sábado, 31 de janeiro de 2009

Goiabada de marmelo...





Quem é da minha geração, certamente, se emociona com imagens como esta... E, ao vislumbrar esses rostos personificados, se reporta àqueles tempos de infância, quando, no fim de tarde – às “cinco... cinco e meia” – se postava diante da TV para assistir ao Sítio do Picapau Amarelo!... As aventuras passadas no reino encantado de Monteiro Lobato deixaram marcas eternas em seu público, do qual sou das mais vivas representantes.
Eu gostava tanto do universo televisivo criado a partir do gênio de Lobato (naturalmente, li toda a sua obra literária) que criei meu ritual particular para o período diário em que, religiosamente, eu me entregava ao deleite das peripécias de seus personagens!... Parava tudo para – alguns minutos antes (não podia perder um só segundo da trama!) – ficar de olhos fitos e coração em asas para viajar pelo mundo da imaginação!... Mundo esse concebido por Lobato quarenta anos antes e, àquela época, recriado com tintas de modernidade num seriado televisivo de rara excelência. Porém, a maior qualidade do melhor programa infantil da época era, sem dúvida, o teor de fantasia e criatividade que o tornavam um mundo de especial encantamento. A herança do talento de Lobato – aliada, então, a um trabalho requintado de direção, roteiro e produção – fabricavam na TV brasileira uma atração infantil como antes nunca se vira. Tanto que o produto global, em 1979, foi escolhido pela Unesco como um dos melhores programas infantis do mundo. Tal premiação foi altamente meritória, visto que no Brasil se pensou em fazer entretenimento com caráter educativo e, o que era melhor, a partir de uma obra genuinamente nacional. E o folclore brasileiro ganhava tintas e feições tecnológicas, quando “pintavam” na telinha uma boneca que falava, um sábio feito de sabugo de milho e entes mágicos das florestas... Como se isso não bastasse, o Sítio ainda abrigava personagens fantásticos – princesas e príncipes, anjos, fadas, sereias, elfos, assombrações e animais – de todos os tempos e de todas as partes! O universo em movimento do Sítio do Picapau Amarelo era o lugar onde podiam acontecer todas as coisas do mundo. Estímulo melhor não poderia haver para os sonhos e a mente de uma criança...
Assim era que, todos os dias ao cair da tarde, milhares de telespectadores mirins e eu mantínhamos uma crescente ansiedade pelo próximo capítulo... Que menina da época não foi apaixonada pelo Pedrinho ou não quis se casar com o Príncipe Escamado? Quantos meninos-Pedrinhos não desejaram caçar onças, sacis ou fazer uma expedição ao ninho do terrível Pássaro Roca? Quem não quis morar num sítio mágico como aquele? Também não houve pequeno intelectual que não desejasse confabular com o Visconde e inventar com ele umas fórmulas para ir ao espaço... E os mais espertinhos, então, como se divertiam com as idéias mirabolantes e oportunistas da Emília!
Refiro-me especificamente ao contexto (episódios e elenco) da temporada inicial, que estreou em 1977 na Globo, com a direção primorosa de Geraldo Casé. E toda aquela magia – que maravilhou as gerações 70/80 – marcaria indelevelmente a teledramaturgia infantil nacional.
Quando o Sítio começou, eu era bem pequena, e – no auge das minhas melhores fantasias de criança (você pode imaginar, não pode?) – eu parecia compartilhar dos poderes da Turma do Picapau Amarelo, e sair voando por aí, sob o efeito mágico do pirlimpimpim!... Foi assim que viajei pelo País das Fábulas e conheci La Fontaine! Também tive uns papos-cabeça com Kepler e Copérnico, em torno da mesa de Dona Benta. De outra vez, acompanhei meus coleguinhas-ídolos a viagens sensacionais fora do tempo ou do eixo orbital... Viagem à Lua, passeios à Grécia e à Roma antiga, uma passagem pelo Egito de Cleópatra e uma aventura na Terra do Nunca! Demais, não? Universos paralelos originalmente concebidos por um brasileiro e recriados – em adaptação televisiva – segundo moldes de uma outra época por roteiristas como Marcos Rey, Wilson Rocha, Benedito Ruy Barbosa, Sylvan Paezzo e, em alguns episódios, Luís Fernando Veríssimo e Maria Clara Machado! Mentes de incomum talento que, com approach e sensibilidade, conseguiram dar forma renovada a um esboço clássico prévio, o que não mais aconteceu nas temporadas que se sucederam à primeira Era Sítio.
É claro que, hoje, quando assistimos às cenas produzidas naquela época, nos deparamos com a ausência dos recursos e efeitos tecnológicos que revestem os produtos atuais, tal como os concebemos agora. No entanto, como penso – e não estou sozinha nisso! – que o princípio básico de todo sucesso é a idéia, até hoje nos encantamos com os episódios do Sítio de trinta anos atrás. Eu mesma não sosseguei enquanto não encontrei os DVDs que contêm os primeiros episódios. E, de vez em quando, faço uso da minha relíquia, e rio e me emociono e cantarolo – tsc tsc tsc – ao som da maravilhosa trilha sonora... Com Sítio do Picapau Amarelo (Gilberto Gil), Pedrinho (Aquarius), Peixe (Doces Bárbaros), Narizinho (Lucinha Lins), Tia Nastácia (Dorival Caymmi), Visconde de Sabugosa (João Bosco), temas feitos especialmente para o Sítio... E ainda Chico Buarque e Francis Hime! Atmosfera auditiva de dar gosto à lembrança. Fico imaginando que grande fenômeno não foi o êxito absoluto de se reunirem texto, direção e produção musical de tão grande aparato!
Quanto ao elenco, não abro mão de minhas recordações, tão absolutamente personificadas. Emília, por exemplo, para mim se corporificou nas figuras reais de Dirce Migliaccio e Reny de Oliveira. De outros personagens, arquivei na memória as imagens inesquecíveis de Zilka Salaberry, Júlio César, Rosana Garcia, André Valli, Jacyra Silva, Tonico Pereira, Romeu Evaristo, Samuel dos Santos, e Canarinho. Ah!... O Zé Carneiro – interpretação de Tonico Pereira –, que constituiu com perfeição o homem do interior, o Jeca Tatu das nossas tradições genuínas nacionais!

