sábado, 31 de outubro de 2009

Desinventaram o relógio de pulso?


Acho que já falei aqui no blog que Santos Dumont encomendou o primeiro relógio de pulso a seu amigo joalheiro, o francês Louis Cartier, o mesmo da griffe de relógios, fundador da famosa joalheria. Na ocasião, segundo nos relata a história, o gênio da aviação inventara a parafernália ultramoderna porque estava cansado de usar o tal relógio de bolso... Afinal, a antiga geringonça requeria um tempo para ser tirada do bolso, sem contar que muitos modelos ainda tinham uma tampa que precisava ser retirada para que se pudessem ver as horas!... É fácil imaginar que isso não era nada cômodo para quem saía por aí dirigindo máquinas voadoras!
Muito bem, o tempo passou, e parece que as coisas foram revertidas: agora as pessoas deixam de usar o relógio de pulso, e, mesmo com todo o incômodo, preferem abrir a bolsa ou a mochila para tirar o celular e ver as horas!... Experimente, na rua, perguntar a alguém "que horas são"... Verá que a pessoa logo levará a mão dentro de uma bolsa, tateando até achar o celular, a fim de verificar a quantas anda o tempo e responder à sua pergunta! O que aconteceu, afinal: desinventaram o relógio de pulso?! Sim, hoje você pode contar nos dedos as pessoas (privilegiadas, por sinal) que mantêm o uso do relógio; o marcador do celular é hoje o novo design de ponteiros-cronômetros!


E o grande paradoxo disso tudo é que a tecnologia – que, primordialmente, deve servir para tornar as coisas mais práticas – acabou invertendo o jogo dos valores, e, neste caso, traz de volta um hábito antigo de se buscar num bolso ou bolsa algo que, há mais de um século, já se podia trazer, fácil e acessível, visível no pulso!


Lembrei-me que, na infância e na adolescência, eu colecionava relógios e – mais que isso! – via o artefato-jóia como peça fundamental do vestuário e, acessoriamente, um elemento consagrado do modismo. Mas o tempo passou, e – com as novas tendências – temos hoje aparelhos pós-moderníssimos que exercem, entre mil outras, a função de relógio.


Às vezes me pergunto sobre que categorias de pessoas mantêm o uso do convencional relógio de pulso. Mas não posso responder com a precisão britânica de um francês (Cartier... risos), visto que o utilitário ainda se encontra em pulsos mirins com adornos cor-de-rosa, em pulsos aristocráticos abaixo de um rosto sisudo ou em pulsos rotineiros que, na emergência do trabalho, carregam no braço o fiscal das horas!


Paralelamente, não me furto a pensar na plausibilidade de uma diminuição de mercado, já que hoje a humanidade aprecia de tão diversos modos o fascínio do tempo marcado!... Não vemos na atualidade, por exemplo, um modismo tal que mexa em estruturas nesse sentido... E tal nem mesmo poderia se dar! Até porque tal impacto já teve lugar há mais de cem anos, quando uma nova febre agitava Paris: o Santos – protótipo feito por Cartier especialmente para Santos Dumont – havia aderido à reprodutibilidade em círculo nobilíssimo: o novo adereço adentrava os salões da alta roda masculina parisiense (sim, porque o relógio de pulso feminino já tinha sido inventado umas décadas antes)... E o design da obra de Cartier, seguindo inspirações do gênio brasileiro, era um tanto diferente e mais que inovador: uma caixa de metal, retangular, e alças de couro. Um deslumbre – e funcionalíssimo! – para a época! Louis Cartier passou, então, a comercializar o protótipo em sua famosa boutique na Rua de La Paix. E o modelo se consolidou na história da relojoaria... Tanto que, mesmo hoje com as tais cibernéticas invasões (celulares, iPhones, iPods), ainda há lugar para a tradição elegante de um legítimo Cartier. Um modelo tradicional ao estilo Santos, lançado em 2009 (mais de um século depois!) – com caixa de carbono e pulseira de lona –, por exemplo, é adquirido por seus apreciadores pela bagatela de R$20.330,00. E as pessoas nem usam mais relógios!...

