quinta-feira, 2 de junho de 2011

Jujubas vermelhas



Vivenciar experiências com intensidade, em sentidos e sensações, talvez seja um dos modos mais concretos – e calcados no presente – de felicidade. Não que isso contrarie o princípio do meio-termo, defendido por Aristóteles. Mas a intensidade do sentir pode mesmo ser a medida mais rápida e eficaz para pequenas – e não menos maravilhosas – felicidades cotidianas.
Falo aqui de sensações e sentires meros, simplicíssimos. Objetivamente, aqueles prazeres que, apesar de pequenos e pouco significativos à primeira vista, nos agradam a alma e o corpo, naquela sensação de bem-estar pleno, conquistado. Acho que você pode me entender bem.

Para a alma, valem todos os prazeres que abrem um sorriso espontâneo em seu rosto. Vale especialmente aquele friozinho na espinha na hora de uma sensação deliciosamente perigosa... Afinal, viver perigosamente não é só coisa de cinema, não! Correr contra o tempo – vivendo trinta e duas horas num dia –, assumir missões grandiosas e puxar para si obrigações de meio mundo também constituem maneiras emocionantes de se vivenciar o cotidiano. A propósito, se você pudesse acompanhar os fatos ditos rotineiros da minha vida, entre sobressaltos constantes – alegrias ou vicissitudes –, entenderia do que falo. De fato, em minha casa não há rotina; as surpresas não fazem intervalo para aparecerem por aqui. De todo modo, o resultado final parece ser positivo, já que emoções permanentes são a tônica do meu dia-a-dia. Sonho e realidade se misturam, e se torna impossível vivenciar algum marasmo.

Bom, eu falava dos tais prazeres que colocam sorriso no rosto... Além do já lembrado friozinho do perigo, há também aquela taquicardia sem explicação que antecede os grandes acontecimentos. Já experimentou? Acho que você, provavelmente, está reconhecendo na lembrança aquela emoção incontida que inunda todo o seu ser sempre que a tal felicidade (da categoria das maiores) está para chegar... Ah, e como é bom reconhecê-la antes mesmo que ela se apresente com seu rosto oficial!

Também costumam agradar o espírito (pelo menos o meu), embevecê-lo em cheio com alguns prazeres ditos simples: uma pequena viagem com o parceiro de alma e corpo, uma boa sessão de cinema – com a telona bem diante dos olhos –, o calor e a emoção de dramas no palco, fogos de artifício se espraiando pelo mar de Copacabana, uma noite aconchegante naquele piano-bar, um almoço de tarde inteira com alguém que lhe presenteia com o infinito da orla! Agradam-me também a alma fatos episódicos rotineiros como: comprar presentes para as pessoas queridas, circular por shoppings inteiros ou longas ruas comerciais e, mesmo, sair sem destino por aí... Ou, ainda, andar de trem, ver fotografias antigas e telefonar para aquela amiga oficialmente destrambelhada para discutir abobrinhas e frivolidades. Decididamente, todas essas ações despretensiosas nos proporcionam uma das melhores coisas da vida: a sensação do riso solto de um momento intensamente verdadeiro!

É claro que, como boa gourmant, também privilegio os sabores gastronômicos. Então, na galeria dos pequenos prazeres indiscutíveis, figurinhas certas são algumas destacadas guloseimas. Estas – mesmo as mais calóricas – precisam ser degustadas na hora e na quantidade desejadas, deixando-se de lado pudores estéticos ou salutares. Assim é que não resisto a algumas ambrosias, como as tais jujubas vermelhas que tanto me apetecem o paladar! Outras gulosemas há  algumas mais elaboradas, sofisticadas ou raras , mas me causam frenesi gustativo as esferinhas em forma e sabor de gomas vermelhas!... E isso já se tornou algo simbológico: para renovar o meu estoque de pequeninas alegrias satisfeitas, é um prato cheio (de jujubas  risos calóricos) a degustação demorada e prazerosa das tais balinhas coloridas.

Outro dia me apercebi de sua falta na minha despensa de pequenas delícias, e precisei sair por aí em busca de algumas delas. Fui a minimercados, padarias e delicatessens, e nada! Não achava quaisquer vestígios das tais esferas açucaradas... até que me lembrei de um shopping que possui uma dessas lojas que mais parecem gigantescas mesas de guloseimas, como as que agora se encontram nas festas infantis, e lá, sim, encontrei as que buscava! Foi uma festa: comprei potes e sacolas! Chegando em casa, deliciei-me, não deixando invadir a boca o açúcar da culpa. E acho que essa é uma boa filosofia em vários campos da vida: realizar a própria vontade em toda a sua extensão, mesmo que ações posteriores venham com responsabilidade corretiva. Sim, doar-se a si mesmo, em leves situações de entrega, pode ser um bálsamo para os seus problemas de todo dia!

No caso narrado, depois de devorar boa parte dessas gomas vermelhinhas que você vê na foto, decidi que tomaria sopa pelos próximos sete dias, desconhecendo nesse período qualquer substância aparentada dos açúcares ou dos lipídios ou de assemelhados... Efetuar a lei da compensação, por um autoarbítrio deliberativo, pode ser muito bom. E também pode liberar a sua consciência para a escolha feliz de seu rico prazer momentâneo. Já parou para pensar sobre qual pode ser a sua mais impetuosa alegria – da alma ou do corpo – no momento em que lê este post?

De minha parte, com a vontade da vez já satisfeita, exercida com a sensação dos pequenos prazeres cultivados, me sinto na obrigação de intimar você, leitor, a se lançar à realização de seus desejos imediatos, aqueles que podem abrir em você o sorriso de uma alegria fácil e simples. Sabe, o cotidiano pode trazer muitas dessas saborosas diversões de leve teor, mas que revelam a capacidade de uma autodoação ao prazer. Afinal, o bom da vida é nunca temer a felicidade, mesmo a felicidade dita simples – em quaisquer situações. Exatamente. Isso se aplica àqueles bons desejos dos quais às vezes fugimos. Ora, o ato de alguém se deixar levar pelo sabor das circunstâncias é primordial na escala de vivência das situações ditas frugais. Seja livre, então: adone-se de suas vontades  espirituais e orgânicas  e garanta a sua cota orgásmica de satisfação cotidiana! Carpe diem (máxima herdada da antiga contemporaneidade de Horácio)  não é só uma moda verbal ou comportamental: pode ser uma filosofia aplicável, justificada. E não se esqueça: por trás da coisa simples, pode estar uma grande coisa! A propósito, quais seriam para você as jujubas vermelhas do dia?

Por Sayonara Salvioli


5 comentários:

Penha Munhoz disse...

Que legal!!! Ótima representação essa das jujubas, Sayonara!!! Símbolo de prazeres e vontades que não devemos conter, e sim viver!!
E é verdade que as vermelhas são as melhores, dão água na boca mesmo!!

Ana Maria disse...

Belo texto. Boa dica. É bom adotar na rotina rs.

Bárbara Soares disse...

Verdade. Existem alegrias simples do dia-a-dia que não têm preço!!

Carmen M. S. Rosenthal disse...

Muito boa ideia esse "refresco" das jujubas vermelhas. Ameniza a tensão e alimenta o otimismo!!!

Mari disse...

Haja jujuba pra relaxar a gente nessa agitação toda do dia a dia!!!!!!!!!