quarta-feira, 28 de março de 2012

Para Millôr, com amor




                                                  Para Millôr, com amor


As águas (finais) de março de 2012 arrebataram, em sua implacabilidade efêmera, alguns dos brasileiros mais amados: numa só leva Chico Anysio e Millôr Fernandes! Ora, que malfadado sortilégio da natureza será esse que arrasta em sua torrente alguns de nossos gênios preferidos?!...

De Chico já falei nesta lauda eletrônica, mas de Millôr ainda não tive o prazer (no caso, em momento de extremado desprazer) de decantar a sua palavra rica, o seu traço vibracional e o seu insight de estado de inteligência em permanente vigília!... Além de haver sido um intelectual polivalente – desses que o mundo coleciona bem poucos –, Millôr ainda tinha aquele jeito carioca de ser, tão camarada e descolado, com aquela simpatia característica do cara que todo mundo queria ter como amigo!

Na verdade, eu o conheci bem de perto, quando de sua presença nos meus livros adolescentes de Língua Portuguesa, de sua inserção gráfico-colorida na mesa do canto da sala. Anos-jobs depois em acessos ao Millôr on-line... Sempre numa fresta de saber,  resvalando pelo meu interesse de perscrutar a sua genial intenção com a multidão dividida, num inesgotável jogo de luz e sombra com a realidade millorada...

Eu, de todo o coração, lamento a sua morte, como se fora a de um velho conhecido, vizinho de bairro, transeunte de rua, sempre presente nas sentenças brilhantemente originais, nas charges impagáveis e nas crônicas de genialidade abissal! Sim, a sua espetacular capacidade de engendrar signos, retas e curvas (não só na "Poesia Matemática") – e fazer a tradução para os interlocutores de seu tempo – aproximava-o sobremaneira de todos, fazendo da identificação e da receptividade traços de amizade e acolhida num cotidiano compartilhado. Quem não morria de rir – com aquela sensação de alegria solta, descontraída, matinal – ao ver na charge da vez o retrato sutil do tema ou do ser que inflamava a nação?... Interseção perfeita entre a forma e a essência, ele desenhava a sua idéia e a fazia explícita a uma sociedade que reconhecia a verdade logo após Millôr Fernandes a proferir! E havia ainda a complexidade sofisticada capaz de reinventar estigmas, dissecar estereótipos e redirecionar mitos.

Apesar de ter sido – em tempos bíblico-neerlandeses Notlim, Adão Júnior e Vão Gôgo, ele era único e preciso em seus raciocínios millorianos e suas descobertas do tipo “ovo de Colombo”: sim, porque era absoluto em suas soluções certeiras de casos perdidos!... E além de desenhista, poeta, tradutor, jornalista, escritor, roteirista e artista-gráfico-completo, fundou a “Universidade do Méier” e foi um dos inventores do frescobol em Ipanema, bairro em que também exercia sua verve de sociólogo e antropólogo diretamente do telescópio de seu 4º andar... É... (sucessíssimo no teatro) O homem era um caleidoscópio!

Fazia sucesso até quando, em ação concomitante, movimentava seus tentáculos entre o grafite e a câmera, exceto quando teve programa suspenso porque sabia enxergar daqui até Brasília a olho nu e com lápis afiado... Ilustrador dos painéis da minha, da sua, da nossa história, nos principais, nos todos veículos midiáticos do nosso (pós) tempo! Adepto de Gutenberg, de Leonardo e de Molière em seu itinerário, era controversa a sua estreia no mundo... E ele desejava que a morte fosse ainda mais, vindo laçá-lo somente "aos 90, crivado de tiros na cama de um surfista traído"!... Foi dois anos antes, e surfista nenhum se habilitaria à função nefanda...

E parte o deus mental em corpo de homem, debaixo das gotas fartas de um março tipicamente maia de 2012... E onde estarão os avatares da promessa de vida dos novos tempos (a corações jobinianos)? Inexistentes. Incógnitas. Em inóspito habitat para novos gênios. 

Ah, eu tenho saudades de não tê-lo conhecido e franquíssimo sentimento de empatia em relação aos meus amigos que o conheceram. E fico imaginando – em divagações resumidas e tímidas – as artes gráfico-linguísticas surgidas ontem na lauda etéreo-nefelibata!...


Por Sayonara Salvioli



domingo, 25 de março de 2012

O Chico Anysio de todos nós

                                                                                                            Imagem: CorreioUb



O Chico Anysio de todos nós

Hoje eu ganhei um buraco no peito: um vão nostálgico por causa de um artista que tomou seu último voo. Falo da partida de Chico Anysio, um brasileiro que – ao longo de décadas – assentou lugar em nossa casa e em nossos corações.

