayonara Salvioli

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Manias & excentricidades






Não é preciso sofrer de TOC para que se desenvolvam manias... Creio que todos temos um pouco disso, pois é inerente ao humano a característica da repetição, do condicionamento, uma tal reincidência sistemática de hábitos.O problema da mania na extensão das compulsões, sem dúvida, vai gerando distorções psíquicas. Naturalmente falo sem embasamento científico, aqui expressando tão-somente a minha experiência na área (risos). Mas há também aquelas manias engraçadas que tornam o nosso dia-a-dia mais divertido, e nos descontraem nas relações com outras pessoas. Afinal, quem não tem um parente excêntrico ou um amigo com manias estranhas?

Eu, por exemplo, tenho manias alimentares pouco usuais: adoro comer alho cru; sou fã de cebola crua, também. A coisa é tal que chego a provar molhos às colheradas, para o espanto de Verônica, que os prepara já em quantidade maior do que para uma simples salada. A coitada fica apavorada quando vê o nível de prazer gustativo com que faço ingestão do produto!... Minha filha, no campo alimentar das excentricidades, já gosta dos sabores azedos: adora limão no estado bruto da matéria, em quantidade e com nível intenso de acidez.

Tenho outras manias e preferências gastronômicas esquisitas, mas sofro também de outros hábitos que fogem ao usual, como o de sair de casa sem a chave... da casa! Felizmente já melhorei bastante. Mas quando me mudei para o Rio, vez por outra ficava “do lado de fora de casa” por haver saído sem colocar a chave na bolsa... Batia a porta... e estava trancada ao contrário! Mas nunca detectava na hora, é claro! Saía de casa com a mesma evasão mental de sempre, com a cabeça na lua da minha pauta diária... Só percebia o autoembuste quando, de volta a casa, procurava a chave na bolsa... e nada!... Cadê chave? Resultado: especializei-me em localizar e contratar serviços de chaveiro a qualquer dia e a qualquer hora no Rio de Janeiro, aí incluindo domingos e feriados. Também aprendi a “pechinchar” em chaveiros, pois eles – vendo a sua aflição de estar do lado de fora de casa – pesam a mão e cobram os olhos da cara!... E o detalhe maior dessa história é que o “profissional que tem na mão a chave da sua casa” faz isso com um pé nas costas, num átimo! Em menos de dois minutos ele abre aquela tranca que, aos seus olhos, parecia quase irreversível, impossível de abrir... O cara ainda mostra um sorrisinho cínico, como se mostrasse que salvou a sua vida em alguns segundos.. e aí, dá-lhe preço alto! Foi por isso que acabei aprendendo a refutar o valor cobrado, me manifestando:

– Mas foi tão fácil para o senhor fazer isso! Por que vai me cobrar tanto?

Minhas reivindicações, no entanto, não valiam muita coisa; apenas geravam um abatimento no preço elevado de liberação da porta de casa. Porém, após tantas peripécias nesse sentido, hoje não mais passo por isso: descobri a fechadura com bola fixa! Yuuuhuu! Bola fixa... Já ouviu esta locução substantivo-adjetiva? Pois eu não conhecia também. Por que ninguém me falou nisso antes?

Outra mania que tenho é a de recomendar restaurantes para os amigos e visitantes. A coisa funciona assim: você me visita, e eu o levo a um lugar de minha preferência, e ainda faço mil outras recomendações paralelas... Tenho noção disso. Mas sem noção mesmo é minha prima Cíntia, que, se você a visita, ela lhe mostra todas as farmácias e clínicas do entorno... Motivo: tem fissura por inovações em medicamentos e tratamentos clínicos, de qualquer especialidade, inclusive opções alternativas. Ela diz:

– Olha, naquela rua ali tem uma clínica de fisioterapia que é óóótima... Lá eu faço Pilates e RPG três vezes por semana! É uma maravilha! Ah... volta um pouco, Sávio, volta, volta... aqui, Sayonara, está vendo que fachada bonita? Aqui eu venho aos sábados para fazer uma massagem m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a com pedras quentes do mar Cáspio! Um luxo... E aquela farmácia ali, menina, uma coisa: preço bom e tem de tudo... produtos de reformulação estética, farmacologia de homeopatia e qualquer item de alopatia! Cada produto com componentes de ervas que você precisa ver!... Compro tanto lá, Seu Romualdo me adooora... queria até que eu abrisse uma conta!

Mas as manias de Cíntia não param por aí: ela chega a ser exímia conhecedora de tudo de novo que surge no âmbito. Certa vez, peguei a agenda da semana dela, e não contive as risadas enquanto lia. O planejamento da semana marcava para todos os dias, em cronômetro religioso, as seguintes programações: segunda-feira – geoterapia (tratamento holístico com elementos da terra); terça-feira – musicoterapia (com um musicista acadêmico da World Federation of Music Therapy); quarta-feira – talassoterapia (tratamento com água do mar); quinta-feira – cinesioterapia (tratamento baseado no poder curativo do movimento); sexta-feira – helioterapia (medicina dos raios solares).

