terça-feira, 21 de junho de 2011

Calendas cibernéticas



Estava olhando o calendário, e me dei conta de que o ano está na metade da laranja. Visualizei na mente uma série de pequenas (e grandes) ocorrências que vêm permeando o dia-a-dia dos mortais no planeta 2011. Ocorreu-me, então, que – nessa era de superexposições e individualidades espetacularizadas – consistências pessoais estão perdendo terreno. A preponderância do todo está fazendo perder-se a parte; os indivíduos emaranham-se, ora, no universo vasto do múltiplo. Isso não contraria o princípio da tendência de fracionamento, que passou a vigir com o advento do pós-modernismo. Refiro-me a uma vastidão e multiplicidade tais que acabam por tirar, por vezes, a independência e a manifestação personal, com particularidade, daquilo que é individual, único, exatamente pelo caráter globalizador (contemporâneo), que tudo abarca e, muitas vezes, despersonaliza. Nessa esteira de propensões, se faz necessário cuidar das próprias prioridades, a fim de que não se percam marcas e tempos pessoais.

Num ritmo galopante de convergência de mídias, a proliferação de informações tem resultado, muitas vezes, numa grande confusão de pessoas, perdidas entre a multivariedade de hiperlinks e atrativos de todos os tipos. Todo mundo hoje tem milhares de prerrogativas para acessar algo ou consumir um ideal (dimensões simuladas de realidade, tour virtual, vitrines multifacetadas – é até difícil escolher!). Diante de opções tão atraentes, inúmeras são as vias entre o desejo pessoal e sua consumação. Em décadas anteriores, havia uma delimitação para entretenimento, consumo, cultura. Hoje as pessoas têm, aparentemente, um mundo de possibilidades a seus pés (ou à sua mão), e às vezes não sabem como usar seu tempo, seus meios e suas vontades. Second life, IMVU e um universo de virtualidades ante usuários divididos entre as ofertas exteriores e as próprias demandas internas... Muitas dúvidas antes de se eleger um livro ou um filme, uma academia de ginástica ou um destino turístico. Numerosas opções de atividades a serem vivenciadas no parco período das vinte e quatro horas diárias!

Já não é fácil efetuar qualquer dinâmica de ciclo na escolha de um caminho. Um universo de céus opcionais paira sobre a pobre cabeça humana, impotente às vezes até para pequenas decisões de rotina. Mas é oportuno reverter essa medalha da multiciplicidade cibernética, escolhendo-se as melhores alternativas (e mais adaptáveis a cada um) para o prazer e a realização pessoal. É fundamental que nós, agentes e pacientes desses novos tempos, saibamos caminhar por entre os letreiros da metrópole sem nos desviarmos do destino desejado. Nenhum turbilhão pós-moderno à nossa volta, quer em eventos, quer em atrações, deve emperrar a roda-viva dos acontecimentos. Os tais tempos futuristas chegaram, e é preciso acompanhar a dinamicidade de um universo ultramovimentado, simultaneamente a nossos objetivos. É interessante seguir essas tendências, como se na velocidade da luz, mas de olho permanente nas nossas aspirações.

Nesse terreno de discussões acerca de efeitos ultramodernos sobre a nossa vida, paradoxal se mostra o poder de axiomas antigos, capazes de nos ajudarem a absorver a complexidade do novo. Pode parecer incrivel, mas, nessa sociedade cultural hiperdesenvolvida, é oportuno mencionar a dita sabedoria da vovó. Acredite: ela bem que resiste aos apelos eletrônicos do milênio cibernetizado! Prova disso é que, frente a dilemas atuais, frequentemente se fazem lembrar os ensinamentos do tempo da carochinha (risos). Todo mundo escutou, por exemplo (aliás, a vida inteira), o velhíssimo adágio: Não se deixa para amanhã o que se pode fazer hoje. Não, não se trata de um ultrapassado clichê, meramente: é um axioma com total possibilidade de acerto. Uma verdade antiga que acompanha perfeitamente a evolução do pensamento e da tecnologia, a qual se fagocita a toque de dígito! Afinal, diante do frenesi cotidiano, mais rápido e desenvolto precisa ser o seu itinerário de ação pessoal. Todos têm que se desdobrar em renovadas marchas de velocidade. Contrariamente, todos estaremos empurrando a velha roda. E empurrar o presente é um modo de se alimentar (e inchar) o passado com coisas vãs, aniquilando-se o futuro. Em outras palavras, cada vez que você enrola a vida, mais caminha em direção contrária ao tal "porvir", que obviamente você quer que venha... Em qualquer campo - seja nas relações pessoais, sociais ou profissionais -, protelar sonhos, decisões ou afazeres é um modo de impedir a dinâmica temporal, num jogo de lentidão tal que interrompe a fluência das coisas. Especialmente no mundo velocíssimo que nos envolve.