Apesar dos muitos anos que se passaram, ao receber a notícia da morte do grande gênio, não foi difícil fazer uma retrospectiva mental a meus tempos de infância e adolescência, indo encontrar Chico vivíssimo na sala, nos quartos e na varanda da minha casa de criança. Corri pela grande casa, repleta de televisores por todos os cantos (a casa de meus pais é muito ampla, e, por isso, eles sempre mantiveram diversos aparelhos de TV espalhados pela sua extensão). E foi assim que encontrei Popó na sala, Pantaleão na varanda, Salomé no quarto de hóspedes e Bozó no meu quarto. Lá fora, bem além do quintal, estava Bento Carneiro, ensaiando seu voo eterno por aquelas paragens!... Esfreguei os olhos para acordar de meu transe, mas em vez de me afastar daquelas imagens alegres do passado, visualizei ainda um desfile de figuras tão familiares quanto simpáticas: Tavares, Coalhada, Azambuja, Painho, Véio Zuza, Alberto Roberto, Santelmo, Apolo, Haroldo, Nazareno, Jovem, Justo Veríssimo, Profeta e Professor Raimundo... Todos entrelaçados num filete translúcido de infinito, como se numa bolha de cristal-goma permanente, espraiando-se pelos ares úmidos da minha lembrança!...

Hoje muito se fala em TV fechada, mas eu sou do tempo e da teoria de uma TV – antes já interativa, em sua mediação – fazendo história no Brasil das últimas gerações, atribuindo-lhe identidade sociocultural e marcas de época. Nas décadas de 70 e 80, não teve infância quem não assistiu ao Sítio do Picapau Amarelo e não viu Chico City às quintas feiras!... Eu – aficionada de carteirinha – estava lá, firme e forte diante da telinha, inseparavelmente atrelada aos fenômenos, modismos e sucessos de ocasião! E Chico Anysio vivificou tudo isso: passou mensagens, representou o público, direcionou sátiras e fez rir e refletir o povo, reflexo maior de seus desafios de humorista politicamente engajado. Com a Salomé, por exemplo, questionava os atos do presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo. Assim era que seu humor tinha o poder de fazer pensar, de ajudar o telespectador a buscar reflexões importantes... Ora, a Salomé de Chico Anysio nem mesmo tinha este nome por acaso: representava – como nas escrituras – alguém que poderia “pedir a cabeça” de João Baptista (o Presidente), ilustrando com sutileza o poder que o povo poderia ter sobre seu governante-mor, inquirindo-o e condenando-o por possíveis desmandos. Era o humor inteligente e participativo na televisão, dando o tom de uma sátira bem engendrada e que, com leveza, denunciava problemas sociopolíticos. Desse modo, Chico não apenas entretinha o telespectador, mas o fazia pensar. Tanto que tamanha identificação com a população gerou, já naquela época, uma ação interativa entre público e TV: as pessoas enviavam à produção do programa, constantemente, recados e pedidos ao Presidente via Salomé, que os repassava ao destinatário ilustre em voz nacional.

O grande criador e humorista, na minha opinião, foi também um dos cérebros que – num importante papel mediador exercido junto à difusão da TV – contribuiu para o processo conhecido como quality television, que representa a possibilidade de programação televisiva com qualidade. A propósito, frequentemente refuto discursos academicistas nesse sentido, lembrando a meu interlocutor que a televisão brasileira, nas últimas décadas, concentrou um repertório suficientemente expressivo de obras criativas para que constitua fenomenologia digna de análise. De aprofundada análise, enfatizo. Na TV Globo, nos programas de Chico Anysio, por exemplo, vimos isso: um entretenimento saudável e com raízes em cultura e informação participativa. Aqui se ilustrem descontraídos jogos de raciocínio, conteúdos de sátiras habilíssimas, a intertextualidade com clássicos e também o teor da “Escolinha do Professor Raimundo”, com falas e personagens voltados a conhecimentos das mais diversas áreas do saber, ou seja, um quadro/programa com referências importantes para o público, entre alusões a ícones da história, das artes e das ciências.

Em tais quadros e personagens, TV Globo e Chico Anysio mostravam que é possível alcançar o povo com conteúdos bons, leves e que nada têm a ver com o popularesco. Nessa linha, muito se viu em Chico Anysio Especial, Chico Anysio Show, Chico City, Chico em Quadrinhos, Chico cronista no Fantástico, Chico Total, Chico no voo rasante de Bento Carneiro, Chico na novela das 9, Chico trazendo Salomé ao Zorra Total... Chico Anysio em todas as formas e de todas as cores, em todas as falas e seus muitos amores, nas mais de duzentas faces de sua arte gentil!... Chico praticou arte por toda a vida, creio que profissionalmente desde os quinze anos de idade. Quer no rádio, no teatro, no cinema, nas artes plásticas ou na literatura, ele brilhou todo o tempo com seus feitos e suas criações. Mas foi através da televisão, com a engenhosa e identificável tipologia humana de seus personagens, que ele se fez conhecer e amar em toda a extensão do país.

