domingo, 31 de maio de 2009

A lei da véspera



Não sei se todos poderão me entender (ou acreditar), mas – dentre outros princípios intuitivos – instituí para mim a teoria/lei da véspera. Trata-se do seguinte: um dia antes de acontecimento importante, invariavelmente, passo pela já instituída revelação da véspera... É um misto de sentimento e aviso – quase como um ritual inconsciente de preparo – que me faz ficar inquieta, alerta, às vezes estranhamente eufórica... Falo, ora, não apenas da minha afamada intuição de sempre (esta pode me segredar algo alguns dias antes); refiro-me, especificamente, ao instituto particular da intuição da véspera: aquilo que me é revelado ou "adiantado" exatamente um dia antes do fato!
Não vou aqui narrar o que se sucedeu a cada uma dessas vésperas importantes, pois já disse – e reafirmo – que não se trata este blog de um diário convencional. Apenas matizarei a narrativa com leves pinceladas de realidade, ao pintar algumas nuances retratadas na tela do sempre. Sendo mais extensa, descortinarei apenas, quase na totalidade, a tela mais importante: uma véspera inteira, constituída do dia e da noite imediatamente anteriores ao dia do acontecimento...
Era o dia 5 de março de 1988. A noite houvera sido agitada, e eu – naturalmente! – não dormira nada. Sentia algo extraordinário e avisei à minha família que algo iria acontecer. Não estou bem. O dia amanheceu com aparente normalidade, mas logo em suas primeiras horas mostrava a que veio... Não seria um dia como os outros, com toda a certeza. Liguei para o médico da família, que – sobressaltado com o meu relato, por via das dúvidas, foi até a minha casa, examinou-me e diagnosticou: “Aparentemente não é nada, mas fique atenta a partir de agora e, de qualquer modo, vá até a Casa de Saúde mais tarde [Não sou hipocondríaca! Era caso mesmo de se chamar o médico, como verão adiante!].
Sei que você não tem dúvidas quanto ao meu estado de alerta o resto do dia. Mas aquilo também não impediu o que eu havia programado para aquele sábado, especialmente porque para aquela manhã havia um agendamento desejado. Não sou uma pessoa meramente fútil e vaidosa em momentos de seriedade (risos), mas eu estava com hora marcada com um grande figurinista – o meu eterno estilista, o amigo Ewaldo Xavier –, compromisso ao qual eu não faltaria, por certo! No atelier de meu querido designer de moda, eu tive prenúncios de uma véspera alegre, entre previsões e modelitos desenhados para mim naquela fase especial de minha vida (já fim de fase, o que não impedia a criação dos tais figurinos naquele momento)... Pois bem, enquanto Ewaldo desenhava lindos modelos com seu grafite artístico, eu conversava com a amiga Kiki, que também fazia suas sugestões de bom gosto. De repente, comecei a sentir dores... as dores do parto! Tratava-se da véspera!... Passadas algumas horas de um dia agitado, dirigi-me à Casa de Saúde João XXIII, onde nasciam todos os bebês da família, diga-se de passagem. E a noite chegou com seus momentos silentes de véspera... No dia seguinte, no despontar da aurora, às seis horas da alvorada, minha filha nascia! Tratava-se da história de véspera mais feliz da minha vida!...
