terça-feira, 31 de março de 2009

O milionário



          O MILIONÁRIO
Geraldo é um sujeito de sorriso largo e folgazão, com testa grande, nariz de espanhol e cabelos espessos. Sua maior característica é uma capacidade crescente de dominar a adversidade. Malgrado algumas circunstâncias, foi sempre um afortunado, vitorioso no jogo da vida, capaz de grandes lances, tacadas e acertos. Além de feliz, bem-casado e pai premiado, a sorte ainda quis lhe sorrir com o brilho do níquel: aos 39 anos ficou milionário!
O milionário nasceu em solo gentil e berço esplêndido: era descendente de latifundiários da Coroa, antigos aristocratas-de-nariz-empinado do interior da “Província”. Seu avô fora, além de governante de terras, talentoso trombonista. Seu pai, apesar da distração, também frequentou a vida inteira as fileiras da bonança; seu filho foi considerado um Einstein, gênio irrepreensível da lógica e da ponderabilidade do tempo-espaço.
Apesar da bem-aventurança posterior, suas lutas começaram cedo. Aos quatro anos, perdeu a mãe, que morrera de febre puerperal ao dar à luz a pequena Cibele. Dois anos depois, uma terrível caxumba lhe desceu pelos testículos e quase pôs a perder sua futura e bem-sucedida descendência. Geraldo foi obrigado pela babá a usar um camisolão folgado e passar cinco dias e cinco noites em cima da cama. Ela dizia:
– Aquiete-se, menino! Se der febre nas suas bolas, adeus herdeiros pro Vovô Ludovico Klein!
E Geraldo, cordato como era, aceitou a bem-intencionada imposição de Elvira, passando férias forçadas de infância sobre a cama do quarto dos meninos da Fazenda Florença. Primeiro lance de sorte: a doença não lhe queimou a bolsa escrotal, e Geraldo, vinte anos depois, pôde ser pai de um robusto varão.
Ainda da infância, Geraldo guardou lembranças como o gosto do abio e a companhia de Fineza, a cachorra parda que o acompanhava em suas incursões diárias pelos mistérios de Florença.
Da juventude do futuro milionário, muito não se sabe. Circulam algumas histórias, porém, da primeira namorada... Esta se chamava Ivete, e queimou o coração do rapaz com seu olhar-verde-garrafa. Geraldo contava o gosto que experimentou com a primeira carta e o primeiro beijo. Ele costumava agradá-la com longas cartas de amor, para o que recorria aos dotes do tio Hermógenes, hábil escriba da família. Hermógenes enchia seis laudas de inspirados saudadismos e aiaiais, os quais muito valeram a Geraldo em suas noites de inverno passadas com Ivete, clandestinamente, no sobrado da velha Bernarda.
Uns três invernos depois, na noite de 24 de agosto de 1954 – quando completava 19 anos –, Geraldo ouviu no rádio que o presidente Getúlio Vargas se suicidara. Reflexivo, o rapaz perguntou-se sobre o que queria para sua própria vida, e, num ímpeto de sabedoria decidida, resolveu deixar Florença e buscar a novidade urbana do Rio de Janeiro.
Uma vez na Cidade Maravilhosa, eram várias as atrações que lhe apeteciam a vontade jovem: o Maracanã lotado – Flamengo X Botafogo: 2X2 – e aqueles lugares com uma tabuleta na porta: Entre sem bater. Aliás, desde que descobrira por lá aqueles salões de franca entrada, com tantas opções de diversão, viu como o Rio era, mesmo, bem mais alegre e animado que o salão de baile da fazenda. O que deixou o interiorano mais impressionado, no entanto, foi a sua estreia num cassino clandestino, onde derrubou a banca na primeira noite. Os novos fatos só vinham reforçar sua sorte inominável em todos os jogos anteriores: em casa, no colégio, no Florentino F.C e nos prêmios da quermesse, sempre ganhou tudo: invariavelmente, arrebanhava para si até a sorte alheia! Mas no tal cassino – naquele show permanente de fichas, mulheres e luxo –, ele se sentia no melhor lugar do mundo. Sem dúvida, vir para o Rio tinha sido a sua melhor tacada. Não fosse pelo “mal sentimental que me sucedeu”, conforme posteriormente relatado ao Dr. Brás Infante, psicanalista, aquilo tudo seria mesmo uma vida perfeita!
No início da vida no Rio de Janeiro, Geraldo foi morar na pensão de uma portuguesa, onde conheceu a bela Cecília, filha da proprietária. Esta, D. Maria de Sá, era uma diaba de bigodes com sotaque lusitano. A moça era linda, mas a mãe era como o demo de saias numa temporada na Terra depois de dois séculos de inferno. D. Maria perseguiu Geraldo, quase a ponto de impedir o romance dos dois. Mas a moça estava apaixonada, e o rapaz era tinhoso. Além disso – reitere-se! – Geraldo carregava consigo a marca da sorte. Praticamente tudo que queria lhe vinha ao encontro. E não parecia ser diferente com a linda portuguesa de pele alva, cabelos avermelhados e olhos intensamente azuis. Ao contemplá-la, Geraldo pensava haver encontrado o Céu.
Geraldo nunca soube se ele havia seduzido Cecília ou se ela o havia seduzido. Ocorreu que os dois ficaram extremamente seduzidos, e aquilo parecia trazer o apelo do sempre. A coisa era tão forte que, apesar das pragas maternas, o moço e sua amada encontravam-se todas as noites numa alcova banhada pela lua a atravessar a vidraça... Um romance como no cinema teria sido, a não ser pela falta de um happy end convencional.
Um dia, Geraldo foi chamado à fazenda, pois sua avó estava muito doente. Sendo ele o neto predileto, sua presença se fazia fundamental naquele momento. Um mês Geraldo ficou por lá. No segundo, ao retornar, encontrou Cecília casada; a futura sogra não brincara em serviço. Desacreditado da sorte no amor (afinal tinha sorte no jogo!), decidiu, então, ir para São Paulo. Lá chegando, só se dedicou a estudar e trabalhar. Voltou a viver, enxugou o rosto, e, apostando também na sorte amorosa, conheceu Idalina e se apaixonou. Três meses depois estava casado. É que Geraldo, dono da sorte, nunca gostou de esperar. Assim foi que, um ano depois, já lhe nascia o filho, que tanto orgulho, divisas e dividendos traria.
Alguns anos depois, Geraldo estava rico. Vinte após, milionário! E virou um apregoador das vantagens cambiais do sistema capitalista. Passou a trabalhar na Bolsa de Valores, juntou dinheiro e, para completar, naquela época ainda herdou, sozinho, toda a fortuna da avó. Munido de inteligência e poder, fundou uma empresa-recorde do mercado financeiro.
Com o passar dos anos, o sortudo continuou levando sua vida normal de muito rico, até que, num belo dia, num rateio da Loteria Esportiva, ganhou sozinho o prêmio; foi o único acertador no país inteiro! Aliás, que aqui se registre o seu talento inominável com os números, os quais domava mais que adestradores a leões.
Muitos apelidos ganhou Geraldo em virtude do acúmulo de fortuna: já o chamaram de Patinhas e Midas:
– Ele tem uma caixa-forte, só dele.
– Esse é o cara que tudo que toca vira ouro!
Em Las Vegas, causou comoção:
– The best!
Eu prefiro chamá-lo, simplesmente, de O MILIONÁRIO.
Por Sayonara Salvioli.

