sábado, 21 de fevereiro de 2009

Paixão veneziana


Era o ano de 1657, e Veneza se encontrava sob a égide jurisdicional de Bertuccio Valiero. Diante do Palácio dos Doges, naquele sábado de fevereiro, quem por ali passasse talvez se impressionasse com a sisudez do leão alado que guardava o pórtico real. Abaixo dele, a magnanimidade da Madona, como se em eterno desvelo pela Sereníssima. Ainda abaixo, o relógio do tempo, a escala solar, a roda das destinações...

No interior do palácio, Silvestro se preparava para sair às ruas. Era um momento excitante para ele, pois naqueles meses poderia margear o Grande Canal sem ser reconhecido. Não aguentava mais a bajulação subserviente dos insistentes e o assédio das mais fúteis damas de Veneza... Talvez muitos não entendessem, mas isto de ser o filho do doge tinha lá seus inconvenientes. A verdade era que ele se sentia, todo o tempo, o principal alvo do interesse alheio. Mais que isso, não tinha oportunidade – nunca! – de ser ele mesmo. Chegava a pensar que poderia passar a vida sem experimentar as aventuras que até mesmo Giovanni, servo do palácio, exibido e folgazão, podia viver.... Giovanni lhe contava, inclusive, detalhes inimagináveis das peripécias em que se envolvia nas horas caladas da madrugada. Mas ele, nobre que era, não podia se dar tais prazeres. Restava-lhe somente, então, aquela oportunidade de – escondido por trás de uma máscara – ser alguém como jamais ousara.

Naquela meia-madrugada, podiam-se ouvir as passadas vigorosas de Silvestro no percurso da ponte. Mas o que chamava a atenção dos poucos passantes camuflados era o seu traje: o filho do doge – para não deixar à mostra sua identidade – vestia calça e casaco tão largos que poderiam fazer crê-lo gordo. Sua indumentária também tinha grandes babados no peito. Debaixo da máscara ainda revestiam seu rosto tintas coloridas, que o tornavam um ser peculiar, uma figura diferente das outras que habitavam a Veneza comum. Vestido daquele jeito, na incógnita das horas, Silvestro Valiero jamais poderia ser reconhecido.

A noite estava cálida, e um reflexo azulado cobria o chão da Ponte do Rialto. Por um momento, Silvestro se empolgou com a magia que o envolvia tão estranhamente naquele momento... Olhou em derredor: acima, a lua; abaixo, as águas... E, de repente, surge diante de seus olhos uma princesa debaixo da máscara! Olhou-a detidamente e pouco pôde ver dela mesma, já que ostentava vestes tão fartas. O observador só tinha a licença prazerosa do colo desnudo que lhe queimava o olhar... E também dos cabelos louros e esvoaçantes que se soltavam da indumentária na parte da cabeça.  O traje da dama tinha um traço particular: era ornado por bolas coloridas... Também chamaram a atenção do rapaz as formas geométricas pretas  estampando o alvo cetim branco da saia rodada... Um instante de eternidade parecia perpassar os seus sentidos quando lhe escutou a voz:

– Quem és tu?

– Sou o desconhecido. E tu, bela dama, qual é tua identidade?

– Como pode a ti isto importar, se as máscaras nos protegem, e tu mesmo confessas tua incógnita condição?

Se a dama pudesse enxergar o que havia atrás da máscara, veria o rubor que ardia na face de Silvestro. Mas o nobre filho de nobre disfarçou:

– Sim. Não importa mesmo se és uma cidadã veneziana, uma filha de Roma ou descendente dos turcos. Também eu posso ser um estrangeiro, até mesmo um degredado da lei e da sorte... Quem saberá?

A moça nada respondeu. Só fez força para que seu olhar reluzisse mais que as estrelas. E conseguiu: o rapaz, fascinado, se inclinou, encostou-a junto à balaustrada da ponte, pressionou-se contra ela, segurou suas faces entre as mãos e a beijou.

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Silvestro se apaixonou com o ímpeto avassalador dos facilmente enamoráveis. Era jovem e ingênuo, e se deixara encantar pela jovem de seios fartos e faces rutilantes que encontrara na ponte. Naquela noite, voltara para o palácio exultante. Recolheu-se assim que chegou, mas não conseguia dormir. Foi aí que resolveu procurar por Giovanni, relatar-lhe o fato e pedir ajuda, afinal o servo amigo era tão esperto com mulheres! Talvez lhe ensinasse uma maneira de seduzir definitivamente o coração da bela da ponte... E foi lá, no cubículo que Giovanni tinha como aposento, que Silvestro se abriu:

– Estou apaixonado, Giovanni. Esta noite, na ponte...

Silvestro narrou ao criado os detalhes da inusitada descoberta do amor. Falou-lhe dos cabelos sedosos, do sorriso contido e dos olhos fulgurantes da amada. Disse até que, ao recordar-lhe, podia sentir o seu cheiro e o queimor de sua pele... O servo mordiscava a ponta dos dedos enquanto o escutava, mostrando-se atento a cada palavra, totalmente interessado na história do inexperiente amo, o senhor-herdeiro do poder daquele palácio.
Na segunda noite, ouvindo o conselho de Giovanni, Silvestro levara jóias para a dama. Foi quando ela lhe revelou o seu nome: Nênia. Apesar de estar encantado, o rapaz se assustou, pois este era o nome da deusa romana dos ritos fúnebres, aquela que chorava pelo amado. Mas seu coração se aquietou quando Nênia lhe abriu o seu sorriso mais suave...

E o rito do encontro na Ponte do Rialto se repetiu por três semanas. Na terceira, Silvestro partira para lá decidido a revelar-se: diria à moça quem ele realmente era, lhe entregaria o anel de diamante e a pediria em casamento. Não importava quem ela fosse! Como já dissera Shakespeare, a rosa exalaria menos perfume se tivesse outro nome?... Certamente que não! E isso o aliviava bastante quando pensava que sua escolhida talvez nem se chamasse Nênia. Por outro lado, apavorava-se ao pensar - que sob o proibido subterfúgio da máscara - ela pudesse ser uma senhora casada ou até mesmo uma cortesã... Tudo era possível. Afinal, ele mesmo não era filho do soberano doge e quisera fazer-se passar por um estrangeiro, um sem-nome, um degredado?... Mas Silvestro limpou seu pensamento desses medos e deixou que sua fisionomia esboçasse, novamente, o sorriso que o acompanhava naqueles últimos dias. Toda vez que se lembrava de Nênia, ele se sentia mais importante que o próprio doge e, lentamente, seus lábios se abriam em sinal de felicidade. Mas, eis que naquela noite, quando se aproximava do local do encontro, seu rosto se fechou com algo que avistara: Nênia abraçada a um outro homem, disfarçado com uma vestimenta de losangos coloridos... O estranho apertava a cintura da moça, que o correspondia, acariciava seus cabelos e o contemplava com um riso solto, uma gargalhada que se espraiava pelo ar e parecia penetrar nas águas do canal!... O rapaz apertou os olhos para ver se enxergava direito a cena, quando a moça e o estranho começaram a beijar-se com notável lascívia. Por um átimo, Silvestro pareceu enlouquecer. E a noite ficou escura.

No dia seguinte, foi encontrado nas águas do Grande Canal o corpo de um jovem rapaz. Os que contam esta história não sabem dizer qual dos dois morrera. A versão mais difundida, contudo, diz que Silvestro, num ímpeto de loucura, tirara a máscara dos dois, descobrindo no adversário seu próprio servo, Giovanni. Quanto à moça, a oralidade veneziana afirma haver sido também uma criada do Palácio dos Doges, a qual – mancomunada com Giovanni, seu amante – e favorecida pelo anonimato da máscara, planejara casar-se com Silvestro para ascender socialmente e beneficiar seu verdadeiro amor, colega de condição. Segundo essa versão, Silvestre não teria aguentado a traição e, atingindo o opositor com sua lâmina, o teria atirado no canal. A mesma narrativa dá conta de que Silvestro, por longo tempo, parecera ficar louco, mas que – quarenta anos depois – conseguira se recuperar e, como o pai, se tornara um ponderado e inabalável Doge de Veneza. Qualquer que tenha sido o destino dos venezianos, afinal, tudo não passou de um capricho da roda das destinações...

Por Sayonara Salvioli
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Cérebro oxigenado?!



Não, não estou falando de cabeça de loura. Eu não faria isso... Imagine! (risos platinados)... Falo de algo cientificamente comprovado: o efeito de oxigenação que uma ducha na cabeça exerce sobre o cérebro. Se você ainda não parou para pensar a respeito, experimente a reação dos neurônios, em pronta resposta, a um questionamento seu debaixo do chuveiro.

Realmente é impressionante o clarear de ideias com a irrigação de nosso provedor biológico. Apesar de minha condição de aficionada da arte e leiga em ciência, imagino mesmo não haver intracomunicação que não se estabeleça sob a franca estimulação das conexões neurais. Figuras de sentido ou estilo à parte, tenho comprovado, na sucessão dos anos, as múltiplas descobertas que nossa mente pode fazer na hora do banho. A propósito, para que você não duvide de mim antes de fazer a experiência, lembro aqui o célebre caso de Archimedes, sábio grego que descobriu importante princípio físico, batizado com seu nome. Ilustrando ludicamente o fato, poderíamos dizer que foi a união entre cérebro e água a base propulsora da Eureka de Archimedes. A grande descoberta se deu justamente durante um banho do cientista, que estava incumbido de uma missão designada pelo rei Hierão, na Siracusa do século III A.C. O tal rei teria recorrido a Archimedes quando desconfiou ter sido enganado por um ourives: imaginava que este houvera misturado um tanto de prata na confecção de sua coroa, que deveria ser só de ouro. No entanto, o monarca não quis danificar seu distintivo real, e achou que o genial matemático e físico poderia resolver o problema sem destruir o objeto. Acertou na mosca: o cérebro irrigadíssimo do grego teve um insight exatamente no momento do banho... Archimedes percebeu que certa quantidade de água – coadunante com seu próprio volume corporal – transbordava da banheira quando ele entrava nela... Ideia! Assim, ele intuiu que – a partir daquele princípio inicialmente formulado – poderia comparar o volume do objeto em questão, a coroa, com os volumes de pesos idênticos de ouro e de prata: seria suficiente imergi-los na água e medir a respectiva quantidade de líquido derramado. Eureka! Estava descoberta a solução do problema do rei!

Voltando, porém, à minha realidade de não-cientista abrigada na múltipla contextualização de idéias do século XXI, creio poder afirmar que o cérebro é uma biomáquina, e que estou certa ao aludir a respostas viáveis a antigas dúvidas quando, com o efeito transbordante de um chuveiro, “irrigo” o meu cérebro. Este, plenamente oxigenado, me faz perceber aspectos clareadores de uma situação, e aquele questionamento que eu me fazia havia dias, de repente, se mostra decifrado com uma solução tão simples que me faz pensar: É isso mesmo! Como foi que não pensei nisso antes?

Se você ainda não conseguiu conceber, com precisão, essas minhas alegações, nem precisa esperar a experiência mental proposta para o próximo banho... Basta que ligue sua rede de neurotransmissores e tente se lembrar de alguma vez em que, durante o banho, descobriu a resposta para uma dúvida, a solução clara e simples de um problema antes aparentemente insolúvel. Comprove: tudo aquilo que você não consegue decifrar ou processar mentalmente, em circunstâncias normais, se torna possível e bem mais claro sob o efeito do chuveiro. Comigo já aconteceu incontáveis vezes! Não raro, estou sempre tendo revelações à moda Archimedes, depois de semanas com algo “martelando” na minha cabeça!

No fim de contas, um banho é sempre um santo remédio, principalmente um banho de ideias! E – quem saberá – ao falar disso, não estarei também tratando involuntariamente de princípios da Heurística [ciência do descobrimento, do livre pensar para a efusão de idéias] ?... Com o mesmo significado etimológico do termo Eureka, de Archimedes [descobri, encontrei], o processo dos descobrimentos na hora do banho pode bem refletir um procedimento heurístico, ou seja, um método espontâneo, uma espécie de estratégia para atingirmos a solução de alguns problemas na forma de raciocínios intuitivos, por assim dizer. Diante disso, convido o leitor a constatar que aquela resposta a uma questão difícil pode estar dentro de sua própria mente. Que tal exercitar a Heurística no proposto momento de restauração mental? Afinal, sua mente pode ter o poder revelador de um Archimedes! Apenas termine o banho, enxugue-se e vista-se primeiro! Não faça como ele ao sair por aí, desprevenido, para contar ao mundo a sua descoberta!

Por Sayonara Salvioli
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