E o Visconde? Há cerca de um ano e meio, mais ou menos, me emocionei com as falas de André Valli, na peça Corações Encaixotados, no Teatro dos Quatro. Seu personagem era um viúvo solitário, e – nuns inserts filosóficos da trama – disparava algumas dessas verdades que nos fazem pensar. Mas creio mesmo que o mais tocante foi o fato de terem sido ditas com o tom ponderado de um eterno Visconde, com seu jeito cristalizado de connaisseur das coisas da vida, bem ao estilo que Lobato usou com a personagem Benta Encerrabodes de Oliveira
Anos se passaram... Décadas, na verdade! E ainda posso descrever algumas cenas que mais me marcaram. Uma delas mostrava o encantamento de Narizinho diante do vestido ofertado pelo Príncipe Escamado... Tal como ele o definiu em sua encomenda à D. Aranha, seria este “o vestido mais bonito do mundo”. Para tanto, a artesã do Reino das Águas Claras fabricou um traje espetacular: salpicou sobre ele “pó-furta-todas-as-cores”, que, “de tanto brilho, parecia pó de céu sem nuvens, misturado com pó de sol que acaba de nascer”!... Que poeta foi Lobato! E olhe que o vestido ainda tinha a leveza das águas e “flutuavam” sobre a sua superfície aquosa peixinhos coloridooos!... Lembra-se? (risos delicados)...
Minhas lembranças, no entanto, por mais fortes que sejam, não são diferentes das imagens que todas as meninas da minha geração guardam na saudade até hoje... Afinal, quem não desejou ouvir de perto as histórias de D. Benta ou saborear os bolinhos da Tia Nastácia? Que milagre a Emília começar a falar com as pílulas do Doutor Caramujo! E que emoção quando se ouvia a aproximação do navio do Capitão Gancho! E que medo do Minotauro!!! Uhh... Por tudo isso e muito mais é que continuo acreditando em goiabada de marmelo...

Por Sayonara Salvioli
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“– (...) O mundo das maravilhas é velhíssimo. Começou a existir quando nasceu a primeira criança e há de existir enquanto houver um velho sobre a Terra.
– É fácil ir lá?
– Facílimo ou impossível. Depende. Para quem possui imaginação, é facílimo.”

(MONTEIRO LOBATO)
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P.S. 1: Algumas das fotos acima fazem parte do arquivo do site http://www.omundomagicodelobato.com/
P.S. 2: Todos os nossos louvores à memória de um dos maiores gênios da Literatura Infantil mundial, por certo! Afinal, Lobato – embora também tenha sabido valorizar a criação de outros ícones das histórias infantis – teve uma peculiaridade admirável: criou um universo encantado muito próprio, com cara e jeito de Brasil! Com notável originalidade – que é a marca do gênio –, delineou personagens de nossa terra que, por sua singularidade e encanto, também fizeram do Picapau Amarelo um ponto no mapa do Mundo das Maravilhas. Vemos isso no livro Reinações de Narizinho, em que o genial autor situou o reino de Dona Benta como o ponto de partida das viagens às paragens mágicas... Passe por lá agora, com os vídeos abaixo:

sábado, 24 de janeiro de 2009

O distraído

Onde está Wally?

