terça-feira, 26 de outubro de 2010

Consumação & percepção inata


                                 Imagem: Bruno Mallart

Quanto ao primeiro sentido – consumação –, não falo de consumo, apesar de todas as contemporâneas tendências mercadológicas (risos). Refiro-me ao ato de se consumar um fato pelo simples meio de sua realização. Falo de experiência! 
Inspira-me – e me admira, impacta – essa tal experiência (em certos casos, real vivência de alguns poucos) – capaz de muito nos surpreender, a qualquer tempo ou em qualquer de suas faces. Impressiona-me, sobremaneira, o poder que uma ação experimentada tem de trazer à tona a percepção, a compreensão  de algo. Afinal, o empirismo vem provando através dos séculos o seu poder de fogo. Mas aqui se ressalte, também, um empirismo conceitual não-absoluto, passível de uma mesclagem experiência / analogia intuitiva. Afinal, não sou adepta de um radicalismo empírico que faz pressupor a base do conhecimento advinda só de uma prática não-pontual.  
Sirvo-me, porém, de uma verve basicamente empírica. Ainda que acreditando na semente da indução humana, fico pensando como, algumas vezes, é possível que se volte ao zero de uma pressuposição estóica, não bastando a consciência da plausibilidade recomendada, mas só a isso se fazendo adesão depois de um confronto com a realidade... Às vezes pode ser difícil acreditar na imagem em que não colocamos, de fato, os nossos olhos. Seria isso uma espécie de emblema pós-moderno do bíblico Tomé, agnose profunda, cepticismo, inconsistência cognitiva?... Há hoje, claramente a nossos olhos de não-Tomé – seres e situações de forja, "personalidades inventadas" por incautos da arte, bons somente para a sociedade espetacularizar... Banalizações de sentidos pessoais entre vis trocas metais, em mercado público!... Production services?! 
Volto ao embate conceitual entre a inclinação natural e a experimentação, insistindo em não sucumbir a absorções cabais de teorias e ensinamentos de Bacon, Locke, Hobbes, Hume ou Russel (sem esquecer naturalmente a representativa anuência aristotélica –, filosofações outras à parte), a cristalização de algo em campo real tem o poder de suscitar a soberania de ações. Em outras palavras, parece mesmo que, em determinados casos, só a experimentação pode trazer ao humano a visão de uma situação como ela realmente é, independentemente de avisos ou campanhas sobre um produto ou uma pessoa, por exemplo. Nada nem ninguém poderá ser tão vivo como aquilo que é tocado pela mão do fato. E a verdade, no campo da arte, esta não se esconde!
Poderíamos dizer, a propósito, que a experiência é uma espécie de realidade lapidada, sofisticadamente visualizada em peculiar 3D... Talvez advenha disso o poder cognitivo sobre aquilo com que efetivamente travamos contato. Na esteira disso, a ineficácia das sugestões(?!), o vácuo dos alertas vãos e a incerteza de induzidas suposições.

A arte – em sua forma primeira, plena e real – se faz veemente e reconhecida defensora do inato: da intuição, da percepção a distância e do florescimento do desconhecido ou inexplicável. Curvando-se ainda – reitere-se – à tal realidade empírica, que – por claras vezes – insiste em ser chamada à tona das emoções palpáveis. Sim, o empirismo visita o artista e vice-versa. Mas as suas visitas são vãs para o tal e deplorável artista de forja. 
Então, já não há incógnita: podemos descrever ou sentir o real sabor da água que nunca bebemos? Sou levada a crer, nesse sentido, que apesar dos saberes prévios, há situações que exigem a dimensão abarcadora da textura táctil do que passou pelas nossas mãos. E é essa ideia – que passeia despretensiosamente pelo terreno dos epicuristas – que me clareia essa análise do tal aprimoramento humano (do que é latente) pela cabal experiência. É no momento, sem dúvida, essa espécie de consumação conselheira que me move a lauda eletrônica. Talvez embalada que esteja pelas experiências vividas este ano...
E nesta fração de segundo (mais recente) talvez tenha vindo à percepção das minhas suposições um desejo de interseção entre o inato e a experiência; desejo já antes propalado e que – reitero – só é possível realizar com a fusão de dois elementos: a vocação (chama interna) e a mão (a experimentadora). Assim é que o artista essencial se vale daquela luz natural e inatíssima – mãe da intuição e do conhecimento primordial, em sua face genuína –, ao mesmo tempo em que prova o néctar disponível das circunstâncias... Nesse encaminhamento, quem irá acreditar na indelebilidade da tabula rasa diante da natural admissão por ideias a priori?...  Consumação inata + experiência = concepção com anterioridade! Que surjam, na sucessão dos anos, as próximas experiências prováveis – para que realmente possamos atestar convicções e aprendizagens –, mas que estas se originem da mãe (intuitiva e sábia) de um racionalismo precedente, em que o inato se faça sentir!...

Por Sayonara Salvioli

3 comentários:

Profa. Wilma Sanches T. Penedo disse...

Sayonara:
Estóicos, epicuristas e todos os defensores do conhecimento por sensações tenham meu respeito, mas concordo com você sobre o inatismo. É preciso pelo menos unir as duas noções. Pra mim, isso é que é filosofia aplicada. Perfeito o texto! E a sua percepção!

Luciana C. disse...

Adorei, Sayonara! Acho que é mesmo por aí... Às vezes nada substitui a experiência, mas também existe algo dentro de nós que antecede o experimento propriamente dito da sensação. Como tudo na vida, vigoram os dois lados da moeda!!

Maria José Lino Gaudêncio disse...

Seu texto é perfeito, Sayonara Salvioli, sob todos os pontos de análise. Você é uma escritora filósofa!Parabéns!!