domingo, 25 de março de 2012

O Chico Anysio de todos nós

                                                                                                            Imagem: CorreioUb



O Chico Anysio de todos nós

Hoje eu ganhei um buraco no peito: um vão nostálgico por causa de um artista que tomou seu último voo. Falo da partida de Chico Anysio, um brasileiro que – ao longo de décadas – assentou lugar em nossa casa e em nossos corações.

Apesar dos muitos anos que se passaram, ao receber a notícia da morte do grande gênio, não foi difícil fazer uma retrospectiva mental a meus tempos de infância e adolescência, indo encontrar Chico vivíssimo na sala, nos quartos e na varanda da minha casa de criança. Corri pela grande casa, repleta de televisores por todos os cantos (a casa de meus pais é muito ampla, e, por isso, eles sempre mantiveram diversos aparelhos de TV espalhados pela sua extensão). E foi assim que encontrei Popó na sala, Pantaleão na varanda, Salomé no quarto de hóspedes e Bozó no meu quarto. Lá fora, bem além do quintal, estava Bento Carneiro, ensaiando seu voo eterno por aquelas paragens!... Esfreguei os olhos para acordar de meu transe, mas em vez de me afastar daquelas imagens alegres do passado, visualizei ainda um desfile de figuras tão familiares quanto simpáticas: Tavares, Coalhada, Azambuja, Painho, Véio Zuza, Alberto Roberto, Santelmo, Apolo, Haroldo, Nazareno, Jovem, Justo Veríssimo, Profeta e Professor Raimundo... Todos entrelaçados num filete translúcido de infinito, como se numa bolha de cristal-goma permanente, espraiando-se pelos ares úmidos da minha lembrança!...

Hoje muito se fala em TV fechada, mas eu sou do tempo e da teoria de uma TV – antes já interativa, em sua mediação – fazendo história no Brasil das últimas gerações, atribuindo-lhe identidade sociocultural e marcas de época. Nas décadas de 70 e 80, não teve infância quem não assistiu ao Sítio do Picapau Amarelo e não viu Chico City às quintas feiras!... Eu – aficionada de carteirinha – estava lá, firme e forte diante da telinha, inseparavelmente atrelada aos fenômenos, modismos e sucessos de ocasião! E Chico Anysio vivificou tudo isso: passou mensagens, representou o público, direcionou sátiras e fez rir e refletir o povo, reflexo maior de seus desafios de humorista politicamente engajado. Com a Salomé, por exemplo, questionava os atos do presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo. Assim era que seu humor tinha o poder de fazer pensar, de ajudar o telespectador a buscar reflexões importantes... Ora, a Salomé de Chico Anysio nem mesmo tinha este nome por acaso: representava – como nas escrituras – alguém que poderia “pedir a cabeça” de João Baptista (o Presidente), ilustrando com sutileza o poder que o povo poderia ter sobre seu governante-mor, inquirindo-o e condenando-o por possíveis desmandos. Era o humor inteligente e participativo na televisão, dando o tom de uma sátira bem engendrada e que, com leveza, denunciava problemas sociopolíticos. Desse modo, Chico não apenas entretinha o telespectador, mas o fazia pensar. Tanto que tamanha identificação com a população gerou, já naquela época, uma ação interativa entre público e TV: as pessoas enviavam à produção do programa, constantemente, recados e pedidos ao Presidente via Salomé, que os repassava ao destinatário ilustre em voz nacional.

O grande criador e humorista, na minha opinião, foi também um dos cérebros que – num importante papel mediador exercido junto à difusão da TV – contribuiu para o processo conhecido como quality television, que representa a possibilidade de programação televisiva com qualidade. A propósito, frequentemente refuto discursos academicistas nesse sentido, lembrando a meu interlocutor que a televisão brasileira, nas últimas décadas, concentrou um repertório suficientemente expressivo de obras criativas para que constitua fenomenologia digna de análise. De aprofundada análise, enfatizo. Na TV Globo, nos programas de Chico Anysio, por exemplo, vimos isso: um entretenimento saudável e com raízes em cultura e informação participativa. Aqui se ilustrem descontraídos jogos de raciocínio, conteúdos de sátiras habilíssimas, a intertextualidade com clássicos e também o teor da “Escolinha do Professor Raimundo”, com falas e personagens voltados a conhecimentos das mais diversas áreas do saber, ou seja, um quadro/programa com referências importantes para o público, entre alusões a ícones da história, das artes e das ciências.

Em tais quadros e personagens, TV Globo e Chico Anysio mostravam que é possível alcançar o povo com conteúdos bons, leves e que nada têm a ver com o popularesco. Nessa linha, muito se viu em Chico Anysio Especial, Chico Anysio Show, Chico City, Chico em Quadrinhos, Chico cronista no Fantástico, Chico Total, Chico no voo rasante de Bento Carneiro, Chico na novela das 9, Chico trazendo Salomé ao Zorra Total... Chico Anysio em todas as formas e de todas as cores, em todas as falas e seus muitos amores, nas mais de duzentas faces de sua arte gentil!... Chico praticou arte por toda a vida, creio que profissionalmente desde os quinze anos de idade. Quer no rádio, no teatro, no cinema, nas artes plásticas ou na literatura, ele brilhou todo o tempo com seus feitos e suas criações. Mas foi através da televisão, com a engenhosa e identificável tipologia humana de seus personagens, que ele se fez conhecer e amar em toda a extensão do país.

E não somente a coletânea personal de Chico, como também – e essencialmente – a sua própria personificação de humorista foi conquistando a receptividade do público, que o acolhia na rotina como a um ente querido, alguém da família mesmo! E talvez seja por causa dessa aderência de ídolo familiarizado que os brasileiros a ele irmanados na Globo de seus lares estejam se sentindo órfãos, um tanto desolados com a sua partida... Chico Anysio leva consigo um pouco da nossa alma!

Dói também, e muito fortemente, o fato de ver um gênio sumindo de nosso cenário, alocando-se sabe lá em que estância do espaço sidéreo das grandes constelações!... Neste mundo de pessoas comuns, a dor se faz grande quando parte alguém que era um astro, condensando – numa só personalidade humana – o humorista, o ator, o escritor, o roteirista, o artista plástico, o compositor, o radialista, o comentarista, o diretor, o showman!... Afinal, quantos Chicos existiram entre nós? Já não falo dos personagens, mas dos vários homens e artistas concentrados num mesmo ser de vários talentos e ofícios. Realmente não é possível contabilizar entidades subjetivas, emanadas de um só ente, mas é que Chico Anysio era sofisticadamente um gênio, um sedutor de almas!

E ele soube seduzir até o instante último de sua derradeira vontade: o seu decreto de deposição das próprias cinzas – metade em sua terra natal, Maranguape (CE), e outra no Projac, sede-mor de sua grande paixão: a TV Globo, onde vivenciou quase meio século de arte!... A partir de agora, quem estiver caminhando pelo Projac poderá se deparar, num passo ou no ato simples da inspiração, com eflúvios mágicos dispersos no ar, com o DNA de um mito enxertado no solo, ante os resquícios valiosos de um homem muito além de sua condição, porque nasceu, viveu e morreu artista!... Então, não mais choraremos pelo seu dito fim, afinal quem mais além do verdadeiro artista poderá adonar-se de uma perspectiva de infinito?...

Por Sayonara Salvioli


9 comentários:

Helena Guedes disse...

Realmente o Brasil inteiro está de luto! Chico Anysio era um artista completo e será sempre muito amado pelos brasileiros!

Paula V. disse...

Achei lindo o desejo do Chico Anysio de ter as suas cinzas levadas para o Projac!! A Rede Globo trouxe sua alegria em tantos programas para dentro das nossas casas!!Agora Chico Anysio continua no local onde desempenhava sua arte, deixando lá suas energias!!!! Muito bacana mesmo!!

Cláudia F. disse...

Chico Anysio será eterno!!!!!!!

Beta disse...

Adorei!!! O Chico era demais!!!!!

Danielle disse...

Eu tb adorava assistir Chico City!!!

hugo disse...

show

João Mendes disse...

Espetacular texto, Sayonara! Fiquei emocionado!

lininha disse...

chico anísio nunca será esquecido. e o projac vai ficar mais energizado com ele.

Camila Sodré Fontes disse...

Adorei a sua homenagem! Ele deixa muitas saudades!!