Por Sayonara Salvioli

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Manias & excentricidades






Não é preciso sofrer de TOC para que se desenvolvam manias... Creio que todos temos um pouco disso, pois é inerente ao humano a característica do condicionamento, uma tal reincidência sistemática de hábitos.O problema da mania na extensão das compulsões, sem dúvida, vai gerando distorções psíquicas. Naturalmente falo sem embasamento científico, aqui expressando tão-somente a minha experiência na área (risos). Mas há também aquelas manias engraçadas que tornam o nosso dia a dia mais divertido, e nos descontraem nas relações com outras pessoas. Afinal, quem não tem um parente excêntrico ou um amigo com manias estranhas?
Eu, por exemplo, tenho manias alimentares pouco usuais: adoro comer alho cru; sou fã de cebola crua, também. A coisa é tal que chego a provar molhos às colheradas, para o espanto de Verônica, que os prepara já em quantidade maior do que para uma simples salada. A coitada fica apavorada quando vê o nível de prazer gustativo com que faço ingestão do produto!... Minha filha, no campo alimentar das excentricidades, já gosta dos sabores azedos: adora limão no estado bruto da matéria, em quantidade e com nível intenso de acidez.
Tenho outras manias e preferências gastronômicas esquisitas, mas sofro também de outros hábitos que fogem ao usual, como o de sair de casa sem a chave... da casa! Felizmente já melhorei bastante. Mas quando me mudei para o Rio, vez por outra ficava “do lado de fora de casa” por haver saído sem colocar a chave na bolsa... Batia a porta... e estava trancada ao contrário! Mas nunca detectava na hora, é claro! Saía de casa com a mesma evasão mental de sempre, com a cabeça na lua da minha pauta diária... Só percebia o autoembuste quando, de volta a casa, procurava a chave na bolsa... e nada! Cadê chave? Resultado: especializei-me em localizar e contratar serviços de chaveiro a qualquer dia e a qualquer hora no Rio de Janeiro, aí incluindo domingos e feriados. Também aprendi a pechinchar com os chaveiros, pois eles – vendo a sua aflição de estar do lado de fora de casa – pesam a mão e cobram os olhos da cara!... E o detalhe maior dessa história é que o “profissional que tem na mão a chave da sua casa” faz isso com um pé nas costas, num átimo! Em menos de dois minutos ele abre aquela tranca que, aos seus olhos, por uns minutos parecia quase irreversível, impossível de abrir! O cara ainda abre um sorrisinho cínico, como se mostrasse que salvou a sua vida em alguns segundos.. e aí, dá-lhe preço alto! Foi por isso que acabei aprendendo a refutar o valor cobrado, me manifestando:
– Mas foi tão fácil para o senhor fazer isso! Por que vai me cobrar tanto?
Minhas reivindicações, no entanto, não valiam muita coisa; apenas geravam um abatimento no preço elevado de liberação da porta de casa. Porém, após tantas peripécias nesse sentido, hoje não mais passo por isso: descobri a fechadura com bola fixa! Yuuuhuu! Bola fixa... Já ouviu esta locução substantivo-adjetiva? Pois eu não conhecia também. Por que ninguém me falou nisso antes?
Outra mania que tenho é a de recomendar restaurantes para os amigos e visitantes. A coisa funciona assim: você me visita, e eu o(a) levo a um lugar de minha preferência, e ainda faço mil outras recomendações paralelas... Tenho noção disso. Mas sem noção mesmo é a minha prima Cíntia, que, se você a visita, ela lhe mostra todas as farmácias e clínicas do entorno. Motivo: tem fissura por inovações em medicamentos e tratamentos clínicos, de qualquer especialidade, inclusive opções alternativas. Ela diz:
– Olha, naquela rua ali tem uma clínica de fisioterapia que é óóótima... Lá eu faço Pilates e RPG três vezes por semana! É uma maravilha! Ah... volta um pouco, Saulo, volta, volta... aqui, Sayonara, está vendo que fachada bonita? Aqui eu venho aos sábados para fazer uma massagem m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a com pedras quentes do mar Cáspio! Um luxo... E aquela farmácia ali, menina, uma coisa: preço bom e tem de tudo: produtos de reformulação estética, farmacologia de homeopatia e qualquer item de alopatia! Cada produto com componentes de ervas que você precisa ver! Compro tanto lá, Seu Romualdo me adooora... queria até que eu abrisse uma conta!
Mas as manias de Cíntia não param por aí: ela chega a ser exímia conhecedora de tudo de novo que surge no âmbito. Certa vez, peguei a agenda da semana dela, e não contive as risadas enquanto lia. O planejamento da semana marcava para todos os dias, em cronômetro religioso, as seguintes programações: segunda-feira – geoterapia (tratamento holístico com elementos da terra); terça-feira – musicoterapia (com um musicista acadêmico da World Federation of Music Therapy); quarta-feira – talassoterapia (tratamento com água do mar); quinta-feira – cinesioterapia (tratamento baseado no poder curativo do movimento); sexta-feira – helioterapia (medicina dos raios solares).
É ou não excêntrica a minha prima Cíntia? Ela ainda reclamou que aquela semana não lhe permitiria, por motivos tais e tais, fazer seus outros tratamentos, como cristalterapia, hidroterapia e cromoterapia. E defendeu veementemente a helioterapia, com o seguinte discurso:
– Pois é, ficam falando por aí que o sol prejudica, prejudica... pois sim: os raios do sol combatem todos os problemas respiratórios e matam qualquer tipo de germe, sabia? Mas eu não fico só no método holístico, não, sabe? Também não abandono certas normas tradicionais de cuidar do organismo, mental e fisicamente; não dispenso meu clínico alopata e um bom psicoterapeuta, dos freudianos!
Mas, em meu círculo familiar, a campeã mesmo é a minha mãe! Tal não mais se classifica em hipocondria, visto que já se cristalizou a sua mania por remédios! Isso mesmo: em sua casa não há uma farmacinha como nas demais; ela não armazena remédios simplesmente numa daquelas maletinhas com uma cruz vermelha na tampa. Não! Existe lá um cômodo (inteiro!) que nomeei como almoxarifado de remédios. Isso mesmo! Tal como num almoxarifado funcional de uma empresa, lá ela exerce todo o seu talento organizacional (na verdade, ninguém organiza nada melhor do que ela!), na medida em que assegura que o remédio adequado seja encontrado, na devida quantidade, em local específico, no momento exato de sua necessidade! Seus critérios rigorosos de armazenamento permitem à farmácia doméstica conservação e qualidade em produtos de alopatia, homeopatia, fitoterapia e similares. Aposto que você já adivinhou o quanto ela e minha prima Cíntia são amigas! Não imagina o quão excitante à diversão é uma conversa das duas!... tsc tsc tsc...
Mas, cá entre nós, quem sou eu para falar de excentricidades: troco a noite pelo dia, como coisas atípicas e sou capaz de preterir um interessante passeio em polo turístico a uma ida, na própria rua, a um restaurante alemão ou a uma feira gastronômica de tendências no Cais do Porto!... E no tocante a remédios, tenho uma mania horrível: jogo todos fora! Na infância, ante as insistências da minha mãe, que estipulava horários para que eu tomasse vitamina A, vitamina, B, C, D, E F, K (e do alfabeto inteiro!), eu os presenteava às plantas.. Os canteiros do jardim viviam cheios de cápsulas bicolores! (risos)... Piores ainda que essas excentricidades todas são as suaves (bem suaves mesmo, ainda bem) fobias que apresento. Mas isso é matéria para outro e outro post...


Por Sayonara Salvioli
P.S.: As imagens que você vê acima são: alguns dos numerosos potinhos de remédio que a minha mãe coloca na minha mala cada vez em que a visito... e um momento- termoterapia da minha prima Cíntia!...