Imagem: Emiko Aumann
Nota de abertura: Como manifestei em minha primeira postagem neste blog, tenho opiniões muito próprias sobre a lauda eletrônica... Uma delas é a questão da não-obrigatoriedade de um diário dito convencional. Outro aspecto que não adoto, de modo definitivo, é a abordagem apenas pessoal de temas. Nesse sentido, embora eu goste muito de delinear – no vídeo ou na celulose – diversificados tipos humanos, e aqui tenha registrado várias personalidades que conheci vida afora, vou começar agora a mesclar narrações realísticas e fictícias. Não será melhor? Creio que sim, pois desse modo você, meu caro leitor, terá a prerrogativa de escolher entre a verdade e a fantasia da literatura... Leia o conto a seguir e analise depois se os personagens Josué das Neves, o Zuza, e a menina Marina existiram... Ou se não passam de vívidos frutos da minha imaginação!...
Era um artista de dons multifacetados: cantor, instrumentista, desenhista, escultor. Mas era, acima de tudo, um entusiasta da arte de viver, desses que emprestam à vida triste um largo sorriso de esperança. Costumava dizer, com claro orgulho:
– Meu nome é Josué das Neves.
No vilarejo de 2000 habitantes, no entanto, ele era conhecido como Zuza, o negro personal e bonachão, de jeito calmo e voz de Nat King Cole. Aliás, o vozeirão de Zuza invadia as madrugadas de silêncio do lugar e penetrava os ouvidos mais atentos da noite, esses que – de sua cama, na hora prévia do sono – costumavam perscrutar os sons presentes no silêncio da madrugada...
E era essa a lembrança que menina Marina tinha do velho cantor. Nas reportações a seu nome, lembrava-se imediatamente das muitas canções do jazz americano ou de ritmo latino que se espraiavam nos ares da cidadezinha, inebriados pelo canto forte de Zuza! Marina recordava-se, com precisa memória auditiva, daquelas noites em que, de seu quarto de criança, podia escutar sons do resto do mundo: da música internacional, de gêneros de cultura e realidade distantes... Que privilégio para Marina-menina, em plena infância, ser a platéia – um tanto exclusiva e solitária (porque todos pareciam dormir) – de um espetáculo daqueles ao luar!... Verdade que se tratava de um show que ela não podia ver, já que o perceptava do lado interno do grande palco de Zuza, o cantor anônimo de voz estrondosa!... O palco de Zuza era a rua, a beira-rio, a calçada... Um palco noturno para um cantor sem plateia presente...
Mas, enquanto o escutava ao longe, a criança bem podia imaginá-lo a caminhar naquele seu palco peculiar, com seu jeito lento e artístico, quase como um bailarino do meio-fio! Vislumbrava-o desfilando pela calçada, como se a oferecer ao público que não existia, insistentemente, o carisma de seu sorriso e a voz rara de intérprete internacional. Lá ia Zuza, em seu porte, descendo a rua que margeava o caudaloso rio, filete largo de águas prateadas a refletirem um cenário artístico debaixo da lua!... Marina podia imaginar tudo isso enquanto ouvia a retumbante voz de Zuza. E foi ao longo desses espetáculos noturnos ouvidos a distância, que ela passou a conhecer músicas como Unforgettable, Stardust, When I Fall In Love, What A Wonderful World, Over the Rainbow, Quizás, Quizás, Quizás... Todas essas canções e várias outras, num vozeirão – meio Nat, meio Freddy Cole, meio Armstrong – de fazer tremer a cidadezinha em seu recolhimento junto às estrelas! Zuza cantava em diversas línguas – inglesa, espanhola, francesa, italiana...
Apesar de o espetáculo ter se tornado constante, ante os ecos que abarcavam as distâncias da madrugada, menina Marina permanecia sempre atenta a cada nova apresentação do cantor-patrimônio-local. O resto da população, no entanto, apenas dizia, ao ouvi-lo ao longe, em suas primeiras notas da noite: “Lá vem o Zuza!” “O Zuza, de novo!” E ninguém ligava importância ao fato. Acho que só Marina esperava cada novo espetáculo: desligava a TV de seu quarto, deixava o livro de lado e se punha a escutar a voz recortada nos vácuos da noite...
Mas a arte de Zuza não morria quando a lua ia se deitar. Quando o sol acordava e os acordes de um galo-cantor despertavam as pessoas, Zuza continuava artista! Só que sem o apelo de seu canto; sob o clarão do dia, ele era principalmente escultor. Apanhava galhos e pequenos troncos de árvore – fragmentos de cedro, pinho e goiabeira – e os tratava como gente, ou melhor, dava-lhes as feições de gente humana! Antigos pedaços de madeira rude viravam Cristos e figuras personais, dotadas de olhos, narizes e bocas peculiares... Um autêntico Mestre Gepeto! Esculturas e estatuetas – religiosas ou humanistas – iam ganhando os olhos de transeuntes e compradores que passavam pelo atelier de Zuza, ali, bem na calçada, diante dos estabelecimentos comerciais, cujos donos o acolhiam como locatário permanente do lote-calçada da vizinhança. Zuza era um patrimônio da pequena cidade.
