CRÍTICA DE TEATRO
Peça A VIDA NÃO É JUSTA: um casamento perfeito entre realidade e dramaturgia
Por Sayonara Salvioli
Texto primoroso de Andrea Pachá, com direção criativa de Tonico Pereira, celebra em cena os 70 anos de carreira de Rosamaria Murtinho
A arte tem o poder de causar comoção e espasmo, entretenimento e prazer, reflexão e atitude.
Um real espetáculo
O latim, assim como Freud, explica e clareia quase
tudo. E é o significado do substantivo espetáculo – trazido lá da semiótica dos nossos antepassados –
que define, em essência, o que vivenciei ao assistir a esta peça no domingo, 9
de fevereiro.
Spectaculum quer dizer: ato de ver. Mas a locução não significa simplesmente o ato de ver ou
enxergar algo; significa ver além: contemplar algo que passa a
ideia do extraordinário, aquilo que é uma verdadeira exaltação diante de nossos
olhos. Assim é que um espetáculo tanto é maior e mais potente quanto maior a capacidade
com que desperta essa contemplação no seu espectador.
E foi uma potencial contemplação da cena teatral que pude experimentar em minha ida, desta vez, ao SESC Copacabana, já no último dia do espetáculo em sua curtíssima temporada.
A VIDA NÃO É JUSTA me permitiu aquele carrossel
cênico de percepções que só um espetáculo verdadeiro consegue transmitir ao espectador, em total envolvimento. Em minha absorção sinestésica da cena
teatral, fui do drama ao humor, da reflexão ao suspense. Não houve um só instante
de dispersão nesse arrebatamento (não só meu, como da plateia).
Para isso acontecer de forma tão avassaladora – o alcance nítido do espectador –, um tripé de felizes
congruências aconteceu. Numa peça que fala de separação, se deu o casamento
perfeito entre texto magistral, direção perfeitamente consoante com a trama e interpretação
prodigiosa. A harmonia foi tal entre esses três elementos estruturais, que,
durante todo o espetáculo, não houve outra possibilidade cênica além do caminho
natural para o espectador se envolver e emocionar.
A interseção entre dramaturgia e direção pode ser representada, metaforicamente, pela potencial mescla do rico texto de Andrea Pachá com a direção criativa e absolutamente congruente de Tonico Pereira. Aqui se destaque, igualmente, o trabalho de excelência do adaptador Delson Antunes, que não perdeu a expressão de uma só linha do texto original ao fazer o transporte do livro para o palco. A transmutação de formato não maculou a linguagem; pelo contrário, ajudou a corporificar o texto literário de tantas revelações humanas.
O livro adaptado
A obra literária que gerou a peça A VIDA NÃO É JUSTA – de autoria da Juíza de Direito, escritora e dramaturga Andrea Pachá – traz relatos sensíveis e pungentes de uma rotina de tribunal. O cerne do livro é o registro dos dilemas humanos e sociais que a magistrada julgou ao longo de duas décadas à frente de uma Vara de Família, período em que realizava cerca de doze audiências por dia.
O espetáculo pinçou oito dessas questões. Em formas variantes de atos cênicos plenos, tais episódios de Justiça foram abordados em situações e diálogos que colocam o público frente a frente com a juíza – o eu-lírico do livro, na sua difícil atribuição diária de analisar e decidir circunstâncias familiares as mais complexas. São histórias de traições (adultério virtual em foco) ou supostas perfídias, partilhas e partidas, feridas emocionais e físicas, rupturas, reconciliações e recomeços.
Tudo isso na peça – narrado com trilha sonora boa, inspirada e irreverente, numa direção muitíssimo inteligente (primaz mesmo), cenografia dinâmica e iluminação de impacto – ganhou vida, cor e forma a ponto de fazer a plateia se sentir sentada numa sala do tribunal.
O espetáculo alcança de tal forma o seu objetivo, que é como se cada espectador, durante os atos cênicos, comungasse com a juíza – protagonista e narradora – a missão de decidir sobre aquelas vidas repletas de dúvidas e frustrações.