Assim é que – em meio à agilidade e à fascinação do mundo contemporâneo – boa parte dos tais planos pessoais pode acabar ficando para as calendas. Coisas importantes ou trivialidades ficam relegadas ao rizoma das posteridades... Em meio a tantas alternativas de ação, muitos acabam se esquecendo de realizar as suas prioridades, não conseguindo distinguir com facilidade o que é (ou deveria ser) mais importante naquele momento. É imprescindível que não se deixe o depois para depois quando se trata daqueles papéis importantes que você precisa reunir, por exemplo, para executar significativo projeto... Também é recomendabilíssimo rever as situações que ainda dependem de você para total culminância e êxito. Afinal, dias, semanas e meses se sucedem rapidamente, necessitando daquele coroamento de atos a cada ciclo. Seja pela infinidade de opções que o mundo lhe oferece, convidativo, seja pelo seu próprio marasmo gerencial, o fato é que você não pode deixar que o relógio avance sobre seu inteligente arbítrio. E, englobando todo o resto, lá se vão os anos, deixando para trás, quase sempre, aquela infinidade de vãs promessas de ano novo... Depois de outro ciclo integral de calendário gregoriano, você percebe que mais um longo período – um ano inteiro – se passou sem que você se desse conta de algumas boas urgências.
De uns tempos para cá, a circunstância cronológica tem me feito alertas não somente no clássico período de fim / início de ano. Estamos ainda no meio do caminho de Gregório, e eu acho que – mesmo diante da sexta das doze faces anuais – cada qual deve fazer, mensalmente (até!) seus questionamentos ao Cosmo da mensuração temporal. E tentar não se deixar atrapalhar pelas enganosidades do depois – esse fecha-ciclo que se disfarça, tantas vezes, de prudência, preparo, perfeccionismo e planejamento. Pseudoidentidades puramente conceituais, isso sim! A verdade é que, apesar de ser importante a prévia estrutura de ações, naquele organograma mental que só você pode elaborar, o decisivo mesmo é partir para a ação. Isso pressupõe não desperdiçar uma chance considerável só porque não deu um simples telefonema ou deixou de atualizar seu correio eletrônico. Além disso, para não deixar tanto para trás a casca das horas de Quintana, você precisa fazer um ultimato ao efêmero sem os pudores da sensatez ou da previsibilidade. E agir rápido, às vezes ser impulsivo mesmo! Talvez aí se recomende a desmedida do termômetro das suscetibilidades, com o acréscimo simultâneo de ações imediatas e eficazes. Mas como? Entre outras coisas, respondendo àquele e-mail mais importante exatamente na hora em que o recebe, e iniciando o seu agendamento da semana na segunda-feira, sem falta! Entre outras medidas sem-depois.
Tenho observado vida afora que os perseguidores de objetivos os mais veementes – normalmente os “portadores” de personalidades de sucesso – fazem um excelente uso de seu tempo e são ágeis na medida célere de sua pressa natural. Assim é que Deus ajuda a quem cedo madruga (com algumas maleabilidades para nós, os notívagos biológicos, claro) e Quem planta, colhe nessa coexistência de domínio das formigas tecnológicas. Isso não quer dizer que as cigarras de alma não devam aproveitar o verão. Abandono dos desejos mais latentes e intuitivos... certamente que não! Mas elas, as cigarrras da atualidade, devem estar atentas também ao rodízio inevitável das estações, devendo usar a arte de seu canto mavioso para hipnotizar as ciladas da natureza. Cigarras devem lembrar-se do depois... e cantarem, mas com antenas ligadas, antes que ele (o depois) se torne um tempo de hibernações e ostracismos num terreno árido de artistas da natureza. E que não se esqueça a valorada sentença egípcia: Todo mundo tem medo do tempo; mas o tempo tem medo das pirâmides. 

De qualquer modo, cigarra ou formiga, sempre é bom lembrar que o Senhor Depois é um bon vivant camuflado. E realmente não é nada prudente dar acolhida a esse sujeito (expulse-o de seu paraíso particular!). A impassibilidade pode ser o princípio do ócio e do vácuo. Porque até os dias longos de uma sólida dinastia existencial começam com uma ação primordial – ou uma sucessão delas. Porque, como já expressou também o sábio povo de Pequim em provérbio: Longa viagem começa por um passo. Celebre-se, pois, agostinianamente: que se viva e exalte a face do presente! Presente consciente, ágil e bem-vivido. Dá-lhe, Gregório! E que se instale a supremacia do sem-depois!