Como todo mundo aprendeu em História do Brasil, a Revolução Constitucionalista de 1932 foi uma luta armada que teve dois objetivos, basicamente: derrubar o governo provisório de Vargas e conquistar o direito de uma nova Constituição para o país. Consequências sociopolíticas à parte – ainda que nunca se possa negar o quantitativo das perdas humanas num conflito –, o personagem central deste conto é, apenas, um dos combatentes. Mas não um desses soldados que deixaram suas marcas e fizeram história... Não, ele não ficou eternizado em nenhum santuário de pedra de heróis desconhecidos. Nem era um lutador audaz ou destemido; nem fora líder de qualquer posicionamento político-filosófico. Na verdade, nem mesmo morrera pela causa!... Apenas “foi à guerra e voltou, sem sofrer nenhuma lesão ou trauma. Saiu ileso das intempéries do combate”. Seu nome era Ludovico e, segundo contavam testemunhas de sua ação no campo de batalha, balaços passavam raspando em seu rosto e ele nem notava: “Inúmeras foram as vezes em que a morte lhe passou bem na frente do nariz sem que ele nem se apercebesse da dita cuja! Desapontada com o seu desprezo, a “da foice” desistiu de levá-lo na ocasião. Decidiu que seria bem mais divertido vê-lo caminhar, entre inocente e trôpego, pelos acasos da vida”... E Ludovico viveu – depois do conflito em que foi sem ser notado – bem mais uns setenta anos!...

Ludovico, o distraído, era um sujeito de boa família, bom caráter e boa reputação. De ruim ele tinha apenas a cabal desatenção perante a vida. Fora um menino meio lunático... Apesar de distraído, bem cedo conseguiu aperceber-se dos rabos de saia que lhe roçavam as pernas de filho de fazendeiro. Casara-se cedo com Linda, que de fato era linda e lhe deu quatro filhos. No nascimento do quarto, porém, a linda morreu de febre puerperal e Ludovico quase nem notou. Falaram as más – e também as boas – línguas que ele só dera por si da viuvez quando já enredado na cama com Inocência, que de inocente não tinha nada, e bem fez o desatento patrão perceber a sua brejeirice e o seu furor uterino. Foi assim que Ludovico, o distraído, se casou pela segunda vez e teve mais dois filhos saudáveis com outra mulher bonita.

Os anos se passaram e Ludovico continuou vivendo sem perceber muito as intenções da vida. Apresentava a sua dispersão de sempre também em relação a trabalho: não sabia bem fazer as contas do café ou da lavoura frutífera de 8.200 pés de maracujá. Também não se dava conta dos colegas de espécie de Euzébia, que pintavam os seus campos esparsos de uma alvura nelore de dar gosto! Gosto no leite, gosto na carne, gosto na conta do banco e nos áureos cofres tilintantes da secular fazenda Florença. Ludovico parecia não se adonar de nenhuma dessas vantagens: do leite e da carne, só sabia na própria mesa. Quanto ao maracujá, apenas se servia bem da fruta, cujo consumo acirrava ainda mais a sua placidez perante a vida. Nada que demonstrasse espasmo diante das dezenas de caminhões que aportavam na fazenda para levar as bolinhas calmantes amarelas... aquelas preciosidades frutíferas que se convertiam em dividendos metálicos após serem colhidas, transportadas e imersas nas milhares de garrafas dos sucos Florença. Quanto ao resto, para Ludovico, ia tudo muito bem, obrigado, visto que vivia de toda aquela renda sem dispêndio de força, e nunca, em qualquer tempo, precisou trabalhar. Não precisava, mesmo, tomar conta pessoalmente da fazenda e do ouro que as gerações anteriores haviam legado a ele. Até porque D. Constância, sua mãe, o fazia com a precisão de uma judia cabeça-de-clã.