Apesar de já termos quase precisas ultrassonografias no final dos anos 80, ainda assim, a minha intuição se antecipou à Ciência... Houve um erro na data prevista pelo exame: o nascimento se daria entre 25 de março e 8 de abril... Ledo engano a tecnologia de imagem: Raquel chegou, linda e vigorosa, cerca de um mês antes!... E eu pressenti (e chamei o médico, alertando-o) a chegada do grande dia exatamente pela detecção da lei da véspera!... E acredite, leitor, minha previsão não foi de natureza puramente orgânica, por simples ocorrência de dor física. Não, absolutamente! Não pressenti a situação de iminência apenas por estar grávida, afinal um documento científico, um exame, respaldava tranquilidade de tempo nesse sentido... O que eu senti foi a velha e boa intuição – que sempre me acompanhou – da véspera!
Imagino que você imagine que, para eu relatar as minhas tantas incidências de véspera, eu precise escrever um livro... e não apenas alguns períodos em minha lauda eletrônica. Certamente! Por isso, vou resumir agora para você apenas alguns pontos de uma outra véspera da vida... Em meados dos anos 90, tive uma noite agitada, na qual não preguei o olho sequer um minuto! Desta vez, sabia que se tratava de um perigo, e – incrível! – sabia com quem, só não sabia o quê! Cheguei a manifestar: Está acontecendo algo com a minha amiga Goretti. Pasme, leitor: estava!... No dia seguinte, liguei para a casa dela (descobri o telefone... não nos víamos havia anos!). A discagem durou insistentes segundos de aflição, após os quais seu marido atendeu. Perguntei por ela; ele disse: "Você não vai poder falar com ela, Sayonara." Enregelei, quase morri de medo! Mas ele continuou: "Ela acaba de dar à luz uma linda criança, mas passou muito mal. Agora, felizmente, já está bem..." Ufa! Meu Deus! Minha querida amiga de adolescência, antes tão próxima, estava tendo um filho – sem que eu tivesse notícia, a quase 300 Km de distância! Mas eu detectei o fato... Soube-o na véspera!
Houve também outras vésperas que comentarei levemente aqui, dentre as quais uma que se deu praticamente no raiar de 2000... Esta foi um daqueles acontecimentos de contos de fada... E tal narração esta pauta não caberia, por certo. Vou só contar – em três ou quatro orações – o que ocorreu na véspera: primeiro, ouvi um sábio relato de um acontecimento extraordinário, cujo final me fez desejar ver surgir algo similar. Acho que a fadinha dos desejos passava por ali... E a noite da véspera fez meu coração bater galopantemente, sem saber por quê. Parecia que ele ia saltar pela boca!... O dia amanheceu e eu comprei um bouquet de rosas cor-de-rosa. Depois daquela véspera e daquelas flores matinais, teve lugar no então dia-presente um dos fatos mais marcantes da minha vida. O dia anterior havia sido a véspera de algo assinaladamente importante!
E ainda merece menção uma véspera quase atual, que aconteceu outro dia... Pressenti um perigo na madrugada anterior e cheguei a adiar uma viagem. No dia seguinte – é claro! –, algo aconteceu... E, mais uma vez, passado o perigo expresso pelo alerta, confirmou-se a infalibilidade do instituto da minha teoria-lei da véspera.
Vésperas também há em que grandes coisas – em poucos minutos dormidos – que se me revelam em sonhos... Imagine o poder do onírico unido à lei da véspera!... Asseguro-lhe, leitor: é coisa para sibila nenhuma “botar defeito”! Mas isso é matéria para outro e outro post...
Por Sayonara Salvioli.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A vez dos Martinez

Fotografia de meus bisavós Henriqueta Salvioli e João Martins (na biblioteca da prima Angella)

Imagine uma terra que possui como característica um menor número de dias nublados, recebendo mais de três mil horas de sol durante o ano! Some a isto um mar muito quente, límpido, vivamente azul, às portas do Mediterrâneo!... E além da orla maravilhosa – que é a mais extensa de todo o litoral andaluz –, a região ainda conta com o encanto paradoxal de paisagens desérticas, painéis do tipo western, não por acaso cenários cinematográficos de clássicos como “Por um punhado de dólares” e “Lawrence da Arábia”...
Com a descrição, você certamente já aportou nas terras e mergulhou no mar de Espanha, neles reconhecendo o fascínio de Almeria, província da Andaluzia. Tais paisagens, apesar das terras pouco férteis do Deserto de Tabernas, por exemplo, guardam a história de uma fecunda proliferação de... humanos! Isso mesmo: falo dos inúmeros descendentes dos Martinez, dentre os quais me incluo.
Embora desse clã eu não possua, ainda, um arquivo informativo de monta – como o dos Salvioli –, disponho de alguns documentos de família que dão conta das minhas raízes plantadas também naquele solo... Estas provêm de meu antepassado Juan Martinez Martinez, um legítimo andaluz.
Você deve estar se perguntando se, afinal, sou descendente de italianos ou de espanhóis, e respondo: de ambos os povos! Ressalto, porém, que em mim fecundaram bastante as sementes de Itália, com sua vibração e folguedos! Dos espanhóis, herdei a intensidade e vejo alguns traços – de fisionomia e de alma – em meu pai e em vários de nossos familiares, os quais em terras brasileiras passaram a se chamar Martins.
Voltando, pois, ao tempo em que tudo começou, é preciso rememorar aqueles idos do século XIX em que os Martinez e os Salvioli se encontraram, enamoraram... e casaram! Entre eles – os precursores dessa fusão de culturas e genes -, por certo, houve mais afinidades que a opulência dos vinhedos, cultivados tanto em Almeria quanto em Nonantola... Também outros muros rochosos de fortalezas medievais – como a Alcazaba de Almeria e a Abadia de Nonantola – cercaram os caminhos da futura descendência dos Martinez Salvioli. Assim, em eras remotas, começou o clã que – mais de um século depois – me incluiria como representante e possível escriba de sua história.
Quem leu o post que aqui incluí acerca dos Salvioli e seus começos, deve se lembrar que descrevi a base dessa genealogia no Brasil. Nesse contexto, destaquei a minha bisavó Anrica (Henriqueta) Salvioli, nascida – no município de Cantagalo – de Elena Bavutti e Carlo Salvioli. Pois bem, quase à mesma época da chegada do casal italiano ao Brasil, Juan Martinez Martinez, sua esposa e filhos também chegavam ao novo solo pátrio. Isso aconteceu, precisamente, em 12 de novembro de 1889, após longa travessia a bordo do Poitou. Junto de Juan, vieram outros representantes de seu clã: Miguel e Alberto (também acompanhados de suas respectivas famílias) havendo o primeiro permanecido na capital (Rio de Janeiro) e o segundo seguido para São Paulo. E no dia 15, três dias depois, Juan, Maria e os meninos – Juan e José – saíam da Hospedaria dos Imigrantes em direção ao município de Cordeiro, na região serrana do Estado do Rio de Janeiro.
Passaram-se quase vinte anos desde então. Juan Filho (mais tarde registrado João) – que havia chegado ao país com seis anos de idade – tornou-se um belo rapaz, de olhar penetrante, bigodes espessos e notável marketing pessoal (fama que chegou até nós)... Anrica, por sua vez, tinha crescido e se tornado uma moça carismática e falante... Cantagalo e Cordeiro eram localidades próximas, e, na confluência dos destinos, certo dia Juan e Anrica se esbarraram... E a filha brasileira da província de Módena avistou o tal filho dos Martinez de Almeria... Foi o bastante para Eros esfregar as mãos e atirar suas flechinhas poderosas! E o resultado desse sortilégio europeu em terras brasileiras foi o clã que, mais de um século depois, teria a mim e a tantos outros representantes genéticos como multiplicadores de sua história!
Anrica (Henriqueta) Salvioli e João Martins casaram-se e passaram a habitar o Noroeste do Estado. E foi lá que nasceram seus catorze filhos – Maria, Alberto, Manoel, João, Helena (minha avó paterna), Dolores, Alzira, Carolina, Mercedes, José, Sebastião, Antônio, Levy e Newton. Juan morreu precocemente, ainda aos 45 anos, numa passagem triste que ainda narrarei. Àquela altura – empreendendor que era – já havia se tornado um próspero plantador de café. Com a sua morte, a viúva – minha bisavó Henriqueta – literalmente tomava as rédeas da família para, ela própria, dirigir-se aos compradores da produção da fazenda. Ela e os filhos, numa profícua fusão das genéticas italiana e espanhola, constituíram-se em exemplos de um clã astuto – de sangue forte nas veias, irrefutável poder de comunicação e raciocínio, e, sobretudo, coragem... num olhar fulminante (às vezes de “meter medo”)!... A propósito, devo aqui uma autoelucidação oportuna: fervilha-me a genética italiana, sim – e com veemência! –, mas não deixo de expressar, desde meus primeiros anos, o jeito Martins de ser!... Afinal, nós, os Martinez / Martins vindos de Almeria somos intrépidos e desbravadores! Bandeirantes natos, temos o ímpeto de abrir clareiras no meio da selva e, em legítimo ímpeto espanhol, instalarmos acampamento e acendermos a nossa fogueira!
Aqui se homenageie a descendência dos povos italiano e espanhol, nessa proliferação de genes multinacionalizados que, no Brasil, originaram narizes aduncos, olhar de fogo, coração derretido e uma vontade férvida e apaixonada de bem-viver!
PS1: Juan Martinez Martinez partiu da capital para o interior do Estado do Rio de Janeiro justamente no dia em que era proclamada a República em nosso país: 15 de novembro de 1889.
PS2: Assista ao vídeo abaixo, ambientado nos cenários cinematográficos da terra originária dos Martinez ...
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terça-feira, 19 de maio de 2009