É ou não excêntrica a minha prima Cíntia? Ela ainda reclamou que aquela semana não lhe permitiria, por motivos tais e tais, fazer seus outros tratamentos, como cristalterapia, hidroterapia e cromoterapia. E defendeu veementemente a helioterapia, com o seguinte discurso:

– Pois é, ficam falando por aí que o sol prejudica, prejudica... pois sim: os raios do sol combatem todos os problemas respiratórios e matam qualquer tipo de germe, sabia? Mas eu não fico só no método holístico, não, sabe... também não abandono certas normas tradicionais de cuidar do organismo, mental e fisicamente; não dispenso meu clínico alopata e um bom psicoterapeuta, dos freudianos!

Mas, em meu círculo familiar, a campeã mesmo é a minha mãe! Tal não mais se classifica em hipocondria, visto que já se cristalizou a sua mania por remédios! Isso mesmo: em sua casa não há uma farmacinha como nas demais; ela não armazena remédios simplesmente numa daquelas maletinhas com uma cruz vermelha na tampa. Não! Existe lá um cômodo (inteiro!) que nomeei como almoxarifado de remédios. Isso mesmo! Tal como num almoxarifado funcional de uma empresa, lá ela exerce todo o seu talento organizacional (na verdade, ninguém organiza nada melhor do que ela!), na medida em que assegura que o remédio adequado seja encontrado, na devida quantidade, em local específico, no momento exato de sua necessidade! Seus critérios rigorosos de armazenamento permitem à farmácia doméstica conservação e qualidade em produtos de alopatia, homeopatia, fitoterapia e similares. Aposto que você já adivinhou o quanto ela e minha prima Cíntia são amigas! Não imagina o quão excitante à diversão é uma conversa das duas!... tsc tsc tsc...

Mas, cá entre nós, quem sou eu para falar de excentricidades: troco a noite pelo dia, como coisas atípicas e sou capaz de preterir um interessante passeio em polo turístico a uma ida, na própria rua, a um restaurante alemão ou a uma feira gastronômica de tendências no Cais do Porto!... E no tocante a remédios, tenho uma mania horrível: jogo todos fora! Na infância, ante as insistências da minha mãe, que estipulava horários para que eu tomasse vitamina A, vitamina, B, C, D, E F, K (e do alfabeto inteiro!), eu os presenteava às plantas.. Os canteiros do jardim viviam cheios de cápsulas bicolores! (risos)... Piores ainda que essas excentricidades todas são as suaves fobias que apresento. Mas isso é matéria para outro e outro post...


Por Sayonara Salvioli

P.S.: As imagens que você vê acima são: alguns dos numerosos potinhos de remédio que a minha mãe coloca na minha mala cada vez em que a visito... e um momento- termoterapia da minha prima Cíntia!...




segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Radiografia de brinco


Dia desses, eu estava sozinha num restaurante de shopping, almoçando tranquilamente, com os pensamentos elevados à evasão, quando uma voz me interpelou:

– Desculpe interromper... Posso tirar uma radiografia do seu brinco?

– ???

Olhei para a mulher: era ruiva, alta, e apesar de ostentar bons trajes e adereços, tinha qualquer coisa de primária. Também exibia certa desfaçatez.

Meio sem graça, percebeu que precisava se explicar:

– Ah... Desculpe o mau jeito. Meu nome é Andréa Couto; sou designer de jóias – e tirando o cartão da bolsa – Tenho uma loja de bijouterias aqui perto, o endereço tá aqui... E eu a-d-o-r-e-i o seu brinco! E quero tirar uma radiografia dele!

Naquele instante, só vinham à minha mente definições usuais do termo radiografia (em Radiologia, processo que permite obter, numa superfície sensível, a imagem de um objeto em raios X)... Mas também me ocorreram outras ramificações de semântica para o vocábulo, também usado para se designar uma espécie de detecção de uma instituição, de um eleitorado, de determinado perfil etc. Mas radiografia de brinco era uma expressão inusitada, pois como poderia alguém desejar verificar a estrutura interna do brinco? Talvez a idéia fosse identificar a natureza de suas pedras? Não, não pode ser isso; não deve ser uma curiosidade típica de ourives ou algo parecido. A menos que seja...


– ...Uma xerox do seu brinco, entende? – tornou a mulher.


– Ahh... entendo! Pode tirar, sim... claro!

– Olha, você pode até vir comigo, tá? Sei lá... no mundo de hoje, você pode até achar que quero afanar o seu brinco – falou a desconhecida interlocutora, dando-me tapinhas no ombro.

– Imagine! Não estou pensando isso.