Muito aqui poderia ser dito sobre as singulares aventuras de Ludovico, o distraído. Passagens interessantes mesmo e não apenas fragmentos de suas estranhas atitudes cotidianas, como quando foi apanhando tentando dar jabuticaba à sua bisnetinha de meses... Também havia os episódios de passar do destino em suas viagens porque se entretinha conversando longamente com o motorista... Ainda houve aquela vez em que perdeu a chave do cofre de casa no estábulo (o tal cofre tinha barras, barras.... quilogramas de ouro!... títulos, ações, dobrões e dobrões do dinheiro da época!!!)... E Onofre, o retireiro, depois foi lhe entregar no alpendre da casa grande – em que Ludovico dormitava sob massagens de Inocência – a dita chave, encontrada em meio às defecações de Euzébia, a sua vaca predileta. Fato semelhante à perda do anel que dera a Inocência nas Bodas de Papel e que, depois – como que por milagre (desses que só aconteciam com ele) – fora reencontrado dentro de um tubérculo pela cozinheira Leôncia, na hora de assar batatas... Porém, se pode resumir este painel de apresentação de Ludovico narrando como ele se despedira da vida, como afinal se encontrara com a “da foice”, a mesma de quem um dia ele se desvencilhara nos campos de batalha... Apesar de sua distração também alimentar (Ludovico comia com extremado prazer e gula, fartava-se de manjares pesados, bebia vinho como Baco e era íntimo do tabaco), viveu mais que gordos noventa anos! Quase cem, na verdade. E quando a festa do centenário já ia chegar, um dia se distraiu tão profundamente num sono que dele não mais acordou. Deve estar até hoje passeando pelas vielas floridas do paraíso sem notar que deixara a sua fazenda Florença no Brasil!

Contudo, um pouco mais ainda vou contar aqui sobre Ludovico: ele deixou boa e feliz descendência. Dentre os seis filhos que deixara, ao todo (do primeiro e do segundo matrimônio, como costumava dizer), três se destacaram vivamente: o mais velho, superdotado, alcançou a condição de milionário quase por mérito próprio (alguém tinha que trabalhar depois do pai... e, comparado ao filho, Ludovico era apenas rico); uma filha que deixou uma prole maravilhosa e numerosa de filhos e netos geniais – intelectuais, desportistas, artistas e cientistas; e outra filha um tanto quanto diferente, que – não se sabe por que cargas d’água – sempre se mostrou lunática vida afora, atuando como astróloga, quiromancista, leitora de borra de café, benzedeira e angelóloga. Por esta sua última especialidade, registrara no livro Dos astros que escrevera: "Papai escapou da morte em plena guerra, foi intensamente amado, foi sempre rico sem trabalhar e morreu como um passarinho em virtude de seu estado de alma de dispersão. Explico: ele foi um ser humano fortemente protegido por seu anjo – Ariel – que lhe permitia usufruir de bens herdados e facilidades na vida, entre a proteção do amor e as nuances da sorte. Estava sempre protegido em sua distração".

E se você, leitor, achou que este texto deveria se chamar O sortudo, em vez de O distraído, é porque não conhece a história do primogênito de Ludovico, aquele que ficou milionário por ações incisivas antes de deixar a casa dos 30! Sorte era lá com ele... Um dia conto aqui.

Por Sayonara Salvioli

domingo, 18 de janeiro de 2009

Josué das Neves, o Zuza


Imagem: Emiko Aumann

Nota de abertura: Como manifestei em minha primeira postagem neste blog, tenho opiniões muito próprias sobre a lauda eletrônica... Uma delas é a questão da não-obrigatoriedade de um diário dito convencional. Outro aspecto que não adoto, de modo definitivo, é a abordagem apenas pessoal de temas. Nesse sentido, embora eu goste muito de delinear – no vídeo ou na celulose – diversificados tipos humanos, e aqui tenha registrado várias personalidades que conheci vida afora, vou começar agora a mesclar narrações realísticas e fictícias. Não será melhor? Creio que sim, pois desse modo você, meu caro leitor, terá a prerrogativa de escolher entre a verdade e a fantasia da literatura... Leia o conto a seguir e analise depois se os personagens Josué das Neves, o Zuza, e a menina Marina existiram... Ou se não passam de vívidos frutos da minha imaginação!...


Era um artista de dons multifacetados: cantor, instrumentista, desenhista, escultor. Mas era, acima de tudo, um entusiasta da arte de viver, desses que emprestam à vida triste um largo sorriso de esperança. Costumava dizer, com claro orgulho:

– Meu nome é Josué das Neves.

No vilarejo de 2000 habitantes, no entanto, ele era conhecido como Zuza, o negro personal e bonachão, de jeito calmo e voz de Nat King Cole. Aliás, o vozeirão de Zuza invadia as madrugadas de silêncio do lugar e penetrava os ouvidos mais atentos da noite, esses que – de sua cama, na hora prévia do sono – costumavam perscrutar os sons presentes no silêncio da madrugada...

E era essa a lembrança que menina Marina tinha do velho cantor. Nas reportações a seu nome, lembrava-se imediatamente das muitas canções do jazz americano ou de ritmo latino que se espraiavam nos ares da cidadezinha, inebriados pelo canto forte de Zuza! Marina recordava-se, com precisa memória auditiva, daquelas noites em que, de seu quarto de criança, podia escutar sons do resto do mundo: da música internacional, de gêneros de cultura e realidade distantes... Que privilégio para Marina-menina, em plena infância, ser a plateia – um tanto exclusiva e solitária (porque todos pareciam dormir) – de um espetáculo daqueles ao luar!... Verdade que se tratava de um show que ela não podia ver, já que o perceptava do lado interno do grande palco de Zuza, o cantor anônimo de voz estrondosa!... O palco de Zuza era a rua, a beira-rio, a calçada... Um palco noturno para um cantor sem plateia presente...

