segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A mão invisível do Guararapes

A mão invisível do Guararapes


– De como Marina ganhou um presente e as peripécias vividas até ir recebê-lo

Marina, ao consagrar-se uma balzaquiana, recebe um telefonema bem no meio da noite de aniversário. 


Do outro lado do fio de Graham Bell, uma voz familiar:

– Amiga, o meu presente é o seu afilhado: estou grávida do João Filipe; escolhi você pra ser a madrinha dele – surpreende Viviane, a eterna Vivi do colegial. As duas não se viam havia uns onze ou doze anos.

Marina fez estardalhaço. Esse sempre foi o seu modo de reagir à alegria, à surpresa, ao susto ou ao pranto. Sua irmã, Colette, sempre diz: “Marina é espalhada”. Mas, além de espalhada e boa amiga, a balzaquiana nº 1 sabe também como ser uma amiga sumida, dessas que sobem para uma nuvem de distância e ficam por lá, provisoriamente, longe de seus entes mais queridos.

Pois bem... Depois do telefonema de aniversário, Marina sumiu das vistas de Vivi mais uma vez. Mas ambas não eram muito normais: Viviane tinha a capacidade de sempre tudo entender e ponderar; era a própria flor da sensatez. Já Marina sempre foi louca mesmo. E as duas sempre se deram harmoniosamente.

O tempo passa: três anos! João Filipe já tem mais de dois anos quando Marina marca finalmente a data do batizado com a amiga. Circunstância meio arrastada, apesar do forte elo das colegas de adolescência. Compromissos, trabalhos, fatos novos e adiamentos. Mas Marina sempre soube quando não podia mais adiar uma situação. Desta vez, não era momento de sair do Rio (ainda menos que das outras vezes não-idas), mas Marina tinha certeza de que não haveria prorrogação depois do segundo tempo. A paciente Viviane pedira até seu documento de identidade:

– É porque preciso apresentar na secretaria da igreja.

Marina entendeu; nem Vivi perdoaria nova protelação. Mas já estava mesmo decidido que viajaria; Marina podia ser enrolada, mas nunca fugira de guerra que fosse sua. Se achava que esse era o seu papel, era capaz até de enfrentar um leão (não duvide!).

Contudo, o acaso – que nunca dá trégua à nossa protagonista – apronta mais uma das suas... E justo no dia de viajar para Recife, acontece algo com Marina que quase a impede de ir (ainda narrarei aqui no blog o episódio, que merece descrição de detalhes)... Mas nesse momento Marina vence o improvável e corre para o aeroporto em cima da hora.

Já no Santos Dumont, encontra-se com sua providente secretária, que lhe entrega as malas (no dia difícil, nem teve como voltar a casa para apanhá-las). Pegou-as e partiu. 



Prestes a atravessar o portão de embarque, ouve um grito:

– Marina, espere!

Era sua irmã Colette, que conseguia alcançá-la. As duas se abraçaram. Com expressão meio exasperada, Colette falou:

– Tive um sonho... Premonição. Vai mesmo viajar?

– Claro, né, Colette! Como não, minha irmã? Como João Filipe poderá fazer Primeira Comunhão daqui a uns poucos anos?

Colette sorriu aquele seu sorriso de superior equilíbrio e falou:

– Só mesmo você, Marina, para pegar um avião, viajar do sudeste ao nordeste do país, para fazer um batizado! – e riu-se. [Afinal, o que fazer se Deus lhe dera uma irmã assim? Ela sabia que Marina iria batizar João Filipe mesmo que fosse em Galápagos ou nas Maldivas. Aliás, quanto mais inesperada a situação, mais chance de acontecer em sua vida].

É claro que a madrinha levou quatro malas para ficar três dias. Tudo bem: as malas eram suas. O que ela não podia levar estava mesmo na bolsa de mão: aqueles óculos emprestados de Colette... Marina é excêntrica, mas Colette... Ah, Colette!... Aquela lá é personal, brava, uma fera! Ai de quem perder algo seu: risco de elotrocução pelo olhar! Deus nos livre!

