quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Também se morre de amor?!...

Imagem: Chris Raschka
No conto que postarei abaixo, abordo um tema pouco convencional, algo que parece fazer parte de um folhetim... Ou será uma espécie de romantismo exacerbado da vida real, com a aura em sépia das histórias envelhecidas?
Apesar da luta que nós, mulheres, empreendemos e vencemos – vitórias que ditam um comportamento feminino próprio e feliz, com emoções independentes –, é possível conceber a ideia de uma vida atrelada a um amor, assim de modo irreversível? Ao fim da leitura, opine: existem ainda romances como o da narrativa? A resposta, na realidade – embora possa suscitar interpretações variadas – esconde-se nos subterfúgios do improvável, aquela região das emoções humanas passível de abrigar o inusitado! Aliás, no terreno do humano, tudo pode acontecer... Com os devidos descontos de época, contexto e personalidade, claro... 

TAMBÉM SE MORRE DE AMOR?!...
Minha lembrança da velha senhora é dos mais remotos tempos da infância. Lembro-me de seu sorriso distante e complacente. Também não me saem da memória sua voz grave e seu ritmo apressado.
Ela fora a minha alfabetizadora efetiva;  houvera sido a mestra querida, a primeira amiga da infância e da escola! Não bastasse isso, atingiram seus sentimentos uma dessas paixões de livro... Aliás, o caso bem poderia figurar nos compêndios da mais insólita literatura, já que parece impossível e romanesco demais para ser verdade. Sua imagem e história fazem dessa lembrança algo muito vívido em minha mente...
Nostálgica conturbação me reporta a momentos longínquos na Praça São Geraldo. Todo início de tarde, ela passava para apanhar-me; íamos juntas para a escola. Lembro-me da sala de aula e das folhas mimeografadas, com carimbos de bichinhos. Lembra-me também a sua letra miúda e uniforme, uma verdadeira caligrafia, na conhecida assinatura: Dora.
Dora era uma magra senhora, com pouco mais de sessenta anos à época da minha infância. Vivia numa casa grande, em companhia de Tia Pequenina e oito cachorros também pequeninos.
Resumia-se a vida de Dora à missão diária de educar. Descortinava aos olhos de crianças o mundo extraordinário das letras decifradas. Assim alfabetizara cinco ou seis gerações da localidade.
Todos a conheciam em Vida Feliz. Apesar do nome, a pacata cidade era um lugar em que o tempo se arrastava, em constante pasmaceira... E Dora, todos os dias, ia e vinha em seu trajeto imutável: da casa para a escola, da escola para a casa. Quando não estava lecionando para crianças, estava brincando com os cachorros, seus amigos. Por causa deles, porém. eu até evitava visitá-la, às vezes... Não que eu não gostasse dos bichinhos, mas havia sido mordida pelo Ringo, um cachorro cinzento com cara de mau, na entrada da casa da Vovó Maria... E tinha ficado temporariamente traumatizada (risos de medo canino)... Embora eu amasse Dora e simpatizasse extremamente com Dona Pequenina, eu temia o contato com aqueles pequenos seres, que me arranhavam, pulavam em cima  e me faziam lembrar do galope de Ringo! Por isso, eu ficava assustada e incomodada com o cortejo dos oito cachorrinhos inofensivos, em que os mais festivos, furtivamente, me lambiam os pés... De vez em quando, porém, eu criava coragem e ia visitar as duas senhoras. A velha tia tinha quase noventa anos (criara a sobrinha, junto a outras duas irmãs já falecidas) e me parecia fascinante em suas histórias de saraus e acontecimentos antigos. Narrava-me fatos passados com tal vivacidade e ênfase que estes pareciam transportar-me em tempo e espaço! Afinal, sempre gostei de vasculhar fatos e memórias. E aquelas visitas vespertinas de sábado eram bastante estimulativas à minha imaginação.
Imaginação maior, porém, tivera o destino, que reservara a Dora uma incomum história de amor... Ela se apaixonara, na juventude, por um galante rapazinho de grandes olhos azuis. Seu nome era Guido, um descendente de italianos vindos da Calábria.
Dora e Guido namoraram , às escondidas, por algum tempo, até que as tias descobrissem e impedissem o romance. O empecilho apontado pelas três solteironas era algo absurdo: o rapaz não era de família tradicional, não pertencendo "ao seu meio". E, segundo as más línguas, as tias desejavam que, como elas, a sobrinha não se casasse. Por puro egoísmo, diziam. E como realmente não era um aristocrata provinciano, Guido não tivera o aval da família da moça. Pouco tempo depois, o rapaz partia para a capital, em busca de melhores condições de vida.
A pobre moça perdera-se de tristeza com a partida do namorado. Trancafiou-se, durante meses, em seu quarto. Quem passasse pela rua podia perceber, através das venezianas entreabertas, seu choro convulsivo entrecortado por freqüentes soluços...

