sexta-feira, 22 de junho de 2012

Heranças de Marlon Brando

Heranças de Marlon Brando

                         Sあよなら


Você acha que eu tenho "cara" de Paloma, Cíntia, Fabíola ou Sayonara? Os três primeiros estavam na lista tríplice do meu futuro provável nome. Mas creio quase completamente que você optará pela última alternativa, já que me conheceu com esse emblema. O que talvez você não imagine (isso não vale para os cinéfilos!) é que devo o nome a Marlon Brando.




Como? Explico-me: doze anos antes de eu nascer, um filme de Joshua Logan – baseado no livro homônimo de James Michiner – alcançou grande sucesso na telona mundial. Sayonara tornou-se um clássico do cinema norte-americano. Vencedor de quatro Oscars, chegou a ser indicado para a premiação de dez das estatuetas. E o mais interessante de tudo isso (o que, aliás, move esta lauda): o famoso filme que tinha Marlon Brando como herói romântico foi uma típica produção do Star System! Esse era um modelo-sistema de “produção de astros de cinema” capazes de cativar e fascinar os espectadores. Naquela época do cine glamour, principalmente, era comum que atores e atrizes caíssem fortemente no gosto do público e, como estrelas que eram, se transformassem em chamarizes para o sucesso de novas produções.       



E os mentores industriais do cinema perceberam, claramente, a grande potencialização de mercado que seria criar astros passíveis de habitarem o ideário das pessoas. Pois bem: Marlon Brando é um grande exemplo desse Star System, plano artístico em que o mito e a sedução do cinema são como uma fábrica de sonhos imaginários.

Em meio a tudo isso, uma jovem de vestido rodado, cheio de poás, e cabelos à la Brigitte Bardot, já no adiantado dos anos 60 (como você pode reconhecer), suspirava com a literatura romântica e as cenas esplendorosas que produziam a cultura artística da época. E essa jovem, recebendo – anos depois ainda – o legado de Marlon Brando, encantou-se com o astro que fazia um oficial da Força Aérea Americana apaixonado por uma atriz do teatro japonês. Diante do romantismo exacerbado reinante entre as jovens, a mocinha dos anos docemente revolucionários guardou na memória ideológica o nome-título do filme: SAYONARA!

Pois bem, mais uma vez... Anos se passaram, a moça conheceu um jovem afoito, e três meses decorridos, quase se casaram. No entanto, ela não aceitou o primeiro pedido:

— Com essa pressa toda, o que irão pensar de mim, Jorge???

Mas Jorge era insistente, e – três outros meses depois – uma noiva de vestido tubinho, penteado 60mania, terço nas mãos, adentrava a Capela de Santo Antônio, ao som do canto gregoriano das Filhas de Maria. A lua-de-mel teve uma curiosidade que ainda conto aqui, e os meses seguintes – no mesmo ritmo de pressa do noivo – estariam encarregados de trazer uma novidade em forma de bebê-menina. 

Porém, no oitavo mês da minha corrida ao mundo, prestes eu a atravessar a finish line, a quase-mãe escutou um estampido e, mais veloz que a luz, um espectro passou bem rente à sua barriga, meu guardadouro... Uma tremenda confusão no clube da esquina, em frente à residência do casal na Praça São Geraldo... Ímpeto de um new playboy desordeiro – num tempo todo-paz-e-amor – espocou numa bala que atravessou o jardim, a parede da varanda e a do quarto... e foi luzir bem diante de mim, ali debaixo da minha capa de pele!... Pois no instante imediatamente anterior, minha mãe falava do inesquecível filme e, sonhadora, se erguera – num átimo! – pronunciando o nome Sayonara, dando o seu erguer a exata distância do balaço que, um segundo antes, teria acertado sua barriga: oito centímetros perfizeram a medida da minha primeira resistência!

Àquela altura, contudo, mamãe não sabia que me daria o tal nome. Passaram-se mais trinta dias de pacatice típica de uma cidade do interior, período em que a futura-minha-mãe refez a lista tríplice para o sorteio de nomes, antes que chegasse a terça-feira santa em que eu seria extraída a fórceps (alguém aí aceita duelar comigo?!)...

