quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Por Hipócrates!


Você conhece alguma pessoa que possa classificar como absolutamente normal? Antes de responder, não se esqueça das sábias sentenças de Tolstoi e de Caetano... 
Karina diria que não é absolutamente normal qualquer pessoa com a qual conviva e se dê bem. Segundo a própria, aliás, ela atrai pessoas não normais e adoravelmente loucas... Sim, porque os ditos loucos, na verdade, são as pessoas mais criativas e interessantes que conheço, ela afirma.
A coisa é tal que até ao procurar ajuda para algum problema de saúde, a moça se depara com médicos um tanto fora do senso comum... Como naquela vez em que, sofrendo de fascite e não arranjando tempo (nunca!) para fazer fisioterapia, teve uma nova crise de dores no pé direito... E o pior: sempre na época do Natal! 
Era a segunda vez que o problema ecoava em agudos gritos de dor na prévia da festa natalina. E Karina, como sempre, recorria aos médicos plantonistas da época. Daquela vez, por sorte, não procurara nenhum pronto-socorro de madrugada (como era seu feitio) e, assim, procurara um ortopedista, especificamente. O bom também fora que, assim que adentrara o setor e preenchera a ficha, o médico logo chamou:
– Karina Pereira Flandres. 
E a moça se adiantou, adentrando o consultório. Logo se sentou e deu um sorriso de convenção para o médico, que do outro lado falou:
– Senhorita... Karina, o que há? Algum problema? 
A mocinha, pouco paciente que era, teve vontade de dizer: não, imagina, gosto de visitar hospitais, ou: senti que, se viesse até aqui, poderia conhecê-lo, ou, ainda: a época de Natal me estimula a aproximação de pessoas enfermas, e por isso estou aqui como voluntária... Mas ela conteve seus ímpetos pouco admiráveis (Dona Wilma não a educara assim) e disse apenas:
– É que tenho fascite e...  
O médico era um completo aloprado e não lhe permitira continuar.
– Ah, sim, fascite plantar... é uma dor própria da fascia plantar. Fasc... vem de facia, portanto, fascite: inflamação da fascia, entende? 
Karina só balançava a cabeça afirmativamente.
– Então, como eu ia dizendo, se trata de uma inflamação, às vezes grave e irreversível, provocada por traumatismos de repetição na base da tuberosidade medial do calcâneo, se é que me entende... 
Karina dá um riso sem graça, e inquire o médico:
– O senhor não vai examinar o meu pé? É o direito. 
– Ah, sim – diz o médico louco, que segura o pé esquerdo da moça e continua a discorrer sobre a disfunção: – Está vendo aqui... essa protuberância... São as forças da tração no ponto de apoio que causam a ite do caso, quero dizer, a inflamação, o que acaba ocasionando fibrose e completa degeneração das fibras fasciais originadas no osso. Entendeu? 
Estava claro que Karina não entendera nada, principalmente porque aquele não era o pé acometido. Mas ela sabia que de nada adiantaria chamar a atenção para o pé certo. Já o dissera, e ele fez ouvidos moucos. Então ela ia educadamente assentir que sim quando seu interlocutor, sem absolutamente se importar com a sua opinião, mandou uma seta:
– A obesidade costuma ser uma das causas.
Assim também era demais. E Karina não se conteve: 
Que é isso, doutor? Como assim... obesidade? Sou manequim 38! Acho que estou muito bem para os meus dezenove anos!
– Talvez já haja em seu organismo alguma predisposição para futura obesidade, e neste caso algum ponto de apoio esteja sendo atingido por um tipo de peso concentrado ou coisa parecida...
– Mas como pode haver uma consequência de um peso que ainda não existe, doutor?

– Minha filha, você quer refutar as afirmações de Hipócrates nos tomos Das Articulações e Das fraturas?
– Fraturas? Mas não tenho nenhuma fratura no pé! 
O médico, agora com ares irretrucáveis de louco inconteste, aloprou de vez:
– Menina, você é muito teimosa! Por Asclépio, Higia e Panacea, eu não estudei pra isso! E nem sou expert em casos de fascia plantar... Minha especialidade é esmagamento e amputação! Está aqui o endereço do meu consultório particular para o caso de precisar me procurar. - e estendeu a mão ossuda com um cartão (nada) de visitas. 
Karina arregalou os dois olhos já muito grandes: O que aquele louco pensava em fazer com ela?
O doidivanas, porém, por uns minutos demonstrou certa normalidade convencional ao formular sua receita:
– Apesar de não ser essa minha especialidade, vou te prescrever inicialmente – mas veja bem: apenas inicialmente! – a terapia da crochetagem mioaponeurótica.
– ??? 
– Mas vou já te mandar pro meu colega Paulo de Tarso – e lhe deu um cartão do colega. – Você vai precisar se submeter a duas sessões semanais, ao longo de um período de um pouco mais de um mês, cinco semanas para ser preciso. Apenas se lembre: nada de saltos-agulha, nem alimentos condimentados, nem esforços concentrados. Limite suas ações e ingestões nas festas por causa do pré-operatório!
Karina não entendera absolutamente nada. E o doutor não explicou o que era crochetagem... A moça desconfiava tratar-se de algum tipo de fisioterapia, algo específico para os membros inferiores, mas não conseguia pensar direito com aquele aloprado lhe impingindo os ouvidos de aparentes impropérios. Mas a paciente se deu por feliz de passar as mãos na receita e poder sair dali... Despediu-se do médico com poucas palavras e praticamente fugiu da clínica. Uma vez lá fora, resolveu pegar na bolsa o cartão do profissional indicado, e quase teve um treco quando leu: Paulo de Tarso Duboc, cirurgião de pés – casos irreversíveis de traumatologia. 
A moça não sabia se ria ou chorava, se desconsiderava o ortopedista louco ou se desenvolvia um pavor imediato por atendimento de profissionais não-indicados... Resolveu, então, que finalmente iria procurar o fisioterapeuta indicado pela tia. Afinal, essa história de – por uma simples e inicial fascite – ser levada a um atendimento por um especialista em esmagamento e amputação, que, por sua vez, a indicava a um fazedor de cirurgias irreversíveis de pés era mesmo de assustar... até a ela! Coisas que só acontecem com Karina e seu despropositado modo de levar a vida...


Por Sayonara Salvioli

3 comentários:

bruno disse...

Hauauhauaa Que hilário! Médico totalmente maluco esse!!!! Mas não é que de vez em quando eu encontro uns assim??

Paulina Brenner disse...

Só vc mesmo Sayonara pra narrar uma história divertida assim!!!!!!!!!!! rsrsrsrsrs

hugo disse...

oi amiga, me manda seu e-mail tem como?
pretendo publicar um livro e preciso trocar informações
grato
HUGO
hugodiamante@gmail.com