quinta-feira, 26 de março de 2009

Estrambótica ou No salão...


Conheci a criatura num salão de beleza, dia desses. À primeira vista, causou-me não sei que impressão, pois tinha o rosto pálido, um olhar de peixe morto e um meio-sorriso de quem quer se aproximar. Mistura estranha numa dessas ofertas cotidianas de riqueza dramatúrgica personificada. Até a achei simpática, com jeito entre o franco e o estouvado, porém decididamente esquisita.
Na luta por um espaço auditivo entre a fala da cabeleireira e o barulho do secador, ela começou a soltar a voz. Falava num tom relativamente baixo e ponderado, mas aquilo não parecia combinar com a mulher agitada que sua aparência denunciava. Por certo, era mais uma dessas charadas das tipologias humanas que se veem por aí, rotineiramente. 
A mulher começou a desfiar, em sua fala mansa, um rosário de frases soltas. Pensei em me livrar dela logo e disparei um “estou com muita pressa”. Ao que a criatura disse:
– Eu tenho uma amiga que, outro dia, também tava com muita pressa, e quando passava a roupa pra sair, o interfone tocou. Ela, então, ficou alisando a roupa com o fone e levou o ferro ao ouvido. Coitada! Ficou com a orelha direita e parte do rosto em carne viva! Maluquinha, coitada!
Manifestei-me:
– Até que não... Qual é o seu nome mesmo?
A criatura sorriu um sorriso faiscante de quem descobria meu interesse repentino:
– Cristina. Eu tô sempre por aqui. E você?
– Não. É a primeira vez que venho a este salão. Mas, voltando à sua amiga, essas coisas acontecem... Eu mesma sou muito distraída! De vez em quando, quase engulo tarraxas de brincos em lugar de comprimidos. Já aconteceu de eu levar a drágea à orelha e a tarraxinha à boca...
Os olhos da mulher brilharam:
– E levou quantos dias?
– ?????
– Não me mata de curiosidade! Quantos dias pra devolver a tarraxa ao brinco?
Finalmente entendi, meio enojada:
– Ah, não! Nunca cheguei a engolir nenhuma, não. Só sei que corro perigo de fazer isso...
E a mulher continuou:
– Mas a minha vizinha não é só distraída, não; ela é destemperada, isso sim! Mas, sabe... até que não posso falar muito: sou igualzinha!
Interessei-me:
– Ah, é? Você também costuma atender o interfone com o ferro de passar roupa?
– Isso não. Comigo acontecem coisas não muito domésticas, se é que me entende... Vivo por aí, me aventurando pelo mundo, desde que tinha 14 anos e viajei de mochilão para Londres. Mas com avião me dou bem; meu problema foi mesmo com moto...
– Anda de moto? Já teve algum acidente?
– Ihh... E como! Já caí muito de motocicleta! Quando tinha dezessete anos, cheguei a ficar quatro meses em cima de uma cama, enfaixada igual a uma múmia!
– Nossa! Como foi?
– Nada muito incomum, não. Eu tava participando de um motocross e, depois de uma pirueta, estourei várias partes do corpo... O pior mesmo foi a tal da luxação da articulação coxofemoral.
– Coxo... o quê? Como foi isso?
          _ Tive uma tremenda fratura do colo do fêmur e aconteceu isso... Um desastre!

          _  Meu Deus! Era o caso de você nunca mais andar de moto!
– Foi o que prometi à minha mãe. 
– Ahn bem...
– Mas não cumpri. E ela não podia imaginar sequer o que viria depois!
Eu estava cada vez mais estarrecida.
– Não acredito que você voltou a andar de moto, depois de ficar meses de molho por causa de uma...
– Ah, aquele tempo em cima da cama não foi nada, perto do que passei há três meses... Aquilo, sim, foi coisa cinematográfica: eu dando piruetas no ar, em pleno rush na Presidente Vargas! Menina, você não vai acreditar: a minha perna ficou pretinha! Achei até que tinha dado gangrena! Deus me livre!!! –. E beijou o crucifixo que trazia pendurado ao pescoço.

Dessa vez, eu também me benzi. Que loucura!
– Mas como foi o acidente? Assim... sem mais nem menos?
E a desatinada continuou:
– Nem te conto!... Foi uma coisa atrás da outra, num intervalo de minutos. Primeiro, uma explosão que me jogou pelos ares! Depois, eu caindo estatelada bem no meio da avenida, sem forças pra levantar... quando, de repente, vi um 136 se aproximando... e pensei: Era uma vez uma Cristina!... Que destino triste, meu Deus! Morrer depedaçada debaixo de um ônibus!!!...
– E aí?
– Aí... bem na hora em que o ônibus ia passar por cima de mim, um motoqueiro de jaqueta preta de couro me tirou dali numa performance sensacional, me jogou para o alto e aí caí de novo no chão, quase desmontada...
– Então, o cara te salvou e te levou pra casa?
– Nada disso, menina! O danado fez o papel dele me livrando da dita da foice, mas depois sumiu logo em seguida, misteriosamente.... Acho que foi um anjo que desceu do Céu pra me ajudar! E eu, acabada, ali, tive que me montar de novo, subir na moto e voltar pra casa. Mas isso não foi nada... pior veio depois!...
Dessa vez nem perguntei mais nada. Estava cansada das doideiras e desgraças daquela senhora. Mas ela insistia:
– É que eu tinha uma loja de autopeças com o meu marido, mas depois da morte dele...
– Você é viúva?! Também foi acidente de moto?
A criatura fez um meneio negativo com a cabeça.– De moto, não.
– Ah, foi de automóvel?
– Não. Dele foi coisa mais simples, sem esperar mesmo.
– Doença?
– Não. Um domingo à tarde, a gente tava conversando no nosso apartamento recém-comprado quando ele recostou na grade da varanda, ela caiu e ele despencou lá do alto!
– Que coisa triste! Caiu lá de cima?... Qual o andar?
_ 19º. Uma fatalidade, você precisava ver... Então, como eu ia falando, depois que ele morreu, a coisa degringolou e a nossa loja de autopeças faliu.
E o pior: ele tinha credores! O principal deles é um traficante de pedras preciosas boliviano e radicado na Maré. O sujeito tem seis esposas e quer me decretar o sétimo destino... Imagina! 
Diante de tantos disparates, mostrei desinteresse, e aproveitei que a cabeleireira me conduziu para outra cadeira. Vendo que eu ia me afastar, a mulher tirou uns potes e bisnagas da bolsa e me sapecou um Quer comprar?
Respondi com um não redondo e solene. Onde já se viu uma coisa daquelas: a criatura me alugar aquele tempo todo, narrando histórias escabrosas, para no final tentar me vender produtos estéticos de “uma nova linha americana”?!... Criatura mais estrambótica!

13 comentários:

Laís disse...

Hiláriooo o texto!!!! A mulher é muuuiito louca!!!!!! rsrsrsrs

Marisa disse...

Que salão é esse??? Quero conhecer essa figura!! kkkkkkkk

Mariana disse...

Sayonara,
Fico observando como você consegue escrever muitíssimo bem em diversos estilos! Parabéns!

Evelyne disse...

Quantas peripécias na vida dessa mulher!!! Meu Deus!!!! Uma aventura atrás da outra!! rsrs

Guilherme disse...

Tremenda acrobacia a do motoqueiro, hein? hehe

Cláudia F. disse...

Não sei o que é mais "estrambótico", o perfil da mulher ou cada história que ela conta!... hahahaha

Wal disse...

genteee.... cada história é mais maluca que a anterior... sempre acontece uma coisa ainda pior com a tal cristina! mto legal!!!!!!

Entre letras disse...

Oi Sayonara!!!!!!!!!!Engraçado o texto!!!!!!Vc sumiu!!!!!Um abraço pra vc e sua família!!!!!!

Adriana Ramos disse...

Sayonara:
Seu texto tem passagens hilariantes com diálogos agilíssimos! Com a "estrambótica" não existe tédio!!!

Luciana C. disse...

Vc ora me emociona com seus textos, ora me faz rir muuuiitooo!!!!! Adorei!!!

Gaby disse...

Oi!!!! Amo seus posts! Seus personagens, na maioria, são hilários!!

Mirtes disse...

Demais, Sayonara! Que louquinha adorável essa sua personagem!!

Lena disse...

Quanta tragédia engraçada!!! hahaha