Mas não se assuste que, pouco tempo depois, irrompi num choro vibrante e pirracento – como o de qualquer bebê normal –, passei pelo teste do pezinho e, em seguida, fui para os braços da enfermeira que, em alguns segundos, furou delicadamente as minhas orelhinhas para os brincos de rubi. Memórias suaves essas do meu nascimento!...

E o nome ainda se discutia: Paloma, Cíntia ou Fabíola??? Triplo dilema... que se tornou quádruplo! À tal listinha de nomes – prática bastante adotada entre as mãezinhas de gosto nominal multipolar da época –, foi acrescentado o nome Sayonara. E a mãe até que titubeou ao colocá-lo no saquinho de veludo azul-marinho antes de agitá-lo... Primeiro balouçar: saiu Sayonara. Mas a mãezinha teve dúvida e pensou que a segunda retirada traria Paloma. Nada: esta não veio de segunda viagem. Voou! Aí a Lei da Tríplice Teoria, que eu me autoaplicaria mais tarde, confirmou o indubitável: SAYONARA sobrevivia (literalmente!), resiliente a agitações e rateios triplamente sucessivos. Vez posterior: Cíntia não quis vir. Mas a minha mãe temeu a improvável classe interjeitiva de palavras:

— Não; é um bonito nome, meio musical, mas não é apropriado. É uma onda nova...

Quinta tentativa: chamou Fabíola, mais pelo significado... Mas a menina-bebê parecia querer ser mais personal do que um favo de mel.  E Fabíola não apareceu. Novo sorteio: SAYONARA. Mais outro, idem; ainda novo rateio, ipsis litteris. Última vez para a dúvida: SAYONARA. E fez-se o feito! Pensou a mãe:

— Parece que a sorte insiste com esse nome... Desde a quase fatídica noite!... Acho que a escolha já se fez!   E a recém-mãe apostou na sonoridade e na força oriental, carregada de magia, dos fonemas herdados da trilha romântica de 'Marlon Brando naquela farda!... Ah, que sonho aquele filme!'...



Nocaute do Star System: o que prevalece é a emoção dos sentidos! E assim se nominou a SAYONARA, digo, eu!

E a prova de como a sétima arte – com todo o seu fascínio – interfere nos processos socioculturais aí está: depois de um sucesso do cinema com um sedutor Marlon Brando a mocinhas suspirantes, uma interjeição oriental no Brasil se tornou substantivo próprio. E tais (re)alocações fazem, mesmo, parte da dinâmica das interações linguísticas. Um exemplo disso é termos também em outros idiomas um adjetivo como nome próprio. As classes gramaticais, ora, se alternam, agrupam e intercambiam em formas e conteúdos versáteis... E o novo modismo vocabular – Sayonara – disseminou-se não somente entre pessoas como também entre empresas e afins. Mas principalmente surgiram bebês-meninas, futuras moçoilas e mulheres que hoje somam centenas (ou milhares), como se pode constatar no universo abarcador das redes sociais, por exemplo.

E as herdeiras do Star System – e do sex appeal – do grande astro talvez gostassem de ver por aí o eco de seu próprio chamamento designativo. Afinal, por personalíssima que seja a pessoa, essa história de nomes “únicos” (imagine-se eu, que também sou filha única!) pode ser algo meio solitário. E também pode incitar a imaginação, como quando vim para o Rio e me tornei hóspede de um tradicional hotel no Flamengo... Foi um episódio bastante engraçado: eu ainda nem havia terminado de preencher a ficha, quando me foi dado um envelope que trazia meu nome impresso. Pensei, com todos os meus botões imaginativos:

— Que tremendo marketing eles têm! Ainda nem me instalei direito e não só sabem meu nome como já o imprimiram num envelope exclusivo!

Ahahahah! Como sempre me dizem: “imaginação de escritora”... Na verdade, meu leitor, o meu nome era o mesmo da razão social do empreendimento: no plano oficial, aquele conhecido hotel ali junto à Praia se inscreve como Rede de Hotéis SAYONARA. Também na Itália há pequenos resorts com o nome.

