segunda-feira, 12 de abril de 2010

Abril abriu temporada




Depois das águas de março (de Jobim, do Rio de Janeiro, da natureza), abril abre temporada de surpresas... E você, o que espera de abril?
Tenho visto que este abril, além dos sonhos de colheita de início de ano (como costumeiramente), tem feito abundar as águas antes de março e culminado em forças do inesperado. Sinto, a respeito, que é tempo de mudanças e anunciações. Quer ver como tenho razão? Tente rememorar sua vida de março para cá e veja como muitas coisas têm se tumultuado, conflitado, nas tênues divisas dos dias de abril... Constatou? E essa avalanche de notícias ainda tem lugar para mais dois terços de mês, pois o deus ariano acaba de atravessar, ainda, o limiar do segundo decanato.
O calendário gregoriano convencionou que o mês das folhas de outono no Hemisfério Sul, compactamente, tem 30 dias. E, mais uma vez, este parecia tão-somente ser o quarto mês do ano!... Mas este abril surgiu meio truculento e arrebatador: trouxe novidades, destemperos climáticos, avassalamentos pessoais, tragédias coletivas. Se abril é o que surge depois de março e – segundo alguns filólogos da modernidade – o vocábulo tem o significado de outro, ou seja, um outro mês que não é março, há também correntes adicionais que tentam definir o mês, simbolicamente. Para os latinos, o Aprilis designava o conceito de abertura mesmo, remontando às tradições antigas de florescimento de culturas. Os adeptos da mitologia greco-romana, por sua vez, ligam o nome do mês ao da deusa Vênus (Abril seria uma variação de seu nome para os etruscos), entidade do Olimpo responsável pela rubra paixão e pelo amor arrebatador. A propósito, os seres de abril são mesmo representantes típicos de arrebatamentos e impetuosidades. Baudelaire, por exemplo, nasceu neste mês.
Acredita-se que os arianos, com toda a influência própria da época (do nome venusiano à personalidade forte de seu planeta regente – Marte), em regra, trazem o ímpeto da pressa, o instinto da velocidade (Senna era ariano), da ação antes mesmo do pensamento. E parece que isso está configurado no Cosmos nessa época... Coisas cabais acontecendo, numa dinâmica voluntariosa de fenômenos!
Apesar de todos os turbilhões da vez, talvez seja preferível pensar que este abril – sendo o primeiro mês efetivamente útil do ano (depois das férias de janeiro, do fevereiro do Carnaval e do março da Páscoa, num Brasil de feriados estacionadores) – está abrindo caminho para itinerários novos e caminhos decisivos, tal como requer o espírito marciano do representante solar da época. Segundo analistas de mercado, somente a partir deste mês as coisas começam a acontecer, efetivamente, em alguns terrenos da economia, e também em diversos outros setores. Dizem também os astrólogos que neste período as pessoas, de todos signos (e não somente as de elemento fogo), agilizam os seus desejos e executam seu pensamento; que tiram seus projetos do papel e os endereçam à casa da realidade, a ponto de se consumarem aqueles ideais ou proposições de anos!... Oxalá!
E se Ares ou Marte – a personificação solar do mês – tende ao extremismo, a violações arrebatadoras e à permissividade de tempos insondáveis e de acontecimentos abruptos, também parece ser o próprio autor da máxima Carpe diem, em sua vocação para a intensidade, a expansão e a vitória sobre os obstáculos. Aproveite, pois, esse espírito guerreiro, e ponha em prática seus planos, caminhe em direção às suas aspirações mais genuínas! É tempo de sorver os frutos da estação da colheita! Afinal, Marte, o deus do ímpeto e da ação, acaba de descer do Olimpo em seu carro de fogo...
Acho que abril abriu prerrogativas em mim. E para você, leitor? Não será também o momento de riscar os céus com a sua vontade?
Por Sayonara Salvioli

segunda-feira, 29 de março de 2010

Renato Russo: o não à efemeridade

Foto blog nequidnimis.wordpress.com



Diante da efemeridade da vida, talvez o legado humano seja o maior compromisso existencial. Sim, porque o existir deve ser compromissado com alguma ideologia, essência ou fé. Sem um  motivo real, um laço com algo maior – algo que remeta à transcendência do ser –, a vida não tem sentido. Porque o fato de alguém se conectar a um Cosmo além do visível é o que garante eternidade.

