sábado, 15 de fevereiro de 2025

 

CRÍTICA DE TEATRO 

Peça A VIDA NÃO É JUSTA: um casamento perfeito entre realidade e dramaturgia

Por Sayonara Salvioli


Texto primoroso de Andrea Pachá, com direção criativa de Tonico Pereira, celebra em cena os 70 anos de carreira de Rosamaria Murtinho


Elenco e diretor
  Foto: Divulgação 


A arte tem o poder de causar comoção e espasmo, entretenimento e prazer, reflexão e atitude. 

E o teatro é, sobretudo, o palco-mor das representações humanas mais originais. 

Assim é que a peça A VIDA NÃO É JUSTA aborda, de forma pungente e até visceral,  conflituosas relações familiares. Mais do que isso, propicia ao espectador a possibilidade de verdadeira sinestesia diante da cena teatral. 

Um real espetáculo

O latim, assim como Freud, explica e clareia quase tudo. E é o significado do substantivo espetáculo – trazido lá da semiótica dos nossos antepassados – que define, em essência, o que vivenciei ao assistir a esta peça no domingo, 9 de fevereiro.

Spectaculum quer dizer: ato de ver.  Mas a locução não significa simplesmente o ato de ver ou enxergar algo; significa ver além: contemplar algo que passa a ideia do extraordinário, aquilo que é uma verdadeira exaltação diante de nossos olhos. Assim é que um espetáculo tanto é maior e mais potente quanto maior a capacidade com que desperta essa contemplação no seu espectador.

E foi uma potencial contemplação da cena teatral que pude experimentar em minha ida, desta vez, ao SESC Copacabana, já no último dia do espetáculo em sua curtíssima temporada. 

A VIDA NÃO É JUSTA me permitiu aquele carrossel cênico de percepções que só um espetáculo verdadeiro consegue transmitir ao espectador, em total envolvimento. Em minha absorção sinestésica da cena teatral, fui do drama ao humor, da reflexão ao suspense. Não houve um só instante de dispersão nesse arrebatamento (não só meu, como da plateia).

Para isso acontecer de forma tão avassaladora – o alcance nítido do espectador –, um tripé de felizes congruências aconteceu. Numa peça que fala de separação, se deu o casamento perfeito entre texto magistral, direção perfeitamente consoante com a trama e interpretação prodigiosa. A harmonia foi tal entre esses três elementos estruturais, que, durante todo o espetáculo, não houve outra possibilidade cênica além do caminho natural para o espectador se envolver e emocionar.

A interseção entre dramaturgia e direção pode ser representada, metaforicamente, pela potencial mescla do rico texto de Andrea Pachá com a direção criativa e absolutamente congruente de Tonico Pereira. Aqui se destaque, igualmente, o trabalho de excelência do adaptador Delson Antunes, que não perdeu a expressão de uma só linha do texto original ao fazer o transporte do livro para o palco. A transmutação de formato não maculou a linguagem; pelo contrário, ajudou a corporificar o texto literário de tantas revelações humanas. 

O livro adaptado

A obra literária que gerou a peça A VIDA NÃO É JUSTA – de autoria da Juíza de Direito, escritora e dramaturga Andrea Pachá – traz relatos sensíveis e pungentes de uma rotina de tribunal. O cerne do livro é o registro dos dilemas humanos e sociais que a magistrada julgou ao longo de duas décadas à frente de uma Vara de Família, período em que realizava cerca de doze audiências por dia.

O espetáculo pinçou oito dessas questões. Em formas variantes de atos cênicos plenos, tais episódios de Justiça foram abordados em situações e diálogos que colocam o público frente a frente com a juíza – o eu-lírico do livro, na sua difícil atribuição diária de analisar e decidir circunstâncias familiares as mais complexas. São histórias de traições (adultério virtual em foco) ou supostas perfídias, partilhas e partidas, feridas emocionais e físicas, rupturas, reconciliações e recomeços.

