quarta-feira, 4 de maio de 2011

Quem é você no espelho?






Depois de entrar na quarta década, certas dúvidas tomam conta até da mais absoluta das convicções. E uma indagação, de modo especial, parece incomodar os seus dias: até que ponto Mestre Tempo tem dado claros sinais? O cúmulo exasperador dessa dúvida é você constatar que não reconheceu alguém com quem conviveu (muito) há uns quinze ou vinte anos!


Situações-chave dessa sensação traumática, ambas proporcionadas pela novidade das redes sociais:


Primeira situação: Você está no Facebook e, ao atualizar o feed de notícias, vê na página de um amigo de longa data (com quem, junto de outros amigos, você compartilhou momentos inesquecíveis) uma foto atual, com diversas pessoas de seu passado recente (?). É quando você reconhece sorrisos, olhares, fisionomias completas. Só há um rosto ali que você não identifica direito... e pensa: Engraçado, conheço esse rosto de algum lugar... mas de onde? Pensa que pensa, e elastiza os neurônios da lembrança, e procura em seu cérebro a substância que estimula a memória afetiva... e nada! Então, passa a olhar outras fotos similares do mesmo álbum. E, de imagem em imagem, sua mente retrospectiva começa a reunir informações sobre aquele conjunto de rostos da nova passagem contemporânea da lauda de sua existência. E é aí, de dado em dado, que você começa a se lembrar de um traço naquela face, de um vinco naquele sorriso, de um jeito naquela sobrancelha, de um brilho particular naquele olhar... que o remetem a d-e-t-e-r-m-i-n-a-d-a pessoa: É fulano! Seu cérebro reage. Mas seus olhos não consegem entender a decifração daquela imagem!... Meu Deus! É o namorado da sua irmã, aquele que você via todo domingo à noite em frente ao jardim da sua casa, atrás da grade, parado, diante do portão, olhando para ela com cara de bobo. Mas... não pode ser ele! Esse cara (o da foto) está muito, muito mais gordo do que ele sempre foi... Não; ele nunca foi gordo... lembre-se!  E ainda: que visual estranho é esse? Não, decididamente não pode ser ele! Seu ex-futuro-cunhado parecia o Ken da Barbie de tão arrumadinho: alto, esguio, pernas compridas, cabelo de mauricinho e camisas listradas. E esse é um cara desleixado, com pronunciada "barriguinha de cerveja”. Além do mais, tá velho demais pra ser ele! E é nesse momento – trágico para o seu referencial de consciência passada – que você lê na legenda o nome e a descrição... Meu Deus! Valha-me, Nossa Senhora dos destituídos de memória imagética! E você conclui, apavorada e sem qualquer outra saída: É ele, sim! Eu é que não estava reconhecendo...


Segundo impasse: Alguém o adiciona no Face, mas você não reconhece. E não aceita, afinal o FB é só para amigos ou para novos contatos socializadores com pessoas afins – gente que aprecia seus gostos ou partilha de suas vivências, profissionais ligados à sua carreira ou aficionados das artes que você admira ou desenvolve. Mas aquela pessoa parece não se encaixar em nenhuma dessas categorias, tampouco reportá-lo a alguma lembrança efetiva. Então, você resolve não adicioná-la, pelo menos por enquanto. E a deixa em standy-by na primeira janelinha de avisos vermelhos de novidades – a primeira do canto superior esquerdo, a da adição. Por enquanto, você não quer ser amigo daquela pessoa desconhecida. Mas algo não lhe permite deletar imediatamente a nova intrusa digital (será?)... E você diz de si para si: É, também não vou ignorar... Vai que eu conheço de algum lugar!... Passam-se alguns dias e você resolve aceitar , já que ela insiste tanto, outra vez. E qual não é a sua surpresa quando a proponente de amizade vem puxar papo, ao mesmo tempo em que você explora os álbuns de fotos dela. E descobre que a pessoa à primeira vista não-reconhecida é, na verdade, alguém que você conhecia de algum lugar em certo tempo: a casa dos seus pais (também)! Impossível, você pensa. Mas os traços fisionômicos (reconhecíveis, de antigamente) agora batem com os dados atuais de identificação, e você é obrigado a constatar, sem sombra de dúvida, que se trata de Beltrana, aquela pessoa que praticamente morava na sua casa, que sua mãe adorava e que, naqueles dias felizes de estrita convivência, chegou a fazer parte da família!... Então, o leitor pode pensar que tal pessoa – tão íntima – não chegou a ser reconhecida por estar muito estranha, gorda ou velha. Nada disso! Apenas está diferente, com esses atributos novos que passam a tomar conta do rosto dos outros com o passar dos anos... Dos outros? Ou do seu também? Será que, para olhos que estejam além do reflexo de seu próprio espelho, você também se modificou tanto? Terá adquirido vincos no canto dos lábios ou, quem sabe, uma ou duas listrinhas (em forma de leve sulco) na testa, enfim, um rosto menos suave, com certo ar inflexível diante da vida?!