Há os compromissados com determinada filosofia; há os que se enlaçam com premissas religiosas; há os fervidamente ligados a ideais revolucionários; e há os que se ligam à arte de modo perene. De minha parte, prefiro o compromisso com a Literatura, o elo eternizável com a palavra, que se aquilata mais que o ouro e, afinal, permanece. Não se deixa oxidar, sobrevive aos vendavais, aos desertos e, mesmo, às larvas do tempo.

Foi justamente esse elo com a palavra que garantiu o passaporte para a eternidade de um homem-poeta do nosso tempo... Alguém que fez de seus anos vividos um legado de arte, algo capaz de marcar época, gerar filosofia e propagar-se dimensionalmente entre os seus contemporâneos. E nem destaco apenas a enorme idolatria ao seu tempo, ante seu séquito voraz. Em transcendência maior, sua herança é capaz de transmitir um patrimônio vasto às gerações futuras!

A geração 80 do Rock Brasil viu florescer esse ícone além-tempo... Num misto de arte e encantamento, acalentou o vate, desses tão perenizáveis que o tempo parece mesmo não colidir com a sua identidade. Um poeta incomum, um bardo que se sagrou uma espécie de mentor de geração. Seu nome: Renato Russo. Seu legado: quase quinhentas canções e uma personalidade eternizada, emoldurada num quadro rebuscado de posteridade! Afinal, a arte pode vencer a morte. E isso é o mais importante.

O terreno fértil e profícuo de Renato Russo foi a música. No entanto (não em detrimento da excelência de sua arte e vivência musical, notáveis), a mim me parece haver sido a música pano de fundo para as suas significativas poesias, letras personais e vibrantes, fortes como ciclones literários!... De Vento no Litoral a Tempo perdido, o cântico à fugacidade encontrou, afinal, um consolo nada frágil de eternidade. Russo se foi aos trinta e seis anos. Agora, em março de 2010, faria cinquenta anos se ainda neste plano... Mas a sua poesia ficou, e não poderão levá-la nem o vento nem o tempo.

Além de tudo, Renato Russo foi um poeta diferente dos convencionalmente guardados no nosso ideário ou nas galerias bibliográficas. Foi um poeta sem cabeleira, sem sereno, sem tuberculose, sem a boemia convencional, a casaca e o chapéu. Viveu quase o dobro do que vivenciou Álvares de Azevedo. Teve o quinhão de um terço a mais que Castro Alves. Uma a década a mais que Noel Rosa. Mas também teve a sua noite escura e o seu mal do século. Algo que o arrebatou do viver e do poetar. Também se lhe apresentou a efemeridade da vida, aterradora para alguém tão sensível e jovem!... O grande consolo – para ele, os que o amavam, sua numerosa legião de fãs – é que a morte não pode tirá-lo da poesia nem ela de sua memória.

Renato Russo foi e é dono de uma dimensão existencial muito própria: garantiu a si o seu próprio tempo! Fabricou o tempo em que poderia viver: o tempo do para sempre! Está até hoje - e sempre estará - entre nós, tão jovem!... 
Sem dúvida, seria maravilhoso se ele pudesse ter completado cinquenta este mês... Mas  o que seriam apenas cinquenta anos para quem coube uma eternidade inteira?

Por Sayonara Salvioli

segunda-feira, 8 de março de 2010

Implacável força feminina














No Dia Internacional da Mulher, para saudar minhas colegas de categoria, de repente me vi filosofando sobre a condição da mulher, não somente a contemporânea, mas a de todas as épocas. Da mulher de Neanderthal à workaholic de tailleur preto das atuais metrópoles.

Não vou aqui discorrer sobre as conquistas das mulheres na luta pela autonomia em sociedade ou sobre sua famigerada posição no mercado de trabalho. Já nos sabemos suficientes, abarcadoras e – por que não dizer? – poderosas. Já temos consciência de que nossa palavra é sólida e de que nossos gestos equilibrados podem valer ouro e determinar novas safras de progresso. Mas não, não é a isso que me proponho nesta lauda eletrônica. Quero falar de algo mais.

