sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O FANTASMA DA BIBLIOTECA

O FANTASMA DA BIBLIOTECA




Clara adorava ficar na biblioteca. Ler era a sua ação sistemática, do tipo diversão predileta mesmo. Lépida e observadora, de cabelos lisos e olhos assustados, parecia roer o mundo com a sua curiosidade. Mais que isso, tinha uma avidez incontrolável de saber, uma tal vontade de penetrar mistérios que a fazia ficar horas e horas entre os livros.

A pequena leitora gostava de descobrir as coisas da vida e, principalmente, como o mundo funcionava. É claro que os livros não tinham resposta para tudo, mas o conteúdo de alguns deles – a matéria do desconhecido – realmente a fascinava! Seus olhos brilhavam e ela apertava os lábios toda vez que se deparava com os temas extraordinários de Poe. Foi assim que ela descobriu, desde cedo, sua vocação para o imponderável, aquilo que não se pode desvendar ou tocar com a precisão das mãos.

Era bem verdade que a tal matéria do desconhecido, ultimamente, lhe trazia muito mais perguntas do que respostas. Mas talvez tenha sido exatamente isso que a levou a mergulhar fundo nas Vinte Mil Léguas Submarinas. Aliás, nos últimos meses, era mesmo por causa de Júlio Verne que ela não tinha a menor vontade de se juntar aos amiguinhos lá fora. Causava-lhe náuseas essa história de comer frutas em árvores, com casca e tudo, sem lavar! Brincar na terra, então, não era programa que a atraísse; detestava ver sua amiga Marina com os joelhos ralados e pingando sangue... Por essas e outras, sempre a chamavam de fresca, esnobe, xexelenta. Mas ela nem ligava. Cada um tem seu gosto, ora! E o dela naquele momento era viajar em aventuras distantes... Imaginava-se num balão com os colegas da escola, dando a volta ao mundo! Só que em menos de 80 dias, pois a sua pressa era muito grande, e o tempo-espaço maior ainda: havia muito o que visitar no mundo conhecido, mas ela também tinha planos de desbravar outras dimensões... Das instruções juliovernianas, por exemplo, ela também queria seguir à risca as coordenadas para a tal expedição ao centro da Terra, junto da turma. É bem verdade que, no trajeto ela teria que passar por situações horripilantes, mas estas não seriam em vão: ela poderia conhecer de perto criaturas que, até então, só vira nos livros; também teria a oportunidade de enxergar maravilhas escondidas e, quem sabe, descobrir algo que a fizesse entrar para a história da Ciência. Todo mundo sabia que ela queria ser cientista, conviver solitariamente com tubos de ensaio a fabricar poções miraculosas... Alquimista mais que funcional? Sim, esse era um dos fortes planos para o tal longínquo futuro... Quinta-essência?... Queria descobrir fórmulas transformadoras! Quem sabe inventar a máquina do tempo, quem sabe performatizar a unidade atômica?!

Naquela terça-feira, sentada de costas para a grande estante da biblioteca, sentindo o cheiro forte do tapete rústico de couro bovino, jogou-se na poltrona quando um livro grande, de capa dura, caiu no chão. Clara tremeu, pois as portas e as janelas estavam fechadas, inclusive com as cortinas cerradas, e não passara por ali o menor vento. Que sinistro o livro cair assim, sem mais nem menos! Ela se aproximou e o pegou. No momento, porém, em que ela leu a inscrição da capa, aí sim é que se contorceu toda de medo: estava escrito lá, com letras douradas garrafais – em cima da imensidão azul-marinho: O fantasma do Castelo de Scotney. Pavor. E o assombro ainda foi maior no momento seguinte, quando dois outros livros enormes despencaram bem perto dela, quase a atingindo. Ela leu as inscrições das capas e se arrepiou inteira! Saiu correndo da biblioteca, desesperada. E foi com a língua de fora que se abraçou à mãe, entre olhar arregalado e soluços, longuíssimos minutos após a corrida desabalada pelo corredor. Narrou à D. Elisa o que se passara. A mãe, no entanto, reagira com o bom senso e a clareza de sempre: 

– Onde já se viu, Clara, achar que a biblioteca tem fantasmas só por causa de uns livros que caíram? Que futura cientista é você que acredita nessas coisas?