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Dora nunca mais namorou. Vários pretendentes arriscaram-se à difícil empreitada de conquistá-la. A professorinha, no entanto, não mais se deixou encantar. Alguns anos depois, soube do casamento do amado com uma conterrânea que também se mudara para a capital. Sofreu horrores! Mas a vida parecia incumbir-se de arrastá-la dia a dia. Finalmente, pareceu conformar-se... Envolvia-se, contudo, por uma nostalgia quase entranhada nas rugas que ia ganhando. Trouxera-lhe o tempo um sorriso curto e um olhar triste. Na verdade, seus olhos nunca sorriam...
Mas a continuidade da vida ganhava em seu apelo diário. E Dora adquirira novas raízes na prática do magistério: sua missão única de ensinar era quase um sacerdócio. Assim foi como eu a conhecera.
Avós, pais e filhos vinham sendo alfabetizados pela professora solitária. Na vida pessoal, perdera um grande amor, isto era certo... Mas construíra um grande nome e um poderoso arsenal de ex-alunos e amigos.
Tempos depois, ficara completamente só: Tia Pequenina morrera. Restavam-lhe apenas os cachorros, com as frequentes e esperadas baixas ocasionais. E Dora parecia habituar-se, gradativamente, àquele solitário jeito de viver.
Entretanto, quando já se acostumara perfeitamente àquela vidinha, um fato novo aconteceu... E, por uma dessas irônicas e miraculosas viradas do destino, cruzava as ruas da cidadezinha um automóvel diferente: um veículo incomum que parecia vasculhar os mistérios das ruas pacatíssimas de Vida Feliz...
Logo se soube que um senhor simpático – de ralos cabelos brancos e longo nariz romano – procurava Dora Costa, a professora. A pobre mulher quase morreu ao reencontrar o antigo namorado, que bateu à sua porta (e novamente ao coração!), dizendo-se desejoso de falar-lhe. Guido retornava, ainda que tardiamente. Disse-lhe: “Voltei para casar-me com você!”. Dora gelou.
Grande burburinho tomou conta do lugarejo. Todos ficaram sabendo da incrível história de Dora e Guido: a saga de um amor proibido e o “reencontro dos namorados” após mais de cinquenta anos! “Parece coisa de novela!”, era o que se dizia. O comentário alastrou-se pelos arredores e, em várias cidades vizinhas, se comentava sobre o conto de fadas de Vida Feliz.
Guido narrou, com a normalidade que o tempo infunde aos fatos mais descabidos: “Você sabe, Dora... Casei-me. O destino conduziu-me pela mão. Dei sorte nos negócios. Quanto à Cecília, não a odeie... Era uma boa mulher. Você precisava ver, Dora, como me falou na hora da morte: 'Guido, volte e case-se com Dora. Ela realmente o merece.' E aqui estou, para nos casarmos e realizarmos o nosso sonho de juventude!”...
Sonho de juventude, sonho dourado para Dora! Seu príncipe voltava! Dora ficou estática com o abrupto pedido de casamento. Não tinha dúvidas em aceitá-lo. Conteve-se, porém, pois desejava comunicar o fato ao irmão, o parente mais próximo que lhe restava no mundo. Este, contudo, se opôs duramente, pois achava aquilo uma “precipitação tardia”, algo incompreensível e insensato... depois de tanto silêncio e vácuo! Dora não pôde entender e, desta vez, não obedeceu! Decidiu casar-se e tentar ser feliz.


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O casamento aconteceu numa tarde de outono. O templo da inusitada cerimônia não poderia ser outro: a escola onde Dora trabalhara e, mesmo, vivera anos a fio! Toda a cidade compareceu ao grande evento. Eu mesma fui até Vida Feliz para testemunhar tão tocante acontecimento: um casamento com uma noiva de setenta e seis anos, a qual reencontrara o primeiro namorado cinqüenta e três anos depois! Era coisa de fazer eriçar os pêlos da alma!... Todos os presentes se emocionaram; vislumbrei lágrimas nos olhos de muitos... Aquilo parecia mesmo fazer parte de um romance: senti-me dentro d’algum clássico de época! Que lindo conto parecia começar, estranhamente já num final feliz!...
As amarras do destino, porém, não se soltam a meros golpes de sorte. Os primeiros tempos do casal preencheram-se com passeios e divertimentos. Dora estava exultante! Novo brilho tomou conta de seu olhar e até ganhara alguns quilinhos... Fora o casal morar em outra cidade, onde Guido residia ultimamente. Também tinham uma casa na serra, para onde se dirigiam com certa frequência. Era compensador ver a amiga solitária agora, literalmente, respirando outros ares!
Sempre que podia, Dora visitava os conterrâneos e amigos. Tornara-se tão alegre que até piadas contava! Dava a impressão de haver renascido. Levara somente um cachorro para a nova casa. O marido alegava que o contato com o pêlo dos animais acirrava-lhe uma bronquite crônica. Parecia cuidar bem da esposa, namorada sagrada que o esperara “pura e invicta” – como ela sempre lembrava – por tantos anos!...
O tempo passou e tamanha paixão deu mostras de não cumprir, adequadamente, o seu destino. Guido mostrava-se incompreensivo e irritadiço com a antiga namorada. Parecia haver enjoado dela e se arrependido do casamento. Com críticas contínuas e, às vezes, uma indiferença cada vez maior, trazia à noiva do passado aborrecimentos que ela não tinha, antes, em sua vidinha reservada. Dora, porém, inacreditavelmente tudo suportava, pois se acostumara a um jeito peculiar de viver... E acreditava que não saberia mais viver sozinha.
Pobre Dora! O tempo pregara-lhe uma peça: trouxera-lhe um presente antigo, com ótima embalagem e defeitos de conteúdo! As pessoas à sua volta já começavam a perceber quaisquer nuances da atmosfera negativa que a envolvia... Cadê o príncipe que retornara da distância das décadas? O encanto havia se quebrado?
Certa tarde de verão, o casal saiu de carro. Guido dirigia nervosamente. Além das condições físicas (ele não andava muito bem de saúde), talvez um lampejo emocional mais forte o tenha atingido quando, subitamente, perdeu a direção... Em meio a uma chuva torrencial na subida da serra, o carro capotou, num acidente menos que brutal, mas que colocara em risco as suas vidas, já um tanto afetadas pelos anos.
Foi o casal socorrido por moradores das imediações, que tomaram as providências necessárias. Logo avisaram o irmão e os sobrinhos de Dora, bem como os filhos de Guido. Estes foram buscá-los.
Dora teve mais dificuldades para restabelecer-se, dada a depressão que se somatizava em seu corpo e em seu íntimo. Ela própria já antevira uma separação que, sabia, não aguentaria... Não mais saberia viver sem Guido. Dizia que preferia até mesmo algum sofrimento no trato diário a uma separação definitiva e sem promessas.
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No momento da saída do hospital, os próprios parentes, respectivamente, levaram seu doente particular. Dora e Guido ganharam novos e separados endereços. Segundo os familiares, aquela seria a maneira prática de cuidar dos doentes, frágeis e debilitados ante as consequências do acidente. Diziam que, como cada qual não poderia cuidar de si mesmo e, menos ainda, do outro, melhor seria que ficassem sob os cuidados dos próprios parentes.
Entretanto, após longa temporada de assistência, na pronta restauração dos dois, permaneceu a separação. Dora, amorosa, já habituada à companhia de Guido, não se conformava em perdê-lo de seu convívio. Num passe de mágica, do mesmo modo como chegara em sua vida, dela se desprendera, deixando a dor de uma saudade profunda, ainda maior que aquela da juventude!...
Numerosos esforços empreendeu Dora para reatar o casamento, mas o homem, frio e insensível a seus apelos, mostrou-se inacessível. A separação era ato consumado e irrevogável. Onde andava o encantamento que ditara o seu retorno ninguém sabia explicar...
Dora voltou a residir em sua antiga casa. Voltou à vidinha pacata de antes, do modo como vivera nas décadas anteriores. Mas agora, tudo era diferente. Ficaram o vácuo de uma lembrança real e o fantasma de uma saudade plena, invencível. Até porque o seu objeto de amor tornara-se algo palpável: Guido saíra de suas fantasias direto para a vida real! E agora novamente virava sombra, na névoa intransponível da solidão.
Antes aquele homem nunca tivesse voltado e Dora (acredito veementemente!) ainda viveria muitos e muitos anos, em placidez de paz e espírito. Ora, se ele não a queria para todo o resto de seu sempre, por que então voltar e arrancá-la de seu platonismo já contornado pelos anos?!...
Dora adoeceu gravemente. Manifestaram-se súbitos e inexplicáveis problemas em sua saúde, inabalável nos antigos tempos da solidão. Somatizaram-se os males na proliferação orgânica de uma tristeza implacável e sem volta. E a morte começou a rondar-lhe a velha casa amarela... Dora ficou acamada. Parecia que nada poderia arrancá-la do seu leito de dores.
Fato semelhante nunca se vira: um corpo que se aniquilava, uma vida que se esvaía, uma saudade que matava, um coração que morria... Dora não resistiu à dor da segunda e crucial perda. Após a separação, vivera pouco tempo mais! Não por causa de consequências do acidente (do qual se recuperara completamente), mas pelas seqüelas emocionais da separação de seu eterno amor. Pela morte do sonho, deu-se a morte da alma, ainda em vida. E o corpo não agüentou! A moça apaixonada, cujo espírito não envelhecera, ao reencontrar o namorado, havia transformado em ouro a poeira do sonho... Todavia, o ouro se desfazia e voltava ao seu estado de antes. E a morte começava a tomar conta da vida.
Dora morreu na primavera e seus sonhos se transformaram em flores. Toda a sua legião de amigos sofreu intensamente e reservou-se o direito de odiar ao insensível senhor, que se desmistificara a seus olhos. Eu, pessoalmente, não o perdoo pelo mal irreparável que causou à minha amiga. E vi, pela primeira vez, alguém que, literalmente, morreu de amores... como nos romances! E a minha mestra, apesar do muito que me ensinou, não pôde me mostrar, em suas lições, o teor de uma luz que se apaga, num sopro leve e sem graça... Eu assistia à morte do sonho e da pessoa... e não conseguia compreender tudo aquilo!...
Anos voam como poeira cósmica,
Como brisas leves e sorrateiras
E eu ainda não aprendi com a lógica
A calcular conseqüências inteiras!...


Minha professora também não pôde dominar essa lógica. Talvez nenhum humano possa. Por isso, também se morre de amor...
Por Sayonara Salvioli

15 comentários:

Paulinho Campos disse...

Ai, ai, ai Sayonara:
seu conto é tão maravilhoso e tão contagiante que chega a doer de beleza!!!
Tem o poder de matar e morrer...Mas matar de amor todas e tantas vezes aos tantos leitores que o lerem, que fará reviver e fará renascer "o amor 'nesses' nossos tempos de cólera"!!!

Parabéns é sempre muito
pouco para lhe dizer!!!
Você é a dama dona das letras, maravilhosa amiga!!!
Um beijão do seu amigo e
fã de carteirinha,
Paulinho.

Eliana Brum de Abreu disse...

Puxa, Sayonara! Que texto emocionante!!!! História muito comovente... Dora realmente existiu?

Gabriela Sanches disse...

Mas que mau-caráter o tal Guido, hein? Sujeito egoísta e insensível!! E ele, já morreu?

Adriano DiCarvalho disse...

Olha só quem eu encontro por aqui... se não é a dona das letras! Sayonara, minha querida amiga... QUE BOM!!!
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Primeiro dizer que o conto é emocionantemente lindo, que não fui com a cara desse Guido e que sua Dora ganhou um pedaçinho mais que especial em minha imaginação... Parabéns minha amiga! LINDO DE VIVER!!!
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Concluimos as filmagens de "Relações" na quarta passada e sentimos falta de você por lá nos acompanhando viu. Mas não tenha dúvida de que fizemos jús ao seu roteiro e de que o Ignácio caprichou na direção. O curta ta lindo! Acredito que nos vemos em breve quando, em dezembro, formos assistir ao filme. Nem preciso dizer que sua presença é mais que necessária, né!rs
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BJ ENORME!!! E voltarei sempre agora que te encontrei aqui.

Lena Ortiz Braga disse...

Que virada do destino!!!Coisa típica de romance!!!!!!! É verdade mesmo?

Leonardo disse...

Sayonara, tenho acompanhado direto o seu blog! Você escreve muito!!! E esta história é demais! Parodiando o grande Vinícius: os "não-românticos" que me perdoem, mas romantismo é fundamental"!... rs

elisa vespasiano disse...

História linda, um hino ao amor, é verdade... pena que dirigido a alguém que não mereceu...

Heron Freire disse...

Acontecimentos da vida real que parecem argumentos de filme! Sem dúvida, a vida inspira mesmo a arte!

dani lemos disse...

Um amor tão forte, meio irreal, como os platônicos, não é?
História triste, mas bela!

Luar Lian disse...

A delicadeza dos passos, ainda em sonho do passado, de Dora me envolveram como manto de renda suave tecido à lembrança (sempre delirante) do que não foi. Maravilhosa escrita, Sayonara! Foi um grande prazer. A identificação do feminino e suas sutilezas me encantaram. E o desfecho é apenas como, ao despir o manto, poderíamos prever. Mas nem todas conseguimios despí-lo e então...Um grande beijo amigo.
Márcia

mila gomes vaz disse...

Dora é uma personagem rara de filme de época!
Parabéns!!!

Lu Montezini disse...

A vida de Dora é poesia pura, um cântico ao sentimento humano! Lindo, lindo o conto!!!

maria lima disse...

Que alma a de Dora! Gostaria de tê-la conhecido!

berta disse...

Nossa! Que romantismo! Nunca conheci ninguém assim! Lindooo!

loirinha_aquino disse...

Lindaaaaaaaaaa!
Seu blog está igual a dona,de muito bom gosto!
Adorei a crônica,super atual e delicioso de se ler!
=D