– Ah, mas pode até pensar... Um brinco lindo desses! – e abaixando a voz, perguntou:

– É jóia?

– Não; é bijou.

– Ah, sim, então eu posso levar?

Meio sem jeito, respondi tirando um dos brincos. Não pude deixar de perceber que as pessoas da mesa ao lado nos observavam, e o garçom que atendia à minha mesa não parava de passar para lá e para cá, tentando entender a estranha abordagem da desconhecida.

Andréa Couto arregalou os olhos quando viu que eu lhe estendia o brinco, e me puxando pela mão, disse:


– Venha comigo! Tem uma papelaria aqui nesse piso mesmo, aqui do lado.


Voltei, peguei a minha bolsa de mão, deixei minha executiva na cadeira onde estava, disse ao garçom que já voltava (sou conhecida da casa) e acompanhei a mulher. Entre o restaurante e a papelaria, ela me explicou melhor a situação:

– Sabe, quando vejo um brinco de que gosto muito costumo reproduzir, fazer outro igual, sabe? Mas esse seu é muito sofisticado, e eu achei melhor vencer a vergonha e te pedir emprestado pra uma xerox...

Eu só assentia com a cabeça.

Chegando à papelaria, a criatura pediu “uma xerox deste brinco”, e o balconista a olhou com estranheza, mas atendeu a seu pedido de cliente, naturalmente. Quando o brinco já ia ser “radiografado”, a designer se dirigiu a mim, novamente:

– Desculpe abusar, mas você não poderia tirar o outro brinco? Vai ficar mais bonitinho... E também pode haver algum detalhe melhor em um que no outro, e isso pode facilitar a confecção da cópia do brinco, entende?

Entendi e tirei o segundo brinco, passando-o às mãos da personal designer. Depois, fiquei ali parada, disfarçando um risinho incontido de canto de lábio. Não consegui conter o riso, porém, quando ela reforçou ao atendente:

– Por favor, faça uma cópia, para ela levar também – referindo-se a mim.

Voltamos ao restaurante, onde ela antes tinha ido almoçar, diga-se de passagem. Até que rimos bastante, e Andrea pareceu-me, então, bastante simpática, apesar de um tanto maluquinha. Mas quem sou eu para falar isso?

Como antes eu já estava terminando de almoçar, pedi apenas uma sobremesa. Mas a designer, que agora dividia a mesa comigo, almoçava a velozes garfadas:

– Não repare a minha afobação, mas hoje não tomei nem café da manhã, por causa da correria. Estou com fome mesmo! – e ria como que de si mesma.

Levantei-me e já ia me despedindo quando a nova conhecida perguntou:


– E você, o que faz? Qual a sua profissão?

– Sou escritora. E já fiz uma radiografia sua para o meu blog.

O leitor sabe que procedi a tal raio X desde o começo da narração; desde o primeiro momento, fiz o meu juízo de valor. Mas a mulher não sabia. E, apesar de antes aparentemente tão descontraída, revelou-me num só olhar um claro temor. Li nas entrelinhas como que um pavor seu de ser descoberta, desmascarada em sua identidade (será que falsa?!), como se a nós, escritores, fosse facultado o dom de fazer radiografias de almas alheias por aí, perscrutando suas verdadeiras intenções, suas frustrações e insuficiências, enfim, seu medo de serem vistas tal como são, sem qualquer possibilidade de disfarce ou autossublimação. E será que não podemos mesmo?

Por Sayonara Salvioli

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Um peixe dentro d'água


Dizem que os piscianos precisam morar perto da água. E é verdade. No meu caso particular, andei analisando os lugares em que vivi e não deu outra: sempre me banhei de paisagem – e aquática!

Nasci numa cidade banhada por um rio. Vivi os primeiros anos numa localidade bipartida, ou seja, uma cidadezinha com um rio no meio. Lá morei até os 19 anos, e costumeiramente fazia poemas em honra ao lugar, olhando “... uma ilha próxima, um rio passante, do outro lado a capela”... Depois, me estabeleci em nova cidade dividida por um rio: duas margens, duas bandas; apesar de una, performaticamente quase duas cidades... Na medida dupla de peixes, signo zodiacal que vem em duo, molhado pela água e transpirando sensibilidade pelas guelras!...


Anos e anos depois, vim morar perto de uma grande banheira, onde me senti acolhida, ante a visão de uma baía à minha frente. Da janela, observava belos veleiros que, a certa distância, pareciam barquinhos com uma vela branca no mar... Também observava os coqueiros e as gentes na praia. Mar, chuveirão na areia, água de coco, sorvete e picolé no grito aquoso do ambulante!... Sete anos após, segui adiante e vim parar precisamente em frente ao mar! Diante de minha janela, saudei o casamento do oceano com o horizonte, ambos vestidos de intenso azul!