Você já havia percebido que o correr dos anos o afasta, por vezes, de pessoas das quais tanto gosta, mas não tinha notado ainda o poder que Mestre Tempo tem também com a sua memória! E é nessa hora que você, leitor, se sente traído por si mesmo naquilo que lhe é mais caro: seu baú de lembranças ternas. E nesse momento parece perceber que não é mais dono de si próprio... Você levou os volumosos álbuns de fotos nas mudanças, de um apartamento para outro, mas não conseguiu infelizmente manter incólume o reservatório completo de suas memórias. Deplorável verdade!


E a sua imagem, perante si e o mundo, terá mudado substancialmente? A julgar pelo estádio do espelho, ao se procurar ou (talvez) se identificar ou projetar ideologicamente no outro, talvez você esteja autoconstruindo uma imagem a partir do que lhe devolve o próprio reflexo... Então, a imagem de seu ex-futuro-cunhado e da sua amiga de adolescência – agora equiparados ao presente das novidades temporais – equivaleria ao seu juízo de valor de si próprio, na atual conjuntura (risos meio apavorados)?... Dá-lhe, Lacan! E, na esteira dessa autocompreensão, a lei do retorno dedutível pode ser o que se afigura como o seu eu, reflexo certo das cores e das dores do mundo. Seremos todos, afinal, corpos fragmentados em relação aos demais que povoam os espaços prováveis das corporeficências? Menos: estaremos como os nossos semelhantes, assemelhados em idade, geração e imagem? Fica aqui a incógnita.


Por Sayonara Salvioli

8 comentários:

Bárbara disse...

Nossa, Sayonara! Me identifiquei demais com a sua crônica!! Isso de não reconhecer um velho amigo já aconteceu comigo algumas vezes!!!! E realmente é horrível! Mas vc tratou o tema com um humor incrível!!

vânia disse...

quando penso nas marcas do tempo fico até assustada...medo!!haha

Profª Helena S. Monte disse...

As redes sociais inauguraram mesmo um novo sistema de comunicação. Parece que o mundo inteiro, incluindo as pessoas do passado, de repente chegam até nós pela tela do PC.d+!!!!

Gabriela disse...

Olhar-se no espelho pode ser um caminho nao só de autoconhecimento como tb de crescimento. Ótimo post!

Cláudia F. disse...

Perfeita a alusão a Lacan. Uma reflexão e tanto! E é a pura realidade na análise das pessoas.

Eliana Mendes Castor disse...

Às vezes o mundo lá fora está dentro de nós mesmos. O inverso tambem é verdade.

Luciana C. disse...

O autorreverso pode ser uma boa descoberta ou um problema...

Luciana Lucas Maquiadora disse...

O espelho muitas vezes nos assusta, nos mostra o que não queremos ver tão cedo. E assim como não reconhecemos muitas vezes alguns amigos de infância, também podemos não ser reconhecidos...