domingo, 18 de janeiro de 2009

Josué das Neves, o Zuza


Imagem: Emiko Aumann

Nota de abertura: Como manifestei em minha primeira postagem neste blog, tenho opiniões muito próprias sobre a lauda eletrônica... Uma delas é a questão da não-obrigatoriedade de um diário dito convencional. Outro aspecto que não adoto, de modo definitivo, é a abordagem apenas pessoal de temas. Nesse sentido, embora eu goste muito de delinear – no vídeo ou na celulose – diversificados tipos humanos, e aqui tenha registrado várias personalidades que conheci vida afora, vou começar agora a mesclar narrações realísticas e fictícias. Não será melhor? Creio que sim, pois desse modo você, meu caro leitor, terá a prerrogativa de escolher entre a verdade e a fantasia da literatura... Leia o conto a seguir e analise depois se os personagens Josué das Neves, o Zuza, e a menina Marina existiram... Ou se não passam de vívidos frutos da minha imaginação!...


Era um artista de dons multifacetados: cantor, instrumentista, desenhista, escultor. Mas era, acima de tudo, um entusiasta da arte de viver, desses que emprestam à vida triste um largo sorriso de esperança. Costumava dizer, com claro orgulho:

– Meu nome é Josué das Neves.

No vilarejo de 2000 habitantes, no entanto, ele era conhecido como Zuza, o negro personal e bonachão, de jeito calmo e voz de Nat King Cole. Aliás, o vozeirão de Zuza invadia as madrugadas de silêncio do lugar e penetrava os ouvidos mais atentos da noite, esses que – de sua cama, na hora prévia do sono – costumavam perscrutar os sons presentes no silêncio da madrugada...

E era essa a lembrança que menina Marina tinha do velho cantor. Nas reportações a seu nome, lembrava-se imediatamente das muitas canções do jazz americano ou de ritmo latino que se espraiavam nos ares da cidadezinha, inebriados pelo canto forte de Zuza! Marina recordava-se, com precisa memória auditiva, daquelas noites em que, de seu quarto de criança, podia escutar sons do resto do mundo: da música internacional, de gêneros de cultura e realidade distantes... Que privilégio para Marina-menina, em plena infância, ser a plateia – um tanto exclusiva e solitária (porque todos pareciam dormir) – de um espetáculo daqueles ao luar!... Verdade que se tratava de um show que ela não podia ver, já que o perceptava do lado interno do grande palco de Zuza, o cantor anônimo de voz estrondosa!... O palco de Zuza era a rua, a beira-rio, a calçada... Um palco noturno para um cantor sem plateia presente...

Mas, enquanto o escutava ao longe, a criança bem podia imaginá-lo a caminhar naquele seu palco peculiar, com seu jeito lento e artístico, quase como um bailarino do meio-fio! Vislumbrava-o desfilando pela calçada, como se a oferecer ao público que não existia, insistentemente, o carisma de seu sorriso e a voz rara de intérprete internacional. Lá ia Zuza, em seu porte, descendo a rua que margeava o caudaloso rio, filete largo de águas prateadas a refletirem um cenário artístico debaixo da lua!... Marina podia imaginar tudo isso enquanto ouvia a retumbante voz de Zuza. E foi ao longo desses espetáculos noturnos ouvidos a distância, que ela passou a conhecer músicas como Unforgettable, Stardust, When I Fall In Love, What A Wonderful World, Over the Rainbow, Quizás, Quizás, Quizás... Todas essas canções e várias outras, num vozeirão – meio Nat, meio Freddy Cole, meio Armstrong – de fazer tremer a cidadezinha em seu recolhimento junto às estrelas! Zuza cantava em diversas línguas – inglesa, espanhola, francesa, italiana...

Apesar de o espetáculo ter se tornado constante, ante os ecos que abarcavam as distâncias da madrugada, menina Marina permanecia sempre atenta a cada nova apresentação do cantor-patrimônio-local. O resto da população, no entanto, apenas dizia, ao ouvi-lo ao longe, em suas primeiras notas da noite: “Lá vem o Zuza!” “O Zuza, de novo!” E ninguém ligava importância ao fato. Acho que só Marina esperava cada novo espetáculo: desligava a TV de seu quarto, deixava o livro de lado e se punha a escutar a voz recortada nos vácuos da noite...

Mas a arte de Zuza não morria quando a lua ia se deitar. Quando o sol acordava e os acordes de um galo-cantor despertavam as pessoas, Zuza continuava artista! Só que sem o apelo de seu canto; sob o clarão do dia, ele era principalmente escultor. Apanhava galhos e pequenos troncos de árvore – fragmentos de cedro, pinho e goiabeira – e os tratava como gente, ou melhor, dava-lhes as feições de gente humana! Antigos pedaços de madeira rude viravam Cristos e figuras personais, dotadas de olhos, narizes e bocas peculiares... Um autêntico Mestre Gepeto! Esculturas e estatuetas – religiosas ou humanistas – iam ganhando os olhos de transeuntes e compradores que passavam pelo atelier de Zuza, ali, bem na calçada, diante dos estabelecimentos comerciais, cujos donos o acolhiam como locatário permanente do lote-calçada da vizinhança. Zuza era um patrimônio da pequena cidade.

E o cantor-saxofonista-desenhista-escultor não fazia por menos: com seu extraordinário talento de artista plástico, era responsável por mais da metade dos trabalhos escolares locais. Os pequenos estudantes – sabedores de sua generosa arte – abordavam-no frequentemente a pedir-lhe os préstimos:

– Zuza, você pode fazer um cartaz pra mim?
– Claro. Sobre o quê?
– Sobre a Independência do Brasil.
– Sobre o corpo humano.
– Sobre a origem das espécies.
– O planisfério...
– Partes da planta...
– O homem na lua...
– Sobre ecologia...
– Higiene...
– Semana de 22...

Sobre tudo, sobretudo. E não menos que tudo Zuza fazia. E sem cobrar nada. O coitado vivia mal, numa casa minúscula, levava vida dura, mas não se fazia valer pelo que sabia... Assim – apesar de seu gosto por conhaque –, só pedia uma coisa em troca: água! E poucas não foram as vezes em que, na varanda grande da casa de Marina, ele se pusera a desenhar painéis, figuras e faces do que lhe era pedido. A mãe da menina, já sabedora do pedido sui generis de pagamento, trazia vários litros d’água, colocando-os sobre a mesa. E tão fluidas e contínuas eram as linhas do desenho como as goladas fortes e seguidas de Zuza!... Até parecia que alimentava sua arte com o fluir aquoso engarrafado! Ele desenhava um asteróide e pegava um copo... Delineava Mercúrio e virava outro copo... Pintava Marte e tomava o litro inteiro! Zuza parecia conhecer todas as nuances do desenho do universo, apenas não sabendo posicionar-se, a si próprio, bem ao centro da Terra. E não era mesmo feliz: vivia só, não tinha família nem dinheiro e, aparentemente, nem alegrias reais... Mas nunca sem deixar de cantar nas madrugadas!

Contava-se que Zuza tinha ido para a cidade grande, certa época, e chegara a viver da música com algum conforto. Não chegara a gravar ou a ganhar notoriedade, mas levara vida muito melhor, apresentando-se na noite, cantando e tocando saxofone. Os que assistiram diziam que era um deslumbre! Mas tudo se fora... E, na ocasião, parecia que Zuza nem tinha mais saxofone. Pelo menos, Marina nunca soubera.

E a menina, mesmo em sua pouca idade, sabia que não era justa aquela vida que o artista desconhecido levava. E ali, em sua casa, ele era pago por seus desenhos. Também fazia o pai comprar suas obras de arte talhadas em madeira. Ela imaginava que aquele artista poderia ser grande, na mesma e exacerbada medida de seus talentos. Alegrava-a um pouco ver que, ali e em cidades vizinhas, sempre se achavam obras de Zuza nas salas das casas. Seu nome de escultor era relativamente conhecido nas adjacências. Mas nada que mudasse a sua vida substancialmente: ele continuava levando aquela vidinha sem brilho e sem graça...

Infelizmente, nenhuma gravadora jamais passou por ali. Nem a pequenina cidade acolhera, dia nenhum, um poderoso mecenas. Nem imprensa nem olheiros. E Josué das Neves, o Zuza, um dia morreu, antes da hora, ao que parece. Pelo menos, esse foi o pensamento da menina, que sempre desejara ver seu talento ganhar mundo...

Os anos se passaram e Marina não esqueceu o seu amigo-artista de infância: mantivera em sua casa um Cristo na parede – esculpido na madeira flexionada por Zuza – e uma ex-jaqueira tornada homem pelas mãos do mestre cantor. Adepta que também se tornara de suas canções, estas nunca se perderam em sua memória.

Passaram-se muitos anos... E quando menina Marina cresceu e se casou, deu uma grande festa na localidade ao ar livre: contratou músicos da cidade grande e mandou tocar Quizás, Quizás, Quizás!... Ela aposta que Zuza cantou junto!

Por Sayonara Salvioli

P.S.: Como combinado anteriormente, não sabemos ao certo se menina Marina existiu... Ou se ela é apenas fruto fictício de meu pensamento. Agora, cá entre nós, meu leitor, você há de concordar comigo que, se ela existiu, foi uma criança muito feliz, pois teve o privilégio de ouvir, ao vivo nas madrugadas, um autêntico Nat King Cole perambulando sobre os paralelepípedos de um vilarejo à beira-rio sob uma lua cor de prata! O.K. Você decide... enquanto se delicia com estas maravilhosas trilhas musicais/visuais:

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16 comentários:

Cláudia disse...

Maravilhooosoooo!!!!!!!!!!!!! Você me encanta, querida escritora e amiga! Somente as pessoas mais inteligentes e sensíveis conseguem captar a alma humana e os sntimentos dessa forma!... E ainda mais, guardá-los no coração, como a "Menina-Marina"!! Que bom termos você, com a sua narrativa tão rica, a nos emocionar num princípio de semana!
Obrigada e Parabéns mais uma vez!!!
Bjs

Ana Luiza S. disse...

Sayonara,
Quando falávamos, na época da faculdade de Letras, que você deveria fazer Direito por causa da sua oratória (lembra da insistência do Prof. Masiero quanto a isso?), nenhum de nós podia imaginar o quanto a rigidez das leis poderia privá-la de sua liberdade de criação! Afinal, reter essa sua veia literária seria um crime, pois você é uma escritora nata, minha amiga!
Que Deus te inspire cada vez mais!!!
Quero também te dizer que passo sempre por aqui e me distraio e emociono com os seus textos. Mas hoje foi demais e tive que deixar este registro!!!
Um abraço cheio de saudade!

Mônica disse...

Que personagem esse cantor e escultor!!!! Real ou imaginário?? Olha, quase posso dizer que o conheço! hehe

naya disse...

Nossa!!! Voce consegue escrever tão profundamente, que estou até vendo Zuza cantando e fazendo suas artes pela cidadezinha afora, e chego a imaginar aquela noite iluminada só com a luz da lua e Zuza andando pela beira do rio colocando seu som no silencio da pacata cidade...E Marina??? Encantadora menina que carrega na alma o dom de captar a arte em sua total essência ,conseguindo ouvir com o coração, enquanto a maioria só conseguiam ouvir com os ouvidos...
Olha, até me arrisco a comentar que acredito ser uma história verdadeira!!!
Parabéns ....Beijinhosssss

gustavo torres disse...

tocante o seu conto!!! sensível, fluido, bem descrito! fiquei fã do blog! bjusss

Pedrinho disse...

Eu acho que os personagens são reais.
Abraços.

Renata disse...

Que cenário liindooooo!!!!!!!!!!!!!! Luar, rio, rua deserta de um vilarejo poético... Fico imaginando um filme com essa história, que fotografia não teria!!!

bruno disse...

sinceramente fico em dúvda se a narrativa é real ou não... hauhaua

Luciana C. disse...

Concordo com o Bruno (acima): dá pra ter dúvida!! Além disso, os personagens são tão orignais, tão poéticos e fora do comum que parecem nem serem deste mundo...
Mas é tudo linndooo!!!!!!

Lessa disse...

Excelente conto, SAyonara!!!

Mariana disse...

Adorei! Pena mesmo que o Zuza morreu no anonimato! ops... ou isso foi só no campo da ficção??

Flavia disse...

Gostaria de conhecer as obras de Zuza!

Patrícia disse...

Isto é, Flávia, se ele existiu, né? Ainda não tivemos o aval da nossa escritora sobre a veracidade do personagem... RSRSRSRSRS Mas no caso dele ser real (e a Marina tb será), eu também adorarei conhecer algumas das peças do relicário da Menina-Marina)!!... Devem ser lindas!!!

Entre letras disse...

Neste caminho virtual que percorro em tela.Seu blog é parada obrigatória.Abraços para vc minha amiga virtual.Eu adooooooorooooo!!!

lia disse...

adorei, amiga!!!!!! d+ esse conto!!!!!

joana disse...

Adoro essas músicas que vc citou!!