quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Exortação


Creio que, quando chega o fim do ano (às vezes nos meados do calendário também), todo mundo faz aquela solene retrospectiva de seu interior e exterior no ano que finda. E aí ocorre aquela reportação básica à lista de desejos do fim de ano anterior. Só que em meio à constatação ou não das conquistas realizadas – das meras às sofisticadas – quase ninguém se dá conta do alcance de itens que não estavam ali... Afinal, as pessoas não computam alguns ganhos, desses que não aparecem muito, como saúde boa e coisas cotidianas em seu lugar. Sem contar aqueles rasgos no cotidiano, que – vez por outra – riscam os céus da nossa placidez!... Uma coisa que me agrada muito é verificar a incidência de coisas inesperadas que acontecem             – aquelas surpresas sensacionais que extrapolam, além das expectativas, a largueza da maior das imaginações!... Ah, eu adoro esse efeito-cometa da existência!... 
Porém, sob uma ótica mais ampla, é preciso considerar até mesmo o novo que não se encontra na roda das grandes dimensões. Necessitamos olhar para esse passado próximo e saudar, com um belo sorriso, as ações (ditas) convencionais salutares, aquelas situações até comuns e esperadas, mas que ilustram com alegria os nossos dias em qualquer ano. Tanto e tanto já se ressaltou o clichê da “felicidade simples” que a ideia ganhou... contornos de lugar-comum fora de moda. Contudo, por trás disso, talvez esteja a resposta de muitas de nossas buscas mais ousadas. Às vezes, estamos mesmo desejando algo maior para, com tal conquista, realizarmos bem – e com mais facilidade – coisas consideradas menores, cotidianas mesmo!
Quando me referi, aqui, à dádiva da “saúde boa” como um bem que não aparece aos nossos olhos, creio estar lembrando uma de nossas mais inconsequentes verdades: a não-conscientização do valioso bem da saúde que fomenta a conservação da vida, objetivo que deveria ser o mais importante de todos. Afinal, do que servirão quaisquer de nossos novos tesouros adquiridos na ausência do básico – a sobrevivência? Francamente, depois que passamos por uma ameaça vital, não sabendo se ainda estaremos vivos em 24 horas, muitos de nossos antigos conceitos de conquista se perdem. Primeiro, pois, necessitamos de um corpo subsistente, para depois orná-lo com as sedas, os metais e os rubis da trivialidade material. Parece ridiculamente simples – e mesmo evidente – esse conceito, mas não é. Porque é preciso compreendê-lo em sua plenitude, ou seja, conhecer a verdadeira face da subsistência ante o risco, da vulnerabilidade ante o desconhecido do futuro dos próximos minutos.
É em situações assim que podemos perceber o quão insignificantes podem ser muitas de nossas preocupações e agruras. Parece que é comum inventarmos problemas – dilemas imaginários –, na ausência de problemas reais em situações palatáveis. Por vezes, os nossos fantasmas interiores podem mascarar conquistas obtidas na fluência de nossas ações e, mesmo, impedir o alcance de outras maiores. O problema é sabermos quando há, de fato, um problema. Porque, não raro, muitas de nossas questões de difícil solução não existem senão no terreno exacerbado de nossa imaginação.
Nesse período de reflexões e Festas, além de decorarmos a casa e comprarmos os mimos para a troca de presentes, talvez o melhor seja limpar o nosso eu interior de fantasmas arraigados que se afiguram, sob uma ótica deturpada, como problemas sérios e implacáveis. Ora, a decisão pode ser o seu veículo de fé. Com ela – após exortar seus fantasmas interiores – você poderá criar um caminho livre para bem exercer a dádiva imensurável de sua vida! Neste Natal, dê-se um presente peculiar, personal: a autolibertação, a liberação pessoal para o gozo pleno do cotidiano. Liberte-se das amarras que lhe complicam a vida, desate-se do difícil e do insolúvel! Acredite na translucidez de um caminho novo e límpido. Exorte seus fantasmas interiores e ganhe o mundo vasto de sua existência!


Por Sayonara Salvioli