sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

'A Viagem' sem aportes 

A Viagem (Cloud Atlas, 2012), dos irmãos Wachowski, em parceria com Tom Tykwer, suscita em princípio alguns comentários – ainda que pouco controversos, creio. 




A crítica espontânea do longa

O filme A Viagem – sendo dos mesmos diretores da trilogia Matrix, os irmãos Andy e Lana Wachowski – reafirma a sua estética vanguardista, com linguagem fantasiosa e evasiva, em dimensões interpoladas. No foco de sua concepção, mundos distantes são apresentados – de modo fragmentado – na proposta conceitual de um fio de ligação entre as tramas. 


No entanto, foge ao espectador a compreensão objetiva de tal interligação de histórias paralelas, vividas em diferentes tempos: 

– Em meados do século XIX, o advogado que é intermediário de sua (poderosa) família no tráfico negreiro, mas se arrepende da missão e se torna amigo de fé de um escravo;




– Na década de 30 do século XX, o compositor jovem e genial que se aproxima de um músico já consagrado, porém em seu momento de ocaso. O talentoso rapaz vive uma fuga social, já que tenta esconder sua homossexualidade de uma sociedade repressora. Na convivência com o músico veterano, tem sua obra-prima roubada e sofre ameaças.



– A jornalista idealista (na dinâmica psicodélica dos anos 70), que põe sua vida em risco ao investigar irregularidades na construção inescrupulosa de um reator nuclear;



– Na atualidade, o editor não-famoso que se torna uma celebridade instantânea quando um dos autores da Casa assassina um crítico;




– Na Coréia de um futurista 2144, uma andróide serviçal de um restaurante fast-food é programada para a mecanização até a sua rebelação (e a de seu povo) e redenção;



– Num período pós-apocalíptico (em que a ex-andróide é tida como deusa), tem início uma incipiente civilização, que, na devastação do planeta pós-guerra, retorna à cultura das sociedades pastoris.




Estas são as principais tramas paralelas, embora se cruzem nesse contexto outras personagens e situações, pouco fundamentadas na maior parte das vezes. 



Baseou-se o longa na novela literária, de mesmo nome, do britânico David Mitchell. A propósito, tem se assegurado que o livro é inadaptável para roteiro cinematográfico. Eu já não penso assim, pois acredito ser qualquer obra adaptável, dependendo o seu sucesso, porém, da sensibilidade e da flexibilidade do roteirista em transpor para o campo visual um conteúdo surgido para a estática do papel. Não fosse assim, obviamente, não haveria o que se chama de adaptação – ou seja, transposição (de linguagens, backgrounds, mundos líricos, personagens e peripécias). Em viés paralelo, é claro que existem autores e obras mais ou menos adaptáveis. Exemplo: às vezes, um conto pode ser mais audiovisual do que um romance, em vista da abundância sequencial de conflitos, ante o entremeamento de diversificados "pathos" na extensão da trama. Mas o que se deseja discutir aqui não é a adaptabilidade da novela do escritor britânico, e sim os resultados e as corporificações já audiovisuais da linha delineada pelos cineastas. Com esse enfoque, endosso a crítica geral de que o filme não agrada, afinal ele não consuma o argumento 
com precisão. Sintetizando: faltou roteiro. 



Devo dizer que não acho a ideia geral (dos diretores) um amontoado de intenções sem sentido. Lógico que não. Contudo, as diversas vertentes de concepção da história perderam-se num emaranhado confuso, cansativo e não-amarrado em seus diversos tempos e contextos. Para quem não viu ainda, vale ressaltar que o longa-metragem – de quase três horas de duração – passeia o tempo todo pelas tais  dimensões temporais distintas; tramas paralelas se fragmentam trazendo à cena personagens e contextos (alternados, em rupturas muito velozes) de passado, presente e futuro. Pretendia-se que personagens de um tempo estivessem ligados, em essência, a figuras subsequentes da trama em outros tempos. Assim, a história que se passa nos idos escravagistas de 1800 deveria ter reflexos na década de 30 do século XX; e esta, por sua vez, no presente dos anos 70 ou, quem sabe, numa era cientifizada do século XXI, em plena sociedade de andróides!... Por fim, numa civilização remanescente em período pós-apocalíptico (contraditoriamente num ano 2300): uma sociedade rústica começando tudo de novo... 

E não se estabeleceram, com plausibilidade, vieses de identificação entre esses momentos e personas!