Por Sayonara Salvioli

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Jujubas vermelhas



JUJUBAS VERMELHAS 

Vivenciar experiências com intensidade, em sentidos e sensações, talvez seja um dos modos mais concretos – e calcados no presente – de felicidade. Não que isso contrarie o princípio do meio-termo, defendido por Aristóteles. Mas a intensidade do sentir pode mesmo ser a medida mais rápida para pequenas – e não menos maravilhosas – felicidades cotidianas.
Falo aqui de sensações e sentires meros, simplicíssimos. Objetivamente, aqueles prazeres que, apesar de pequenos e pouco significativos à primeira vista, nos agradam a alma e o corpo, naquela sensação de bem-estar pleno, conquistado. Acho que você pode me entender bem.

Para a alma, valem todos os prazeres que abrem um sorriso espontâneo em seu rosto. Vale especialmente aquele friozinho na espinha na hora de uma sensação deliciosamente perigosa... Afinal, viver perigosamente não é só coisa de cinema, não! Correr contra o tempo – vivendo trinta e duas horas num dia –, assumir missões grandiosas e puxar para si obrigações de meio mundo também constituem maneiras emocionantes de se vivenciar o cotidiano. A propósito, se você pudesse acompanhar os fatos ditos rotineiros da minha vida, entre sobressaltos constantes – alegrias ou vicissitudes –, entenderia do que falo. De fato, em minha casa não há rotina; as surpresas não fazem intervalo para aparecerem por aqui. De todo modo, o resultado final parece ser positivo, já que emoções permanentes são a tônica do meu dia-a-dia. Sonho e realidade se misturam, e se torna impossível vivenciar algum marasmo.

Bom, eu falava dos tais prazeres que colocam sorriso no rosto... Além do já lembrado friozinho do perigo, há também aquela taquicardia sem explicação que antecede os grandes acontecimentos. Já experimentou? Acho que você, provavelmente, está reconhecendo na lembrança aquela emoção incontida que inunda todo o seu ser sempre que a tal felicidade (da categoria das maiores) está para chegar... Ah, e como é bom reconhecê-la antes mesmo que ela se apresente com seu rosto oficial!

Também costumam agradar o espírito (pelo menos o meu), embevecê-lo em cheio com alguns prazeres ditos simples: uma pequena viagem com quem amamos, uma boa sessão de cinema – com a telona bem diante dos olhos –, o calor e a emoção de dramas no palco, fogos de artifício se espraiando pelo mar de Copacabana, uma noite aconchegante naquele piano-bar, um almoço de tarde inteira com alguém que lhe presenteia com o infinito da orla!... Agradam-me também a alma fatos episódicos rotineiros como: comprar presentes para as pessoas queridas, circular por shoppings inteiros e, mesmo, sair sem destino por aí... Ou, ainda, andar de trem, ver fotografias antigas e telefonar para aquela amiga oficialmente destrambelhada para discutir abobrinhas e frivolidades. Decididamente, todas essas ações despretensiosas nos proporcionam uma das melhores coisas da vida: a sensação do riso solto de um momento mero, porém intensamente verdadeiro!

É claro que, como boa gourmant, também privilegio os sabores gastronômicos. Então, na galeria dos pequenos prazeres indiscutíveis, figurinhas certas são algumas destacadas guloseimas. Estas – mesmo as mais calóricas – precisam ser degustadas na hora e na quantidade desejadas, deixando-se de lado pudores estéticos ou salutares. Assim é que não resisto a algumas ambrosias, como as tais jujubas vermelhas que tanto me apetecem o paladar! Outras gulosemas há  algumas mais elaboradas, sofisticadas ou raras , mas me causam frenesi gustativo as esferinhas em forma e sabor de gomas vermelhas!... E isso já se tornou algo simbológico: para renovar o meu estoque de pequeninas alegrias satisfeitas, é um prato cheio (de jujubas  risos calóricos) a degustação demorada e prazerosa das tais balinhas coloridas.