Desejo falar de mulheres destemidas que enfrentam o desconhecido e não esmorecem nem mesmo diante de um pelotão de fuzilamento. E isso abrange desde a primata que enfrentava uma fera no Jurássico até a mulher que – na virada do milênio – virou as páginas também da própria vida, fechou o livro do passado e abriu um diário novo, com todas as laudas em branco. A História está repleta delas. E você provavelmente conhece uma assim. Falo daquele tipo de mulher que não se esquiva das próprias opiniões e de seus desejos pessoais em prol de quem quer que seja. Homenageio a mulher capaz de tentar, dia a dia, a autossuperação e o aprimoramento como ente humano com arbítrio lúcido. É claro que isso não invalida ou esmaece as nuances da emoção, tão firmemente impressas no espírito feminino. Aliás, esse é outro capítulo da história, de fundamental importância, capaz de delinear os demais caminhos de todo o itinerário. Porque se há um caminho para se alcançar uma mulher – em qualquer circunstância – esse é o da emoção, que flui interminavelmente em seu espírito. E talvez seja por isso que as mulheres são capazes de grandes coisas: voos plenos, rupturas implacáveis e, paradoxalmente, franca abertura para o novo e a surpresa! Talvez as mulheres estejam mais aptas para as grandes façanhas do espírito humano... A propósito, foi Goethe quem disse: “o amor e o desejo são as asas do espírito das grandes façanhas". E ninguém, creio, pode ser capaz de materializar o amor e o desejo (não apenas em romances, mas em toda a sua vida) tão bem quanto uma mulher intrépida, ciente de sua vontade. Esta, sim, é capaz de acordar ou enterrar Pompéia, dependendo do seu estado de espírito. Todo mundo sabe por que forças devastadoras da natureza têm, predominantemente, nome de mulher (isso é clichê, mas é verdade!): Furacão Katrina, Ofélia, Rita, Lisa, Bertha, Wilma... Talvez pela constante plausibilidade de uma catástrofe iminente (risos)!... 


Mas a mulher, apesar de todo o manancial emotivo que a rege, também exercita o dom da temperança, e pode – depois de um longo trajeto – seguir pela estrada do novo-dia-sempre, com a alma leve e os cabelos soltos ao vento, pronta para o inusitado e a surpresa... Talvez advenha desse espírito de independência o franco poder da mulher – resoluta – de determinar as próprias rotas de vida. Isso porque, adicionada ao sentimentalismo, existe no feminino em doses gigantes a coragem: a coragem para a mulher fazer o que deseja de acordo com que lhe ditam o íntimo e o ímpeto. Mulheres verdadeiras e plenas são corajosas e impetuosas: não há forças terrenas que as demovam de seu ideal! E há mais nisso: o valor de um ideal pode ser eternizável (no caso das coisas duradouras) e pode também ter a beleza e a efemeridade de uma suaveza feliz! Mulheres são assim... Não que sejam volúveis ou inconsequentes, mas têm a saudabilidade e a versatilidade da mudança, da possibilidade de renovação (por vezes, para uma posterior reintegração a antigos paradigmas). E isso se manifesta também nas pequenas coisas... Não raro, alguma compra um vestido ou uma joia para determinada ocasião, importando que esteja bem apenas naquela noite. Não importa realmente se o tecido é frágil ou se as contas do colar vão se desintegrar... É preciso apenas que naquela noite ela reine em todo o esplendor de sua imperiosa beleza! E vontade. Depois, no dia seguinte, ela arranjará outro modo de vestir-se. Mas é preciso lembrar que isso não é futilidade de alma. É que mulheres são renováveis e plenas, capazes de num dia escalarem o Everest e no outro se deliciarem numa banheira de espuma! O que resta, afinal, é a sua autonomia, a sua soberana vontade de rainha do próprio reino.

No fim de contas, creio que o maior saldo positivo feminino seja o de sua coragem. É isso que – não somente no Dia da Mulher, como em todos os outros – tento passar para a minha filha. E o faço desde a sua infância; repito – insistentemente! – que é preciso ter coragem sempre, seguir adiante, buscar o sonho e alimentar a alma. Quanto à minha própria coragem, creio realmente que não ensine o que não pratique. Mais que exercícios aeróbicos, pratico a minha coragem todos os dias, acho que desde que me entendo por gente – menina ou mulher. Em alusão, um marco decisivo nesse sentido me vem à lembrança agora em suaves registros mentais... Eu era praticamente uma menina quando a “minha menina” nasceu. E, logo nos primeiros dias, tendo-a ao colo e manifestando os meus primeiros (e intensos) cuidados maternos, ouvi de meu pai: “Quem diria que você, filha única, e tão novinha, iria se tornar uma mãe assim?... Parece uma leoa em defesa de sua filha!”... E, cá entre nós, olhe que a história estava apenas começando...


Por Sayonara Salvioli