Tudo isso na peça – narrado com trilha sonora boa, inspirada e irreverente, numa direção muitíssimo inteligente (primaz mesmo), cenografia dinâmica e iluminação de impacto – ganhou vida, cor e forma a ponto de fazer a plateia se sentir sentada numa sala do tribunal.

O espetáculo alcança de tal forma o seu objetivo, que é como se cada espectador, durante os atos cênicos, comungasse com a juíza – protagonista e narradora – a missão de decidir sobre aquelas vidas repletas de dúvidas e frustrações.  

Duas vertentes, especialmente, impressionam o espectador na poltrona: a corporificação perfeita dos personagens no contexto de uma direção que nos incita a emoção: o espectador ri com abundância e, ao mesmo tempo, franze o cenho em suspense (!!!); e, sobretudo, a sabedoria salomônica da magistrada ao julgar cada caso  e com delicado viés de afetividade, empatia e sentido humanitário.  

Estrelas da interpretação

A performance realística dos “personagens do campo de batalha familiar” é outro dos suportes dramáticos do êxito da peça.

É justo coroar com a devida láurea a atuação ímpar (sempre brilhante) da veterana Rosamaria Murtinho, atriz emblemática que há sete décadas enriquece a dramaturgia nacional. Simplesmente cintilante em cena, premia o espetáculo  em suas três diferentes  personagens  com a naturalidade de quem domina a cena desde que adentra o palco. É pisar a ribalta de Shakespeare e, in continenti, arrebatar a tudo e a todos (!). É sempre um regalo vê-la atuar. E é necessário realçar que seu talento é ainda mais imperioso que todo o vigor que a atriz exibe com seus 92 anos de brilho.

Enfatize-se aqui, de modo especialíssimo, a sólida atuação da atriz Lorena da Silva, cuja espontaneidade cênica a faz incorporar, em moldes perfeitos, a protagonista-narradora, no papel primaz da juíza de Direito cuja narração é o grande vetor da história. Não há nenhuma variação em toda a linha de atuação da intérprete da protagonista, atuação essa marcada nos 80 minutos de peça por uma estabilidade dramática digna de nota.  

E o espetáculo ainda entrega mais: os movimentos de cena de todo o elenco (aqui, o reflexo claro do trabalho de Marina Salomon) estabelecem um diálogo ágil com o texto, numa notável dinâmica de palco.  Nas performances particulares, a verve de humor contagiante do talentosíssimo Bruno Quixotte, a formidável comoção cristalina e camaleônica de Marta Paret, a versatilidade de Rafael Sardão, a precisão dramatúrgica de Wilson Rabelo e, aqui se realce, a expressão sem igual da carismática atriz Duda Barata, brilhante por saber impactar em preciso instante de cena.

Verdade cênica na polivalência de gêneros

A peça alcança tanto êxito ao passar verdade cênica, que a vivência das histórias parece extrapolar as raias do palco. E algo que deve ser atribuído à direção – a partir de texto tão possibilitador – é o caminho rápido com que se passa de um gênero dramatúrgico a outro: da risada de humor espontâneo à profundidade dramática.

A peça A VIDA NÃO É JUSTA consuma no palco, com facilidade, algo que é considerado muito difícil em dramaturgia: unir de três a quatro gêneros numa mesma história. De acordo com o teórico internacional Robert Mckee – guru dos roteiristas de Hollywood –, um produto cultural dramatúrgico será de qualidade indiscutível quanto mais se diversificarem os gêneros na dramaticidade: drama, humor, romance, suspense... E foi o que observei e senti, de modo claro e pungente, neste espetáculo.

Há muito o teatro não me proporcionava experiência tão envolvente e ricamente artística.

Que se faça jus, afinal, à concepção visionária do idealizador do espetáculo, o produtor, jornalista e diretor teatral Eduardo Barata, que viu na trama e em sua adaptação o caminho certeiro de um desses espetáculos cênicos que marcam época, conteúdo e estilo. Todos os vivas a esse teatro integrador. E que venha a próxima temporada! 


                                             Com a atriz Rosamaria Murtinho 

                                                    Com o diretor Tonico Pereira

                                                      Com a atriz Lorena da Silva

                                                      Com o idealizador do espetáculo 
                                                      e produtor Eduardo Barata


FICHA TÉCNICA:

Texto original: Andréa Pachá
Dramaturgia: Delson Antunes
Direção: Tonico Pereira
Idealização: Eduardo Barata


Elenco:

Rosamaria Murtinho
Bruno Quixotte
Duda Barata
Lorena da Silva
Marta Paret
Rafael Sardão
Wilson Rabelo


Gesto e movimento: Marina Salomon
Cenário: Paulo Denizot e Jana Wendling

Fotos: Cristina Granato


terça-feira, 10 de setembro de 2024

 

CRÍTICA DE CINEMA | 

POR SAYONARA SALVIOLI


 Ainda que com insipiências, A VIÚVA CLICQUOT é um filme necessário

        A saga admirável de uma mulher precursora, inventiva e corajosa

                                       


Não, não trago aqui hoje a resenha crítica de um clássico. Nem na concepção nem na duração / no timing preciso de tela; falo de uma produção fílmica contemporânea que, em apenas 89 minutos (muito breve para a trama), apresenta  na superfície  uma história que deveria ser maior em oferta ao espectador em diversos sentidos. Afinal, em seu cerne, o longa dirigido por Thomas Napper  A Viúva Clicquot: a Mulher que Formou um Império  busca brindar o espectador com uma história de vida que é uma verdadeira lição. E isso Napper consegue: a produção é um verdadeiro brinde a uma mulher que é lição de inteligência, pertinácia, ideal e visão de negócios.

Assim foi a empresária e industrial precursora que construiu seu império particular na França do primeiro decanato do século XIX:  Barbe-Nicole Clicquot-Ponsardin, eternizada como a Viúva Clicquot, ninguém menos do que a conhecida Grande Dama do Champagne.




Pouco tempo para muita (e boa) história

O roteiro não atende ao chamado da história, que é ótima, no entanto só se consumaria, em toda a sua pujança, num contexto dramático mais narrativo e incitante. E, definitivamente, uma produção de menos de 90 minutos de um roteiro insipiente não alcança a proeza de narrar, com a necessária robustez, uma saga tríplice: um drama familiar, a origem do charmoso champagne francês e o pano de fundo sociopolítico das guerras napoleônicas.

De modo bem diferente daqueles filmes que, por missão, nos prendem à poltrona do cinema por longo tempo [longa-metragens perenes, tais como os icônicos Titanic (exatas três horas de duração), ou  À Espera de um Milagre, em suas três horas e nove minutos de oferta de emoções marcantes, ou, ainda, o formidável A Lista de Schindler, que nos avassala durante o período integral de 3 horas e 15 minutos] este  apesar do approach familiar e simbólico num contexto de história da França, background particularmente atrativo não perfaz um ritmo na medida da (originalidade da) trama.

Trata-se de uma cinebiografia que requer reforços, pois sua temática, mais do que polêmica, é necessária. E vibrante na sua essência, já que a Viúva Clicquot foi uma grande mulher e, por tal, merecia um retrato fiel e abrangente na tela grande. Não apenas por estes tempos atuais e seus clamores, mas pelas histórias clamejantes femininas de todos os tempos.   

Mesmo sendo um filme (também) incipiente no seu modus operandi, surpreendentemente se dá um certo processo de empatia, e o espectador se sente atraído por uma mulher extraordinária  que influenciou o seu tempo  e o nosso! Afinal, quem aí não conhece o champagne do rótulo laranja que, por toda a parte, adorna mesas e faz borbulharem, com especialidade, taças cristalinas no Réveillon e outras ocasiões especiais?