Outro dia me apercebi de sua falta na minha despensa de pequenas delícias, e precisei sair por aí em busca de algumas delas. Fui a minimercados, padarias e delicatessens, e nada! Não achava quaisquer vestígios das tais esferas açucaradas... até que me lembrei de um shopping que possui uma dessas lojas que mais parecem gigantescas mesas de guloseimas, como as que agora se encontram nas festas infantis, e lá, sim, encontrei as que buscava! Foi uma festa: comprei potes e sacolas! Chegando em casa, deliciei-me, não deixando invadir a boca o açúcar da culpa. E acho que essa é uma boa filosofia em vários campos da vida: realizar a própria vontade em toda a sua extensão, mesmo que ações posteriores venham com responsabilidade corretiva. Sim, doar-se a si mesmo, em leves situações de entrega, pode ser um bálsamo para os seus problemas de todo dia!

No caso narrado, depois de devorar boa parte dessas gomas vermelhinhas que você vê na foto, decidi que tomaria sopa pelos próximos sete dias, desconhecendo nesse período qualquer substância aparentada dos açúcares ou dos lipídios ou de assemelhados... Efetuar a lei da compensação, por um autoarbítrio deliberativo, pode ser muito bom. E também pode liberar a sua consciência para a escolha feliz de seu rico prazer momentâneo. Já parou para pensar sobre qual pode ser a sua mais impetuosa alegria – da alma ou do corpo – no momento em que lê este post?
De minha parte, com a vontade da vez já satisfeita, exercida com a sensação dos pequenos prazeres cultivados, me sinto na obrigação de intimar você, leitor, a se lançar à realização de seus desejos imediatos, aqueles que podem abrir em você o sorriso de uma alegria fácil e simples. Sabe, o cotidiano pode trazer muitas dessas saborosas diversões de leve teor, mas que revelam a capacidade de uma autodoação ao prazer. Afinal, o bom da vida é nunca temer a felicidade, mesmo a felicidade dita simples – em quaisquer situações. Exatamente. Isso se aplica àqueles bons desejos dos quais às vezes fugimos.
Ora, o ato de alguém se deixar levar pelo sabor das circunstâncias é primordial na escala de vivência das situações ditas frugais. Seja livre, então: adone-se de suas vontades espirituais e orgânicas  e garanta a sua cota orgásmica de satisfação cotidiana! Carpe diem (máxima herdada da antiga contemporaneidade de Horácio)  não é só uma moda verbal ou comportamental: pode ser uma filosofia aplicável, justificada. E não se esqueça: por trás da coisa simples, pode estar uma grande coisa! A propósito, quais seriam para você as jujubas vermelhas do dia?

Por Sayonara Salvioli


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Teoria da flexibilidade das verdades






Acredito que toda verdade exija o senso médio da flexibilidade. É preciso maleabilidade em tudo na vida, desde o modo de se encarar algo até o ato de banir o pragmatismo de um conceito aparentemente autossustentável. Não, no mundo nada é uma verdade absoluta. Como o diamante, a verdade é sólida, cristalina e límpida, mas de seu reflexo se originam mil nuances e cores! É como se a tal verdade, apesar de translúcida, fosse um prisma multi-hexagonal, um caleidoscópio de múltiplas tonalidades exibindo, cada qual, uma face da verdade consagrada.


Do mesmo modo, é necessário cuidado na hora de se exigir postura a uma pessoa. Pela teoria da flexibilidade das verdades, no campo vasto (e pouco decifrável) da psique humana, é sempre possível considerar uma falha, um temor, uma impossibilidade de agir por parte de alguém, ainda que você o considere pleno e absoluto, grandioso como uma verdade. Mesmo os seres aparentemente absolutos, se humanos, carregam consigo a marca da flexibilidade necessária e, por isso, têm o direito de titubear e até de se absterem de algo. Inegável axioma. E isso não significa uma espécie de acovardamento. Se alguém simplesmente não agiu naquele instante preciso do jogo vital, talvez tenha sido porque no terreno de sua verdade houvesse uma falha ou um relevo qualquer impossibilitando, na hora do grande lance, o movimento de pernas e pés, que nem sempre acompanham a sua vontade de cérebro e coração, ou seja, a sua genuína verdade. Esta pode estar latente e silente, levemente adormecida no torpor da emoção.


É preciso olhar para dentro do ser humano mais próximo de você e enxergar nele, na sua profundidade, a sinceridade de seus olhos rasos, a grandeza que ele esconde do mundo. Afinal, aqueles que ganharam o seu coração (justo o seu, que é tão exigente) devem necessariamente ser portadores de alguma grande verdade, tão grande que pode se flexionar, elastizar-se e estender-se a pontos diferentes, fazendo brilhar as várias pontas de sua estrela existencial.