Mas, enquanto o escutava ao longe, a criança bem podia imaginá-lo a caminhar naquele seu palco peculiar, com seu jeito lento e artístico, quase como um bailarino do meio-fio! Vislumbrava-o desfilando pela calçada, como se a oferecer ao público que não existia, insistentemente, o carisma de seu sorriso e a voz rara de intérprete internacional. Lá ia Zuza, em seu porte, descendo a rua que margeava o caudaloso rio, filete largo de águas prateadas a refletirem um cenário artístico debaixo da lua!... Marina podia imaginar tudo isso enquanto ouvia a retumbante voz de Zuza. E foi ao longo desses espetáculos noturnos ouvidos a distância, que ela passou a conhecer músicas como Unforgettable, Stardust, When I Fall In Love, What A Wonderful World, Over the Rainbow, Quizás, Quizás, Quizás... Todas essas canções e várias outras, num vozeirão – meio Nat, meio Freddy Cole, meio Armstrong – de fazer tremer a cidadezinha em seu recolhimento junto às estrelas! Zuza cantava em diversas línguas – inglesa, espanhola, francesa, italiana...

Apesar de o espetáculo ter se tornado constante, ante os ecos que abarcavam as distâncias da madrugada, menina Marina permanecia sempre atenta a cada nova apresentação do cantor-patrimônio-local. O resto da população, no entanto, apenas dizia, ao ouvi-lo ao longe, em suas primeiras notas da noite: “Lá vem o Zuza!” “O Zuza, de novo!” E ninguém ligava importância ao fato. Acho que só Marina esperava cada novo espetáculo: desligava a TV de seu quarto, deixava o livro de lado e se punha a escutar a voz recortada nos vácuos da noite...

Mas a arte de Zuza não morria quando a lua ia se deitar. Quando o sol acordava e os acordes de um galo-cantor despertavam as pessoas, Zuza continuava artista! Só que sem o apelo de seu canto; sob o clarão do dia, ele era principalmente escultor. Apanhava galhos e pequenos troncos de árvore – fragmentos de cedro, pinho e goiabeira – e os tratava como gente, ou melhor, dava-lhes as feições de gente humana! Antigos pedaços de madeira rude viravam Cristos e figuras personais, dotadas de olhos, narizes e bocas peculiares... Um autêntico Mestre Gepeto! Esculturas e estatuetas – religiosas ou humanistas – iam ganhando os olhos de transeuntes e compradores que passavam pelo atelier de Zuza, ali, bem na calçada, diante dos estabelecimentos comerciais, cujos donos o acolhiam como locatário permanente do lote-calçada da vizinhança. Zuza era um patrimônio da pequena cidade.

E o cantor-saxofonista-desenhista-escultor não fazia por menos: com seu extraordinário talento de artista plástico, era responsável por mais da metade dos trabalhos escolares locais. Os pequenos estudantes – sabedores de sua generosa arte – abordavam-no frequentemente a pedir-lhe os préstimos:

– Zuza, você pode fazer um cartaz pra mim?
– Claro. Sobre o quê?
– Sobre a Independência do Brasil.
– Sobre o corpo humano.
– Sobre a origem das espécies.
– O planisfério...
– Partes da planta...
– O homem na lua...
– Sobre ecologia...
– Higiene...
– Semana de 22...

Sobre tudo, sobretudo. E não menos que tudo Zuza fazia. E sem cobrar nada. O coitado vivia mal, numa casa minúscula, levava vida dura, mas não se fazia valer pelo que sabia... Assim – apesar de seu gosto por conhaque –, só pedia uma coisa em troca: água! E poucas não foram as vezes em que, na varanda grande da casa de Marina, ele se pusera a desenhar painéis, figuras e faces do que lhe era pedido. A mãe da menina, já sabedora do pedido sui generis de pagamento, trazia vários litros d’água, colocando-os sobre a mesa. E tão fluidas e contínuas eram as linhas do desenho como as goladas fortes e seguidas de Zuza!... Até parecia que alimentava sua arte com o fluir aquoso engarrafado! Ele desenhava um asteróide e pegava um copo... Delineava Mercúrio e virava outro copo... Pintava Marte e tomava o litro inteiro! Zuza parecia conhecer todas as nuances do desenho do universo, apenas não sabendo posicionar-se, a si próprio, bem ao centro da Terra. E não era mesmo feliz: vivia só, não tinha família nem dinheiro e, aparentemente, nem alegrias reais... Mas nunca sem deixar de cantar nas madrugadas!