Duas vertentes, especialmente, impressionam o espectador na poltrona: a corporificação perfeita dos personagens no contexto de uma direção que nos incita a emoção: o espectador ri com abundância e, ao mesmo tempo, franze o cenho em suspense (!!!); e, sobretudo, a sabedoria salomônica da magistrada ao julgar cada caso – e com delicado viés de afetividade, empatia e sentido humanitário.
Estrelas da interpretação
A performance realística dos “personagens do campo
de batalha familiar” é outro dos suportes dramáticos do êxito da peça.
É justo coroar com a devida láurea a atuação ímpar (sempre brilhante) da veterana Rosamaria Murtinho, atriz emblemática que há sete décadas enriquece a dramaturgia nacional. Simplesmente cintilante em cena, premia o espetáculo – em suas três diferentes personagens – com a naturalidade de quem domina a cena desde que adentra o palco. É pisar a ribalta de Shakespeare e, in continenti, arrebatar a tudo e a todos (!). É sempre um regalo vê-la atuar. E é necessário realçar que seu talento é ainda mais imperioso que todo o vigor que a atriz exibe com seus 92 anos de brilho.
Enfatize-se aqui, de modo especialíssimo, a sólida
atuação da atriz Lorena da Silva, cuja espontaneidade cênica a faz incorporar,
em moldes perfeitos, a protagonista-narradora, no papel primaz da juíza de
Direito cuja narração é o grande vetor da história. Não há nenhuma variação em
toda a linha de atuação da intérprete da protagonista, atuação essa marcada nos
80 minutos de peça por uma estabilidade dramática digna de nota.
E o espetáculo ainda entrega mais: os movimentos de cena de todo o elenco (aqui, o reflexo claro do trabalho de Marina Salomon) estabelecem um diálogo ágil com o texto, numa notável dinâmica de palco. Nas performances particulares, a verve de humor contagiante do talentosíssimo Bruno Quixotte, a formidável comoção cristalina e camaleônica de Marta Paret, a versatilidade de Rafael Sardão, a precisão dramatúrgica de Wilson Rabelo e, aqui se realce, a expressão sem igual da carismática atriz Duda Barata, brilhante por saber impactar em preciso instante de cena.
Verdade
cênica na polivalência de gêneros
A
peça alcança tanto êxito ao passar verdade cênica, que a vivência das histórias
parece extrapolar as raias do palco. E algo que deve ser atribuído à direção – a
partir de texto tão possibilitador – é o caminho rápido com que se passa de
um gênero dramatúrgico a outro: da risada de humor espontâneo à profundidade dramática.
A
peça A VIDA NÃO É JUSTA consuma no palco, com facilidade, algo que é considerado
muito difícil em dramaturgia: unir de três a quatro gêneros numa mesma
história. De acordo com o teórico internacional Robert Mckee – guru dos
roteiristas de Hollywood –, um produto cultural dramatúrgico será de qualidade
indiscutível quanto mais se diversificarem os gêneros na dramaticidade: drama, humor, romance, suspense... E foi o
que observei e senti, de modo claro e pungente, neste espetáculo.
Há
muito o teatro não me proporcionava experiência tão envolvente e ricamente
artística.
Que se faça jus, afinal, à concepção visionária do idealizador do espetáculo, o produtor, jornalista e diretor teatral Eduardo Barata, que viu na trama e em sua adaptação o caminho certeiro de um desses espetáculos cênicos que marcam época, conteúdo e estilo. Todos os vivas a esse teatro integrador. E que venha a próxima temporada!
Com a atriz Rosamaria Murtinho
Com o diretor Tonico Pereira
Com a atriz Lorena da Silva
Com o idealizador do espetáculo
FICHA TÉCNICA:
Texto original: Andréa Pachá
Dramaturgia: Delson Antunes
Direção: Tonico Pereira
Idealização: Eduardo Barata
Elenco:
Rosamaria Murtinho
Bruno Quixotte
Duda Barata
Lorena da Silva
Marta Paret
Rafael Sardão
Wilson Rabelo
Gesto e movimento: Marina Salomon
Cenário: Paulo Denizot e Jana Wendling
Fotos: Cristina Granato