domingo, 12 de julho de 2015

A JARRA INQUEBRÁVEL




Você pensa que pode existir algum objeto inquebrável? Pois eu lhe garanto que sim: é sobrevivente em meu apartamento uma jarra inquebrantável! Sim, meu leitor, ela não se quebra jamais – fato já provado pelas diretrizes da Física!

Você pode estar pensando que tal jarra é de alguma cerâmica da tribo dos Krahôs ou de mosaicos de pedrinhas translúcidas. Nada disso! A jarra que nunca sucumbe – pasme – é de vidro!

Se suas sobrancelhas se arcaram, incrédulas, pode relaxá-las e movê-las de volta que, nessa expressão (da verdade), não há lugar para o inacreditável. Pelo contrário, falo aqui da dinâmica sucessiva de fatos comprovados, cada qual discorrido nos parágrafos a seguir.

O primeiro parágrafo do incontestável contestado narra o momento de um desastre cotidiano: eu morava num apartamento antigo e enorme, onde pareciam habitar fantasmas. Se lá os havia ou não, fato era a loucura da minha rotina, que – entre muitos livros, quadros, objetos decorativos, abajoures e cortinas, vivia me brindando com tropeços, com minha estabanada performance de  derrubar coisas. E foi num aparador do hall de entrada que a bonita vítrea deu a sua primeira pirueta: caiu pipocando da altura do console de modo a repicar por quatro vezes até quase (?) estatelar-se no chão de madeira!... Eu disse quaase! Não acreditei quando abaixei e levantei a cabeça, abaixei-a de novo, apertei-a no queixo e arregalei os olhos para baixo na direção de “uma quase jarrinha”. Que nada: lá estava ela, a jarra branca de vidro leitoso inteira e inteiriça, no seu melhor brilho translúcido refletido numa réstia de luz nacarada...

O segundo parágrafo de peripécias da leitosa dá conta de um novo momento-perplexidade, num apartamento amplo e iluminado invadido pelo sol praiano – quase estilhaçando a vidraça da janela – e por aqueles ares de maresia... Pois bem: era uma quinta-feira de sol praticamente  radioso, que de repente fez cara feia e se pintou de cinza, quando a menina teimosa resolveu tremular com a ventania repentina de quase fim de tarde... Sim, o tal apartamento claro tinha lugar numa torre, em que o vento entoava, sinistro, seus rugidos invasores de varanda do vigésimo terceiro andar... Pois foi pela porta de blindex fumê entreaberta que a ventarola passou, soprando com vontade, indo dar numa mesinha de canto da qual derrubou a alva e esbelta (já quase estatueta secular). Fim de contas: o vento na torre fez tremer o apartamento (sim, lá havia uma mesa de tampo de mármore e pés de ferro que trepidava com a ventania!), derrubou a (agora já) jarra sinistra, que, quieta e branca – de face suave – beijou o chão sem sofrer qualquer fratura!

O terceiro parágrafo das historietas da jarra inquebrável aconteceu num espaço mais compacto – sobre a bancada de um bar que dividia a sala com uma tal cozinha americana. Pois foi lá que Dona Jarra, a Alva, dançou uma salsa (talvez estimulada pelo moai com pisco chileno dentro), rodou, girou, equilibrou-se num canto de base e... caiu, caiu, caiu, rolou e rolou do alto do bar até o profundo chão! – a que chegou... ilesa! Para variar...


O quarto parágrafo prova a minha lei do três quando conto a você a subsequente reincidência da iluminada: ela morava (já) no compartimento superior do escribar (o da foto) e de lá – depois de um vento-vilão de arrancar o toldo da varanda – saiu a rolar em nova tentativa de suicídio não-consumado... Nem preciso falar de sua aparência segura e já quase com um risinho de convencimento de eternidade no rosto vítreo ;) Acentue-se aqui que, em sua atual moradia aleatoriamente decorativa, ela convive com um mundo de parafernálias: está no meio de um monte de coisas, como taças, bebidas, livros, troféus, porta-trecos, coleções e toda sorte de objetos (como se vê na foto) 


e nada de a jarrinha se render ao que seria o destino inevitável de sua espécie: o despedaçar de suas partes vítreas ou, quando menos, o estilhaço!

Mas como isso parecia nunca acontecer, como aqui relatado, resolvi testar o nível de sua resistência levando-a a uma aventura de difícil sobrevivência para um corpo de vidro: levei-a para a cozinha! Sim, numa cozinha, em tese, ela teria mais chances de, em meio a abruptos e constantes movimentos diários, sofrer quedas e rupturas. Mas, como diriam os literatos antigos, qual nada! A danada tem mesmo sorte, pois em cozinha de casa de Sayonara não há movimento de rotina. Almoço fora todos os dias, em vista de minha conhecida não-prática culinária. E, mesmo depositada sobre a mesinha do café da manhã, onde em tese haveria um movimento cotidiano, ela permaneceu incólume! Bom, eu disse: em tese... Pois escrevo até tarde, acordo mais tarde ainda e, quando acordo, já passou da hora do café muitas horas... Assim, a mesinha permanece quase sempre intocada, com biscoitos a mofarem nos potes e pães-de-forma a ficarem verdes. Portanto, lá é que Dona Jarra não iria se quebrar mesmo!  



Assim, decidi retornar com a pirrônica para o escritório-bar, onde ela voltaria a conviver com uma infinidade de itens mais ofensivos à sua perenidade. Não sou sádica (também não deve existir sadismo contra jarras), mas eu precisava mesmo descobrir até onde ela poderia ir sem tréguas... E pensei: o escritório é o lugar da casa por onde "passam" mais objetos-transeuntes, em constante movimentação. Vou deixá-la, novamente, conviver com o turbilhão diário das ações-de-toda-hora... Mas quem disso que isso afetou a sua certeza inquebrantável de anos? Foi assim que, dia desses, olhei para a (quase) criatura vítrea, praticamente provida de alma, e disse:

– Ah, você é a jarra que nunca se quebra, não é? Vamos ver se você merece ser estrela de crônica mesmo! E, apenas com um pouquinho de dó de objetos, lancei-a num ímpeto ao chão!... E acompanhei, com meu olhar mais incrédulo, o seu repicar repetido junto à sólida e inflexível tábua corrida de sala... E nada: Dona Jarra chegou vivinha ao fundo do chão! Nesse instante, questionei se madeira (assim como é considerada um elemento mau condutor de eletricidade) também não seria um bom chão para a queda de jarras! E lembrei-me que o chão do escritório é de granito... Huumm... Instinto maléfico apoderou-se de meu coração sem amor a objetos e, num átimo, joguei do alto de minhas mãos a vítrea lá embaixo... no chão marmóreo, duro, para ver se ali ela não se espatifaria! Mas, como você já imagina, ela subsistiu, debochada... Por isso, resolvi dar a jarras inquebráveis o que é de objetos milenares: o reconhecimento do que é (ou parece) eterno – a Lauda! E assim foi que Leitosa Vítrea de Translucidez Inquebrantável virou a protagonista desta crônica! 


No último parágrafo desta narração de insistentes preâmbulos e períodos de resistência conceitual – e material –, devo assinalar que, reintegrada (sem nunca ter se desintegrado fisicamente) ao ambiente, Dona Jarra hoje mora permanentemente na bancada do escribar, dividindo espaço com algumas bebidas, coleções de porta-copos e uma elegante lata (pelo menos já se sabe que lata não quebra mesmo) da La Cure Gourmande que a minha filha trouxe para mim de Paris. Veja na foto como a jarrinha branca sorri, altaneira, seu sorriso de vidro inquebrantável, a portar flores artificiais em sua companhia perene!...








Por Sayonara Salvioli

2 comentários:

Roberto M. Paschoal disse...

Crônica deliciosa, Sayonara! Muito bem constituída, dos argumentos ao estilo do texto, estimulante e peculiar. Parabéns! Sabe o quanto sou seu fã!

Vera Fontana disse...

Vi no FB, pois acompanho todo dia, e vim direto pra cá! Acho que vou até sua casa pra ver essa jarra de perto!! Hahahaha