E não somente a coletânea personal de Chico, como também – e essencialmente – a sua própria personificação de humorista foi conquistando a receptividade do público, que o acolhia na rotina como a um ente querido, alguém da família mesmo! E talvez seja por causa dessa aderência de ídolo familiarizado que os brasileiros a ele irmanados na Globo de seus lares estejam se sentindo órfãos, um tanto desolados com a sua partida... Chico Anysio leva consigo um pouco da nossa alma!

Dói também, e muito fortemente, o fato de ver um gênio sumindo de nosso cenário, alocando-se sabe lá em que estância do espaço sidéreo das grandes constelações!... Neste mundo de pessoas comuns, a dor se faz grande quando parte alguém que era um astro, condensando – numa só personalidade humana – o humorista, o ator, o escritor, o roteirista, o artista plástico, o compositor, o radialista, o comentarista, o diretor, o showman!... Afinal, quantos Chicos existiram entre nós? Já não falo dos personagens, mas dos vários homens e artistas concentrados num mesmo ser de vários talentos e ofícios. Realmente não é possível contabilizar entidades subjetivas, emanadas de um só ente, mas é que Chico Anysio era sofisticadamente um gênio, um sedutor de almas!

E ele soube seduzir até o instante último de sua derradeira vontade: o seu decreto de deposição das próprias cinzas – metade em sua terra natal, Maranguape (CE), e outra no Projac, sede-mor de sua grande paixão: a TV Globo, onde vivenciou quase meio século de arte!... A partir de agora, quem estiver caminhando pelo Projac poderá se deparar, num passo ou no ato simples da inspiração, com eflúvios mágicos dispersos no ar, com o DNA de um mito enxertado no solo, ante os resquícios valiosos de um homem muito além de sua condição, porque nasceu, viveu e morreu artista!... Então, não mais choraremos pelo seu dito fim, afinal quem mais além do verdadeiro artista poderá adonar-se de uma perspectiva de infinito?...

Por Sayonara Salvioli


quinta-feira, 8 de março de 2012

Ser mulher é ter coragem – o que me veio à mente como obrigação no Dia Internacional da Mulher




Ser mulher é ter coragem – o que me veio à mente como obrigação no Dia Internacional da Mulher



Às mulheres cabem direitos e obrigações, como aos homens, aliás como a quaisquer indivíduos / cidadãos participantes da dinâmica do mundo, seja em que organização cultural, geográfica ou política for. Mas também a elas cabem atributos e atribuições de toda natureza. À mulher foram endereçadas a feminilidade e a resistência, a compreensão e uma tal inflexibilidade, a suavidade mais tênue e a resistência à dor mais brutal.

Não só a mulher de hoje como a de todos os tempos – desde a de Neanderthal – teve de enfeitar os cabelos, orientar e alimentar os filhos e, ainda, guarnecer o seu homem de cuidados e carinhos, bem como carregar nas costas o mundo, não importando o seu peso ou a velocidade de sua rota orbital.

É claro que ser homem não deve ser melhor do que ser mulher, mas plausivelmente é mais fácil. Porque ao feminino estão reservadas as noites febris dos filhos, o seu acompanhamento na escola, o terno e a gravata do marido [isso não é mentalidade machista; é realidade corriqueira no cotidiano da maior parte das casas – quer por um zelo amoroso, quer como herança do patriarcado], o provimento da despensa, a governança do lar, a supremacia do clã, a diplomacia com os vizinhos, a administração do escritório e, muitas vezes, a prefeitura das cidades. Vou pular a parte da "dita diretiva feminina" do Brasil de hoje. Ou seja – como em Gales, na Índia ou nas Filipinas –, a grandes mulheres já coube e cabe a soberania das nações!

Além de tudo, a mulher às vezes precisa ser samaritana e abarcar o mundo em seus braços (amamentar filhos alheios, viabilizar acordos impossíveis, conceder perdão e “apascentar rebanhos”), do mesmo modo que a ela – histórias das civilizações afora – são atribuídas guerras e rupturas as mais radicais.