Contava-se que Zuza tinha ido para a cidade grande, certa época, e chegara a viver da música com algum conforto. Não chegara a gravar ou a ganhar notoriedade, mas levara vida muito melhor, apresentando-se na noite, cantando e tocando saxofone. Os que assistiram diziam que era um deslumbre! Mas tudo se fora... E, na ocasião, parecia que Zuza nem tinha mais saxofone. Pelo menos, Marina nunca soubera.

E a menina, mesmo em sua pouca idade, sabia que não era justa aquela vida que o artista desconhecido levava. E ali, em sua casa, ele era pago por seus desenhos. Também fazia o pai comprar suas obras de arte talhadas em madeira. Ela imaginava que aquele artista poderia ser grande, na mesma e exacerbada medida de seus talentos. Alegrava-a um pouco ver que, ali e em cidades vizinhas, sempre se achavam obras de Zuza nas salas das casas. Seu nome de escultor era relativamente conhecido nas adjacências. Mas nada que mudasse a sua vida substancialmente: ele continuava levando aquela vidinha sem brilho e sem graça...

Infelizmente, nenhuma gravadora jamais passou por ali. Nem a pequenina cidade acolhera, dia nenhum, um poderoso mecenas. Nem imprensa nem olheiros. E Josué das Neves, o Zuza, um dia morreu, antes da hora, ao que parece. Pelo menos, esse foi o pensamento da menina, que sempre desejara ver seu talento ganhar mundo...

Os anos se passaram e Marina não esqueceu o seu amigo-artista de infância: mantivera em sua casa um Cristo na parede – esculpido na madeira flexionada por Zuza – e uma ex-jaqueira tornada homem pelas mãos do mestre cantor. Adepta que também se tornara de suas canções, estas nunca se perderam em sua memória.

Passaram-se muitos anos... E quando menina Marina cresceu e se casou, deu uma grande festa na localidade ao ar livre: contratou músicos da cidade grande e mandou tocar Quizás, Quizás, Quizás!... Ela aposta que Zuza cantou junto!

Por Sayonara Salvioli

P.S.: Como combinado anteriormente, não sabemos ao certo se menina Marina existiu... Ou se ela é apenas fruto fictício de meu pensamento. Agora, cá entre nós, meu leitor, você há de concordar comigo que, se ela existiu, foi uma criança muito feliz, pois teve o privilégio de ouvir, ao vivo nas madrugadas, um autêntico Nat King Cole perambulando sobre os paralelepípedos de um vilarejo à beira-rio sob uma lua cor de prata! O.K. Você decide... enquanto se delicia com estas maravilhosas trilhas musicais/visuais:

sábado, 3 de janeiro de 2009

A alma de Copacabana



As pessoas ficam felizes por diferentes motivos e nos mais variados lugares. E há não sei que motivo capaz de alegrar alguém simplesmente por estar em algum lugar. Já constatei isso, por diversas vezes, ao ver alguém abrindo um largo sorriso quando em certo lugar que muito o embevece. Há quem fique feliz em Miami, Dakar, Cairo, Machu Picchu, Recife, São Paulo, Lisboa, Londres ou Roma... Em Paris todo mundo fica feliz!... Lá e em outras cidades ou bairros do mundo, a mágica local parece tomar conta do visitante – ou habitante –, fazendo-o entrar em natural estado de graça por estar ali. É assim que fico feliz em Copacabana!...
Como muitos aficionados do bairro – e, mesmo, estudiosos em turismo, urbanismo e sociologia – sou daquelas pessoas que defendem a imagem genuína de Copacabana, sem as adições conotativas que, nos últimos anos, lhe imprimiram os ares de uma degradação cosmopolita, acentuadamente por causa da heterogeneidade nas ruas e do estigma da prostituição. É claro que Copa hoje não possui – com exceção de alguns aspectos – os mesmos ares de seus anos dourados, quando era o principal bairro carioca a oferecer inspiração para manifestações socioculturais de uma época. No entanto, seu polivalente acolhimento de tipos e contrastes humanos – em efervescência e progressão – dá conta de uma impressionante multiface contemporânea. Assim é que Copacabana – um microcosmo peculiar – abarca a um só tempo a soberania dos edifícios da Atlântica e a mescla social de ruas superlotadas. Copa guarda a tradição e adota a recriação popular, reveste a beleza e denuncia lacunas. Na metrópole Copacabana convivem todas as antíteses. De um modo geral, os recentes conglomerados e uma espetacularização consequente anuviaram sua antiga aura. Mas esta não se perdeu, por certo, e isto não é pensamento apenas de saudosistas. Há ainda – e em grande número – aqueles que dão à Copacabana genuína os louvores que a minicapital merece. Reitero que estou dentre essas pessoas.
Por sempre haver admirado a história, as belezas e as tradições do bairro, em 2000 fiquei muito feliz por travar contato profissional com uma editora cuja sede era em Copa. Quando cheguei ao Rio, foi para lá que o trabalho me levou: Rua Inhangá, o prédio típico de fachada de mármore, a calçada meio cheia, a alegria estampada nos rostos, nas cores e nos emblemas copacabanenses. Salas repletas de murais, papéis, revistas, pastas, livros e computadores, com aqueles monitores antigos, ainda bojudos, diferentes das nossas telas finas de agora. Na copa, o cheiro de café fresco – que eu não tomava, diga-se de passagem. Atrás da grande mesa, meu amigo Carlos Roberto. Lá estava ele, com seu sorriso embaixo do espesso bigode, a voz grave, o jeito elegante e o idealismo dos grandes projetos. Encontrei-o a me esperar com a mesa abarrotada de nobilíssimos livros de arte. Íamos fazer um livro comemorativo. Depois, pesquisas, idas constantes à biblioteca com bombons para adoçar Maria, a bibliotecária sisuda. Entrevistas, visitas a centros de documentação e departamentos de iconografia. A rotina era movimentada, tarefas e temas fascinantes, porém trabalhosos. Saindo dos arquivos, depois de horas de detida sondagem histórico-literário-cultural, eu caminhava pela calçada portando os meus “tesouros do dia”: canudos de cartografia, slides, papéis e volumes raros, a movimentarem-se desajeitamente em minhas mãos desastradas, estas em árdua tentativa de se soltarem e elevarem no ar para chamar um táxi... O destino era sempre a volta ao prédio da Inhangá, para continuidade e conclusão da missão.
O tempo, veloz, correu. Alguns bons anos se passaram e as rotas de trabalho alcançaram outros endereços, outros objetos. Mas o bairro, além da acolhida da água azul, da areia fofa e dos passeios pelo calçadão – com direito a uma parada para água de coco! – é também um dos lugares do Rio que eu mais frequento como boa gourmet... Copacabana, hoje, é usual destino de horas felizes de lazer, passadas em longos almoços em alguns dos vários restaurantes prediletos da orla. Não vou aqui fazer merchandising (basta no texto do gordo da banca da esquina... tsc tsc), mas o fato é que tenho por lá diversos points nos quais acabo por me nutrir de algo mais: a magia de Copacabana... impressa no ar, nos transeuntes, na vista cristalina e deslumbrante do mar que toma meus olhos! Duvido que algum dia eu não me sinta feliz lá. E a desculpa de um bom almoço concentra a possibilidade de belas reflexões diante do mirante azul. Converso, demoro horas no couvert, enrolo horrores para fazer o pedido... Enquanto isso, olho para a imensa banheira do mar, ao longe, reflito e sorrio. Depois, falo um pouco mais (pelos cotovelos, na verdade) e dou aquelas minhas célebres e demoradas gargalhadas, que se alongam na minha alegria descontraída em levar a vida!... Após sair dali, acredite: sou capaz de voltar ao meu computador e produzir, com autêntico frenesi, as dezenas e dezenas, c-e-n-t-e-n-a-s de páginas que o dever me pedir!