Mas o que alguém com nome diferente gosta mesmo é de encontrar outras pessoas com tal peculiaridade. E principalmente para quem, na infância, não brincou com uma amiguinha do mesmo nome é algo sui generis vivenciar as situações que passo a narrar (risos do narrador de época)... Ambas se deram ao telefone. Uma delas foi protagonizada por um recém-amigo-já-querido, que falou:

— Ah, é a Sayonara... que está indo para a Feira do Livro de Frankfurt?

Achei um luxo ser confundida com alguém (risos de estreante). Mas tentei esclarecer:

— Eu...

E sem que eu pudesse concluir a fala, ele continuou:

— Sim, sim, a escritora Sayonara...

Aliviei-me:

— Ah, sim...

E insistiu meu interlocutor:

— Sei, querida. Sayonara, escritora, que vai à Feira de Frankfurt e é casada com um alemão!

Desta vez disparei o gatilho:

— Nããoo!... Você está me confundindo com outra Sayonara...

Então nos entendemos com explicações mútuas. E eu lhe disse, como agora também a você:

— Já pensou o que seria: eu, com um nome japonês, um sobrenome italiano e ainda ligada a um outro nome – alemão! Meu Deus! Isso seria um verdadeiro atentado à integridade das Embaixadas! (risos internacionais)...

E a outra vez nem vou narrar aqui e agora, não. Vou aproveitar a imersão causada por esta crônica e fazer algo que já planejo há algum tempo: ligar para certa agência bancária do Arpoador, pedir para chamar a gerente e perguntar:

— Oi! Como vai? É verdade que você também é uma das herdeiras de Marlon Brando no Brasil? 




Por Sayonara Salvioli

10 comentários:

Day disse...

Sensacional! Um mergulho nostálgico em Hollywood, que abrange tantos aspectos do quotidiano quanto é capaz. Uma crônica que faz o que deve: deixa-nos embevecidos e lembrando dela por horas a fio. Até mais. Muito linda, você, escritora. E um charme as piadinhas singelas em meio a um quase drama antes de nascer. Parabéns!
Beijão!

Cláudia F. disse...

Quer dizer então que fórceps faz isso com o cérebro?rsrs

Luciana C. disse...

Sayonara,
Adorei a sua crônica! Não por acaso vc é uma das minhas escritoras preferidas!!
Com a sua narrativa eu consegui me sentir no cenário, me emocionar e me divertir. Esta então me fez passear na realidade e na fantasia!
Parabéns!!

Heloísa Borges disse...

O Marlon Brando é um astro mítico mesmo! E o cinema é a mais fascinante das artes...Sua mãe teve razão em se deixar envolver!
Sua história já começou com arte, escritora!!!

Marta Vaz disse...

Fantástica sua crônica!...O Universo conspirou a favor e hoje a Estrela brilha! Parabéns, querida Sayonara!

Anônimo disse...

Delicia de leitura ! Adorei seu blog ...Parabens Sayonara !
Jeanne Gantman

Márcia Leite disse...

Muito além do Star System, nasce Sayonara, numa Via Láctea própria e divertidíssima, sob a proteção de incontáveis anjos, q de jeito algum nos deixariam sem as delícias que ela nos contaria anos depois. ADOREI!! Curiosidade - certamente não por acaso -: eu também (na década anterior à sua) nasci à forceps!!rs

Camila S. Fontes disse...

Nossa!!! Quanta resistência, Sayonara!!!! Você é uma vencedora de adversidades, hein? Guerreira até antes do nascimento!! E depois o tempo só trouxe alegrias e vitórias para o "bebê-menina", que hoje nos premia com a delicadeza de sua literatura! É incrível como você é visual ao nos narrar contos da realidade ou peripécias fantasiosas!! Muito bacana!! Parabéns, querida amiga escritora!!!

figbatera disse...

Cheguei aqui por acaso; ou intuição? Lí um comentário seu numa tb ótima crônica da KBR e suas palavras e maneira de escrever me trouxeram até seu blog.
Adorei! Vou segui-lo. Parabéns!

Bruno, o magnotico disse...

Adorei o seu texto! Embora sayonara em japonês, seja uma despedida, fico muito feliz por lhe dizer um refrescante kon'nichiwa! Refrescante e leve como esta sua crónica! Belíssima e cheia de comédia, ainda que com alguns relatos mais dramáticos, que nem os tramas dos filmes da época!
Ficarei colado, sem dúvida! :)