Mas vamos também estabelecer com o ser feminino relações de prazer e primazia, como a da maternidade, a do reinado familiar, a do poder de sedução, a do ornato de uma jóia, a do caimento de um vestido, a da compra de sapatos(!), a do recebimento de flores!... Sim, porque mulher gosta de se arrumar, frequentar salão de beleza, cuidar da pele, ser acompanhada e receber mimos de ditos e experimentados cavalheiros. Qual o problema em lhe abrirem a porta do carro, em lhe darem chocolates ou a precederem na descida da escada? E que mulher não gosta de ouvir palavras gentis e receber cuidados, por mais decidida e forte que seja? Ora, mulher pode ter a pele suave, o cabelo sedoso, mãos pequenas e pés delicados que – mesmo assim, em espírito e determinação – sempre constituirá páreo para generais! E não precisa de armas: silente, ela pode mover um exército ao perscrutar e direcionar retaguardas, incitando ao conflito ou à paz.

Mas, além da saia ou do scarpin, dos brincos e das lantejoulas, mulheres têm que ter mesmo elmo e capacete para as planícies e as encostas. Acho que todas temos que usar seda, passar batom e, ao mesmo tempo, lustrarmos o metal da adaga da casa. Por isso, creio que – além da profundidade dos olhos e a perícia do oitavo sentido – a mulher precisa mesmo é de coragem! Esta me parece – com boa possibilidade de acerto – a maior característica, muito possivelmente a qualidade mais importante do arsenal feminino. Mulher necessita de coragem para a hora do parto, para o exame da mamografia e para ir embora! Mulheres têm mesmo as prerrogativas de decisão do adeus e de encampamento da solidão escolhida. Mulher possui, de fato, força de defesa nos dentes, potência nos braços para abarcar o planeta e asas nos pés para – viajante intrépida – sobrevoar o mundo!

A mulher – rainha e soberana na Terra de todos os tempos, a fada, a maga, a feiticeira – é acima de tudo a guerreira bandeirante que desbrava o inóspito, abre canaviais ou águas de Mar Vemelho para a sua passagem. Mas à mulher é exigida também a tal da coragem simples, principalmente aquela de acreditar, de apostar no sucesso e na concretização de seus planos, a coragem de sempre achar que ainda é cedo para a felicidade e a vitória, pois mais ainda pode chegar! A coragem de domar o sono, a noite e a selva das hostis relações da coexistência. A coragem de ser mãe e pai ao mesmo tempo. A coragem de publicar ao mundo o inadmissível. A coragem de segurar os ponteiros do relógio e ajustá-los às necessidades de luz ou ordem no planeta da ebulição humana.

Como representante da categoria, eu louvo aquelas que não se deixam abater e são capazes do desbravamento da própria clareira. Mulheres são entes sensíveis que absorvem a intenção e as variações – climáticas, cronológicas e espaciais – do planeta. E, além de tudo, colecionam esperanças e amores, jóias, plumas, livros de Antropologia, Astrologia, Física Quântica  e Culinária, armas, sapatilhas, gamelas e flores!... Mulheres guiam ou expandem tornados horizontes afora com a mesma decisão e naturalidade com que amamentam ou embalam o berço do caçula. Mulheres sofrem de atrocidades na TPM e do excesso de emoção dos regozijos!... Mas a elas cabem mesmo – e definitivamente – a história do legado da coragem e da decisão da humanidade. Mulher pode decidir sobre divisas de quintal ou acordos internacionais, derruba a dinastia do sutiã e o reinventa mais personal, e, além de todo o resto, exerce a arte exigente da coragem do sentimento.

Como mulher e como ser humano, tenho vários defeitos de personalidade, mas procuro preservar a minha mais genuína coragem: a coragem da escolha do sentido da estrada, a do desafio ante o desconhecido, de tentativa de controle do tempo, a coragem, sobretudo, de acreditar na certeza do hoje e na promessa do amanhã. A coragem de decepar a rosa escarlate no recipiente real se esta for um problema para o reino!... A mulher necessita de coragem para vencer céus, terras, leões e sauros para a proteção dos filhos. A coragem de decidir exatamente, e com a devida fluidez, o que escrever na lauda em branco; a coragem da "mira convicta" no homem que escolheu para si, antes mesmo que este o soubesse.  A coragem de não temer o imponderável e o vindouro, na aposta certa da suplantação do mal, do vazio e do ocaso. A coragem simples e cabal de vencer o fantasma, a ideia e a figura estereotipada do medo. De insistir e persistir diante da teimosia voluntariosa do não. De lutar tanto quanto possa contra o poderio brutal e arraigado da morte. A coragem da fé, a mesma e tal antiga que desloca as montanhas de lugar e muda a direção do vento!

Reiterando, penso ter que me adonar da coragem de guiar o meu sonho e reinventar o meu próprio eu, todos os dias, a cada novo cair de noite e no resfolegar da manhã... E creio que um misto de todas essas ambiciosas intenções seja condição fundamental para exercer a missão valente de ser uma mulher no mundo.


Por Sayonara Salvioli