Ao ouvir as palavras seguras da mãe, a menina assentiu naquela racionalidade. Era verdade mesmo: livros caindo sinistramente no chão não sinalizam ataques de fantasmas, mesmo um volume narrando as aventuras horripilantes passadas num castelo inglês, outro contando sobre soldados romanos ultrapassando paredes e, ainda, um terceiro contendo as narrações extraordinárias do mais poderoso caça-fantasmas profissional do século XIX, as aventuras de Mr. Price... 




Apesar de tudo, Clara pensava, aquilo não passava de um amontoado de coincidências. Como a mãe bem dissera, ela – uma futura cientista! – não poderia acreditar em historinhas de fantasma. Que efeitos Poltergeist que nada! 

Mas o resto do dia se passou sem que a menina se esquecesse da queda confluente de livros sinistros. Afinal, por que motivo despencariam da estante, de pontos diferentes, três livros com histórias de fantasmas?! Era bem verdade que o tema a interessava muito, mas não era nada confortável – ou recomendável – que ela ficasse com aquilo na cabeça, afinal não conseguiu almoçar e nem se concentrou na leitura de outros livrinhos inocentes... Até mesmo a terrine de morangos com natas – sua ceia certa das 15h – permanecia intocada sobre a mesa do lanche. 

Clara pensou e pensou, e quando a noite caiu ela havia firmado uma ideia na cabeça... Estava decidida: seria naquela noite! Nada mais a demoveria de sua intenção. Afinal, já se preparava muito tempo para aquele confronto. E não seria um medinho à toa que a faria sucumbir.


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O relógio marcava meia noite e treze quando a menina torceu a maçaneta de bronze de seu quarto e saiu a correr, ventando, pelo corredor de 33 metros da grande casa dos Clayton. Como de costume, enquanto corria não tinha coragem de olhar para trás, pois sabia que, de cada uma daquelas portas gigantescas, saía voando um espectro branco de luminosidade de outro mundo... Apesar de sua recente decisão, ainda tinha medo de encará-los. Seu objetivo, agora, era tão-somente alcançar a biblioteca. Corria que corria, e finalmente se viu atravessando a porta do escritório e tateando no escuro em busca do interruptor para acender a luz. Ao fazê-lo com a mão esquerda, ao mesmo tempo esticava o bracinho para bater a grande porta. Feito isso, deu uns passinhos corridos e virou a chave, por via das dúvidas. Ora, que estupidez a minha! Fantasmas podem atravessar paredes e portas... Apesar disso, tentou acreditar que a fechadura os deteria provisoriamente, protegendo-a em seu mundo particular. E foi munida dessa proteção imaginária que subiu, pé ante pé, os degraus da escada que conduziam até a última prateleira da estante de mais de 4000 volumes. Uma vez lá em cima, pegou o grande livro de capa de veludo carmim e desceu, mais rapidamente, até ouvir uns sons distantes, soprados pelo vento lá fora, o que a fez despencar de medo, no antepenúltimo degrau, caindo meio desabalada sobre o tapete de couro de boi. 

Mas a menina respirou fundo e, decidida, lançou-se sobre a bergére de vime, que, de tão alta, a deixava com as perninhas suspensas. Mais suspenso ainda, elevado à dimensão da investigação, estava o seu cérebro, profundamente estimulado com a experiência que iria desencadear naquela noite. Clara manuseava o Grande Livro com a coragem desbravadora de uma verdadeira Clayton. E foi com o mesmo ímpeto de seu antepassado –  John Clayton – que ela abriu no marcador dourado da página 44. O título do capítulo era O Fantasma da Torre Verde

(...)

Por Sayonara Salvioli