terça-feira, 12 de maio de 2009

Famiglia Salvioli, di Modena

Óleo sobre tela retratando um infante de Módena - Séc. XIX, por Paul Delaroche.

Dois adolescentes corriam pelos campos de Nonantola, entre risadas e beijos roubados, às escondidas da família vigilante. Ela tinha 15, e ele 16 anos. Chamavam-se Elena Bavutti e Carlo Salvioli. O motivo da euforia era simples: iriam casar-se em uma semana.

O grande dia chegou: dois de março de mil oitocentos e setenta e nove. E começou numa dessas manhãs primaveris que parecem acentuar a sua alegria nas flores. Já naquela época a Comune di Nonantola – pequena cidade situada na província de Modena, região de Emília-Romagna, norte da Itália – parecia ser o centro de grandes histórias. Aliás, tudo em Nonantola remetia a uma espécie de passado e nostalgia. Talvez pelas próprias construções históricas, como o imenso mosteiro beneditino que, durante os tempos medievais, chegou a abrigar mais de mil monges. E toda aquela atmosfera secular de mistério parecia mesmo remeter a outro tempo, a outras histórias...

Mas aquele tempo se fazia presente para Elena e Carlo, duas “quase crianças” que também fizeram seus votos particulares depois da cerimônia, ali mesmo, junto à Igreja da Abadia:

– Com você eu tenho vontade de correr mundo!

– Com você, sou capaz de atravessar o oceano, conhecer uma terra nova!...

E atravessou mesmo, e conheceu a “terra nova”!... Elena não sabia, mas aquela fala tinha sido um prenúncio de novidades extremas para os dois.

Dez anos já haviam se passado, e eles já tinham vivido muitas histórias: nasceram-lhes Giovannina, Elvira, Giuseppe, Riccardo, Egidio e Albina. No entanto, o solo aluvial e as planícies férteis de Nonantola não puderam abrigar aquela família que começava.... Razões socioeconômicas e políticas levavam, dia a dia, os italianos do norte a emigrarem para países distantes. E à família Bavutti Salvioli coube o Brasil.

Depois de enfrentarem calmarias, ventos e muito frio na aventura transocêanica, o casal de italianos e suas crianças aportaram no Rio de Janeiro. Carlo havia pago 150 libras-ouro por cada passagem no navio Hindoustan, que os trouxera de Gênova ao Rio. Dezoito dias de uma viagem penosa na classe dos emigrantes foram o seu passaporte para uma vida nova. Mas nem tudo era brisa naqueles mares... Elena e o marido traziam a dor profunda da separação: sua filha Giovannina adoecera gravemente e, por isso, não pudera viajar. Além disso, apesar de precoces dez anos, já estava prometida a um Barbieri, e sua permanência na Itália não deixava de ser providencial.

E fora assim, entre a expectativa do novo e a nostalgia do passado, que os Bavutti Salvioli, acompanhados de seus filhos pequenos – Riccardo, Egidio e Albina (Elvira e Giuseppe haviam morrido ainda bebês), desembarcaram no país, num dia quente de fevereiro. A sua chegada em solo brasileiro é confirmada pelo Registro de Entrada dos Imigrantes – do ano de 1889 –, quando se instalaram na Hospedaria de Immigrantes da Ilha das Flôres. De lá, os novos ítalo-brasileiros saíram a correr mundo – como um dia antevera Carlo –, até chegarem à localidade de Cantagalo, no interior do Estado do Rio de Janeiro. E foi lá que nasceu Anrica Salvioli (mais tarde conhecida como Henriqueta Salvioli); depois, municípios adiante, Helena; em seguida, Jorge. E de Jorge eu surgi!

Por Sayonara Salvioli.

P.S.1: O destino dos irmãos de Anrica algum dia conto aqui... Apenas adianto que Giovannina – a irmã que permaneceu na Itália – chegou a viver 101 anos (informação passada pela dileta prima Dalva Martins). Havendo se transferido para Modena e lá constituído família, deu origem a um dos ramos italianos do clã. A respeito, uma prima muito engajada, com clara vocação para investigações de genealogia – Ana Maria –, foi até a Itália para conhecer nossos parentes e desvendar, meticulosamente, as nossas raízes. Lá visitou dioceses e cartórios em incansáveis buscas. Antes de ir, com a ajuda especializada da querida Angella - sua irmã e minha prima - localizou documentos e ratificou registros também no Brasil. Uma vez em terras italianas, descobriu que os Salvioli di Modena são políticos, escritores, atores, escultores, restauradores, médicos e comerciantes.

PS2: Descobri que, antes de Carlo, outro Salvioli – Giuseppe – embarcou para o Brasil no navio La France, aqui chegando em 2 de outubro de 1888, junto da esposa Melania e dos filhos, Maria, Giovanni e Alfonso. Esse braço da família se radicou em São Paulo, constituindo a ascendência de nossos parentes paulistas.

PS3: Há, comprovadamente, descendentes dos Salvioli em outros estados brasileiros, como mencionado acima, e também remanescentes da família na Argentina e nos Estados Unidos. A pesquisa de minha prima focou os Salvioli di Modena advindos, especificamente, do casal Carlo e Elena, cujos documentos oficiais dão conta de suas origens e de sua chegada e afixação no Estado do Rio de Janeiro. Tal estudo se deu a partir de Carlo e descendentes diretos, trazendo para nossas mãos certificações brasileiras e italianas (registros de nascimentos, casamentos, óbitos etc.), bem como papéis particulares, imagens e relíquias de família.

PS4: O vídeo postado abaixo remete às tradições e belezas da Itália. Ouvindo Pavarotti - que, como os Salvoli, era natural de Modena -, posso sentir as vibrações entusiastas da ascendência que bem explica meu jeito de falar e sentir... As palavras abundantes, os gestos largos com as mãos, o prazer da boa mesa e uma paixão festiva e esfuziante pela vida!... Salve, meu povo italiano!


video

17 comentários:

Lina Daher disse...

Que lindo post, Sayonara!
Então seus antepassados são conterrâneos do Pavarotti?
Adorei o áudio tb. Realmente nos transporta...

Fabio disse...

E viva a Itália!!!

Mariana disse...

Que legal!! Então há outros escritores na família!!! E essa veia literária tem origem na romântica Itália... D+!!

victor disse...

Sayonara, vc tem mesmo jeito de italiana!!!!

Renata M. Valle disse...

Sayonara:
Você contou tão bem a história que até pude visualizar mentalmente o casalzinho apaixonado nos campos de Nonantola!... rs

Dalva disse...

Adorei,você soube dar vida aos personagens. Perfeito!
Aguardo o restante da hitória.

Paulo Tamburro disse...

ouromeblogouromeblogouromeblog
SALVE NOSSO POVO ITALIANO.

No entanto,certo dia acordei com um som vindo da casa ao lado.

Era uma destas músicas que não tinha música, somente um ruido metálico e diarreico.

Mas, o principal: Era cantada em inglês.

Possivelmente, quem a estava escutando não entendia uma só palavra do que estava sendo cantado:Mais era em inglês!

Então, mais do que nunca resolvi assumir a minha descendência de nórdico, isto apesar de meus avós terem nascido na Calabria, em Conzensa.

Tanto faz. Eu sou é nórdico!

Não quero mais este papo de me chamarem de latino.

Latino é o cantor , e mais recentemente a revelação norte-americana, versão latin-black: Barack Obama.

Tenho a imprensão que ele só disse que o Lula era "o cara", para chatear os nórdicos conservadores do mundo.

Eu sou nórdico e como em fast food.

Daqui há poucos anos estarei pesando 180 quilos, com tanto hormonio que os nordicos acrescentam nos seus imensos sanduiches.

Que se dane. Eu sou é nórdico!

Há muito e muitos anos minha imensa família italiana, fazia macarrão em casa.

Minha avó após cortar a massa em tirinhas, colocava-os sobre um lençol para secar.

Depois de pronto era mais gostoso do que estar vivo.

Esta minha avó Emilia Seda Tamburro, já com seus 80 e alguns, para desafiar a garotada colocava uma pimenta malagueta enorme na boca e a mastigava.

Depois tomava quase uma garrafa de vinho.

Morreu de cirrose hepatica, feliz ,latina, sem conhecer hamburger.

As novas gerações desta italianada- cujo sobrenome, Tamburro quer dizer amanteigado- agora são todos nórdicos.

No Brasil a impressão que se tem é que a Italia acabou com o império romano.

Uma arrogante e dissimulada jornalista da Revista Época,Ruth de Aquino, acusou até o nosso amado Berlusconi, como o rei das gafes.

Ora,Ruth de Aquino que é diretora da Revista Época aqui no Rio de Janeiro, também é nórdica.

Esta jornalista da Revista Época deve idolatrar é a Rainha-Mãe da Inglaterra com seu mal-hálito insuportável e pose de perua-enrugada desfilando na Escola de Samba Universal das inutilidades politicas.

Fernando Henrique Cardoso, disse uma vez que os aposentados, eram todos uns vagabundos.

Uma inverdade: A maior vagabundagem você enconra é nestas cortes europeias, com um odor insuportável de naftalina.

Como todo brasileiro, não falando inglês é macaco, inclusive nós.

Eu tenho um blog de crônicas de humor, e o dia que que tiver que publicar um livro o farei sob o nome de :PAUL TAMBURROWISK.

Aqui pra nós quem compraria um livro de um cara chamado Paulo Tamburro.

É SALVE O POVO ITALIANO.

PS. Nem pizza no Brasil é comida, e sim ,o resultado da impunidade da corrupção galopante que assola esta nação.

PORTANTO, VIVA OS POVOS NÓRDICOS!

naya_fabbro@hotmail.com disse...

Amei seu texto...Me emocionei, consegui ver um filminho!!! Vc trouxe esse lindo casal apaixonado de um passado tão distante, aqui para o nosso tempo... Somos cada um, pequeno galho dessa imensa arvore que se formou a partir dessa raiz adubada com muito amor e coragem, que veio de outras terras e aqui se firmaram, firmes e fortes... e estão vivos ate hoje dentro de cada um da nossa familia!!!
Bjssssss

Brenda disse...

É muito bonito ver contada assim a saga de uma família! Sucesso e felicidade para vc e todos os Salvioli!!!

caio cesar b. disse...

tutti famiglia!!!!

Luciana C. disse...

Conheço a Itália, mas nunca fui a Modena. Seu texto me deu vontade de conhecer!

bruno disse...

salve a italia de todos nós descendentes desse povo caloroso, vibrante, sem papas na lingua e com muito amor no coração!!!!!!

beto disse...

familia manera essa sua!!!!!!!!

Viviane disse...

Sou descendente de portugueses, mas sou a-p-a-i-x-o-n-a-d-a pela Itália! Lindo texto!

andersonsalgado disse...

oi ,gostei sim da histotoria da fmilia o meu bisavo pasquali Salvioli falava pouco da familia ele contou uma historia de seu pai Domenico salvioli que tentou salvar sua filha que tinha caido num tacho de uvas os dois morreram afogados , depois disso meu bisavo foi para os EUA onde tinha uma irma e para Argentina onde tinha outro irmao

Bruno Salvioli disse...

Belo texto, será essa linda família a mesma família de onde venho? Preciso me preparar e pesquisar meus ascendentes.

Abraço.

Bruno Salvioli disse...

Belo texto, será essa linda família a mesma família de onde venho? Preciso me preparar e pesquisar meus ascendentes.

Abraço.