– Do voo e da chegada de Marina a Recife 




Sentada em sua confortável poltrona, Marina pensou em descansar; nas três últimas noites só havia dormido por prestação, ou seja, duas horas e meia num dia, quatro horas noutra noite, três horas na mais recente. Mas eis que um casal falastrão se posiciona ao seu lado. A mulher a olha e sorri com um sorriso-de-todos-os-dentes. Marina faz cara de antipática [não lhe interessava, depois de tanto estresse, estabelecer vínculos de viagem]! Necessitava mesmo, com todos os seus neurônios, de um sono de ciclos de cinco estágios. Mas a curta viagem nem daria para tanto... A balzaquiana respira fundo, silente (como nunca antes). Passam-se dois minutos... lentos. A estranha sorri novamente. Marina permanece impassível debaixo das lentes dos óculos Emporio Armani. A mulher, claro, puxou – digo, forçou – papo:

– Você também é de Recife?

Marina volta ao seu exercício diário de boa educação, mas uma educação espartana:

– Não.

– Ah, é paulista?

– Não.

– Hummm... já sei: pelo sotaque, é de Brasília!

– Não, senhora; sou do Rio.

Não houve jeito. A mulher queria falar e falar. Marina entregou os ouvidos. E também para o irmão da falastrona:

– Ah, não são marido e mulher?

– Que nada, menina, esse é meu irmão: Aleixinho. Meu maninho, dois anos mais novo; cuido dele desde criança – disse, com o olhar enternecido e uma repulsiva fala molhada.

– A senhora não quis se casar?

– Querer, eu quis, sim... Ah, e como eu quis! Ah, menina, você não conhece a triste história de Marinalva Praxedes. Prazer, menina: Marinalva!

– Prazer. Marina.

– Ora que nossos nomes combinam! Tão bonitinha, com o nome parecido com o meu... veja, Aleixinho!

E Marinalva, Marina e Aleixinho trocaram palavras a viagem toda. Marinalva contou até o motivo do não-casamento:

– ...Aí, minha filha, o meu noivo fugiu com a noiva de Aleixinho... Uma tragédia em família no agreste! Coisa de cordel, menina! – E cochichou: – E me mantive intacta, pra todo o sempre, Nossa Senhora sabe. – Voltando ao alto tom de brados: – Ele também! – apontando o irmão: Aleixinho também é virgem! – Meio avião voltou seus olhares, entre comentários ruidosos, aos virgens cinquentenários.

Marina nem se deu ao trabalho de afundar na cadeira. Já que não pudera dormir, participar do espetáculo era o de menos. Afinal, tudo aquilo não chegaria a três horas. E realmente logo estavam aterrissando no Aeroporto de Guararapes.



A moça bem que tentou se desvencilhar do casal de convictos (ou seria invictos?) na chegada. Mas a quase xará não deixou, claro. Deu-lhe o braço e fez com que seguisse com eles até o desembarque. Na hora de pegar as malas, Marina tentou escapar, mas houve um atraso e as suas não apareciam nunca na esteira...  Senhorita Praxedes aproveitou, então, para tirarem retrato.

– Vamos tirar uns retratinhos pra marcar esse dia?



E foi aí que a viagem de Marina começou a ficar séria... A balzaquiana – a essa altura toda estropiada e mais atarantada que de costume – não teve outro remédio senão fazer as vontades da mulher. Tira que tira foto daqui e dali!... Marinalva fez a coitada até atravessar todo o saguão do aeroporto, já distante da esteira para onde teriam de voltar depois do susto... Sim, um terrível susto! Não é que, de repente, Marina percebeu que não tinha mais os óculos escuros que usava?! Sim, os óculos Emporio Armani... Ai meu Deus, os óculos de Colette, os preciosos óculos que a irmã trouxera de sua última viagem à Europa!... Marina se agitou e remexeu a gola... Sim, a grande gola de sua estilosa blusa preta. Pensou para que tanta e tão exótica gola, toda enrolada, cheia de pano... para os óculos se perderem naquele bolo de tecido?! Sim, uma gola daquelas jamais seguraria uns óculos tão delicados!... E valiosos, pois tinham dona:

– Deus tenha piedade! Estou perdida! Colette vai me matar!

Marina percebera que, ao tirar os óculos para fazer as fotos, não os recolocara... Procurou-os, então, pela bolsa, avidamente, desesperadamente... Ai, meu Deus! Descontrolada, a irmã mais velha – que parecia uma criança amedrontada (mas todos, sem exceção, tinham medo de Colette mesmo!)  – sentou-se no banco mais próximo e começou a revirar a bolsa... Mas... nada de achar os óculos! Só encontrou a embalagem. Aí, então, Marina fez algo que só uma mulher em ebulição de desespero é capaz de fazer: virou a bolsa “de boca pra baixo” em cima do banco! Senhor, só quem viu uma cena assim tem noção do que é o conteúdo de uma bolsa de mulher “ejetado” à vista de todos! Olhos curiosos de todos os lados se voltaram para aquele turbilhão de pequenos pontos, multicoloridos e desorganizados, de todas as formas e tipos: batons, pincéis, canetas, cartões, fragmentos de carteira, moedas, cédulas, molhos de chaves, documentos, celulares, carregadores, câmera, iPod, agenda, microagenda, post-its, termômetro, escova, pente, prendedor de cabelo, perfume, álcool em gel, enxaguante bucal, spray de fixação de maquiagem, estica-cílios, drágeas e... embalagens de óculos! Ufa! Nossa Senhora das necessidades primeiras! Marina chegou a começar a inspirar e expirar com uma constância mais equilibrada quando tateou a primeira embalagem e... encontrou algo! O Senhor seja louvado! Os óculos! Marina abriu-a e pein-pein-pein-pein: eram os seus óculos de grau! Puxa!... Mesmo com toda a necessidade que tinha deles, não se importaria de tê-los perdido para poder achar os valiosos (e imperdíveis) óculos de Colette! Enfim, a coisa estava feia!... Mas havia, ainda, uma segunda embalagem, e esta, sim, era a embalagem Armani; abriu-a como quem abre um tesouro, mas... decepção: estava vazia! O desespero bateu ainda mais forte. E agora, como faria? Que contas iria prestar a Colette, a irmã mais brava do Brasil?! E o pior: desta vez nem poderia fazer como de tantas outras: comprar uma réplica e colocar no lugar sem que a bravíssima percebesse, pois afinal não existia, ainda, daquele modelo novo à venda no país! Ai, meu Deus, estou perdida!

Com os pensamentos em polvorosa, Marina atravessou todo o saguão, ante as exclamações da matraqueira e aquele seu irmão panaca, que ria mansamente de tudo, todo o tempo, sem motivo. Marina estava roxa de raiva! Tudo por causa daquele casal esdrúxulo!... A mulher até que era simpática, coitada, apesar de desregulada... Desregulada, Marina pensou: quem era ela para falar de alguém que não regulava as próprias atitudes?!

Marinalva ajudou a atarantada a atravessar saguão e adjacências, por onde procuraram que procuraram os óculos... e nada! Até que voltassem ao banco, onde a bolsa de Marina ficou abandonada aos cuidados do virgem sorridente, barrigudinho e cinquentão. E foi aí que a protagonista da saga do batismo a distância fez o que se pode fazer nesses casos: sentar e chorar, não sem parar de remexer os seus pertences espalhados sobre o banco e revirando todos os bolsos internos da bolsa!... Foi quando Marinalva a cutucou: Marina levantou os olhos e se deparou com Vivi e o marido, Renato, que haviam chegado para buscá-la.

É claro que a boa e velha Viviane do Ensino Médio deu aquele sorriso de canto de boca... Então, não estava acostumada com o jeitinho peculiar da amiga? Apenas perguntou, já com o riso da placidez:

– O que houve, Marina?

Balzaquiana nº 1 então narra toda a saga da chegada ao aeroporto quando se lembra de que precisava voltar à esteira para apanhar suas malas... Foi quando viu o amigo recente de quase nenhuma fala lhe trazendo gentilmente a bagagem. Despediram-se os três, a falastrona até quieta.

Balzaquiana nº 2:

– Vamos, Marina?

– Claro que não, Vivi! Você me desculpe, sei que você e Renato estão esperando, mas daqui não saio, daqui não arredo pé enquanto não achar os óculos de Colette!...

Renato, pessimista, não disfarçou:

– Não vê que não vai conseguir, Marina? Você perdeu esses óculos! Isso já era!

Mas Marina não se deu por vencida. Quando isto irá acontecer na vida?

– Espere aqui, Vivi, que vou falar com aquele segurança.


Vivi foi atrás.

– Bom dia, senhor. Eu estou com um problema sério: perdi uma coisa muito importante, uns óculos de alto valor simbólico para a minha irmã e...

– Se a senhora perdeu, é difícil achar de novo, dona.
Marina suspirou.

– O senhor tem um supervisor, não tem?

– Tenho. É o Seu Lenivaldo. A senhora vai lá em cima: segundo andar, no setor de resgate, mas lhe adianto: não vi ninguém achar nada aqui hoje, não, senhora...

Marina subiu como um foguete. Lá chegando, dirigiu-se a um senhor de bom semblante:

– Bom dia, amigo! Eu poderia falar com o supervisor do setor, o Senhor Lenivaldo?

– Já está falando, senhora. Em que posso ajudar?


Marina disse, então, o que buscava, enquanto o homem ouvia, quieto, a sua narrativa tresloucada. Ao final, com um tom compassado de voz, ele disse:

– Ah, um óculos assim pretinho, com uns prateadinhos em cima...

Bingo! Marina respirou aliviada. A descrição daquele detalhe – sui generis para um homem – revelava que os óculos de Colette haviam sido encontrados pela segurança do aeroporto. A nossa heroína não sabia como agradecer àquele senhor e a toda a sua equipe pela extrema eficiência e rapidez no resgate de um objeto perdido. Ao avistar, de novo, o objeto precioso de seus temores,


garantiu ao chefe dos seguranças que mandaria um e-mail elogioso para a ouvidoria do Aeroporto, destacando a sua competência e boa vontade.

Marina deixou Seu Lenivaldo muito satisfeito enquanto Vivi a levava rumo a casa para ver seu afilhado. No caminho, Viviane praticamente infligiu uma medida à amiga:

– Marina, você promete que nunca mais vai pegar nada emprestado com Colette?

A trapalhona assentiu com a cabeça, mas seu pensamento já voava longe... Ela só conseguia pensar em como o aeroporto recifense podia ter uma segurança tão eficiente capaz de – em segundos e sem quaisquer vestígios – ser capaz de efetuar aquela sistemática de ação: resgatar para os donos, antes que larápios os vissem, objetos perdidos em brevíssimos ínterins!

O carro encostou na garagem do prédio de Viviane quando Marina fazia seu agradecimento comovido à mão invisível do Guararapes. 





Por Sayonara Salvioli


8 comentários:

Fernanda disse...

Que narrativa deliciosa, Sayonara!!! Amei!!!! A chamada no FB me trouxe diretamente ao seu blog. Ótima maneira de começar o meu dia! Bjs

Laura disse...

Gosto de acompanhar o seu blog. Este conto está com cara de literatura americana. Vc é bem múltipla Sayonara!

Verinha disse...

Sayonara Salvioli, sempre leio suas matérias no Yahoo. Gosto muito do que você escreve!! Agora vou frequentar também o seu blog!

Luciana C. disse...

Amei esse texto!!!! Engraçado, rico, detalhado, como são as suas narrações, que eu acompanho aqui desde 2008!!!

Mariana disse...

Leitura divertida e dinâmica.

Bel disse...

Adoro passar por aqui!! Mt bom

Fábio Pacheco disse...

Vc escreve muito bem, cara Sayonara. Parabéns, querida. Um abraço desse poeta.

Ana Olivia disse...

Sayonara querida, amei! Narrativa leve, engraçada, dinâmica e envolvente. Me identifiquei mt c a Marina...sou eu aquela lá hahaha
Já coloquei o blog nos meus favoritos aqui. Seguindo já! Bjão!