A tríplice teoria

                                                     
        
               
                                                                 Acima, a famosa pintura de Botticelli - A Primavera -
em que vemos representadas as Três Graças da mitologia grega


Por mais que o mundo contemporâneo nos leve a acreditar na exatidão das coisas prováveis, um certo poder metafísico é algo inegável na dinâmica dos acontecimentos. Com isso, quero dizer que creio não somente no que se pode provar por A + B, como também naquilo que – mesmo sob um prisma místico-especulativo – é passível de ocorrência. Assim, leigamente faço minhas observações de princípios astrológicos, bem como investigo inexplicabilidades que me despertam a atenção. Para mim, tudo é ponderável e plausível (mesmo o aparentemente intangível) até se prove o contrário.

Com base em tais alegações, sempre acreditei, por exemplo, na influência dos astros sobre a personalidade humana. A meu ver, o pisciano será, quase invariavelmente, um sonhador amistoso e altruísta, assim como o ariano terá personalidade marcante e espírito de independência; por sua vez, o taurino será fortemente afixado às suas raízes, e os virginianos serão metódicos e bons administradores. Tais pressuposições de minha parte surgiram de minha observação direta de pessoas próximas, representantes desse ou daquele signo. É claro que não acredito em meros apontamentos diários de orientação dita astrológica, como simples dicas do que fazer ou não na segunda-feira (risos esotéricos), mas creio mesmo – reitero – no perfil astrológico atribuído aos signos solares, ascendentes e congêneres.

De modo similar, já demonstrei aqui a minha relação estreita com a simbologia onírica, visto que os sonhos fazem parte da minha sensorialidade cotidiana, numa espécie de antevisão de fatos próximos. Geralmente – guardadas as devidas proporções e correspondências dos símbolos sonhados –, sou sempre avisada de um perigo ou de uma vitória (vide meu post Poderosa intuição, de 20 de novembro de 2008).

Ainda nessa linha de pensamento, tenho feito novas incursões pelo reino do imponderável à medida que vivo. Quanto mais os anos passam, maior é o número de mensagens ou códigos cifrados que os fatos me impõem. E é por isso, essencialmente, que bem-humoradamente venho me tornando uma investigadora do ininvestigável. Parece que acredito poder descobrir quase tudo e, nesse processo, tenho mesmo encontrado algumas respostas. E o mais curioso é que nem sempre tais respostas provêm da ciência em si, mas da observação empírica do humano, não raro em princípios da sabedoria universal. 
Provérbio, para que te quero pode mesmo ser uma máxima na busca de soluções e acertos. Por vezes, uma situação nos faz pensar e pensar, quando a aparente solução para o conflito já está expressa numa frase dita há milhares de anos... Clichês (meramente) aculturados? Não! Pode ser verdade que um sábio oriental ou um visionário árabe já puderam, em poucas palavras, resumir a essência daquilo que procuramos... Você já percebeu?
Tenho mesmo atestado, por inúmeras vezes, a já aclamada sabedoria popular. E um provérbio (árabe) que muito me chamou a atenção, ultimamente, foi o seguinte: “Tudo o que acontece uma vez pode nunca mais acontecer, mas tudo o que acontece duas vezes deverá acontecer uma terceira”. Os árabes disseram e eu não refuto. Observe se não é verdade... Melhor, vamos estender a sentença com aplicabilidades mais amplas e uma adaptação de minha parte: Tudo o que acontece uma só vez pode nunca mais acontecer, mas tudo o que acontece duas vezes com a probabilidade e a ocorrência de uma terceira deverá repetir-se sempre. Pense comigo, leitor, se algum fato já ocorrido na sua vida – quer em terreno comportamental, quer profissional – não remete a essa compreensão... Realmente, aquela coisa do solamente una vez existe mesmo: há situações que não passam da primeira vez. Explorando mais essa lógica, há acontecimentos que só se dão uma vez + outra consecutiva. Às vezes, até porque se encerra o assunto e não se faz permissível uma terceira ação. E há, sobretudo, aquele fato novo que, após a primeira ocorrência em sua vida, implicará uma segunda ação, uma terceira e assim sucessivamente, sem tempo determinado ou prazo de validade. Tal experiência trata-se do novo incorporado à sua vida, de modo indissociável, perene. Falo aqui daquelas coisas que duram para sempre: um talento que se recria, fortes laços de relacionamento, uma atividade profissional consolidada – como fontes eternamente renováveis, nunca esgotáveis. Talvez seja essa uma premissa de justiça, um atestado de obviedade vital que prega a permanência do que é bom e a exclusão do que é efêmero ou improdutivo.
No fim de contas, essa premissa das três vezes no silogismo dos fatos novos me reporta a uma outra investigação, que se refere a um tal poder metafísico do número 3... Seguindo esse raciocínio, podemos chegar, inclusive, à lei judaica, segundo a qual algo que tenha ocorrido três vezes é considerado como permanente. Até aqui já vimos que, pelo menos, dois povos acreditam na máxima das 3 ocorrências: o árabe e o judeu. Vejamos, então, a aplicação disso na nossa prática de vida: imagine que você opta por tomar uma revolucionária decisão. Caso o faça uma vez, estará investindo na sua performance de estreante; duas vezes, corroborando essa sorte... Três vezes, porém, se consumado o feito, a sua decisão/ação poderá ser considerada boa e sólida. Poder-se-á, então, acreditar em você e no seu ato! Portanto, o número 3 simboliza, mesmo, permanência, continuidade. Da mesma forma, uma boa ação, se três vezes praticada, será uma constante, e, por outro lado, o delito três vezes cometido incorrerá na adoção do crime como conduta. Por isso, é preciso haver cuidado com a abordagem do número 3 na sua vida, pois ele parece acrescentar força às suas decisões e atitudes. 
Talvez seja mesmo por causa da tríplice teoria que muitas orações sejam repetidas por três vezes... Já pensou nisso? Aqui também se lembrem outras reportações ao número: na Igreja Católica, a Santíssima Trindade, os três reis Magos, Três Pastorinhos e os três segredos de Fátima; para o judaísmo, a homologação da Torá se deu no terceiro mês do ano judaico; para a mitologia grega, o 3 também possui acepção significativa (vide as Três Graças, representando luz, fertilidade e alegria); para a cabala, o 3 tem uma conotação de integração e harmonia. E mais: em astronomia, as Três Marias; em Medicina / Ciência da Evolução, o tríplice cérebro; na geografia mítica, o Triângulo das Bermudas; na comédia, os Three Stooges; na literatura histórica, Os Três Mosqueteiros; na oralidade, os três conselhos... E as três peneiras de Sócrates, que, na minha opinião, representam alegorias das mais significativas: a peneira da verdade (uma coisa só tem valor se for baseada em princípios verdadeiros, sem ardis ou fraudes), a da bondade (as intenções de qualquer ato precisam ser altruístas, sem prejudicarem o próximo) e a da utilidade (se um ato ou evento não envolve coisas ou pessoas inegavelmente úteis, então, não tem real valor e perde a sua função)... três sábias ponderações de ninguém menos que o Pai da Filosofia! 
Prosseguindo em nossa marcha especulativa sobre a teoria das três vezes, ao adentrarmos esse terreno numerológico, nos reportamos ao sábio Pitágoras e temos aí, novamente, o povo grego a confirmar a nossa tese, essa tal teoria do 3... Todos sabem da genialidade do matemático que, entre outras coisas, criou o chamado sistema pitagórico, segundo o qual se atribuem valores aos números em correspondência às letras do alfabeto. De acordo com Pitágoras, “tudo são números”, e isso pressuporia a aplicação de nosso dilema metafísico...  
O sábio grego foi, na verdade, um filósofo iluminado que – por meio da observação analítica da influência dos números sobre a vida humana – codificou os princípios básicos da numerologia, ciência largamente utilizada desde aqueles tempos até os dias atuais. Para Pitágoras, pois, o equilíbrio harmônico do universo estaria nos números e na geometria. A respeito, ele dizia: “Deus geometriza”. Será que é algo determinante assim que acontece em nossa vida, por vezes, e vemos retratado na sabedoria implícita da ação dos números?... Ora, isso é terreno bastante amplo para a divagação inicialmente proposta neste post... Na verdade – independentemente de códigos de numerologia ou apreciações metafísicas – eu só intencionava registrar na lauda eletrônica o meu atestado de concordância com a lei do 3... assim como tenho cá meus pitacos sobre o 7 e o 8 também. Contudo, isso é matéria para outro e outro post!...

terça-feira, 12 de maio de 2009

Famiglia Salvioli, di Modena

Óleo sobre tela retratando um infante de Módena - Séc. XIX, por Paul Delaroche.

Dois adolescentes corriam pelos campos de Nonantola, entre risadas e beijos roubados, às escondidas da família vigilante. Ela tinha 15, e ele 16 anos. Chamavam-se Elena Bavutti e Carlo Salvioli. O motivo da euforia era simples: iriam casar-se em uma semana.

O grande dia chegou: dois de março de mil oitocentos e setenta e nove. E começou numa dessas manhãs primaveris que parecem acentuar a sua alegria nas flores. Já naquela época a Comune di Nonantola – pequena cidade situada na província de Modena, região de Emília-Romagna, norte da Itália – parecia ser o centro de grandes histórias. Aliás, tudo em Nonantola remetia a uma espécie de passado e nostalgia. Talvez pelas próprias construções históricas, como o imenso mosteiro beneditino que, durante os tempos medievais, chegou a abrigar mais de mil monges. E toda aquela atmosfera secular de mistério parecia mesmo remeter a outro tempo, a outras histórias...

Mas aquele tempo se fazia presente para Elena e Carlo, duas “quase crianças” que também fizeram seus votos particulares depois da cerimônia, ali mesmo, junto à Igreja da Abadia:

– Com você eu tenho vontade de correr mundo!

– Com você, sou capaz de atravessar o oceano, conhecer uma terra nova!...

E atravessou mesmo, e conheceu a “terra nova”!... Elena não sabia, mas aquela fala tinha sido um prenúncio de novidades extremas para os dois.

Dez anos já haviam se passado, e eles já tinham vivido muitas histórias: nasceram-lhes Giovannina, Elvira, Giuseppe, Riccardo, Egidio e Albina. No entanto, o solo aluvial e as planícies férteis de Nonantola não puderam abrigar aquela família que começava.... Razões socioeconômicas e políticas levavam, dia a dia, os italianos do norte a emigrarem para países distantes. E à família Bavutti Salvioli coube o Brasil.