Eu creio firmemente nos verdadeiros donos de verdades que elegi segundo meus princípios mais rigorosos, aqueles métodos profundos de análise que permitem enxergar no fundo de alguém seu verdadeiro eu. E é só olhando para a internalidade absoluta dessas verdades originais que habitam a alma do outro que se pode, afinal, crer na solidez cristalina de sua existência real.


Acho que tenho e nutro um coração de poeta na medida em que enxergo, precisamente, a verdade dos que me falam nos olhos. E sigo à risca essa minha percepção poética do humano, pois acho – sem enganosidades – que ela nunca me mentiu aos ultrassensores do ser.


Quer um exemplo fácil para o entendimento simples da teoria que ora defendo? Uma máxima dentre as derivações (amplamente difundidas no universo jovem-cibernético) do pensamento de Shoffstall, que de certo modo prega essa flexibilidade da verdade: o amor de cada um é imensurável; de fato não se pode dimensionar o sentimento de alguém pelo modo como esse alguém o exprime. Muitos não sabem como – ou o quê – fazerem com o seu sentimento. Teoria da flexibilidade das verdades: seu modo de amar e agir não faz necessária interseção com o modo de amar e de agir do outro. Há os que amam com os olhos amantes e profundos da distância idealizada, com a vaguidão de um romantismo quase platônico. Há os que amam com um coração que levita: sentimento nas alturas, elevadíssimos em essência, mas com pouca palpabilidade, apenas com o toque leve de pés de bailarinos(as), sem contudo caminhar sobre ribalta real. Há, entretanto, os que amam com olhos, coração, cérebro, pés e mãos, com todos os malabarismos de um ginasta superpotente; são como polvos das sentimentalidades – alcançam, de todos os modos, e puxam para si, e com tentáculos irresistíveis, o objeto de seus amores. Na síntese, pois, dessa pretensa verdade flexível dos sentimentos, há os que podem amar com tudo o que têm, pois tudo doam, e há os que até amam integralmente, mas “com tudo o que podem”, com o que a tal flexibilidade lhes permite. E o quão indelimitável pode ser o teor de sua verdade!


Na esteira de tamanha maleabilidade, há também o dom flexível da ação. A ação pura e simples do livre correr da vida. As pessoas nem sempre agem, em qualquer campo, com a intensidade primeira imposta pela sua vontade. Tal deriva, creio, da flexibilidade da verdade com tendência para maior ou menor ação perante a vida. A esta ação uns chamam de coragem, de poder de enfrentamento. Isso não quer dizer, entretanto, que não exista uma grande verdade de essência por trás da inaptidão para o agir. Uma inércia não pressupõe forçosamente uma falta de teor ou sentido de grandeza. Pode-se ser grande e verdadeiro, sem contudo se exercer o dom da materialização dos sentidos.


Acerca das verdades silentes, talvez se possa dizer que são aquelas que ecoam mais alto na calada da alma! Vistas em olhares, sensações e atos, são perceptíveis no grau de sua emissão e frequentemente mais retumbantes que brados inflamados.


Há também a questão flexibilíssima do grau de inteireza das verdades. Uma verdade, se não inteira, nem por isso deixa de sê-lo. Há verdades parciais e relativas, talvez na proporção mesma das integrais e absolutas. Verdades podem ser igualmente filosóficas e matemáticas, especulativas e precisas, especialmente por causa da multilateralidade do ser que as sente, vivencia, idealiza ou pratica. Sim, porque o humano é múltiplo, e por isso abarca as diversas concepções do ser. E é mesmo impossível delinear os meandros da complexidade do homem; inefável é a natureza humana.


Finalmente, na esfera quase intangível de uma análise da verdade que se pretende peculiarmente verdadeira ao adentrar a profundeza (multifacetada, diga-se de passagem) dessa definição, mais relativa ainda se faz a flexibilidade de seu julgamento ou entendimento, mesmo porque é difícil apontar as propriedades de uma verdade que, de tão flexível, pode sofrer metamorfizações, atenuações ou perdas em suas características intrínsecas. Afinal, será ou não verdade essa teoria da flexibilidade? Terá ela referências e procedências? Dirá respeito à essência ou acepção do sentido-objeto verdade filosófica? A que se condiciona e o que condiciona? Comparativamente terá as características básicas dentre as demais de sustentabilidade? Terá a plausibilidade das reais cognições ou a imperfeição do ininteligível e do inconcebível? Enfim, terão flexibilidade a proposição e a própria verdade? Louvores, pois, à maleabilidade rizomática da filosofia!...



Por Sayonara Salvioli