E o cantor-saxofonista-desenhista-escultor não fazia por menos: com seu extraordinário talento de artista plástico, era responsável por mais da metade dos trabalhos escolares locais. Os pequenos estudantes – sabedores de sua generosa arte – abordavam-no frequentemente a pedir-lhe os préstimos:
– Zuza, você pode fazer um cartaz pra mim?
– Claro. Sobre o quê?
– Sobre a Independência do Brasil.
– Sobre o corpo humano.
– Sobre a origem das espécies.
– O planisfério...
– Partes da planta...
– O homem na lua...
– Sobre ecologia...
– Higiene...
– Semana de 22...
Sobre tudo, sobretudo. E não menos que tudo Zuza fazia. E sem cobrar nada. O coitado vivia mal, numa casa minúscula, levava vida dura, mas não aprendia fazer-se valer pelo que sabia... Assim – apesar de seu gosto por conhaque –, só pedia uma coisa em troca: água! E poucas não foram as vezes em que, na varanda grande da casa de Marina, ele se pusera a desenhar painéis, figuras e faces do que lhe era pedido. A mãe da menina, já sabedora do pedido sui generis de pagamento, trazia vários litros d’água, colocando-os sobre a mesa. E tão fluidas e contínuas eram as linhas do desenho como as goladas fortes e seguidas de Zuza!... Até parecia que alimentava sua arte com o fluir aquoso engarrafado! Ele desenhava um asteróide e pegava um copo... Delineava Mercúrio e virava outro copo... Pintava Marte e tomava o litro inteiro! Zuza parecia conhecer todas as nuances do desenho do universo, apenas não sabendo posicionar-se, a si próprio, bem ao centro da Terra. E não era mesmo feliz: vivia só, não tinha família nem dinheiro e, aparentemente, nem alegrias reais... Mas nunca sem deixar de cantar nas madrugadas!
Contava-se que Zuza tinha ido para a cidade grande, certa época, e chegara a viver da música com algum conforto. Não chegara a gravar ou a ganhar notoriedade, mas levara vida muito melhor, apresentando-se na noite, cantando e tocando saxofone. Os que assistiram diziam que era um deslumbre! Mas tudo se fora... E, na ocasião, parecia que Zuza nem tinha mais saxofone. Pelo menos, Marina nunca soubera.
E a menina, mesmo em sua pouca idade, sabia que não era justa aquela vida que o artista desconhecido levava. E ali, em sua casa, ele era pago por seus desenhos. Também fazia o pai comprar suas obras de arte talhadas em madeira. Ela imaginava que aquele artista poderia ser grande, na mesma e exacerbada medida de seus talentos. Alegrava-a um pouco ver que, ali e em cidades vizinhas, sempre se achavam obras de Zuza nas salas das casas. Seu nome de escultor era relativamente conhecido nas adjacências. Mas nada que mudasse a sua vida substancialmente: ele continuava levando aquela vidinha sem brilho e sem graça...
Infelizmente, nenhuma gravadora jamais passou por ali. Nem a pequenina cidade acolhera, dia nenhum, um poderoso mecenas. Nem imprensa nem olheiros. E Josué das Neves, o Zuza, um dia morreu, antes da hora, ao que parece... Pelo menos, esse foi o pensamento da menina, que sempre desejara ver seu talento ganhar mundo...
Os anos se passaram e Marina não esqueceu o seu amigo-artista de infância: mantivera em sua casa um Cristo na parede – esculpido na madeira flexionada por Zuza – e uma ex-jaqueira tornada homem pelas mãos do mestre cantor. Adepta que também se tornara de suas canções, estas nunca se perderam em sua memória... Passaram-se muitos anos... E quando menina Marina cresceu e se casou, deu uma grande festa na localidade ao ar livre: contratou músicos da cidade grande e mandou tocar Quizás, Quizás, Quizás!... Ela aposta que Zuza cantou junto!
Por Sayonara Salvioli
P.S.: Como combinado anteriormente, não sabemos ao certo se menina Marina existiu... Ou se ela é apenas fruto fictício de meu pensamento. Agora, cá entre nós, meu leitor, você há de concordar comigo que, se ela existiu, foi uma criança muito feliz, pois teve o privilégio de ouvir, ao vivo nas madrugadas, um autêntico Nat King Cole perambulando sobre os paralelepípedos de um vilarejo à beira-rio sob uma lua cor de prata! O.K. Você decide... enquanto se delicia com estas maravilhosas trilhas musicais/visuais: