sábado, 10 de julho de 2010

Cena de acrofobia

Estava fora do Rio, numa viagem rápida. Almoçava no hotel quando o celular tocou:
– Alô!
– Oi! Sayonara? (tempo) Este celular é da Sayonara Salvioli?
– Sim. Eu mesma.
– Tudo bem, Sayonara? Meu nome é Marcela. Sou produtora de um programa de TV. Canal fechado.
– Oi, Marcela! Como vai? Já nos conhecemos???
– É que eu te vi numa comunidade de acrofobia no Orkut. Tava pesquisando perfis de pessoas acrofóbicas. E achei o seu muito bom. Não vamos achar perfil mais interessante que o seu.
– Como pode achar isso??? Só pelo meu profile?
– Não. No seu profile eu vi o link do seu blog. Entrei e adorei! Você é a pessoa que a produção precisa pra mostrar no programa.
– Ah, sim. Visitou o meu blog. Que bom!... Mas como conseguiu o meu celular?
– Sabe como é... rede de contatos! E um fator facilitou tudo: uma colega minha de trabalho estudou com a sua filha na PUC... Aí foi beleza.
– Aham.
– Então, uma entrevista com você seria bem legal porque mostraria alguém com um perfil bacana, inteligente... e que sofre de acrofobia. Mostraria que gente interessante também pode ter fobias. Se importa de falar sobre o assunto?
– Claro que não! Tenho acrofobia mesmo, tanto que entrei numa comunidade do tema.
– Então, como é a sua? Tem um grau muito alto?
– Olha, eu diria que se trata de uma acrofobia normal (risos). Intensa em alguns momentos, como todas as fobias. Mas nada que chegue a causar pavor ou grandes dificuldades. Ando bem de avião (só não gosto de longos vôos à noite, mas também não fujo deles) e moro no vigésimo terceiro andar.
– Vigésimo terceiro andar??? Nossa, então você não sofre de acrofobia de verdade?!
– Acho que podemos dizer que tenho manifestações acrofóbicas, mas que não sofro propriamente com o medo... não sou doente disso, digamos... Não sofro profundamente de acrofobia simplesmente porque isso não é, pra mim, nenhum padecimento.
– Mas você topa participar do programa, dar uma entrevista pra gente?
– Topo, sim. Sem problema. Mas lembrando que eu sou uma fóbica moderada, tá? Não sei se isso se enquadra no perfil da matéria que estão preparando.
– Poxa! Eu quero muito fazer um quadro bem bacana com o seu depoimento. Mas precisava mostrar alguém com sérios problemas de fobia, a ponto de isso atrapalhar gravemente a sua vida...
– Olha, Marcela, com toda a franqueza, esse não é o meu caso. Na verdade, não que eu queira ser pretensiosa, mas acho que sou bem resolvida demais para algum medo assim atrapalhar a minha vida.
– Ih... Como vamos fazer então? Precisamos mostrar para o telespectador aquele pavor que toma conta do acrofóbico quando está diante da altura. Sabe aquele medo nos olhos, aquela sensação de terror estampado no rosto?... É disso que precisamos!
– Marcela, então eu acho que o meu perfil não é o indicado, não...
– Desculpe a insistência. É que o seu perfil pessoal seria perfeito para o programa em si, já que é um pgm com uma audiência bacana. Me diz mais alguma coisa sobre o seu tipo de fobia...
– Bom, minha acrofobia é muito peculiar. Como te disse, fico muito bem no avião, contemplando tudo da janela, e me instalo – com conforto – no peitoril de concreto da minha varanda. Não sinto medo nesses momentos. Se uma grade está na altura do peito, por exemplo, não me incomoda a altura. O que me atemoriza somente é estar num lugar alto com o entorno vazado... Por exemplo, se o peitoril da minha varanda não fosse de concreto, se fosse uma gradezinha frágil... Então, se eu olhar pra baixo de uma altura considerável – vendo o que quer que me envolva (algo de vidro, aberto ou transparente) na altura da minha cintura ou abaixo dela... fico insegura momentaneamente.
– Nervosa, muito nervosa, quase sem respirar?
Parecia que a produtora queria seguir uma linha de edição prévia, atribuindo-me características que eu não possuía. Era preciso preveni-la; dizer-lhe: Espere aí, minha filha. Tenho fobia de altura, em alguns casos, mas isso não me atinge o autocontrole e a noção do que se passa ao meu redor. Pelo contrário, previne-me, me ajuda a criar um escudo de autoproteção.– Não, absolutamente. Só circunstâncias drásticas têm o poder de me deixar muito nervosa. E a minha... digamos... leve fobia de altura não é uma dessas.
– Você falou em algo transparente ou de vidro te envolvendo, te causando medo...Tipo um elevador panorâmico? Fica apavorada quando está em um?
– Não. É verdade que não gosto muito de elevadores panorâmicos; posiciono-me sempre do lado fechado (quando há), mas eles também não me apavoram. Jamais deixaria, por causa dessa fobia, de usufruir do conforto deles e ter que subir lances de escada, por exemplo.
– Ah, sim. E o bondinho do Pão de Açúcar?
– Olha, só tive a magnífica visão da Baía de Guanabara uma vez, há muitos anos, quando resolvi encarar o bondinho. Fiquei fascinada, claro, mas não aproveitei todos os ângulos por não me sentir bem olhando de uma altura tão grande. E também não quis voltar lá. Essa é a minha diferença para quem não tem acrofobia: não me amarro nesses passeios, não pratico escalada, não me divirto nas alturas. Só isso.
– Então você não pularia da Pedra Bonita?
– Claro que não! Nem mesmo se desejasse o suicídio!...
– Então eu já sei: vamos fazer esse quadro com você na Pedra Bonita, mas com muito cuidado. A equipe te acompanha, a gente te cerca de profissionais da área e a gente filma, lá em cima, as suas reações. Mas precisamos pegar bem seus momentos de tensão, suas caras e bocas de medo... Pode ser?
– Está sugerindo que eu receba um monitoramento de vo
o livre e me lance nas profundezas do espaço? Esqueça!
– Não, Sayonara, não é isso. A gente só levaria um papo com você, com sua conversa inteligente, imaginativa, falando da sua fobia...
In loco?
– Sim. Algum problema?
– Todos. Gosto de entrevistas, de câmeras. Nada contra. Mas não gosto de espetacularização conceitual.
– Hã? Espetac... o quê? Como assim?
Eu já estava perdendo a paciência. E quem estava do meu lado já previa uma de minhas ditas temíveis reações (risos)...
– Olha, Marcela, vamos fazer uma coisa: eu te indico alguém que sobe a Pedra Bonita, com mochila nas costas... sabe, do tipo que acampa, usa tênis diariamente e convive com mosquitos?...
– Não, não, Sayonara. A gente queria o seu perfil!
– Lamento. Não dá pra ser o meu perfil, O.K.? Além disso, ele não é tão adequado assim às expectativas de vocês: não faço cara de apavorada e atentaria contra o figurino da jornada. Já pensou: eu na Pedra Bonita com meu salto agulha?
– Puxa...
– Desculpe, tá? Mas tudo que posso fazer é ajudar com uma indicação de entrevistado. Conheço muita gente e posso ver alguém que tope o programa. Você quer?
– Se não tem outro jeito, se não pode ser você, quero sim. Quem é?
Sim. Quem é? Perguntei-me o mesmo. Lembrei de algumas fisionomias-personas e, por fim, fixei o pensamento numa pessoa. Eu já ouvira dizer que ele tinha acrofobia... tipo não tremia de medo de altura, mas também não gostava de escalar... e não ficaria à vontade pagando alguma aposta no Corcovado.
– Ah, o nome dele é Leonardo.
– Legal... Qual a profissão dele?
– Ele é publicitário, marketeiro, um perfil legal, bem descolado, você vai gostar.
– Jura, Sayonara? Puxa, você está me ajudando muito! Mas... será que ele vai topar?
Ri por dentro pensando que, do jeito que o cara era vaidoso com aparições e ávido por mídia, aceitaria na hora. Na verdade, acho que ele venderia até a mãe pra isso.
– Ah, ele vai (sufocava meu riso interno)! Vou te passar os contatos dele.
Marcela agradeceu mais uma vez e anotou tudo.
Até fiquei curiosa com o desenrolar da situação, mas os dias seguintes foram muito ágeis para que eu tivesse tempo de procurar notícias a respeito. Acabei perdendo a exibição do programa. Na correria, esqueci mesmo.
Marcela, no entanto, muito grata por eu ter lhe arranjado a pessoa certa para a entrevista, me ligou de volta dias depois.
– Sayonara, você foi muito bacana! O programa ficou ótimo! Me ajudou demais!
– Que bom! E como foi a entrevista? Ficou legal? Como o Leonardo reagiu a setecentos metros de altura?
– Ah, vou te contar... Ele acabou não indo, mas no final deu certo.
– Mas... como, se ele não foi?
– Ele não foi, mas mandou a mãe.

Não falei?

domingo, 4 de julho de 2010

Presa na torre?!


Quando eu era criança, li a obra Ou isto ou aquilo, da sensacional Cecília Meireles. E me chamavam especial atenção os seguintes versos: É lá que eu quero morar: no último andar. Ora, além do poema na obra específica, eu lia, relia e reencontrava aqueles versos em todos os livros de Comunicação & Expressão (lembram-se desta nomenclatura?) da escola. Havia um, inclusive – de quando eu tinha nove anos – que trazia uma ilustração complementando perfeitamente a idéia dos versos de Cecília: uma menina, provavelmente da minha idade, olhando as estrelas, em meio à altura estonteante de um último andar do que parecia ser o maior arranha-céu do mundo!...

Aquela imagem, em coesão cognitiva com o lirismo daqueles versos, me reportava a um apartamento – situado onde eu não sabia – plantado bem no meio das nuvens! [De lá se avista o mundo inteiro: tudo parece perto, no ar]. E tal me parecia muito interessante, embora a realidade de meu momento infantil também fosse fantasiosa: eu habitava o mistério de uma casa enorme – cenário perfeito de um filme de suspense –, que tinha um imenso corredor, com portas labirínticas por todos os lados (parecia-me – quando eu saía correndo pelo corredor, sozinha – que de cada porta daquelas saía um fantasma diferente!), com muitos quartos e salas, espelhos, portais, cofres, estantes e livros... Uma grande casa linear, que não necessitava de uma amplitude vertical como a dos versos cecilianos. Ainda assim, aquela página com os versos e a ilustração me detinham, e retinham mesmo minha imaginação, fazendo-na divagar pela cidade distante do reino mágico daquela poetisa que queria morar no último andar!... No último andar é mais bonito (...) É lá que eu quero morar. E eu pensava: eu também!

Seria difícil descobrir (embora eu tivesse contado o número de andares do prédio do desenho e este mudasse de livro para livro) se aquele arranha-céu de literatura aplicada excedia um prédio de uns trinta andares... Seria possível? Nem os anos – décadas – me responderam isso, mas Mestre Tempo não se esqueceu da incógnita. Embora um pouco mais tarde eu tenha me descoberto levemente acrofóbica, o que talvez tenha amainado, por vários anos, a minha fixação por um tal fantasioso andar perto do céu... Mas eis que, um belo dia, visitei um imóvel, e do alto de uma de suas janelas vislumbrei, em divisa tênue, o encontro do mar com o horizonte! [Do último andar se vê o mar]. A paixão foi quase imediata e... resultado: mudei-me para lá! Ou melhor, para cá!

No primeiro amanhecer, acordei com um passarinho entrando por uma fresta ainda não coberta no vão do ar condicionado [Os passarinhos lá se escondem para ninguém os maltratar]; nas primeiras noites, mirei as luzes do entorno: pareciam olhos de íntima metrópole [Todo o céu fica a noite inteira sobre o último andar]; nos primeiros meses, o céu visto dos olhos da cobertura [Quando faz lua no terraço fica todo o luar]; nos meses seguintes, porém, meu olhar começou a buscar um estreitamento com a terra [O último andar é muito longe: custa-se muito a chegar]. A poetisa era também profetisa, afinal uma condição pressupõe a outra.

De uns tempos para cá, ao visitar lugares de alturas mais razoáveis, comecei a sentir uma certa familiaridade com o que é mais próximo dos espaços lá de baixo: parques, crianças e gentes em seu tamanho natural!... E agora me sinto, de novo, quase que como a menina dos versos de Cecília: a mesma perplexidade ao olhar para as nuvens, porém com um certo estranhamento ao mirar a distância do último andar. Será que é lá (aqui) que eu quero morar?... Parece acometer-me, tardiamente, o complexo de Rapunzel! (risos). Também me vêm à mente consciências bruscas de Ismália!... Porém, consciências... claro! Prefiro, naturalmente, contemplar a lua no céu de um alto bem mais alto que sobre a lua no mar! Mas não tão alto que se avizinhe do céu assim! Restam-me, então, os elevadores e as escadas, pois meus vôos de imaginação parecem me ditar um passeio mais ao nível das gentes passantes, dos gramados e das flores, das praças, dos cãezinhos passeadores, da padaria, da banca e das esquinas. Depois da experiência real do arranha-céu de Cecília, no poema da realidade estou me sentindo como que presa na torre!...

Por Sayonara Salvioli