terça-feira, 1 de setembro de 2015


Talento e produção: proporção de ouro

ou 

A ARTE VALE QUANTO PESA




Talento não existe sem quantidade ou  volume reabastecido de ações. A tal dicotomia entre qualidade e quantidade não existe quando se trata de talento. Isso porque o tal dom – com o qual se nasce – não possui limites e efervescerá na sua alma, será algo a borbulhar, todo o tempo, na combustão de suas intenções.

Assim é que quem possui talento não sabe o que é economia de atos ou pensamentos. O talentoso é aquele que, em sua vocação, jamais encontrará dificuldade para a prática de sua particular virtude. Ele nunca precisou nem nunca precisará de quaisquer aditivos ou estimulantes à criação. A produção constante é intrínseca à vocação. Essa história de que um pintor, em alguns casos, se resume a algumas poucas pinturas pode ser escrita sem h: estória = lorota, conversa fiada, engodo. Uma pessoa não possui arte nenhuma e, sim, representa apenas uma farsa quando a sua (dita) arte não pulsa com pujança, em borbulhante quantidade... Assim é que o pintor autêntico sempre terá inspiração, pincéis e cores para encher telas de todos os tamanhos! Telas brancas só existirão até que sobre elas pousem seus olhos.


O artífice que, acaso, proferir: “Só tenho três ou quatro telas; nem tenho pintado”... ou: “Pintei só essas, sabe? Nunca mais fiz nenhuma!”, com toda a certeza, é um impostor! Desconfie do dito artista que põe limites à própria arte! Se ele não é capaz de produzir em abundância, esteja na quietude relaxante de um campo de lavanda ou em meio a decibéis elevados e conflitantes de uma cosmópole, certamente não possui a arte em seu espírito. Artista que é artista produz no marasmo ou na guerra, no mar e na selva. E mais: é capaz de produzir variados títulos e estilos (gêneros de obra) ao mesmo tempo! Realmente, não há dia, hora e condição que possam delimitar o fabricar pleno de sua arte opulenta. Sim, a verdadeira arte é opulenta, substanciosa, e não depende de momentos ou (propaladas) inspirações, reitere-se. O que salta da alma o faz todos os dias, sem interregnos ou tréguas! É algo como respirar, alimentar-se de mundo. Um artista só nutre a sua alma com a produção constante da lavra que lhe dá nome. Como a sorte ao venturoso: não há licenças para deixar de sorrir!... Todo momento é pleno para fazer a alma falar, lançando-se ao mundo das consumações constantes.

Essa história de “estar sem inspiração” por um tempo, meu caro, acredite: é uma falácia! É claro que há momentos em que o artista está tão efervescente em seus ímpetos de criação que – às borbulhas – matiza telas e telas com o seu lampejo criativo, em instantes magníficos de pujança!... Porém, em qualquer momento ele poderá criar, porque a criação verdadeira pressupõe provisão de estoque, uma fonte luminosa e inesgotável de ideias e sensações!.. Mesmo para uma produção mais técnica (se for algo pouco além do maquinal) em algum caso, tal produção – para ser boa, fluente e veloz – necessitará de verve real. 

A verdade plena é que a arte não possui medidas ou frações. Trata-se de algo integral, que toma todo o ser que lhe dá abrigo e a este oferece o dom prodigioso da permanência e da continuidade. É preciso observar o conjunto da obra! 




Na constância desse ritmo natural e imutável – invariável para a captação ou a existência da arte –, o artista só existe se tem lavra. Afinal, artistas só param de fabricar arte quando morrem ou se, por algum mal de saúde, tiverem afetadas as funções motrizes de sua normalidade orgânica.  Caso contrário, sua alma sempre estará nos olhos, e nas suas mãos a edificação da construção perene, aquela fábrica de sonhos e belezas que se avantaja e amplia quanto mais ele vive! Porque, para o dono e portador da arte primaz, viver é uma (re)criação constante do belo e do frutífero. Como no documentário-título de Roberto Beliner (2004), "A PESSOA É PARA O QUE NASCE". Não adianta forçar a barra. 



A arte e o talento pressupõem, assim: volume, refeitura, abundância, entalhe, contornos, rizomas, estilos abundantes e próprios – belezas a ocuparem espaço, a ganharem forma, a tomarem conta do (presente) mundo e criando outros, na tessitura de uma obra infindável, a qual – dia após dia – se expande, solidifica e resplandece!... Artistas são capazes de construírem e reconstruírem seus próprios  mundos – e outros...  De modo similar ao teor do antigo adágio, a arte vale quanto pesa!




P.S.: Na esteira do pensamento defendido neste texto, é preciso destacar que, infelizmente, vivemos numa era de impostores. O mercado de artes vem se alientando industrialmente de produtos encomendados a artistas, produtos esses que levam a assinatura dos pagantes, e não dos verdadeiros artistas e naturais criadores da obra.

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