Depois de enfrentarem calmarias, ventos e muito frio na aventura transocêanica, o casal de italianos e suas crianças aportaram no Rio de Janeiro. Carlo havia pago 150 libras-ouro por cada passagem no navio Hindoustan, que os trouxera de Gênova ao Rio. Dezoito dias de uma viagem penosa na classe dos emigrantes foram o seu passaporte para uma vida nova. Mas nem tudo era brisa naqueles mares... Elena e o marido traziam a dor profunda da separação: sua filha Giovannina adoecera gravemente e, por isso, não pudera viajar. Além disso, apesar de precoces dez anos, já estava prometida a um Barbieri, e sua permanência na Itália não deixava de ser providencial.

E fora assim, entre a expectativa do novo e a nostalgia do passado, que os Bavutti Salvioli, acompanhados de seus filhos pequenos – Riccardo, Egidio e Albina (Elvira e Giuseppe haviam morrido ainda bebês), desembarcaram no país, num dia quente de fevereiro. A sua chegada em solo brasileiro é confirmada pelo Registro de Entrada dos Imigrantes – do ano de 1889 –, quando se instalaram na Hospedaria de Immigrantes da Ilha das Flôres. De lá, os novos ítalo-brasileiros saíram a correr mundo – como um dia antevera Carlo –, até chegarem à localidade de Cantagalo, no interior do Estado do Rio de Janeiro. E foi lá que nasceu Anrica Salvioli (mais tarde conhecida como Henriqueta Salvioli); depois, municípios adiante, Helena; em seguida, Jorge. E de Jorge eu surgi!

Por Sayonara Salvioli.

P.S.1: O destino dos irmãos de Anrica algum dia conto aqui... Apenas adianto que Giovannina – a irmã que permaneceu na Itália – chegou a viver 101 anos (informação passada pela dileta prima Dalva Martins). Havendo se transferido para Modena e lá constituído família, deu origem a um dos ramos italianos do clã. A respeito, uma prima muito engajada, com clara vocação para investigações de genealogia – Ana Maria –, foi até a Itália para conhecer nossos parentes e desvendar, meticulosamente, as nossas raízes. Lá visitou dioceses e cartórios em incansáveis buscas. Antes de ir, com a ajuda especializada da querida Angella - sua irmã e minha prima - localizou documentos e ratificou registros também no Brasil. Uma vez em terras italianas, descobriu que os Salvioli di Modena são políticos, escritores, atores, escultores, restauradores, médicos e comerciantes.

PS2: Descobri que, antes de Carlo, outro Salvioli – Giuseppe – embarcou para o Brasil no navio La France, aqui chegando em 2 de outubro de 1888, junto da esposa Melania e dos filhos, Maria, Giovanni e Alfonso. Esse braço da família se radicou em São Paulo, constituindo a ascendência de nossos parentes paulistas.

PS3: Há, comprovadamente, descendentes dos Salvioli em outros estados brasileiros, como mencionado acima, e também remanescentes da família na Argentina e nos Estados Unidos. A pesquisa de minha prima focou os Salvioli di Modena advindos, especificamente, do casal Carlo e Elena, cujos documentos oficiais dão conta de suas origens e de sua chegada e afixação no Estado do Rio de Janeiro. Tal estudo se deu a partir de Carlo e descendentes diretos, trazendo para nossas mãos certificações brasileiras e italianas (registros de nascimentos, casamentos, óbitos etc.), bem como papéis particulares, imagens e relíquias de família.

PS4: O vídeo postado abaixo remete às tradições e belezas da Itália. Ouvindo Pavarotti - que, como os Salvoli, era natural de Modena -, posso sentir as vibrações entusiastas da ascendência que bem explica meu jeito de falar e sentir... As palavras abundantes, os gestos largos com as mãos, o prazer da boa mesa e uma paixão festiva e esfuziante pela vida!... Salve, meu povo italiano!


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