sábado, 2 de abril de 2011

O ato precípuo de filosofar



                               O ato precípuo de filosofar
Filosofar (num sentido lúdico) é, para mim, artigo conceitual de primeira necessidade. Mais: assim como preciso de ar e comida, necessito filosofar despretensiosamente (não menos que profundamente), pelo menos um pouco, todos os dias. A coisa é tal que, mesmo em noites longas – em que o sono me chama, sedutor –, eu resisto bravamente se ainda não me permiti o momento-filosofia do dia.

E essa espécie de lazer introspectivo me acompanha desde a infância. Quando eu ainda não havia lido Kant ou qualquer dos filósofos modernos nem contemporâneos nem helenísticos nem antigos... ainda assim – em inconsciente e pueril desconhecimento – já ficava a indagar os elementos do mundo sobre essa ou aquela coisa que me intrigava. Tanto que, me lembro bem, sempre tinha um prazer secreto na hora de dormir. Pensava, entre os botões de meu pijama lilás, que finalmente eu teria tempo e reserva para refletir. Assim era quando eu me recostava na guarda branca com crucifixo da minha cama e me autoconcedia a liberdade suprema do pensar. Pensar (sobre o que eu chamava de "minhas alegrias do dia", sobre inquietações e curiosidades), e pensar... era o meu exercício noturno de recolhimento aos oito ou nove anos.

Décadas se passaram (nem tantas, ok?), e eu continuo aqui, com os olhos erguidos aos ares das especulações existenciais. E não importa quantas escolas filosóficas permeiem os estudos dos especialistas da questão, eu travo uma inconsciente luta particular, todos os dias, com os meandros do meu próprio pensamento. Indago-me sobre um milhão de coisas que circundam as minhas atenções da vez, e nessa profunda e incansável proposição de enigmas ao universo, viajo para Éris ou Shangri-la, esquecida de qualquer interesse ou desvelo material. Nesses momentos, sou toda pensamentos. E haja filamentos neurais para tamanhos contorcimentos, típicos de um Ágora moderno!

Essa minha mania não tem a menor pretensão de decidir, por exemplo, entre virtualidade e realidade (Deleuze... muito atual!), sequer seguir as linhas do tempo, como na profundidade quântica de Lee Smolin, tampouco duvidar da absoluta incerteza russeliana (como assim duvidar?!). Quero apenas divagar pelo fantasioso País das Fadas (místico ou racional?) nas horas noturnas, pois a mim me parece bem mais atrativo o ato de especular, como nas buscas de um bandeirante que desbrava terras longínquas e obscuras unicamente pelo prazer de descobrir!... 
Assim é que me inquiro, todo o tempo, sobre uma gama de coisas universais que me estimulam a arte de fabricar ideias, na busca constante por discutíveis e relativas sabedorias, ainda que imaginárias ou absolutamente fantásticas. Ah, esse amor perene à tal sabedoria – como sua etimologia explica – estabelece para a filosofia, perante o homem, a eterna fascinação e o extático espasmo, a curiosidade investigativa de quem precisa conhecer cada camada ou aspecto do mundo possível. Como se num eterno rizoma, inacabável, que tenha sempre mais e mais debaixo de sua casca... Ih... está operada a desconcentração típica dos evasivos conceituais. 

Não sei o que pensa a respeito, mas eu prefiro a investigação permanente à verdade pronta das coisas acabadas. Da mesma forma, gosto de visitar uma obra em construção ou vasculhar as ruínas de escombros aparentemente perdidos... Não aprecio o que nada deixa a descobrir. O mistério é característica essencial ao meu interesse.

Horas passadas na chamada calada da noite, e daqui a pouco já verei – mesmo através do blackout (gosto de trabalhar com janelas fechadas, cortinas cerradas) – um reflexo de clarão geral ao longe... do dia que começa. E indago: você me acompanha ou vai começar agora a sua aventura das próximas vinte e quatro horas? Seu dia já começa na manhã, como para todos os ditos sensatos? Perdoe-me, mas agora eu vou dormir!

Independentemente de seu fluxo orgânico de horas, presenteio-lhe, no entanto, com palavras-chave da minha filosofação do dia: paralelismos, conceitos e redefinições, racionalidade, civilização, externalismo, coexistência, globalização e glocalização, sanidade, arbítrio e destinação, cosmologia, gravidade quântica. Dentro de nós pode estar o mundo!...

Por Sayonara Salvioli