quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Invadindo a cabine do Comandante


Invadindo a cabine do Comandante

Para quem já conhece o episódio de Marina indo a Recife por razões muito especiais, não será surpresa o tom de aventura das linhas seguintes. Porém, para quem não sabe por que ela viajou repentinamente para a terra de Carvalhinho, vale conferir aqui, primeiro, antes do reinício de jornada: http://sayonarasalvioli.blogspot.com.br/2013/08/a-mao-invisivel-do-guararapes.html                                                                                                  ).






Porém, se você estiver com pressa – no meio do trânsito, com mil coisas a fazer e 12 horas diárias apenas para tudo realizar etc. - pode ler daqui em diante mesmo que garanto compreensão.

A coisa se deu assim: Marina fez a tal viagem, na qual tudo correu bem (depois do aeroporto, quero dizer), e na capital pernambucana passou bons e alegres momentos: cumpriu a tarefa sagrada da viagem, passeou com a amiga Viviane e seus lindinhos, reforçou seus laços de amizade com a cicerone Cristina,  confirmou a lindeza de Olinda e se deleitou com bolo de rolo e bolo Souza Leão. Mas a verdade é que – como pano de fundo emocional – duas (pre)ocupações não saíam de sua cabeça loura:

– O negócio que ela precisaria realizar (e realizou mesmo!) quando chegasse;

– O tal presságio que a perseguiu, todo  o tempo, desde o início... A mesma sensação de aviso ruim no ar que sentiu desde os momentos prévios ao embarque.

Fazer o que se ela era sibila?

Pois bem, Marina decolou levando sua profecia junto: algo parecia prestes a acontecer! O lance era, como no lembrete bíblico, “vigiar e orar”. E sem tréguas. Quando algo paira sobre a sua cabeça, assim, Marina não descansa um só segundo... E esse certamente foi um dos motivos das profundas olheiras que ela manteve durante a viagem. Então: Marina flanava pela cidade e se preocupava, ia para a igreja e filosofava, andava no calçadão da Praia da Boa Viagem e se evadia,





ia ao restaurante predileto de carne de sol e seu pensamento a ameaçava... Sempre com aquela nuvenzinha cinza de desenho sobre a cabeça! Sim: a natureza prometia tempestade! O fato era que ela só podia mesmo confiar aos Céus o pedido de desvio das águas... ou dos ares!

Como a moça imaginou desde o começo: o perigo estava nos ares. Só que a turbulência começou antes mesmo da decolagem... Foi assim:

Marina foi para o aeroporto certa – repito – de que o Guararapes guardava uma mensagem incógnita. Dessa vez não se atrasou nem perdeu nada, sequer pegou fila para despachar a bagagem. Era a primeira, tão cedo chegou! Com os olhos arregalados, à moda Louise.

Então, nossa protagonista estava lá – sentadinha e bonitinha – diante do seu respectivo (e confirmadíssimo) portão quando percebeu que o voo estava atrasado... Muuuito atrasado!... Passaram-se 20, 40 minutos... 1 hora e meia... e nada! Assim foi que – exatamente duas horas e seis minutos depois – uma comissária,  com ares mais solenes que sérios, aproximou-se dos passageiros-de-espera e disse:




– Atenção, passageiros do voo 4739 eu peço que não se alarmem, mas o voo está atrasado por um pequeno problema técnico nas poltronas...

Ao que um senhor de boina azul interrompeu:

– Ah, o voo está atrasado?... Duas horas depois o voo está atrasado ainda???

Clamor geral. Burburinho e confluência de vozes, alarde prévio em uníssono.

Exclama uma ruiva com camisa de time de polo e botas de montaria:

– Isso é inaceitável! Tenho treino no Jockey... Vou participar de competição esportiva amanhã!... E tudo isso por causa de irregularidades em poltronas?

Nisso, um comissário – ao lado da primeira interlocutora da companhia aérea – intervém:

– O problema foi precisamente uma pane na poltrona 11B e...

Antes que terminasse a fala, a comissária deu um beliscãozinho disfarçado nele, como se estivesse a falar demais...

– Pane???? – gritaram todos, já apavorados.

A aeromoça tenta desconversar:

– Bom, senhores e senhoras, o que houve na verdade já está sendo controlado com as devidas medi...

– Ah, está sendo controlado ainda? E a companhia permite que embarquemos num voo furado desses, com uma pane não-resolvida? – pergunta um executivo.

O comissário volta a colocar panos quentes:

– A verdade, senhor, que uma pane nem sempre é grave, dessas de...

 – De derrubar avião? – questionou um metaleiro.

Novo burburinho. Faíscas no ar.

O rapaz tenta continuar:

– Uma pane é uma interrupção não-programada no funcionamento de algum mecanismo da aeronave.

– E quem me garante que não houve uma pane séria, dessas que fazem aviões caírem, como o garoto ali disse?...– bradou um halterofilista de uns dois metros.

Marina, com estranha expressão no rosto, mantinha-se quieta diante de tudo. Mais que todos, ela tinha praticamente a certeza da gravidade. Sim, deve ter havido uma pane mesmo! Imaginativa, nossa protagonista praticamente vislumbrou as faíscas nos ares de sua imaginação...

Eis que um terceiro comissário chega e transmite o comunicado do comandante sobre as perfeitas condições da aeronave, conseguindo acalmar a todos (ah, humanidade teleguiada!), iniciando-se um embarque normal.



Marina seguiu o fluxo, mais apavorada do que pela distração costumeira. Mas, no fundo, tinha a consciência responsável de que só adentraria a aeronave para observar o estado da tal poltrona, ou das poltronas, e verificar – também pelo discurso do comandante – se a situação era de real periculosidade. Bom, seus botões já haviam conversado entre si... Aliás, um intercolóquio de dias! Realmente, a situação era séria... e Marina começou a sofrer aqueles vácuos de respiração abruptos que tinha cada vez que uma ameaça se colocava bem diante dela... Minutos depois, olhou em volta, mais uma vez, e - não conseguindo ver sinal de nenhuma poltrona “reparada” –, bruscamente se levantou e foi – em passo impetuoso – direto até a cabine do comandante. Já na entrada, um terceiro comissário tentou impedir a sua passagem...



No entanto, resoluta, a moça adentrou o espaço, já se dirigindo com ares austeros ao comandante:

– Comandante, me desculpe pela invasão, mas de fato não irei nesse voo se não souber exatamente – e pelo aval do senhor – o que aconteceu com esta aeronave para ela atrasar mais de duas horas e, ainda assim, os comissários se atrapalharem totalmente no comunicado lá fora... – Marina falava sem parar, num só resfolegar.

É claro que ela não falou de sua premonição de dias (ele zombaria dela), embora viesse bem a calhar naquele momento (quanto a isso, nós três concordamos, não é?)...

O comandante parecia entre meio petrificado e com raiva. Mas se limitou a dizer:

– Senhorita...

– Senhora  – a moça rebate, com olhos de husky siberiano.

Parece até que o comandante ficou com medo por dois segundos. Se o teve, todavia, disfarçou:

– Como eu dizia, senhora, tivemos uma pane el...

– Ah então foi uma pane... elétrica?

– Quem disse para a senhora que foi uma pane elétrica?

– Ah, então foi isso que aconteceu, meu Deus?! Uma pane elétrica! Pode até explodir o avião!

 – A senhora é quem está dizendo.

– Nada disso! O senhor estava dizendo e peguei o termo “elétrica” bem no meio e, então, percebi a forjação!

– Mas que forjação, senhora?...

– Senhor, não adianta tentar me enganar: fiz cursos de Neurolinguística e Controle Emocional. E, até pelo seu respirar, posso mensurar o nível de verdade de suas palavras... Portanto, depois de toda essa aflição, me diga: há possibilidade de voltarmos a ter uma pane?... Assim... em pleno voo?

O homem balançava a cabeça.

Numa última tentativa, falou:

– Senhora, tenho 44 anos, uma carreira sólida e uma linda família. A companhia me paga bem, as aeronaves passam por revisão, e eu por treinamentos constantes. Assim como a senhora, também não quero morrer, deixar minha filha de 15 anos, meu filho corintiano e minha mulher, que foi miss e de quem eu morro de ciúmes, sozinhos aqui nessa Terra de vândalos! Portanto, vou fazer um trato com a senhora: o comissário Gesualdo Augusto vai acompanha-la até sua poltrona, e no caminho vai mostrar-lhe que, em lugar da poltrona 11C...

Uma Marina já mais complacente diz:

– Mas eu não a vi, em nenhum momento!

– É claro que a senhora não pôde vê-la... Como eu lhe dizia, o comissário Gesualdo irá mostrar-lhe o vão – ou seja, o espaço vazio – que ficou no lugar da poltrona retirada. Assim, se a senhora não constatar isso, poderá deixar a aeronave.

Marina viu razoabilidade na proposta. E disse:

– Ok, Comandante. Parece-me que o senhor fala a verdade. Talvez as incoerências tenham surgido da insegurança dos comissários a transmitirem a notícia. Mas lhe digo: se eu não confirmar o vão dessa tal poltrona, sairei e ainda direi o motivo, conclamando a todos  que façam os mesmo para salvarem suas vidas!

– A senhora vai causar pânico no acidente sem necessidade.

– Melhor pânico agora que gritos de horror depois com a aeronave embicando pra baixo...

O pobre homem suspirou alto. Marina ainda o fitou bem no profundo dos olhos, emudecida, e saiu.

No caminho para a sua poltrona, a moça verificou mesmo o vazio deixado pela tal 11B. Além disso, a 11A também apresentava uns reparos de ocasião. Mas algo superficial, que parecia simples. 




A moça resolveu que iria no voo, afinal parecia que o Comandante falara a verdade... e Louise e o Rio a aguardavam! Entretanto, sabia que, mesmo não tendo medo de avião, daquela vez iria rezando...

E foi concluindo um Pai-Nosso feliz e devotado que ela aportou no Rio de Janeiro – cerca de três horas depois –, depois do voo de mais quantitativas – e terríveis! – turbulências de sua vida!

Mas... e a intuição de tantos dias prévios? Simples: Marina atribuíra o fato à perda de um pendente antigo que trazia ao pescoço num dos trajetos pela Boa Viagem... Qual a relação entre uma coisa e outra? Bom, ela desenvolveu uma teoria de que – havendo no ar algum tipo de presságio, tal energia ruim confluiu para um objeto, especificamente, e aí se dissiparam os eflúvios de perigo, do mesmo modo que seu perdeu o pendente... Como se tudo tivesse sido descarregado nele, entende? Fim de contas: com o sumiço da peça, também seguira com ela a promessa de acontecimento infeliz... Marina estava certa disso. E entendeu que o prenúncio não-sólido se desmanchou no ar!... 

terça-feira, 1 de setembro de 2015



Bolo de aniversário


Não importam o tamanho, a cor, o sabor e o formato. Nem se são tradicionais, inovadores ou artísticos. Naked cakes, bolos esculpidos, uma reunião de cupcakes ou tortas. Importa tão somente que nele se afundem velinhas comemorativas, a fagulharem votos de muitas felicidades e muitos anos de vida para alguém!

Sempre soube que os primeiros foram feitos e cortados no âmago das tradições greco-romanas. Sim, dizem que os bolos de aniversário originais eram, antes de tudo, oferendas aos deuses em forma de guloseimas desenhadas e doces!... Olhe, cá entre nós, Ártemis – a primeira deusa homenageada, a chamada “mãe da fertilidade” – devia ser uma tremenda glutona! Pois foi com todas as honras a ela que gregos antigos, em Éfeso, fizeram um “preparado de pão e mel”, com direito ao formato místico de uma lua. Verdade: o primeiro bolo já foi esculpido: a forma lunar dava à guloseima ares de presente sagrado para autoridades do plano do Céu... Se a deusa gostou não se sabe (Ártemis existiu mesmo?!...rs), mas as massas sucessivas em forma de bolo, essas ganharam para sempre a mesa do Parabéns! Que criança, adolescente, adulto ou idoso nunca teve a momentânea felicidade suprema de soprar velinhas?


Aliás, as velinhas também existem por culpa dos tais (e considerados) deuses antigos. Mas será mesmo que (e)levar até o céu os eflúvios de desejos pela fumaça pode garantir alguma coisa? Será verdadeira essa crença de que os pedidos podem ser atendidos através da emanação das chamas?

Dúvidas conceituais e metafísicas à parte, o fato é que bolo e velinhas fazem parte mesmo de um ritual tão milenar quanto atual. E não falo aqui do simples fato de os romanos já, há tempos imemoriais, terem eleito um dies sollemnis natalis – a festa de aniversário já presente no calendário deles... Refiro-me a algo ainda mais revelador: a existência de inscrições com datas nos túmulos, ou seja, os romanos sabiam precisamente as datas de nascimento deles, registradas junto com a data de morte na lápide. Enfim (esse papo já não está agradando), o calendário de Gregório sempre privilegiou as datas de aniversário, desde há muito! Certo é, então, que o bolo da tradição que permaneceu é, como o conhecemos, um símbolo feliz de rito-passagem, de vida que se renova e sonhos que se concretizam com o correr dos anos...


E, a meu ver, um dos aspectos mais importantes no símbolo comestível é a alegria em torno da mesa: o bolo e a velinha representando a permanência do bem maior – a dádiva dos céus que é a vida continuada, trazendo novas chances e sonhos. Em torno do Parabéns, as expectativas e os bons desejos dos familiares e amigos que ali se reuniram para festejar e agradecer pela vida de alguém que se ama!... História que continua, portal que se abre, energia que se revitaliza. Alegria, cor, expectativa, surpresa, saúde, uma quase perpetuação da juventude, uma ilusória, mas feliz crença de eternidade... Afinal, mais que trigo, amido de milho, leite condensado, chocolate ou coco, todos esses itens de vida são ingredientes do velho e bom bolo de aniversário – com direito à chama brilhante na esperança da vida!





Memória gustativa



Não, não foi apenas Proust que a evocou com as suas madeleines... Tenho-a também, palpitante e, mesmo, sinestésica... Detalhe: não é que algumas das minhas lembranças gustativas da infância são também de guloseimas assemelhadas à preferência do escritor francês? Sabe aquelas roscas fritas de canela e açúcar, biscoitos esféricos ou bolinhos de chuva? Pois são algumas das minhas referências de paladar infante! Mamãe preparava-as para mim, que as devorava com a mesma avidez com que as olho hoje, se em face delas, numa das minhas visitas à casa de infância!...

Lembrei-me disso não sei por quê... E estou aqui a imaginar que deve ser este um bom exercício: o rememorar das coisas de infância. E começar pela parte gastronômica é realmente uma boa pedida, não é?

Assim é que me vêm à memória gustativa:

– o pudim de leite com calda: minha mãe fazia dois, a cada vez: um para mim; outro para o meu pai (pode acreditar nisso?!);

– o arroz-de-forno amarelinho e recheadíssimo, quentinho, emanando aquele cheirinho típico de algo literalmente saindo do forno(!);
– a pizza de alichi com azeitonas pretas e tomates: massa dourada e crocante como nunca mais vi outra igual(!);
– os salgadinhos de cebola (cebolinha) com queijo... de sabor picante, com gosto de quero-mais, assadinhos e meio que derretendo na boca, amanteigadamente (...);
– os cremosos potes de sorvete de morango, de creme e de chocolate (estes, industriais) e os melhores: os caseiros, preparados pela minha mãe, nos sabores de manga (cremosíssimoo), ameixa e leite condensado!
– as cristalinas,  ultracoloridas e translúcidas balas Soft! Hummm... Praticamente sinto o sabor na ponta da língua manchada de vermelho...
– os caramelos de chocolate envolvidos em papel-manteiga – puxantes, dulcíssimos e com gosto de céu!... Recentemente, experimentei uns parecidos na Cavé, famosa confeitaria de clima oitocentista do Centro do Rio;
– as latas de leite condensado cozido, naquele tom marrom-dourado que só minha mãe sabe imprimir ao cozimento... e naquela consistência ímpar, opulenta! Quase sinto o doce e substancioso gosto nessa tentativa (sem coragem) de descrição... Faço-o parcimoniosamente, para não atiçar a vontade!
– as caixas de bombons Serenata de Amor, que eu comia aos montes e às escondidas, afinal mãe nenhuma permitiria uma farra de sobremesa fora de hora daquelas! Devorava-os, enfileiradamente, e a seguir escondia os papéis por entre meus livros na grande e pesada estante de peroba...
– as bavaroises de abacaxi – aquele creme amarelo delicioso, com pedaços entranhados de abacaxi cozido! Hummm!...
– aquele creme-três-cores geladíssimo [amarelo (leite condensado), marrom (chocolate) e branco (creme deleite + nata)] que mais parecia uma dessas tortas de sorvete de agora... Encontrei, parecido, aqui no Rio há alguns anos, no Bistrô dos Correios, chamado na vez de terrine tricolor.


E mais: a palha italiana, o doce de leite em cubos, a papa quentinha (curau de milho), o cachorro-quente com linguiça das festas juninas e o angu à baiana apimentadamente folclórico...  E, claro, o pacote Anos 80: minichicletes (rosa pink, verde, laranja, amarelinhos), caramelos de leite Nestlé, Chocolates Surpresa, Zorro, Azedinho-doce e Galak! Mais: o pastelzinho de guaraná, a empadinha de camarão da Maria Helena e o bacalhau com creme de leite dos deuses que a minha mãe fazia aos domingos!...

Além das peculiaridades da época, como faço notar, sou filha de uma tremenda gourmet e, por isso, me tornei uma gourmande inveterada e desprovida de consciência salutar... Mas, claro, provida das melhores lembranças gustativas com cheirinhos emanados e sabores apetecidos em manhãs de inverno, com neblina soprando e fumaças espraiantes na cozinha e na varanda da grande e atrativa casa de um dia!...

E você: quais são os seus sabores de infância?



  Casa-concha para os do signo de caranguejo


No tocante à abarcadora Astrologia, sou apenas uma observadora curiosa. Não conheço propriamente ditames da ciência, mas acredito muito na fundamentalidade de suas bases. Quero dizer com isso que, embora eu não seja especialista do assunto, tenho percebido vida afora a sua consistência, a sua aplicabilidade aos humanos. E uma certa característica vem se tornando cada vez mais minha marca. Veja...

Começo por clarificar esse meu pensamento: digo isso porque constatei – por mim mesma e em ponderações com plausibilidade – que os astros realmente interferem em aspectos da vida na Terra. Ora, quem não sabe que as fases da Lua influenciam marés, plantações e cortes de cabelo? Sim, isso é científico. Não há como refutar. Então, estimulei o meu pensamento: assim como o mar, o solo e os cabelos das pessoas sofrem influências astrais, muito provável será que demais corpos/seres da Terra possam passar pelo mesmo. Correto? Corretíssimo, plausibilíssimo.
Observe, a respeito, se aquele nativo de Câncer que você namorou não era extremamente manipulador (ah, mas também era tão amoroso!)... Sim, cancerianos ou nativos do signo de Caranguejo (melhor chamar assim; questão de Neurolinguística) são espertos a ponto de orquestrarem quase tudo ao seu redor, mas também alguns dos mais afáveis elementos do Zodíaco: adoráveis – doces, ternos, meigos e derretidos, mais que manteiga ao fogo!...

Bem... Você deve estar pensando que é este o meu signo solar, e que por isso o venho elogiando nas últimas linhas. Nada disso. Beem, não é exatamente isso: é apenas um pouco isso! Na verdade, meu signo solar é Peixes (e sou muito pisciana!). Mas é verdade também que o meu signo ascendente pertence à categoria dos caranguejinhos – entes que, muitas vezes, se guardam numa concha, se colocam para dentro – e, nessa tendência – acabam se tornando habitantes reclusos dos próprios espaços. Falei certo, astrólogos e astrólogas de plantão?...


O ponto exato desta crônica, a propósito, é falar da tal dessa peculiaridade que o caranguejinho do zodíaco tem de ser ensimesmado... Isso mesmo, essa mania que ele possui de gostar muito de (con)viver consigo mesmo! Então, talvez você já esteja ponderando se eu, tendo apenas o meu ascendente em tal classificação zodiacal, seria assim também. Respondo: sou! Adoro conviver comigo mesma (risos conscientemente engraçados)... Tenho grande prazer na minha própria companhia e priorizo meus gostos e ideais. Nunca achei difíceis os tais ditos e propalados momentos solitários. Muito pelo contrário: preciso até garantir aquela conversa comigo mesma – no espaço recluso de meus pensamentos e intenções. E atos: adoro ir ao cinema sozinha (de vez em quando) e gosto de flanar pela cidade acompanhada de mim mesma! ;) Isso não significa, claro, que eu não goste de estar com as pessoas... Quem não aprecia companhias doces,  agradáveis, inteligentes, propiciadoras?... Claro que gosto! Quando é possível encontrar alguém assim, nada melhor, não é? (Quem não preferiria?). Apenas quero dizer que também tenho a necessidade de estar sozinha ocasionalmente e que, por isso, a solidão (programada) não é difícil para mim, como o é para muita gente.

Voltando, oportunamente, ao meu signo solar facilitador, sinalizemos, então, outro ponto: o fato – alegado por quem entende (os astrólogos) – de as pessoas, depois dos 30 anos, passarem a polarizar mais o seu signo ascendente. Tal afirmação pressupõe que o signo solar passa a valer menos, então. Assim é que o pisciano será um pouco menos pisciano a partir da terceira década... E, se a sua ascendência zodiacal for a de um caranguejo, ele possuirá mais fortemente características desse signo. Por isso é que, sem qualquer possibilidade de engano, ao longo do tempo tenho observado como preservo cada vez mais (reitero) meu espaço próprio, meus cantinhos, minhas casa! Embora a minha Lua seja fervilhantemente em Leão – que gosta de festa, palco, microfone, holofotes e gente reunida –, o tal caranguejo anterior que me deu a conjuntura celestial do nascimento, muito particularmente, faz de mim uma habitué dos espaços domésticos – uma vivente internalizada do meu próprio escritório, uma frequentadora permanente do meu próprio quarto, uma visita presente em minha sala!... E, não imaginam leitores e amigos, quão grande é a força que, algumas vezes, preciso fazer para sair por aí, a fim de cumprir obrigações profissionais rotineiras ou para as necessárias (re)socializações da coexistência.

Para a diversão doméstica em si, confesso, meus livros (quer em páginas celulósicas, quer em laudas eletrônicas no iPad), o LED doméstico, o DVD (não adotei o blu-ray), as temporadas completas de séries tipo box, o Netflix e o arsenal de computadores daqui de casa já me fazem bastante bem! Não fosse o apego que tenho por restaurantes e espaços gastronômico-culturais afins, bem mais difícil ainda seria arrancar-me dessas ostras domésticas entranhadas no assoalho do meu apartamento!... Grosso modo, renovo a afirmação consciente: quanto mais passa o tempo, mais eu gosto de internalizar-me e de casa: minha casa, as casas de ontem, as moradias da minha vida, os meus espaços de reportação e reabastecimento gradual... E você, se caranguejo, é também um ser caseiro?





Talento e produção: proporção de ouro

ou 

A ARTE VALE QUANTO PESA




Talento não existe sem quantidade ou  volume reabastecido de ações. A tal dicotomia entre qualidade e quantidade não existe quando se trata de talento. Isso porque o tal dom – com o qual se nasce – não possui limites e efervescerá na sua alma, será algo a borbulhar, todo o tempo, na combustão de suas intenções.

Assim é que quem possui talento não sabe o que é economia de atos ou pensamentos. O talentoso é aquele que, em sua vocação, jamais encontrará dificuldade para a prática de sua particular virtude. Ele nunca precisou nem nunca precisará de quaisquer aditivos ou estimulantes à criação. A produção constante é intrínseca à vocação. Essa história de que um pintor, em alguns casos, se resume a algumas poucas pinturas pode ser escrita sem h: estória = lorota, conversa fiada, engodo. Uma pessoa não possui arte nenhuma e, sim, representa apenas uma farsa quando a sua (dita) arte não pulsa com pujança, em borbulhante quantidade... Assim é que o pintor autêntico sempre terá inspiração, pincéis e cores para encher telas de todos os tamanhos! Telas brancas só existirão até que sobre elas pousem seus olhos.


O artífice que, acaso, proferir: “Só tenho três ou quatro telas; nem tenho pintado”... ou: “Pintei só essas, sabe? Nunca mais fiz nenhuma!”, com toda a certeza, é um impostor! Desconfie do dito artista que põe limites à própria arte! Se ele não é capaz de produzir em abundância, esteja na quietude relaxante de um campo de lavanda ou em meio a decibéis elevados e conflitantes de uma cosmópole, certamente não possui a arte em seu espírito. Artista que é artista produz no marasmo ou na guerra, no mar e na selva. E mais: é capaz de produzir variados títulos e estilos (gêneros de obra) ao mesmo tempo! Realmente, não há dia, hora e condição que possam delimitar o fabricar pleno de sua arte opulenta. Sim, a verdadeira arte é opulenta, substanciosa, e não depende de momentos ou (propaladas) inspirações, reitere-se. O que salta da alma o faz todos os dias, sem interregnos ou tréguas! É algo como respirar, alimentar-se de mundo. Um artista só nutre a sua alma com a produção constante da lavra que lhe dá nome. Como a sorte ao venturoso: não há licenças para deixar de sorrir!... Todo momento é pleno para fazer a alma falar, lançando-se ao mundo das consumações constantes.

Essa história de “estar sem inspiração” por um tempo, meu caro, acredite: é uma falácia! É claro que há momentos em que o artista está tão efervescente em seus ímpetos de criação que – às borbulhas – matiza telas e telas com o seu lampejo criativo, em instantes magníficos de pujança!... Porém, em qualquer momento ele poderá criar, porque a criação verdadeira pressupõe provisão de estoque, uma fonte luminosa e inesgotável de ideias e sensações!.. Mesmo para uma produção mais técnica (se for algo pouco além do maquinal) em algum caso, tal produção – para ser boa, fluente e veloz – necessitará de verve real. 

A verdade plena é que a arte não possui medidas ou frações. Trata-se de algo integral, que toma todo o ser que lhe dá abrigo e a este oferece o dom prodigioso da permanência e da continuidade. É preciso observar o conjunto da obra! 




Na constância desse ritmo natural e imutável – invariável para a captação ou a existência da arte –, o artista só existe se tem lavra. Afinal, artistas só param de fabricar arte quando morrem ou se, por algum mal de saúde, tiverem afetadas as funções motrizes de sua normalidade orgânica.  Caso contrário, sua alma sempre estará nos olhos, e nas suas mãos a edificação da construção perene, aquela fábrica de sonhos e belezas que se avantaja e amplia quanto mais ele vive! Porque, para o dono e portador da arte primaz, viver é uma (re)criação constante do belo e do frutífero. Como no documentário-título de Roberto Beliner (2004), "A PESSOA É PARA O QUE NASCE". Não adianta forçar a barra. 



A arte e o talento pressupõem, assim: volume, refeitura, abundância, entalhe, contornos, rizomas, estilos abundantes e próprios – belezas a ocuparem espaço, a ganharem forma, a tomarem conta do (presente) mundo e criando outros, na tessitura de uma obra infindável, a qual – dia após dia – se expande, solidifica e resplandece!... Artistas são capazes de construírem e reconstruírem seus próprios  mundos – e outros...  De modo similar ao teor do antigo adágio, a arte vale quanto pesa!




P.S.: Na esteira do pensamento defendido neste texto, é preciso destacar que, infelizmente, vivemos numa era de impostores. O mercado de artes vem se alientando industrialmente de produtos encomendados a artistas, produtos esses que levam a assinatura dos pagantes, e não dos verdadeiros artistas e naturais criadores da obra.