Story line forte e fotografia pictórica

Também este não é um texto publicitário; é uma análise fílmica de um produto audiovisual que, se não impacta por uma direção brilhante ou por uma estética inovadora, guarda em si alguns filetes de qualidade, como a consistência da story line e da protagonista, bem como a beleza indiscutível na direção de fotografia. Sim, o argumento é amplo, de excelência e seria possibilitador se o roteiro não sofresse o que se pode chamar de um modesto approach em seu cadenciamento.

Contudo, o longa cumpre o papel sagrado do cinema de fazer vibrar na telona uma história de verdade: mesmo não contada na efervescência (devida) das borbulhas do Veuve Clicquot, o sabor da trama se faz sentir em sua essência. Isto quer dizer, no final das contas, que independentemente da abordagem da história é passada a mensagem ao público da mulher inteligente e poderosa que transforma um produto e seu tempo. 


A trilha real da protagonista / Em cena, Barbe-Nicole

Na pele da atriz estadunidense Haley Bennett, é impressionante a trajetória de Barbe-Nicole Clicquot-Ponsardin a herdeira francesa dos vinhedos Clicquot —, que também o era por ascendência paterna (seu pai foi um rico prefeito de Reims, a mais importante cidade da região de Champagne-Ardenne).

Viúva já aos 27 anos, durante todo o casamento Barbe-Nicole dividira com o falecido cônjuge o gosto por experimento com bebidas, sendo, portanto, uma verdadeira aficionada de vinicultura. O então marido  o dândi Monsieur Clicquot, o instável François (Tom Sturridge)—, que a trama entrega como suicida [em narrada vivência de fragilidade, aparente vício e doença (ao tempo da histórica febre tifóide)], fez questão de passar à jovem esposa sua paixão e à promissora vinícola da família. Após sua morte, pois, a missão com as folhas de uvas e seu primoroso extrato, gota a gota, foi transferida para a sua firme e jovem mulher, que abraçara a causa com ardor, ideal e... engenho. Sim, a Viúva Clicquot tinha um gênio empresarial raro, como bem demonstrou nos anos da década (de ouro!) de sua construção industrial e comercial.

Recusando-se a escutar o sogro, que praticamente ordenara que ela vendesse a propriedade, ela, como que numa intuição de negociante fora do comum, simplesmente deixou de passar o vinhedo adiante para...  o vizinho de sobrenome Moët! Sim, caro leitor, o detentor original da (também) conhecida marca dos nossos tempos Moët Chandon... E assim, com toda a sua antevisão, se dá a história da criação de um império por essa mulher, que não aceita qualquer poderio masculino a interpor-se entre ela e o comando de seu negócio.

Firme, ousada e habilmente controladora, à testa da vinícola familiar, Barbe-Nicole, ante as opressões de uma sociedade patriarcal engessada, resiste em sua solitude e, ao mesmo tempo, sua autonomia de administradora dos bens agrícolas de François Clicquot, bens e produtos esses que ultrapassaram as fronteiras da França para que a grife de bebidas pudesse se tornar o que é hoje. E isto num tempo em que uma mulher assim tinha que enfrentar (e vencer!) um tribunal constituído de arbitrários julgadores (todos homens, claro!) a clamarem desrespeitosamente que uma mulher não poderia ficar à frente de um negócio. Uma sociedade determinante de mulheres fadadas à submissão e à derrota pessoal. Pois foi nesse meio e em tempos de guerra que Barbe-Nicole se fez vencedora.

Beleza de cenários I Direção de fotografia digna de nota


A fotografia do filme essencialmente por se passar, em proximidade geográfica e simbólica com a região de Champagne (no nordeste da França, na fronteira com a Bélgica bem ao norte do país) é garantia de beleza e comoção cênica. Com os núcleos de filmagem praticamente centrados na região (vizinha) de Chablis (foco no Chateau Beru), a produção coleciona frames de puro encantamento estético e conceitual; a sofisticação das cenas parece um processo natural (não é fruto de arrojo na direção do longa, absolutamente), mas um reflexo dos cenários artisticamente absorventes: as externas do olhar fotográfico de Caroline Champetier (!). Este sim no viés específico de apuradas lentes reúnem paisagens belíssimas e harmonizadas com o espetáculo local do cultivo da uva, vinha a vinha...  Aí se pratica o tom de uma direção fotográfica de primor. Sem dúvida, o filme atinge fortemente o espectador neste ponto. 


Locações e processos do vinho branco de excelência, sinônimo de elegância

Aqui se dá uma sincronia de cenário com o approach do sentimento dos protagonistas, sinestesicamente voltados para os lindos e frutíferos vinhedos que são a alma daqueles terrenos franceses. Há, a propósito, aqueles que considerem que em nenhuma outra parte do globo se plantam, colhem e borbulham essas frutas simbólicas e cristalinas como na região de Champagne e suas adjacências igualmente vocacionadas ao vinho de borbulhas não por acaso dando esse nome singular à bebida-padrão do charme, do glamour e das celebrações. Sim, numa vivência do chamado “cinema total”, absorver a fotografia do filme é quase como sorver a bebida transformada por Barbe-Nicole em seu(s) precioso(s) processo(s) de aprimoramento do champagne.  


É uma pena que não hajam sido explorados conhecimentos (mesmo rasos) da enologia de Barbe-Nicole, pois isso no tom adequado poderia seduzir o público — o tema é vibrante. Infelizmente, o espectador sai do cinema sabendo apenas que Madame Clicquot foi a criadora do champagne rosé (na verdade, só se passa a conhecer o rosé uma década depois do desenrolar cronológico do filme). Contudo, é justíssima a atribuição de pioneirismo à Viúva que manipulava o nobre líquido propiciador de prazer, pois embora na França se diga que outros produtores contribuíram nos processos — foi Barbe-Nicole a responsável por técnicas como remuage, essencialmente. Pois antes dela a bebida era algo turvo e apresentava excesso de resíduos, sendo por meio do primeiro método que se chegou à limpidez do champagne. A propósito, a viúva inventiva é a responsável também pelo beneficiamento trazido pelo método dégorgement... Tudo isso explica a inegável soberania da grife Veuve Clicquot ainda na contemporaneidade... Barbe-Nicole, ao dar vida e efervescência às deliciosas bolhas do champagne tal como o conhecemos hoje, fez sua marca chegar a valores unitários de garrafa que, na atualidade, oscilam entre  R$690, 00 e R$4.900,00, aproximadamente.

Paradoxos Menções especiais para a produção: os bons acertos | Economia ideológica

As lacunas e a modéstia do script não puderam ofuscar, felizmente, a precisa reconstituição de época, com realística cenografia e figurino fiel. Estes foram pontos altos no filme de Napper.  

Entretanto, uma economia no discurso ideológico (pretendido?) se faz sentir claramente no que tange à questão em si do feminismo (o filme podia mostrar muito mais a potencialidade feminina quando o cerne da trama é comandado por uma mulher de tal naipe). Paralelamente a isso, silêncios e evasões colocam reticências nas cenas denotadoras da bissexualidade (pouco mais que insinuada) de François. O mesmo se diga da performance prenunciada da própria protagonista, Barbe-Nicole, em sua relação aparentemente intimista com a criada Anne, vivida pela talentosa atriz Natasha O’Keeffe.

Nessa seara de sentidos reclusos, o roteiro se retrai e contrai, não concedendo direito ao discurso direto. Falha grave, já que cinema não pode ter economia de sentidos. Isto, aliás, é o contrário do que propôs Bazin.

Prodígios do elenco: a química entre os personagens de Haley Bennett e Chris Larkin

A interação entre Bennett e Larkin foi além do roteiro: os atores se harmonizaram como os vinhos, por assim dizer, com a relação amorosa que a Viúva Clicquot estabeleceu com o seu distribuidor nas terras do czar. Aqui, um perdão pelo spoiler ou, dadas divulgações prévias, o filete de informação dramatúrgica não chega a tanto? 

