segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A efemeridade do instante


A efemeridade é, a um só tempo, algo fascinante e atemorizador. Pode encantar-nos a possibilidade da inovação, da descoberta, da transformação positiva. Por outro lado, também assusta cogitar a ruptura, a separação, o fim de algo. Isso porque cada momento tem fôlego único, e – uma vez esgotada a sua sobrevida programada – ele passa, mais rápido do que tempestade sem aviso.

Eu sou amiga do imprevisível e do surpreendente. Não que eu procure, todo o tempo, inovar a face dos meus dias, mas o fato é que eles sempre me trazem coisas novas, incessantemente. E isso se estende aos que convivem bem de perto comigo: é voz geral que ao meu lado não existe rotina (risos). Parece que tenho chamariz para a novidade, para a turbulência feliz de uma tal sucessão de emoções... Adoro dizer – e é verdade – que não suporto o marasmo, nem ele a mim!

Dizem que penso rápido, e estive analisando essa questão. De fato, estranho quando faço uma pergunta – ou peço uma opinião, proponho uma hipótese – a alguém, e, ao insistir na resposta, escuto: “Estou pensando para te responder”. “???” “Sua pergunta é profunda; é preciso pensar a respeito”. Não quero, com isso, ser pretensiosa, mas às vezes me parece curioso que uma pergunta mera desperte a susceptibilidade não-palpável das reflexões. É lógico que não quero aqui dar uma de dona da verdade, mas acho que costumo ter em mim – quase sempre – respostas prontas para a vida, pelo menos para os questionamentos que ela me faz diretamente. Sei que sou muito imaginativa e sofro de um tal complexo de sibila, já que, meio inconscientemente, acho que posso antever fatos e adivinhar coisas (risos). Reconheço que o livre exercício de pensamentos imponderados deve constituir um grave defeito meu, mas não costumo parar para pensar quando sou questionada, informalmente, a respeito de minha opinião sobre determinado assunto. Nesses casos, parece que a resposta, latente em mim, já está lá desde sempre, pronta, formada, calcificada, esperando para ser dita. Andei pensando também que talvez isso seja uma autoconsciência da efemeridade de que é feita a matéria da vida. E do tempo.

Tudo passa, como uma nuvem que se esvai, diluente e inalcançável no espaço. E o fluir dos dias é mais vulnerável que o correr da areia na ampulheta. Aliás, outro símbolo não poderia demonstrar melhor o abstrato não-transcendente da infinitude... E assim é com as pessoas, as circunstâncias, os fatos. Cada cena vivida no hoje-imediato parece despedir-se com pressa do instante seguinte. E isso é mais complexo do que se possa imaginar. Desde a infância, às vezes corro para registrar algum momento, pois tal evento só poderá ser retratado de modo único naquele instante. Uma fração de segundo posterior... e tudo poderá estar perdido! Já comprovei isso algumas vezes. Por isso, costumo registrar cenas triviais, aparentemente “repetíveis”, pois a verdade é que o tempo não espera – jamais! – e aquelas imagens/energias logo estarão relegadas a um limbo iminente de intenções, nossas ou do temperamental Cosmos. Por isso, é sempre tempo de correr para alcançar a vida! Porque o agora é terra do imponderável e do implacável: em tese nada pode eternizá-lo. O infinito é vasto, mas não possui em si elementos que se repitam; nada é reincidente, ainda que na amplitude do ilimitado.

Foram vários os poetas e pensadores que discutiram esse tema, a seu admirável modo. Leminski escreveu: “Haja hoje para tanto ontem”. Quintana achava que “para sempre é muito tempo”. Vinícius e Pessoa também pensavam de modo similar sobre a fugacidade e a intensidade do instante. Platão se referiu ao tema como “a imagem móvel da eternidade imóvel”. De todo modo, se pode concluir que essa luta por esgarçar o instante é uma história antiga no reino das especulações humanas. Também há aquelas situações em que acreditamos ser necessário despender muito tempo para a realização de algo. Nesses casos, é bom lembrar que, independentemente de como vamos usar o tempo, ele vai passar de qualquer forma. Então, é oportuno usar o máximo possível esses instantes passageiros.

Tolstoi é incontestável em sua afirmação de que “o tempo e a paciência são dois eternos beligerantes”. Fica implícita aí a idéia da efemeridade do instante reclamante nessa arena... E, mesmo acreditando em Plutarco, que afirmava ser o tempo o mais sábio dos conselheiros, aposto que o agora seja o plano do despertar, como defendeu Buda. Creio mesmo que o momento seja sempre agora, a hora de fazer as coisas acontecerem. Nesse sentido, Deshimaru fez referência ao tempo como “uma série de pontos do presente”. Afinal, a vida é feita do instante: fugidio, ininterceptável. Já li, a propósito, que o instante é um inimigo sutil que ataca fugindo... Como nos versos de Claufe Rodrigues: “sou o dono do meu tempo, mas de repente vem o vento e... eeeeeeeê”!...

De tudo isso emana a idéia de que estamos sempre sendo roubados pelo tempo. E a eterna responsabilidade consequente de não apenas “passarmos o tempo” e, sim, de tentarmos utilizá -lo inteligentemente, como alertou Schopenhauer. No fim das contas (contas do instante), o bom deve ser usar a potencialidade do momento, afinal o presente deve ser mesmo a matéria de que somos feitos (todos os louvores a Borges!). E seguir a máxima propiciadora de Hitchcock pode ser a grande pedida: “Minha cápsula do tempo vai até o ano 3000”. Afinal, esticar o instante pode até parecer uma tarefa para titãs, mas de que força não é capaz o ser humano se munido de real desejo? O desejo é o maior poder do homem. E por isso é possível ampliar, atenuar, valorizar, intensificar, tornar pleno e, em circunstâncias extraordinárias, perpetuar de algum modo o efêmero instante! Mas acima de tudo é preciso cuidar dele.

Por Sayonara Salvioli