terça-feira, 23 de setembro de 2008

A rainha dos pombos

foto: W. I



O cenário pode ser a paisagem londrina de Trafalgar Square, a Piazza di San Marco, o Central Park ou um largo do Rio de Janeiro. Não importa onde. Sempre será possível encontrar na realidade, assim como no cinema, a figura mítica da mulher dos pombos... Quem não se lembra, por exemplo, daquela cena do filme Esqueceram de mim, em que a enigmática mulher atemoriza Kevin, que depois estabelece com ela um simbológico laço de amizade?

Essa espécie de peregrina dos animais é uma mulher de semblante pálido e olhar perdido, com características de viventes de rua, a sair por aí como que abandonada da própria vida... A mulher dos pombos de qualquer país destaca-se no meio da multidão justamente por ser aquela que não segue o fluxo dos humanos; ao contrário, para no meio da praça a conversar com as aves, acariciando-as e ofertando-lhes comida... Talvez a solidão humana explique esse subterfúgio das andarilhas sem rumo que parecem ver nas pequenas aves seus parentes mais próximos.

Se você é carioca – ou já viveu no Rio de Janeiro –  e sabe do que eu estou falando, provavelmente já deve ter se deparado, num largo da cidade, com a mulher dos pombos que por ali passeia com ares de ermitã fora de contexto. Figura quase saída de uma Commedia delle maschere, ela protagoniza uma espécie de personagem sem rumo, que se mascara e esconde do mundo. Aliás, esta mulher dos pombos versão carioca – envolta em seus mistérios de aparência e personalidade – representa uma bem contemporânea lenda urbana.

Como protagonista de uma boa história, nossa heroína das ruas se diz soberana: Rainha Elizabeth, segundo ela, é o seu nome. E um certo ar de nobreza realmente não lhe falta: além de algo implícito na fisionomia, veste-se com roupas sobrepostas umas às outras: saias longas, blusas de amplas mangas sob casacos pomposos... Ela parece uma caminhante das ruas, mas não uma mulher do povo. É bem verdade, porém, que a primeira impressão causada pela dita rainha é a de um ente fantasmagórico movendo-se por entre a multidão, como se a este mundo já não pertencesse. A primeira vez em que a vi, por exemplo, fiquei profundamente impressionada com a sua expressão vaga, um jeito de quem não está ligada à temporalidade da vida... Rainha Elizabeth abordou-me na rua, olhou-me com olhos de vidro embaçado e falou:

– Quer comprar um lencinho?

E estendeu-me as mãos longas e ossudas com dois ou três lencinhos. No mesmo instante, parei e pus-me a  contemplá-la de alto a baixo... Alta, magra, de pele bem alva, ela me lembrava mesmo a ideia de fantasma que povoou a minha mente de criança. Por um átimo, quase murmurei meu espanto ao olhar para o seu rosto branco, branco, parecendo a encarnação própria de um ente de outro tempo, de outra vida! Deti meus olhos na face estranha e pude perceber que em sua superfície havia uma espécie de pancake ou algo como um creme branco derretido... O que era aquilo, meu Deus? Teria ela saído de um palco de época?! No minuto seguinte, eu estava a fitá-la firmemente, propondo-lhe um de meus costumeiros questionamentos de quando desejo alcançar a alma alheia:

– Por que quer me vender lencinhos? É você quem os faz?

Ela reagiu apenas com um sorriso enigmático, desses que substituem a fala quando esta não quer se fazer ouvir. Eu insisti nas perguntas:

– Você mora por aqui?

Novamente Rainha Elizabeth não se curvou à minha curiosidade. Estendeu-me as mãos com os lencinhos, ainda uma vez, e ofertou-me outro sorriso, tão doce quanto melancólico. Senti um misto de piedade e respeito humano. E não comprei seus produtos, pois acreditei que, se o fizesse, estaria lhe oferecendo algum tipo de esmola. Não me pareceu justo tratar desse modo quem necessitava de outro tipo de ajuda, talvez psíquica ou amistosa. Fixei meu olhar em sua imagem e, de novo, me chamou a atenção seu estilo personal, no jeito e na composição das roupas, as quais, apesar de mal arranjadas, davam ideia de alguma opulência. A respeito, depois confirmei minha impressão, quando fiquei sabendo de seu endereço: um prédio nobre nas imediações do largo que frequentava na companhia dos pombos.