Da distribuição à expansão de fronteiras ao tempo de Napoleão


E à Viúva Clicquot em todo o seu gênio comercial couberam ainda dificuldades outras, para além de lutar contra intempéries da natureza, em desníveis climáticos, ou amargar perdas de safras inteiras. Extrapolando as experiências ruins e (quase!) o declínio completo do negócio do vinho, a negociante audaz ainda teve que combater as adversidades de uma guerra (!).  E, ainda mais do que isso, usá-la a seu favor. Já pensou, caro leitor e espectador, o que é amargar prejuízos com uma estação hostil e destruidora, ao mesmo tempo em que falta tudo, nos campos e nos lares,   em decorrência de batalhas desoladoras? Pois esse foi um dos cenários que o roteiro (mesmo incipiente e superficialmente) apresentou. E, sim, por isso e por muito mais nas entrelinhas, vale a pena abandonar o conforto do seu streaming e ir até o cinema mais próximo para conhecer esta história!

Quanto às campanhas de Napoleão versus Champagne Clicquot (aqui sem qualquer oferta de spoiler), fica a ressalva elogiosa à comerciante revolucionária que, num inóspito âmbito de destruição, foi capaz de fundar um império. Sim, a saga e as safras Clicquot se desenvolveram e frutificaram no bojo dos anos implacáveis das Guerras Napoleônicas!... Destaque neste ponto, especificamente, para a campanha da Rússia, onde as tropas do lendário general francês foram abatidas pelo exército do czar... 

Foi quando a invasão comandada por Napoleão Bonaparte ameaçou o negócio do champagne, simplesmente porque atingiria/impediria o consumo da clientela-mor de Madame Clicquot, representada pelos figurões nobres russos.  Contudo, apesar do clima bélico impeditivo (comprar e beber o líquido do país oponente era um acinte pátrio), ainda assim a Viúva Clicquot negociou com Alexandre I e venceu a batalha das garrafas, fixando para sempre seu rótulo na economia francesa. 


E as borbulhas do vinho branco nobilíssimo estouraram no ambiente hostil da derrota napoleônica para a Veuve Clicquot — esta, opostamente, a literal celebração da vitória, delineando a formação de seu próprio império.

Em última análise fílmica, tanto aqui se disse sobre a estrela da produção, que fica fácil concluir que, apesar das inconsistências, o longa cumpriu o papel de uma cinebiografia: fazer o espectador se interessar pela história de vida do(a) protagonista. Nisso, o filme do britânico Napper cumpriu a missão.

E, acima de tudo, A Viúva Clicquot – A Mulher que Formou um Império mostrou ser um filme importante para a sociedade e a Sétima Arte como testemunho, pois afirma e reafirma a força sublime da mulher vencendo desafios até mesmo em tempos impensáveis para o (verdadeiro) feminismo. A cinebiografia é um depoimento autêntico do feminismo real — aquela condição soberana que faz de uma mulher o centro do que ela deseja, irremediavelmente, com a capacidade absoluta que tem, se assim o desejar, de pôr todos a gravitarem ao seu redor(!). E brindar a esse poder resoluto e inconteste! Sim, ser feminista não é menos que isso. 

A Viúva Clicquot – A Mulher que Formou um Império | Widow Clicquot

EUA, 2023, 89 min
Direção: Thomas Q. Napper
Elenco: Haley Bennett, Tom Sturridge, Chris Larkin, Ben Miles, Anson Boon, Cecily Cleeve, Sam Riley e Natasha O’Keeffe
Roteiro: Christopher Monger e Erin Dignam (baseado no livro A Viúva Clicquot – A História de um Império do Champagne e a Mulher que o Construiu).

Distribuição no Brasil: Paris Filmes

Sayonara Salvioli é escritora, dramaturga e roteirista, com formação acadêmica - Graduação em Roteiro de TV e Cinema, Pós-Graduação em Linguística Aplicada e Literatura Comparada e MBA em História da Arte e da Cultura Visual. 


terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Com direção magistral e estética inconfundível, Tarantino suplanta a si próprio em ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD

Por Sayonara Salvioli


O filme é uma produção de 2019 (coparceria entre Estados Unidos e Reino Unido) e ganhou os holofotes esperados – até pelo próprio tema – por ocasião do Oscar no ano seguinte. No entanto, ERA UMA VEZ EM HOLLYWOD, uma obra-prima de Tarantino, prova a cinéfilos, críticos e espectadores por que é um daqueles filmes atemporais... 

Em princípio, realço aqui uma condição de cinéfila convicta: assistir a um filme de Tarantino será sempre vivenciar o “Mito do Cinema Total”, de Bazin. Seria este um modo mais do que realístico de vivenciarmos a cinematografia. De acordo com o teórico francês, isso significa o máximo que um filme pode conseguir com um espectador: leva-lo à esfera de uma vivência tão absoluta da telona, que é como se entrasse nela, numa espécie de consumação sinestésica do filme. Desse modo, haveria uma “sensação total”, a qual se afiguraria como uma paralela duplicação de realidade.

Pois bem, na minha opinião, Tarantino alcança essa proeza em seus filmes de época. Assim também foi com Pulp Fiction (USA, 1994). E a obra fílmica recriada no ambiente dourado de uma Los Angeles em seu apogeu – é a meu ver um novo retrato móvel da teoria de Bazin. Essencialmente porque Tarantino, mais uma vez, glocaliza a plateia  no exato universo pintado na tela! O cenário de seu universo ficcional é tão refletor de tal período histórico-cultural (o escolhido da vez), que nos sentimos presentes à cena, como se participantes de sua ficção bem-proposta. Assim é com o vivíssimo cenário dos Anos 60 de Era uma vez em Hollywood.





Da trilha sonora ao cenário – passando pela iconografia (principalmente a publicitária) – o espectador é convidado, cena a cena, a visitar a época e o contexto sociocultural do filme. E isso é simplesmente fantástico! Reafirmo que, para mim, é este um dos principais prodígios cinematográficos do genial diretor – e plenamente consumado no longa que, em 2020,  arrebanhou dois Oscars: o de Melhor Direção de Arte e o de Melhor Ator Coadjuvante. Nas indicações, concorria também às estatuetas de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (principal) e Melhor Roteiro Original, ou seja, recebeu seis indicações.


Além disso, desde a sua estreia – no Festival de Cannes, em maio de 2019 –, havendo sido indicado à Palma de Ouro e ganhando o Palme Dog, foi alvo feliz de nítida aclamação crítica e candidato/detentor de diversas outras premiações. Não por acaso! Além das 10 indicações ao prêmio BAFTA, foi agraciado no Globo de Ouro nas categorias Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante. Sim, Brad Pitt emblematizou nesta produção! Interpretando o peculiar e charmosamente irônico personagem Cliff Booth –, o arrebatamento do espectador é notório. Seu alcance e sua vibração são tais, que o espectador não raro o vê como ator principal do filme. Sim, Pitt supera facilmente o personagem talhado para o protagonismo nesta produção, Leonardo DiCaprio, na pele do (fictício) ator hollywoodiano Rick Dalton. Pitt faz o seu dublê, mas acaba superando em muito o magnetismo do personagem principal, roubando a cena estupendamente. Tanto que venceu todos os prêmios praticamente: também o Critics’ Choice Awards e, ainda, o SAG Awards.



Bom, a “apologia” de algumas das minhas considerações anteriores nesta resenha, por si só, já ressalta a justa premiação do filme por tantas “bancas de arte”. Tarantino também arrematou os títulos de Melhor Filme do Ano pela AFI Awards; Melhor Filme, melhor Roteiro Original e Melhor Design de Produção (C.C.A.). E é esse quesito de Design de Produção que vai ao encontro, propriamente, da escolha da majoritária Academy of Motion Picture Arts and Sciences por sua Direção de Arte, reafirme-se. Dos detalhes de propaganda na TV do período à abordagem dos cenários (e dos transeuntes, dos veículos, etc.) nas ruas, tudo é apresentado ao espectador como sendo um empréstimo de realidade. E assim foi a primorosa direção de arte: da estética geral aos detalhes de recriação (de revistas, “reclames”, objetos, cartazes e produtos mercadológicos da época), é impressionante o talento do genial Quentin Tarantino em apropriar-se cinematograficamente de outras lentes do tempo.

E esse tempo revisto pelo diretor faz passar, panoramicamente na tela (inclusive de nossa imaginação), os memoráveis "Cowboys" do mais tradicional Faroeste, o Spaghetti Western satirizado na trama, o Kung Fu de Bruce Lee e, de modo pictórico, o universo Flower Power da década inesquecível, tudo, tudo pintado em tintas de uma realidade vibrante não mais retornável. 

E o elenco, lançando lume ainda mais ao filme, traz ninguém menos que o astral Al Pacino, que faz na trama o personagem Marvin Shwarz. Daquele jeito todo dele! 


Já da presença da interpretação feminina, a força vem da australiana Margot Robbie, que encontra bela consonância física na personificação de Sharon Tate – a triste protagonista do contexto trágico que, supostamente, o argumento do filme intentou recriar. A atriz fica muito bem na tela, principalmente nas cenas de metalinguagem do longa. Aliás, Tarantino também consolida muito essa proposta – de um filme dentro do filme – em vários momentos da produção. Faz isso precisa e emblematicamente!


Para além da dimensão das personas do filme, de sua já dita e bem-fadada direção artística e de sua configuração perfeita de realidade, está um olhar filosófico-reflexivo enviesado na mensagem cinematográfica: há nuances de insinuação e denúncia nas bases do que teria acontecido em torno da fatídica noite de agosto de 1969... Você reparou nas falas colocadas na boca do personagem Cliff (e suas entrelinhas)? Mais do que isso, prestou atenção aos diálogos entre Sharon e seu ex-namorado, o cabeleireiro Jay Sebring (Emile Hirsch), propostos sugestivamente pelo roteiro?

De resto, é preciso destacar – no contexto das personalidades da trupa hediondamente assassina – o horror em cena destacado pela horrível persona (no filme modificada nominalmente) Susan Atkins, vivida no longa por Mikey Madison. Na triste realidade que foi o assassinato cruel da atriz Sharon Tate [esposa do enigmático diretor Roman Polanski (Rafal Zawierucha)], foi Atkins quem desferiu os golpes – principal agente da consumação horrenda de que foi mentor o psicopata Charles Manson. Se você ainda não viu o filme e não conhece a história real por trás da trama fictícia, sugiro pesquisar sobre o caso policial Família Manson/ Tate-LaBianca.

Para finalizar essa resenha, me valerei de algo que me comoveu – imensamente! – e fecha, com chave de ouro fidedigna, a produção de Tarantino centrada na Hollywood dos Anos Sessenta. Foi simples e maravilhosamente poético o enfoque final do roteirista/diretor: Sharon Tate não morre na sua versão... Tarantino prefere deixá-la viva e apostar numa realidade alternativa para a sua figura, meio que a mantendo numa espécie de “feliz e propícia bolha da ficção”... A despeito de toda a configuração contextual e do momento histórico do crime, o filme acaba como se a tragédia não tivesse acontecido. Nas tintas de sua telona, o diretor propôs um outro desfecho, em que os brutais assassinos da realidade de 69 – liderados naquela noite por Susan Atkins – fossem combatidos antes que pudessem chegar à casa da mulher de Polanski. E na Hollywood tarantiana Sharon permanece linda, jovem, viva e esfuziante!... Perenemente – nas raias do que a ficção pode proporcionar, já que é livre para fazer algo acontecer, para “carimbar a realidade”, para eternizar o que bem quiser... Poesia pura! Sim, Quentin Tarantino com isso me ganhou e surpreendeu mais uma vez. Na verdade, mais do que sempre.