sábado, 24 de janeiro de 2009

O distraído

Onde está Wally?

Como todo mundo aprendeu em História do Brasil, a Revolução Constitucionalista de 1932 foi uma luta armada que teve dois objetivos, basicamente: derrubar o governo provisório de Vargas e conquistar o direito de uma nova Constituição para o país. Consequências sociopolíticas à parte – ainda que nunca se possa negar o quantitativo das perdas humanas num conflito –, o personagem central deste conto é, apenas, um dos combatentes. Mas não um desses soldados que deixaram suas marcas e fizeram história... Não, ele não ficou eternizado em nenhum santuário de pedra de heróis desconhecidos. Nem era um lutador audaz ou destemido; nem fora líder de qualquer posicionamento político-filosófico. Na verdade, nem mesmo morrera pela causa!... Apenas “foi à guerra e voltou, sem sofrer nenhuma lesão ou trauma. Saiu ileso das intempéries do combate”. Seu nome era Ludovico e, segundo contavam testemunhas de sua ação no campo de batalha, balaços passavam raspando em seu rosto e ele nem notava: “Inúmeras foram as vezes em que a morte lhe passou bem na frente do nariz sem que ele nem se apercebesse da dita cuja! Desapontada com o seu desprezo, a “da foice” desistiu de levá-lo na ocasião. Decidiu que seria bem mais divertido vê-lo caminhar, entre inocente e trôpego, pelos acasos da vida”... E Ludovico viveu – depois do conflito em que foi sem ser notado – bem mais uns setenta anos!...

Ludovico, o distraído, era um sujeito de boa família, bom caráter e boa reputação. De ruim ele tinha apenas a cabal desatenção perante a vida. Fora um menino meio lunático... Apesar de distraído, bem cedo conseguiu aperceber-se dos rabos de saia que lhe roçavam as pernas de filho de fazendeiro. Casara-se cedo com Linda, que de fato era linda e lhe deu quatro filhos. No nascimento do quarto, porém, a linda morreu de febre puerperal e Ludovico quase nem notou. Falaram as más – e também as boas – línguas que ele só dera por si da viuvez quando já enredado na cama com Inocência, que de inocente não tinha nada, e bem fez o desatento patrão perceber a sua brejeirice e o seu furor uterino. Foi assim que Ludovico, o distraído, se casou pela segunda vez e teve mais dois filhos saudáveis com outra mulher bonita.

Os anos se passaram e Ludovico continuou vivendo sem perceber muito as intenções da vida. Apresentava a sua dispersão de sempre também em relação a trabalho: não sabia bem fazer as contas do café ou da lavoura frutífera de 8.200 pés de maracujá. Também não se dava conta dos colegas de espécie de Euzébia, que pintavam os seus campos esparsos de uma alvura nelore de dar gosto! Gosto no leite, gosto na carne, gosto na conta do banco e nos áureos cofres tilintantes da secular fazenda Florença. Ludovico parecia não se adonar de nenhuma dessas vantagens: do leite e da carne, só sabia na própria mesa. Quanto ao maracujá, apenas se servia bem da fruta, cujo consumo acirrava ainda mais a sua placidez perante a vida. Nada que demonstrasse espasmo diante das dezenas de caminhões que aportavam na fazenda para levar as bolinhas calmantes amarelas... aquelas preciosidades frutíferas que se convertiam em dividendos metálicos após serem colhidas, transportadas e imersas nas milhares de garrafas dos sucos Florença. Quanto ao resto, para Ludovico, ia tudo muito bem, obrigado, visto que vivia de toda aquela renda sem dispêndio de força, e nunca, em qualquer tempo, precisou trabalhar. Não precisava, mesmo, tomar conta pessoalmente da fazenda e do ouro que as gerações anteriores haviam legado a ele. Até porque D. Constância, sua mãe, o fazia com a precisão de uma judia cabeça-de-clã.

Muito aqui poderia ser dito sobre as singulares aventuras de Ludovico, o distraído. Passagens interessantes mesmo e não apenas fragmentos de suas estranhas atitudes cotidianas, como quando foi apanhando tentando dar jabuticaba à sua bisnetinha de meses... Também havia os episódios de passar do destino em suas viagens porque se entretinha conversando longamente com o motorista... Ainda houve aquela vez em que perdeu a chave do cofre de casa no estábulo (o tal cofre tinha barras, barras.... quilogramas de ouro!... títulos, ações, dobrões e dobrões do dinheiro da época!!!)... E Onofre, o retireiro, depois foi lhe entregar no alpendre da casa grande – em que Ludovico dormitava sob massagens de Inocência – a dita chave, encontrada em meio às defecações de Euzébia, a sua vaca predileta. Fato semelhante à perda do anel que dera a Inocência nas Bodas de Papel e que, depois – como que por milagre (desses que só aconteciam com ele) – fora reencontrado dentro de um tubérculo pela cozinheira Leôncia, na hora de assar batatas... Porém, se pode resumir este painel de apresentação de Ludovico narrando como ele se despedira da vida, como afinal se encontrara com a “da foice”, a mesma de quem um dia ele se desvencilhara nos campos de batalha... Apesar de sua distração também alimentar (Ludovico comia com extremado prazer e gula, fartava-se de manjares pesados, bebia vinho como Baco e era íntimo do tabaco), viveu mais que gordos noventa anos! Quase cem, na verdade. E quando a festa do centenário já ia chegar, um dia se distraiu tão profundamente num sono que dele não mais acordou. Deve estar até hoje passeando pelas vielas floridas do paraíso sem notar que deixara a sua fazenda Florença no Brasil!

Contudo, um pouco mais ainda vou contar aqui sobre Ludovico: ele deixou boa e feliz descendência. Dentre os seis filhos que deixara, ao todo (do primeiro e do segundo matrimônio, como costumava dizer), três se destacaram vivamente: o mais velho, superdotado, alcançou a condição de milionário quase por mérito próprio (alguém tinha que trabalhar depois do pai... e, comparado ao filho, Ludovico era apenas rico); uma filha que deixou uma prole maravilhosa e numerosa de filhos e netos geniais – intelectuais, desportistas, artistas e cientistas; e outra filha um tanto quanto diferente, que – não se sabe por que cargas d’água – sempre se mostrou lunática vida afora, atuando como astróloga, quiromancista, leitora de borra de café, benzedeira e angelóloga. Por esta sua última especialidade, registrara no livro Dos astros que escrevera: "Papai escapou da morte em plena guerra, foi intensamente amado, foi sempre rico sem trabalhar e morreu como um passarinho em virtude de seu estado de alma de dispersão. Explico: ele foi um ser humano fortemente protegido por seu anjo – Ariel – que lhe permitia usufruir de bens herdados e facilidades na vida, entre a proteção do amor e as nuances da sorte. Estava sempre protegido em sua distração".

E se você, leitor, achou que este texto deveria se chamar O sortudo, em vez de O distraído, é porque não conhece a história do primogênito de Ludovico, aquele que ficou milionário por ações incisivas antes de deixar a casa dos 30! Sorte era lá com ele... Um dia conto aqui.

Por Sayonara Salvioli
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14 comentários:

Mariana disse...

Sayonara,
No caso do Ludovico, até parece que ser distraído deu sorte... Se for mesmo assim, acho que gostaria de ser tão distraída quanto!!hehe

betinho disse...

que o anjo dos distraídos me proteja!!!!!!! heauheauheauaaa

Maria Helena disse...

Parabéns pela narrativa, Sayonara! É impressionante o modo, aparentemente despretensioso, com que você vai desfiando o rosário de aventuras (engraçadas e grandiosas)de Ludovico!!! Uma leitura que a gente faz com prazer e em ritmo contínuo, sempre querendo mais...

Nayá Andrea disse...

E quem irá dizer que ser distraído não é ser sortudo?
Afinal, o anjo da guarda dos distraídos precisam estar mais atentos,e consequentemente, mais presente...Sorte dos distraídos!!
Adorei... Parabéns!!!

Mara Borges disse...

Gostei de ver como você mesclou História do Brasil e ficção... Ou não será ficção?? Será que esse tremendo distraído existiu mesmo?!

Entre letras disse...

Olá Sayonara!tudo bem!!!!!a quanto tempo não leio suas palavras em meu blog!Gosto das suas visitas!!!não tenho postado com muita frequência porque estou passando maior parte do tempo me distraindo com um filhote de labrador que dei a minha filha(bagunceiro)e parei de postar alguns poemas porque estes não estão registrados.Confesso também que estou me equilibrando pelo fato passado e dei uma pausa...Mas passe por lá e deixe um oi.Vc será sempre bem vinda.Um abraço do seu amigo virtual.Sucesso para vc.

joana disse...

adorei sua historia!! está de parabéns!!!!

Cláudia disse...

Gostei muito do contexto da narrativa! Com sua maestria inventiva, você condensou bem os elementos da história de Ludovico! Grande personagem!!!

chico disse...

mó figura esse Ludovico!!!!

Luciana C. disse...

Sayonara,
Sabe que passo pelo seu blog sempre que posso. EStive viajando de férias e não acessei internet por um tempo... e já tava até sentindo falta de seus textos! Adorei este personagem distraidérrimo... Acho um charme gente desprendida assim! Sem contar que pessoas zen assim vivem até mais, né?
Muito bom!!!

Raquel Salomão disse...

Fico imaginando Ludovico na guerra: lá no seu "mundinho particular", enquanto os tiros passavam ao seu lado... Quanta sorte!
Conheço algumas pessoas muito distraídas e muito sortudas! Talvez seja mesmo proteção dos anjos!
Adorei esse texto! Aliás, amo tudo o que você escreve!

Márcia disse...

Esses seus personagens sedutores...
Irresistíveis!!

Sayonara, fico aguardando o filho do Distraído. Me preparando, curiosa, para continuar a leitura dos aqui postados e ainda não lidos.
bjs

Tatiana disse...

O mais incrível que achei foi ele ir à guerra e voltar inteiro!!!!!! Ainda mais ele, um desligado!!!
Mas, até na realidade essas coisas acontecem. Vá entender...

duda disse...

pode existir alguem mais sortudo que esse distraído?? rs