Correm pelo bairro diversos boatos sobre Rainha Elizabeth do Largo... Uns dizem que ela usa assim tantas roupas e mantém o rosto coberto de creme branco porque sofre de uma doença epitelial rara, o que a impediria de tomar sol normalmente. Numa versão dentro da outra, dizem que tal doença seria uma consequência de contaminação pelo contato estreito com os pombos, os quais constantemente trazia ao colo, beijava e aconchegava junto ao peito... Outras pessoas já atribuem suas anomalias comportamentais a um distúrbio de ordem psicológica, surgido com um problema de amor: ela teria sofrido uma grande decepção com seu antigo noivo – um piloto da Força Aérea – e, desde então, passara a isolar-se do mundo real e a tornar-se personagem de um reino que imaginara para si. Ainda sobre seu suposto e propalado autorreinado, disseram-me certa vez que ela ficava feliz quando alguém a chamava de Majestade. Assim, no outro dia em que a vi, quando ela se aproximou, eu lhe disse com ar solene:

– Bom dia, Majestade! Como tem passado?

Foi impressionante a sua reação! Ela colocou, no mesmo instante, um sorriso complacente nos lábios e respondeu:

– Muito bem. O czar da Rússia lhe manda lembranças.

E afastou-se, sem mesmo me oferecer os lencinhos, não sem antes deixar de me ofertar um novo e amplo sorriso, que parecia me devotar amizade pelo resto da vida, já que eu partilhava do seu sentimento de nobreza.

Houve, ainda, uma outra vez em que a encontrei: sentada bem no meio do largo, próximo ao chafariz, ela estava cercada de pombos por todos os lados... Pensei em aproximar-se, no desejo de falar melhor com ela, talvez até para uma entrevista, uma aproximação mais detida. No entanto, fiquei quase paralisada ao perceber que os pombos interagiam com a sua protetora... Parecia que a comprendiam e – mais ainda – que a amavam! Rainha Elizabeth e seus pombos praticamente formavam uma pintura: os pequenos pássaros pareciam caminhar em seus braços e aconchegar-se na roda de sua longa saia! Ante a visão de quem quer que olhasse, misturavam-se mulher e pombos: não se sabia onde começava uma e onde terminavam outros... Diante de tamanha harmonia, até desisti de aproximar-me. Não, decididamente, eu não poderia influir – com a minha humana pessoa – naquela quase estátua de praça na forma de mulher dos pombos!

Rainha Elizabeth também externa certos medos e reações à tecnologia. Os que afirmam ter ela problema de memória (há também esta corrente) atribuem sua repulsa ao moderno a uma tentativa constante de voltar ao passado. Teria ela um medo exacerbado de entregar-se ao momento presente, já que para ela o amor e a alegria ficaram para trás, num tempo distante... Desse modo, ela teme elevadores e câmeras. Conta-se que, certa vez, reagiu quase agressivamente quando um colegial tentou tirar uma fotografia sua:

– Não faça isso! Vai roubar a minha alma!...

De tempos em tempos, Rainha Elizabeth some das ruas. É quando todos afirmam vê-la muito pouco, quase nada, às vezes nunca. Proclama-se, então, que ela morreu. E a população fica triste: adultos, crianças e adolescentes sentem falta do ente esquálido que por eles passa feito vento... e tão bem representa a fantasia em seu imaginário coletivo!... Rainha Elizabeth é importante no meio em que “figura"; não querem que ela deixe de reinar!

Fazia muito tempo que eu não a via. Mas, determinado dia, minha intuição certeira pareceu avisar-me de sua presença. Estava no largo e, de repente, meus olhos se encheram com uma revoada abrupta, num deslocamento meio apoteótico de pássaros... Depois, novo ajuntamento das aves; dezenas delas aterrissavam em seu habitat urbano, já quase demarcado pelo pouso diário. Ouvi o arrulhar dos pombos que se reuniam no estacionamento próximo, junto à igreja. Virei-me para o lado e vi uma cena que não mais me saiu da cabeça: Rainha Elizabeth - como se no âmago de seu castelo, rodeada de súditos - lá estava a acenar-me, sorrindo-me um sorriso plácido, a ostentar o peso suave de um pombo em seu ombro...

Por Sayonara Salvioli


sábado, 13 de setembro de 2008

A interatividade contemporânea e a lauda eletrônica






Custei a aderir à prática tão usual e produtiva do blog. Talvez porque, no início, tenha visto neste formato uma nova versão dos antigos diários, agora repaginados pelo arrojo da virtualidade. E como – apesar de escrever durante toda a vida – nunca tenha tido hábito de fazer diário (aquele convencional, relatando os acontecimentos do dia em detalhes), rejeitei a idéia, equivocadamente.
Agora, no entanto, vejo no blog uma necessidade de interação entre pessoas, grupos e contextos do ciberespaço. Sob esse enfoque, é uma ferramenta a serviço de uma dinâmica globalizada, que pressupõe uma troca constante, uma espécie de vitrine na dimensão do tal tempo real... É mesmo interessante poder dispor de uma revista eletrônica, de um jornal virtual em que o próprio pensamento é fonte de interesse coletivo. Assim é que o blog alcança esse extraordinário poder de influência e mediação em relação a outros pensamentos, de diferentes contextos. O antigo diário, portanto, deixa de ser apenas um arquivo de relatos para tornar-se uma potencial fonte de notícias paralelas e agregamento de idéias transformadoras.
O planeta virtual é mais que ágil: é galopante, sedutora e absolutamente galopante! E essa velocidade é plenamente compatível com a vitrine móvel da contemporaneidade, já que o mundo nos oferece, todos os dias, milhares de assuntos e encantamentos para a lauda eletrônica. Essa incessante peculiaridade rotativa – na proporção das ações das pessoas – é a grande força motriz dos acontecimentos de nossa era. Quem não acompanhar este ritmo, portanto, estará à margem do momento.

Está inaugurado o meu blog. A partir de agora, dez anos após eu haver me conectado à Internet, estabeleço um link ainda mais direto com a virtualidade.
Seja bem-vindo a esse bate-papo eletrônico, que é informal, mas traz a responsabilidade indiscutível da democratização do pensamento e da inter-relação do individual com seu entorno (risos)... Não é que eu queira ser formal, mas é exatamente o significado deste arranjo de palavras o que eu quis dizer.

E começo a nossa interação com uma crônica que escrevi, já há algum tempo, sobre o constante processo de exposição de idéias a que estamos vinculados na oferta ou na recepção de mensagens, de produtos... Veja:


Venda de ideias


Todo o complexo das relações humanas está, ininterruptamente, suscetível às compras e às vendas da sociedade de costumes. Afinal, vivemos numa estrutura social de consumo. Mais do que capitalismo econômico, é esse sistema de coexistência uma espécie de capitalismo ideológico, que atinge todos os patamares de relacionamento.
Parece curioso, mas todos somos vendedores de plantão, autônomos de ideias comercializáveis na dinâmica da rotina. A todo momento, estamos expondo nossos produtos na vitrine das relações humanas.
Constantemente vendemos (às vezes, implicitamente) mercadorias, ideologias e preferências. E mesmo quando não estamos fazendo uma negociação mercadológica explícita, estamos tentando passar nosso produto ou ideal adiante. Ainda que a nossa oferta não seja permutada por moeda, temos uma tendência natural a pregar determinada proposta, suas vantagens e promissoras susceptibilidades. E assim vendemos artigos que não advêm de produções próprias, pois propagamos independentemente até a nossa opinião ou gosto pessoal. Nesse sentido, é delicioso, às vezes, convencer o nosso interlocutor da qualidade de determinado produto que consumimos. Sem querer, falamos daquela marca de sorvete ou de nosso perfume predileto, porque parece necessário persuadirmos alguém quanto à qualidade daquilo que defendemos. É assim que, numa sociedade explícita de venda de ideias, estamos todos no jogo de um comércio inevitável, que nos acompanha por toda a vida.
E multifacetada é a venda ideológica permanente de que se acometem os grupos humanos. E tal se dá não somente dentro dos shoppings ou diante dos apelos de outdoors. Incessantemente, e em todo lugar, ocorre o já aculturado processo de ofertas e demandas do comércio social...
Ora, é o mundo um incessante intercâmbio de ideologias, proposições e seduções em todos os níveis. Na sociedade contemporânea, somos mercadores de tendências que se agrupam nos núcleos de intercomunicação. Comercializamos, além de produtos materiais, imagens, palavras, atitudes e sobretudo ideias, as mais latentes! Nesses casos, tentamos repassar ao "receptor mercadológico" aquela verdade que nos impomos e desejamos divulgar, levar adiante, numa venda antipecuniária de opiniões pessoais. É claro que nesse terreno devemos cultivar, preferencialmente, as searas da identificação e da aesão espontânea.
Neste momento, vende o balconista na loja, vende o ambulante no espaço urbano, vende o cambista na Bolsa, vende o publicitário a nova campanha, vende o doutorando a sua tese, vende o psicanalista o estádio do espelho de Lacan; vendem a doméstica, o corretor de imóveis, o escritor, o ator, o estatístico e o professor. Cada qual vende, em transferência construtiva, o seu pensamento e a sua ideologia. E eu, que não tenho liame direto com qualquer câmbio, fico, por vezes, um tanto perdida nesse campo de concretismo incontestável. O que fazer se, puramente, tenho alma abstrata de poeta?... Contudo, afinal, nesse movimentado mercado de ideias, acaso consegui "vender-lhe" a apologia da minha crônica?



Por Sayonara Salvioli



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