12 comentários:

vilma guedes disse...

puxa, que sujeito de sorte!!! pra dar sorte assim com os "números", vale a pena ter tido o tal "mal de amor" na juventude... hehe

Cláudia F. disse...

Querida autora,
Como sempre, amei cada palavra do seu texto. Como sabe (e deixo registrado!), passo sempre por aqui, pois seu blog é um dos poucos realmente literários de que dispomos: contos e crônicas - no mais sofisticado padrão da Língua Portuguesa - nos chegam como verdadeiros presentes à sensibilidade!
Adorei o seu milionário!!! rsrs
Beijosss

Lena disse...

amei o texto!!!!!! espetacular, Sayonara!!! aliás, como sempre!

Karen disse...

A Cláudia me falou e vim aqui conhecer o seu personagem milionário. Mas te conhecendo como eu te conheço, aposto que tem muito mais personagens assim na manga... rsrs

Luciana C. disse...

Sayonara,
Como toda vez que apareço por aqui, consegui visualizar perfeitamente o seu conto. Muito bom mesmo!!!!!!

Berta disse...

Que conto mais movimentado, Sayonara! Muito legal! Adorei!!!

Thalita Ramos disse...

Seus personagens são tão fortes e vibrantes que a gente tem a impressão de que eles existem mesmo!!! Adorei!

bruno disse...

Mas o cara nasceu mesmo com a estrela, não é não?

Márcia disse...

querida, querida!
seus personagens, cada detalhe da narrativa, as situações, todo o cenário, continuam me deixando de olhos sem piscar até a última palavrinha do texto
uma delícia, Sayonara, uma delícia!
bjs

Rita disse...

Sayonara,
Conheci seu blog em virtude de minhas pesquisas sobre Tavares Bastos, e acabei lendo tudo por aqui! Seus personagens são fantásticos e sua narrativa é fascinante! Fiquei fã! PARABÉNS!

beto disse...

me deu até vontade de ficar milionário!!!! hauaua
quem não quer?

gilvan disse...

cara abençoado!!