Evidentemente, nada tenho contra narrativas não-lineares; a questão não é esta. No entanto, quando há paralelismo em dramaturgia, necessariamente, devem existir ligações e encadeamentos lógicos, senão perfeitos, para entendimento e unificação dos vários pontos da trama. É preciso que tudo se encaixe, em coesão de fatos e personificações. E isso não acontece, decididamente, no filme dos Wachowski. Não basta a um crítico, cineasta ou espectador ver as performances brilhantes de Tom Hanks, transmutado em diversas figuras intertemporais. Claro, ele é um ator transcendental (para não perder o sentido correlato – risos) e sabe, mesmo, incorporar um cientista ou um selvagem. Porém, atores espetaculares, máscaras faciais hollywoodianas e efeitos estético-conceituais não garantem a compreensão e o alcance da mensagem cinematográfica. Se a proposta dos diretores era mostrar várias vidas (e personagens e contextos) em diferentes pontos de sua reencarnada existência, deveriam ser reconhecíveis esses elos de identidade, em qualquer momento, país ou século. 


Não duvide o leitor / espectador de que é possível unir as pontas de tramas paralelas "viajoras" em tempo e espaço. Sim, todos os fatos e personificações – ainda que em intervalos e situações distantes – precisariam apresentar uma interseção dramatúrgica, um cruzamento de identidades (fossem ou não os mesmos atores). Mas não é o que acontece em A Viagem, onde cada persona se perde no universo geral da trama. E, reitero, não por causa da linguagem fracionada, e sim porque o roteiro não cumpriu a sua função de harmonizar estética e essência. Alguém pode acreditar que funciona, em ficção, uma bela forma sem um bom conteúdo? Pois é o que se dá! As histórias não se unem ao final (no que seria a conclusão do "logos"), e o espectador não tem aquela sensação de empatia com o universo da tela quando sobem os créditos. Contrariamente, quando o filme acaba, as pessoas se despedem dele com a mesma distância conceitual com que assistiram à sua exibição (não raro, vi pessoas conversando(!), bocejando e virando-se para o lado). Obviamente, esse tipo de filme não é feito como se produzem blockbusters, mas boa parte dos espectadores não está – mesmo! – preparada para o convite à reflexão profunda sobre o Cosmos, seus diversos tempos, sociedades e criaturas. E o público que existe de fato com este perfil, sem qualquer dúvida, não se identificou com a proposta, não embarcando na evasão essencial de A Viagem. 


Pontos positivos? Na concepção da trama (não estou falando de produção), vou destacar apenas dois:

1- Os cineastas conseguiram demonstrar na telona a sociedade de massificação da China contemporânea. Nesse sentido se manifestou, muito veementemente, a minha filha e companheira de poltrona, a publicitária Raquel Salomão. Tal como ela identificou e destacou, "a mecanização industrial – de reprodutibilidade avassaladora – do país oriental foi claramente retratada na sociedade de clones escravizados, estranhamente inseridos num reino de arrojo tecnocientífico". 
Isso realmente ficou claro, não só em imagens como em falas como esta:



"Bem-vindos ao Papa Song’s!

Nas 19 horas seguintes, anotamos pedidos… Servimos comida, vendemos bebidas… Estocamos condimentos, limpamos mesas e jogamos o lixo… tudo feito seguindo fielmente o primeiro catecismo.

Qual é o primeiro catecismo?

– Honrar o cliente."

[Oportunamente acrescento: foi no momento futurista do filme, em uma Seul do ano 2144, que se pôde reconhecer o traço ficcional básico dos irmãos Wachowski, tal como já expresso e definido em Matrix; é como se eles fizessem o filme inteiro para chegar lá, numa busca de clímax. Mas não há êxtase dramatúrgico, pois o roteiro não acompanhou a intenção]. 

2- Há frações de aproximação com o "mito do cinema total" de Bazin (a arte do real em plenitude sinestésica): no momento do sofrimento da menina da aldeia pós-apocalíptica (visualidade um tanto corpórea) e, principalmente, nas propostas de ficção científica (ambientes, câmaras, procissões, cores e formas num contexto artificial de clones configurados como andróides), reportando-me em átimos a uma "facção" do universo de Eisenstein. Destaque para a cena de Sonmi 451 naquela passarela de ferro, nas alturas, com o seu defensor apaixonado... Você viu?






Afora tudo isso, sobram os reflexos em efeitos especiais, figurino, maquiagem e proposições cênicas de expressão, de acordo com as altas cifras envolvidas no projeto cinematográfico. Sem mais viagens (como o espectador gostaria de empreender), infelizmente!


Por Sayonara Salvioli