E aqui estou a molhar a sua leitura com as imagens líquidas de minhas palavras! Água nos meus sentidos e no meu relato... O pisciano é assim: necessita de um aquário para viver! Até o seu olhar, por vezes lânguido, noutras brilhante, apresenta uma superfície fragilmente aquosa... Tudo em Peixes é água: até os seus sentimentos! Estes, ainda mais: ondulantes, delineiam-se liquidamente e adquirem a forma de seu recipiente. Peixes denotam muitas águas: águas de março e fevereiro desembocando nos sete mares da emoção universal!... Ah, evasões líquidas à parte, somos mesmo um mar de histórias!...

Com todo esse fluxo de emoções e pensamentos, porém – próximos à superfície da água – precisamos mesmo de tal contexto para darmos vazão à nossa profundidade existencial. E sermos realmente felizes perto daquilo de que gostamos e que nos dá vida. É verdade!... Faça uma busca mental de seus amigos piscianos, e contabilize quantos deles moraram ou moram perto d’água. Não que isso seja algo planejado pelos nativos de Peixes, mas simplesmente porque seus caminhos corredios o levam a tais destinos... Em alguns casos, ainda que inconscientemente, escolhem profissões relacionadas ao mar, a algum reservatório ou similares (oficial da Marinha, funcionário da CEDAE, oceanógrafo, arqueólogo submarino, salva-vidas etc.)... Por isso, se pisciano, é melhor que você procure um lugar perto d’água para viver e, talvez, um ofício também ligado à água... E a sua vida fluirá corrediamente e com liquidez! (risos)...


Enfim, é a água a fonte e o refúgio natural de um ser de Peixes, que literalmente transpira água por todos os poros!

Por Sayonara Salvioli

domingo, 12 de julho de 2009

Julho: o arauto da mudança


Segundo a Angelologia, quem nasce sob a influência do anjo Manakel possui inspiração para artes, com destaque para a poesia. Algumas especificações de perfil / designações deste anjo sobre o protegido referem-se a seu dia de sorte (no meu caso, 7), ao horário em que se encontra Manakel na Terra (entre 21h40min e 22 horas) e ao mês de mudança (julho). Concordo com tudo isso, exatamente por sempre haver feito poesia (lembro-me de versos de quando tinha sete anos de idade), por ficar sempre feliz e esfuziante à noite (especialmente no horário de passagem destacado) e, finalmente, porque mudanças – na exata acepção do termo –, sistematicamente, têm ocorrido em minha vida no anunciador e preciso mês de julho.

Também concordo – é claro! – quando leio que pessoas nascidas sob tal influência contam com uma proteção especial de Deus, afinal, como o leitor sabe, já sonhei que – em determinado momento – uma corte de 640 anjos me circundava!... Não preciso, pois, dizer mais nada...

E especificamente sobre o mês da mudança, segundo a regência do anjo da data do meu nascimento, aqui estou aqui para comprovar a veracidade de tal revelação, já que – todos anos, invariavelmente – as mudanças mais substanciais começam a ocorrer para mim a partir do mês de julho. Às vezes até parece que meu ano começa em julho, dada a reincidência de fatos que me mobilizam a partir do sétimo mês do calendário anual.

Concretamente, a mudança, no sentido de transferência de residência, também – e realmente! – ocorre em julho. Já por três vezes (das quatro mudanças que fiz em toda a minha vida), a mudança ocorreu nessa época... E o movimento no sentido da retomada de ritmo e anseios acompanha, com fluência, essa guinada talvez marcada – quem saberá?! – por Manakel...

E, se é para mudar, que a metamorfose se opere do melhor modo: novidades visuais e de entorno são bem-vindas, na medida em que até as coisas físicas precisam mudar para acompanhar o compasso da alma. Sim, sou movida pela completa animação dos sentidos (anima = alma). Acho que imprimo minha alma em tudo que sou e faço. E penso que os lugares que habito e as coisas à minha volta também necessitam de alma para se coadunarem com a minha vivência/expressividade interior. Em outras palavras, tudo precisa de anima (animação) para dar tom e vida ao mundo. Contrariamente, o estático petrificaria a matéria... Divagações metafísicas à parte, quero mesmo dizer que, na cadência da mudança, busco o sentido das coisas, pois acredito nas destinações que, magicamente, nos são apresentadas, por vezes mudando parte do curso de nossa história.

Em penúltima análise (nenhuma será a última), acho que a face anima da vida pode estar, dentre outras coisas, nesse caráter transitório que modifica ou substitui nosso habitat costumeiro, deslocando-nos para outra paragem, seja esta uma serra, um vale, um planalto ou um balneário... Em qualquer estância, afinal, que a influência maravilhosa de Manakel possa abençoar meus atos e intensificar o melhor tom de minhas mudanças pessoais!...


Por Sayonara Salvioli