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Quem gosta de mim e convive comigo sabe que vai estar, muitas vezes, ao meu lado em Copacabana. Copa, para facilitar. O nome, embora charmoso e evocativo, é muito grande. Foi mesmo providencial e prático quem inventou esse recurso, tão difundido e usado por aqueles que têm a rotina emprestada a seus recantos. Para estes, Copa é algo bem carinhoso e familiar; mais que um chamamento, reflete um estilo, uma aderência, uma magia e um encantamento próprios, desses que só sabe quem os vive. E, se isto se dá na rotina, imagine, então, leitor, o que não é a Copa do Réveillon, espetáculo grandioso que encanta turistas e locais com o reluzir da esperança em combustão colorida no céu! Por isso e muito mais é que passo o réveillon em Copacabana.
Já há alguns anos elegi essa predileção e, no início de dezembro, faço as minhas reservas no restaurante da vez (com a devida antecedência), de onde avistarei um novo ano chegar, com os fogos e a alegria da alma de Copacabana! Isso, Copa tem alma, verdadeira alma! O bairro tem impresso na Atlântica, no calçadão-mosaico das ondas do mar, no Forte e nas ruas vestidas de alegres e alternadas gentes – em confluência – a identidade de uma alma local, muito própria e bem definida. Sem contar que Copacabana (em quechua, seria lugar luminoso ou praia azul; em amairá, vista do lago), por seus singulares recursos naturais, possuirá sempre a prerrogativa do belo, essa característica natural que torna dada paisagem sedutoramente única, inebriante. Falando nisso, me lembrei da empolgação expressa nas palavras do atual cônsul de um país da América Central no Brasil, o qual conheci o mês passado e que, numa festa, falava com grande encantamento dessa mesma Copacabana que, ora, centraliza a nossa lauda eletrônica. Foi impressionante o modo como ele falou de todo esse quê do bairro, que aqui chamo de alma de Copacabana. Creio mesmo que essa atratividade despertada pelo lugar em quem nele chega, seja brasileiro ou não, explique a fama de um dos cartões postais mas difundidos do mundo.
E o nosso objeto, especificamente, nesta época do ano – novo calendário batendo às portas – é justamente lembrar a magia da virada, com todas as evocações que nos causam o tempo e a ordem humana dos acontecimentos. Na contagem regressiva para 2009, olhei para os céus de Copacabana – em sua fúria colorida –, o mar abarcador e festivo, os olhos iluminados das pessoas, os sorrisos espocando com os champagnes, nossas taças tilintando... e, praticamente, vi o novo tempo chegando, com todas as dádivas de suas promessas! Preconizei o próximo sol e a felicidade nova que se avizinham com os desígnios cronológicos de uma pitonisa!...

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Fogos de artifício existem há várias centenas de anos. Foram criados pelos chineses, difundindo-se primeiro pelo Oriente, onde se acredita até hoje que eles afastam os maus espíritos. Com o passar do tempo, a técnica e os recursos foram disseminados mundo afora, tornando-se seu uso ampliado e quantificado, em toda parte. Mas a fascinação causada pelos bons espetáculos pirotécnicos é como o espírito de ano novo: renova-se a cada vez! Há mesmo uma mágica na coisa. E, certamente, a queima de fogos mais espetacular do Brasil é a que acontece na também mais famosa praia brasileira – um dos maiores destinos turísticos internacionais.
A comemoração do Réveillon de Copacabana passou a fazer parte do calendário do Rio de Janeiro desde os idos de 1970. Na ocasião, o Hotel Le Meridien promoveu uma extraordinária queima de fogos, cujo desenho iluminado decaía do topo do edifício em forma de cascata... Com a sensação causada, a partir da década de 80, toda a hotelaria e os restaurantes da orla aderiram à iniciativa. Pouco tempo depois, a incumbência passou à Prefeitura da cidade. E foi assim que o mundialmente conhecido Réveillon de Copacabana se transformou em um evento grandioso, que recebe a cada ano mais de 2 milhões de pessoas – dentre estas, moradores e turistas, nacionais e internacionais. Todos juntos, em poderosíssima energia coletiva, tornam o espetáculo uma experiência inesquecível! Só mesmo quem não viu para não compreender. Quem fala que ver pela TV é a mesma coisa, certamente, não sabe o que está dizendo. Já vi diversos espetáculos pirotécnicos, em diferentes lugares e situações, mas o encantamento causado pelo Réveillon de Copacabana é algo único! Aquela longa orla – de mais de quatro quilômetros, apinhada de rostos extasiados e esperançosos, sob a chuva abundante (este ano foram 21 minutos!) de luminosos efeitos estelares –realmente compõe um quadro estrondoso de fascinação!... Ante aquela peculiar curva da praia, em sua profundidade e generosidade, parece que o horizonte, o mar e as estrelas estão a nos abarcar!... Enfim, o momento é uma espécie de bênção regada a champagne e água salgada, num esplendor sem igual.
Adicione-se a tudo isso aquela dose gigantesca de magia interna, que nos acomete a cada passagem de ano... As lembranças do que passamos, os novos desafios que nos impomos, as mudanças que nos prometemos, as expectativas que nos fazem viver!... E é todo esse acúmulo de energia e poder concentrados que desejo para você em 2009. Ainda mais: que você tenha um ano tão rico e abundante como a alma perene de Copacabana!
Por Sayonara Salvioli

P.S. 1: Os créditos das fotos pertencem, na ordem em que aqui se inserem, respectivamente, a L. D. Gordon, José Fuste Raga, Keren Su, Elan Fleisher, David Frazier, Neil Emmer / Robert Harding, Richard Novitz, Elan Fleisher, J. Zucherman, Raquel Salomão, Raquel Salomão.
P.S. 2: Para ilustrar um pouco mais o post, adiciono abaixo um vídeo - de Léo Ladeira - mostrando imagens e faces do bairro em variadas épocas. Veja: