quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Os Jetsons estão entre nós




Ah, ele estava ontem às voltas com você, hoje o acompanha e amanhá continuará no seu encalço! Sim, falo do Senhor Tempo, essa entidade implacável!... Esse tal ente-fenômeno opulento e misterioso, capaz de inspirar, acalentar e assustar os humanos. 
Com todas as suas prerrogativas e encantamentos, trata-se de matéria inesgotável para sucessivas postagens eletrônicas, laudas celulósicas e produções audiovisuais. Neste último caso, a face mais contemporânea de uma produção antiga me remete aos Jetsons e sua rotina pós-galáctica com suas máquinas maravilhosas! Ultimamente, aliás, tenho constatado o quão a ficção do desenho se assemelha ao cotidiano atual. Nem parece que foi criada, pelos imaginativos William Hanna e Joseph Barbera, ainda no início dos anos 60... Impressionante! Naturalmente, nos remetemos à lembrança dos anos 80, quando de sua marcante exibição no Brasil (também há registros de outra mais antiga, pela Excelsior).

Parece que o futurista, simplesmente, se transformou em contemporâneo. Acho que nem mesmo nos demos conta, mas o fato é que temos hoje – tal como no contexto do desenho – robôs com expressões humanas e até o fantástico carro que voa! Este, se você ainda não viu, possui seu protótipo revolucionador nos Estados Unidos; notícia de 2007 já relatava sua criação e aprovação em testes. Prevê-se que, daqui a alguns anos, ele estará disseminado no mercado, com a diminuição gradual de seu custo, que hoje seria orçado entre 1,5 e 3,5 milhões de dólares.

Com esta notícia, temos que nos render: o futuro bate à nossa porta, ou melhor, nos lança aos ares!... Daqui a pouco, sem qualquer utopia, já teremos um trânsito congestionado num céu de carros voadores, exatamente como numa cena comum dos Jetsons! Ora, que maravilha seria fugir do trânsito caótico das ruas e emergir às alturas, ocupando os amplos espaços aéreos, não é mesmo? Foi pensando exatamente nisso que me dei conta de que os Jetsons estão entre nós! Pense comigo... Parece ou não coisa dos astrais personagens do desenho a telecomunicação interpessoal com imagem na tela (previsão consumada), a máquina de lavar pratos (lembra-se da de Jane Jetson?), os computadores arrojados – paineis cibernéticos inteiros no escritório de George e no gabinete de Mr. Spacely – os complexos sistemas virtuais e demais invenções multifuncionais dos paraísos da tecnologia?... Chegamos ao tal futuro e nem percebemos! Tudo isso já se tornou tão normal! Da fita-cassete ao iPod, da máquina de escrever ao Macintosh, da simples cafeteira à máquina de café expresso... Coroando todo esse mundo de seres do futuro e suas engenhosas invenções tecnocientíficas, temos o jornal eletrônico QR-LPD da Bridgestone... Como é isso?! Se você está lembrado do jornal de Mr. Jetson – “surgido” todas as manhãs naquela tela fininha, já na época um aparelho específico de recepção de noticiário –, então estamos falando da mesma coisa (o iPad que temos hoje?!)... Incrível, não?

Não indo tão longe, podemos relembrar as cotidianas conversas do Sr. Spacely com seu empregado George e vê-las, hoje, como flashes de uma realidade corriqueira, afinal o msn, o skype, a videoconferência... aí estão como versões contemporâneas do que aqueles roteiristas imaginaram para o ano de 2062! Muito do previsto, de fato, aconteceu e bem antes do esperado!

Home theaters, cirurgias mecanizadas, prédios inteligentes... E as esteiras eletrônicas, tão impossíveis para a época, que hoje encontramos em quaisquer centros comerciais, no metrô e nas casas?... Lembro-me, inclusive, de uma frase da Sra. Jetson: “Ah, essas esteiras são tão lentas que, acho, eu iria mais rápido se caminhasse normalmente!” Você nunca pensou isso, num dia de pressa, nos longos percursos da Cardeal Arcoverde? Eu, já, algumas vezes. Nessas horas, bem que seria útil o tal protótipo X1500, o traje voador, aquela roupa que Mr. Jetson usou por acidente e, com a força do pensamento, se pôs a voar em qualquer direção determinada pela sua vontade... Já pensou se pudéssemos fazer isso? Pois pasme: uma notícia fresquinha vinda de além-ar nos mostra a aventura de um homem cruzando um desfiladeiro com um jato acoplado ao corpo! Isso mesmo: um precursor chamado Eric Scott atravessou um abismo usando um jato pessoal movido a hidrogênio, atado às suas costas... Ora, homem voando sozinho – sem o invólucro de uma nave ou cápsula – já é uma autêntica aventura nas estrelas! Não importa se vôo movido a pensamento ou a hidrogênio, concorda? A certeza é que o tal tempo prometido já chegou. Como dizem os nossos adolescentes: fato!

Talvez o lado contraditório de toda essa história seja, apenas, o nosso descrédito inconsciente... Essa situação aparentemente improvável que nos apanha distraídos ante a evolução dos anos. Por vezes, ao caminharmos a passos largos, não fazemos pequenas paradas para admirarmos a paisagem. Um dia, então, passamos por ali e percebemos que tudo mudou. Tal se aplica ao progresso tecnológico no contexto de nosso cotidiano. É claro que a criatividade dos ficcionistas americanos se elevou a saltos inimagináveis, configurando coisas que até hoje parecem impossíveis, como a transformação do carro-nave de George Jetson em uma mala quando ele chega ao trabalho, por exemplo... Por certo, aí houve recurso para uma licença ficcional, pelo menos na concepção da ideia àquele tempo... sim, àquele tempo! Porque nos próximos – ou distantes – tempos, tudo poderá acontecer! Afinal, quem imaginaria uma época como a nossa, na qual se estabeleceriam comunicações em tempo real e se reproduziriam vidas – anda que imitativas – de seres como a ovelha Dolly ou gatos fluorescentes em laboratórios? Tais fenômenos, agora, não passam de coisas já sabidas, conhecidas, prováveis, reais; coisas até mesmo simples diante de outras exacerbações da ciência humana.

Afinal, o paradoxo entre ficção e realidade é ainda muito grande, porém aparentado com a viabilidade do vindouro e do susceptível. E foi certamente antevendo isso que os roteiristas da série The Jetsons conseguiram ser tão proféticos! Assista ao vídeo e passeie pelas deliciosas possibilidades imaginadas, já presentes na abertura da série...


Por Sayonara Salvioli




P.S.: Acesse também e confira, com seus próprios olhos biológicos, a matéria do robô que expressa emoções ( http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM917102-7823-ROBO+REPRODUZ+EXPRESSOES+FACIAIS+EM+TEMPO+REAL,00.html) e o vídeo do carro voador.










quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Tic tac... tic tac... tic tac...

Foto: L.S.
Tenho feito posts bastante voltados a tipos humanos... Não que isso seja algo proposital. Na verdade, a lauda – eletrônica ou celulósica – sempre me concede a liberdade natural da franca Literatura! E o faço com a fluidez de nuances variadas que surgem espontaneamente, sem correntes ou correntezas...
E hoje a minha lauda quer falar do tempo e seus distintivos, os amigos – para alguns, opressores?! – relógios e similares...
Tic tac... tic tac... tic tac...
Não se trata de uma simples onomatopéia. Nem daquelas balinhas de progressivas mudanças de sabor, da famosa doceria italiana. É o alarido estridente de um relógio pequeno, mas desastroso, que veio parar em meu quarto. Por quatro ou cinco noites até convivi com o intruso... Mas lá pela quinta ou sexta – irritada que estava com o tic tac constante –, olhei para ele com aquele olhar de fulminância, levantei-me no ímpeto e avancei sobre a “criatura”! Alcancei-o como a uma presa indefesa e retirei-o do criado-mudo, levando-o para o ponto mais distante possível de meus tímpanos não menos irritados que afetados. Saí pela casa com uma postura quase maquiavélica de quem estuda todas as possibilidades de se livrar de um fenômeno indesejado. Juro que entendi a obsessão do Capitão Gancho (nunca pensei que pudesse estabelecer qualquer empatia com ele.. tsc tsc tsc)... Parecia mesmo que ouvia o tal crocodilo com o relógio na barriga o tempo todo! Um horror!
Mas o fato é que estou livre do estranho objeto metálico de engrenagens rotativas obsessivas. Talvez só não o tenha espatifado porque – além de ser contra destruições –, não costumo despender esforços demasiados por pequenas coisas; não gasto minha energia com situações menores. Sabe aquela história de não se tentar matar um mero mosquito com uma bala de canhão? É isso: o reloginho não era tão importante que merecesse maiores atenções ou intenções de minha parte, nada que demandasse mais do que três ou quatro minutos. Apenas o abandonei num canto qualquer.
Na verdade, não tenho nada contra relógios. Quando criança, até os colecionava. Em 1982, eu tinha vinte e oito relógios, inclusive um mais que pós-moderno, rosa pink (acredita?), o máximo para a época... tsc tsc tsc (estou com síndrome de HQ)... Mas, voltando aos tais instrumentos cronológicos, me dou bem com eles, essencialmente porque tenho uma ótima relação com o tempo. Sou apaixonada pela vida e, realmente, curto o que cada segundo pode me proporcionar; assim, lido com o tempo com toda a intensidade que me é peculiar. E – como todo humano mortal –, me utilizo de algumas formas para marcá-lo, procurando ajustá-lo às minhas necessidades de momento. Assim, nunca é cedo ou tarde para eu fazer determinada coisa; se é preciso fazê-la, fabrico ou manipulo tempo ou ocasião para a sua realização; se não dá para fazê-la durante a utilidade convencional do dia, providencio a ação para a noite, madrugada adentro... mas nada, absolutamente nada do que tenho a fazer, fica sem se realizar! Literalmente, não brinco em serviço.
De modo específico para acordar – como não costumo saudar a primeira face das manhãs, diga-se de passagem –, me utilizo de alguns “despertadores alternativos”: chamada 134 + dois celulares, tooodos tocando ao mesmo tempo! Assim, quando amanhece, todas as alvoradas de modernos galos eletrônicos retinem a meus ouvidos, abruptamente separados do onírico (meus vizinhos devem adorar!)... Mas a verdade é que eu nem preciso de tanto: tenho um despertador interno, supereficaz, que me chama no momento exato de despertar, uma intuição poderosa que não me deixa perder o compromisso. Tanto que, ao longo de toda a minha vida, poucas vezes perdi a hora... Na verdade, nem me lembro da última vez em que isso aconteceu.

Mas toda essa rotação de conteúdo em torno do instrumento de engrenagens robóticas trabalhando simultaneamente, por um breve instante de 30 segundos, me fez pensar no poder de Mister Chronos sobre a aventura humana. E aqui me ponho a um rápido retrospecto das buscas do homem através dos milênios: do original relógio de sol até os mais arrojados cronômetros atômicos, é impressionante a força devastadora do tempo, e igualmente instigante a nossa forma de vê-lo, dimensioná-lo e utilizá-lo com os melhores fins. Afinal, seja em que versão for, os marcadores temporais parecem dar-nos a dimensão exata do quanto é preciso nos empenharmos nesse sentido, do quanto necessitamos empreender para que o “nosso tempo” não passe em vão. Esse é um outro sentimento temporal que sempre tive: as contas que – sei – preciso ajustar com Mestre Tempo... Não coleciono mais relógios nem mesmo uso aquele convencional de pulso (desenvolvi alergia cutânea a seu uso constante), mas agora incumbo o celular de ser meu companheiro visionário das horas... 

Resta-nos agir com o que poderíamos chamar de consciência cronológica, a fim de satisfazermos as proposições do tempo, em seus arbítrios e movimentos irrecorríveis!
...tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac...
Por Sayonara Salvioli
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P.S.: Partindo de referência que fiz no texto, sugiro a leitura da história dos engenhosos implementos formatados por Santos Dumont e Louis Cartier, na fascinante Paris do começo do século XX.

sábado, 8 de novembro de 2008

Motorista movido a álcool




Cosme era, autenticamente, um motorista movido a álcool. Força de expressão? Não! O álcool era a força motriz de um estranho organismo, um corpo frágil que andava daqui e para ali à base de ingestões seguidas de tragos etílicos. Complicado? Impossível?! Absolutamente, não! Beber sempre foi seu hábito mais sagrado, uma espécie de religião e modo de viver. Tristemente, o álcool era o seu prazer e a sua refeição.
Cosme era um sujeito magro, de olhos esbugalhados, meio manchados de vermelho, e dentes deformados. Quando não estava dirigindo, trazia invariavelmente um cigarro na mão esquerda e um copo na mão direita. Apresentava, também, algumas características que lhe marcavam a conturbada personalidade de bebedor profissional: risada solta, jeito displicente e passadas largas, meio que sem destino ou objetivo.

Cosme trazia os bolsos sempre cheios de cédulas de baixo valor – amassadas, de mau aspecto (arghh!) – e moedas, usadas para comprar suas doses homeopáticas de álcool. Aqui e ali, entre os diversos pontos do itinerário de seus patrões, ao parar o carro, as usava nos botecos que descobria nas proximidades. Não importando onde estivesse, ele sempre achava um. Era incrível: mesmo em locais distantes – onde antes ele nunca estivera –, ele se movimentava com uma facilidade tal que logo encontrava bares, e fazia seus novos e rasos amigos... Muito simpático e falastrão, se enturmava com qualquer trupe que falasse a sua linguagem de copos.

Diferentemente do motorista movido a álcool, era o seu irmão gêmeo: Damião. Este era tímido, reservado e – incrivelmente – não bebia! Isso mesmo: era um empregado-padrão, que nunca negligenciava suas obrigações. Andava sempre arrumado, com a barba feita, apresentando-se com a discrição de seu temperamento assentado. A única semelhança ou interseção entre os gêmeos era a sua sincronicidade em sensações... Aquela conhecida simultaneidade que ocorre, principalmente, com univitelinos: um passa mal e o outro sente. No caso dos dois, toda vez que Damião – que tinha uma saúde frágil (apesar de não beber!) – passava mal, Cosme apresentava o mesmo sintoma. Até onde se sabia, contudo, Damião não sofria as consequências das bebedeiras de Cosme. Sorte a dele, visto que – em caso contrário – não teria mais paz orgânica ou de espírito. Segundo alguns, no entanto, não seria “à toa que ele tinha aquela saúde tão ruim... Talvez fosse por causa dos hábitos alcoólicos do irmão"!

Cosme, na verdade, era um bebedor inveterado de cachaça, mas não desses que ficam cambaleantes, se arrastando e beijando o chão... Não! Ele andava pelo mundo, em sua costumeira alegria, de modo tranqüilo e descontraído. Junto ao volante ou longe dele, nunca deixava perceptível o grau de acometimento etílico de sua corrente sanguínea. Era impressionante como a ingestão contínua da droga alcoólica não lhe afetava as atitudes e, principalmente, os reflexos na condução de um veículo. Ainda assim, certa vez, o patrão o chamou:

– Cosme, assim não dá... Não é preciso nenhum bafômetro para perceber o seu “grau”. A partir de agora, você vai conduzir os veículos da empresa; não vai mais dirigir pra minha família.

E assim foi. O novo motorista da casa, Seu Nicanor, era um senhor cortês, polido, com ares e hábitos sérios, ou seja, não professava a fé da bebida; ao contrário, trazia sempre consigo uma Bíblia: seu alimento era o Evangelho. A patroa de Cosme, embora não desgostasse do antigo motorista, aprovou a nova contratação: Seu Nicanor era um motorista mais formal, dentro dos moldes convencionais exigidos pela profissão: concentrado, sensato e, essencialmente, sóbrio 24 horas por dia!

A rotina da casa pareceu ficar mais tranquila com a chegada do novo motorista: horários ingleses e chofer a postos no automóvel. Nada de “fugidas” para o bar mais próximo, deixando o carro sozinho. Nunca mais houve atrasos ou displicências. E assim tudo correu, maravilhosamente bem, por 17 dias. No 18º, Seu Nicanor bateu com o carro, estando a filha dos patrões, de oito anos, a bordo. Batidinha sem maiores conseqüências, nada grave, mas que constituiu fato suficiente para afastar o novo motorista da função. E para a alegria da menina – que era muito amiga de Cosme – voltava ao cargo o motorista que ela conhecia desde que se entendia por gente.

A verdade era que todos da família gostavam muito de Cosme e, mesmo, o preferiam aos outros que passaram pelo volante da casa. Ele era bom de se lidar, prestativo e bem-humorado, apesar dos problemas que enfrentava na rotina de seu próprio lar: vez por outra, segundo a empregada, lá chegava com os cabelos inundados de Mucilon... A mulher dele – talvez irritada ou com ciúmes da rival cachaça – derramava sobre a sua cabeça todo o conteúdo da mamadeira de Cosme Júnior.


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Probleminhas cotidianos à parte, Cosme retomou as funções em grande estilo e cheio de conversa:

– O Nicanor é bonzinho, coitado... Mas é barbeiro que só ele... Bater com a menina no carro! Vê se pode... Comigo isso nunca vai acontecer!

E não aconteceu mesmo. Cosme jamais deixou seu amigo álcool se apresentar diante da família do patrão. Segundo as pessoas da casa, a sua condição de bêbado era algo que não se percebia do banco de trás: “Vez por outra, um odorzinho desagradável se espraiava pelos ares, mas nada que trouxesse grandes incômodos".
Certamente, o conhecido “bafo” de Cosme não podia incomodar a distância a patroa e a patroinha. Além disso, era minimizado por um estratégico e constante consumo de "balinhas camuflantes"... E outros hábitos pouco ortodoxos do motorista já haviam se modificado com os anos; na verdade, quando fora admitido como “condutor oficial” da família, já fazia uma figura melhor: segundo os amigos, já até adquirira o hábito cotidiano do banho, prática que não adotava antes de trabalhar na casa. Segundo se conta – nos domínios do posto de gasolina onde trabalhava –, certa vez os colegas Bem-te-vi e Pardal o pegaram à força para uma limpeza devastadora: jogaram-no debaixo do chuveiro e aplicaram-lhe o tal “sabonete-do-diabo”. Para quem não conhece, este é um tipo falso de sabão, que, quanto mais friccionado na pele, mais a suja. Falou-se que fizeram a maior festa com o coitado. Parece até que foi a partir daí que Cosme se despediu da abstinência do banho.

Abstinência da bebida, porém, esta Cosme nunca conheceu. Não costumava almoçar ou jantar, mas fazia várias “refeições” líquidas por dia: um cardápio de diferentes aperitivos compunha a sua alimentação. Muito brincalhão, ao chegar à casa dos patrões, sempre procurava pela cozinheira – junto à qual fazia suas investidas –, pedindo-lhe um cafezinho:

– Me dá um cafezinho aí, minha fror.

Fror dava o cafezinho a ele. E ainda lhe oferecia comida, mas ele nunca aceitava. Houve um dia em que a patroa, ao ouvir a voz de Cosme na área de serviço, dirigiu-se até lá, para pedir à cozinheira que servisse almoço a ele. Lá chegando e o vendo sem camisa (a empregada estava tirando uma mancha de aveia do traje de motorista), ficou estarrecida com a magreza de Cosme e exclamou:

– Cosme, você precisa se alimentar e parar de beber. Se continuar assim, você vai morrer!

Mais proféticas não poderiam ter sido as palavras da patroa de Cosme. Não muito tempo depois, se soube que ele fora internado em estado grave. “Assim, de repente?!”, as pessoas se perguntavam. Não tão de repente assim. Na verdade, o álcool foi corroendo o seu organismo aos poucos, como um veneno letal de efeitos de longa duração. Segundo os médicos que o atenderam, seu esôfago estava "regado de sangue"... Na realidade, Cosme resistiu à morte o máximo que um organismo poderia suportar; provavelmente, a medicina refutaria a sua sobrivência, anos a fio, com aquela TAS tão elevadamente absurda!... Os males foram se acumulando e, um dia, numa dessas surpresas cabais da vilã doença, seu corpo – aparentemente sem sequelas – combaliu-se, de uma vez, e caiu por terra. Literalmente.

Depois de uns poucos dias no hospital, Cosme foi enterrado no alto de uma colina. Ao seu lado, em concomitância absoluta, jaz o seu irmão Damião, que havia morrido pouco tempo antes.

Apesar do desfecho fatídico de sua história, Cosme deixou um milhão de amigos e simpatizantes. Sempre que se lembram dele, as pessoas riem, descontraídas, numa espécie de recordação relaxante. Seu jeito alegre e descompromissado fazia dele uma pessoa leve, dessas que nos trazem boas lembranças. Neste caso, também se construiu um emblema: Cosme era o estereótipo perfeito do motorista movido a álcool!

Por Sayonara Salvioli


P.S.: Talvez o leitor que me conhece estranhe o conhecimento etílico aqui expresso (risos), mas é que fui testemunha da história de Cosme... Na verdade, o "Cosme da realidade" era meu empregado: foi meu motorista por dezesseis anos!
Apesar do fato de o protagonista desta história ter combinado, por muito tempo, dois elementos inconciliáveis: volante e bebida, fica aqui o alerta conhecido e compreensível: "Se beber não dirija; se dirigir, não beba!" A respeito, acesse:

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Também se morre de amor?!...

Imagem: Chris Raschka
No conto que postarei abaixo, abordo um tema pouco convencional, algo que parece fazer parte de um folhetim... Ou será uma espécie de romantismo exacerbado da vida real, com a aura em sépia das histórias envelhecidas?
Apesar da luta que nós, mulheres, empreendemos e vencemos – vitórias que ditam um comportamento feminino próprio e feliz, com emoções independentes –, é possível conceber a ideia de uma vida atrelada a um amor, assim de modo irreversível? Ao fim da leitura, opine: existem ainda romances como o da narrativa? A resposta, na realidade – embora possa suscitar interpretações variadas – esconde-se nos subterfúgios do improvável, aquela região das emoções humanas passível de abrigar o inusitado! Aliás, no terreno do humano, tudo pode acontecer... Com os devidos descontos de época, contexto e personalidade, claro... 

TAMBÉM SE MORRE DE AMOR?!...
Minha lembrança da velha senhora é dos mais remotos tempos da infância. Lembro-me de seu sorriso distante e complacente. Também não me saem da memória sua voz grave e seu ritmo apressado.
Ela fora a minha alfabetizadora efetiva;  houvera sido a mestra querida, a primeira amiga da infância e da escola! Não bastasse isso, atingiram seus sentimentos uma dessas paixões de livro... Aliás, o caso bem poderia figurar nos compêndios da mais insólita literatura, já que parece impossível e romanesco demais para ser verdade. Sua imagem e história fazem dessa lembrança algo muito vívido em minha mente...
Nostálgica conturbação me reporta a momentos longínquos na Praça São Geraldo. Todo início de tarde, ela passava para apanhar-me; íamos juntas para a escola. Lembro-me da sala de aula e das folhas mimeografadas, com carimbos de bichinhos. Lembra-me também a sua letra miúda e uniforme, uma verdadeira caligrafia, na conhecida assinatura: Dora.
Dora era uma magra senhora, com pouco mais de sessenta anos à época da minha infância. Vivia numa casa grande, em companhia de Tia Pequenina e oito cachorros também pequeninos.
Resumia-se a vida de Dora à missão diária de educar. Descortinava aos olhos de crianças o mundo extraordinário das letras decifradas. Assim alfabetizara cinco ou seis gerações da localidade.
Todos a conheciam em Vida Feliz. Apesar do nome, a pacata cidade era um lugar em que o tempo se arrastava, em constante pasmaceira... E Dora, todos os dias, ia e vinha em seu trajeto imutável: da casa para a escola, da escola para a casa. Quando não estava lecionando para crianças, estava brincando com os cachorros, seus amigos. Por causa deles, porém. eu até evitava visitá-la, às vezes... Não que eu não gostasse dos bichinhos, mas havia sido mordida pelo Ringo, um cachorro cinzento com cara de mau, na entrada da casa da Vovó Maria... E tinha ficado temporariamente traumatizada (risos de medo canino)... Embora eu amasse Dora e simpatizasse extremamente com Dona Pequenina, eu temia o contato com aqueles pequenos seres, que me arranhavam, pulavam em cima  e me faziam lembrar do galope de Ringo! Por isso, eu ficava assustada e incomodada com o cortejo dos oito cachorrinhos inofensivos, em que os mais festivos, furtivamente, me lambiam os pés... De vez em quando, porém, eu criava coragem e ia visitar as duas senhoras. A velha tia tinha quase noventa anos (criara a sobrinha, junto a outras duas irmãs já falecidas) e me parecia fascinante em suas histórias de saraus e acontecimentos antigos. Narrava-me fatos passados com tal vivacidade e ênfase que estes pareciam transportar-me em tempo e espaço! Afinal, sempre gostei de vasculhar fatos e memórias. E aquelas visitas vespertinas de sábado eram bastante estimulativas à minha imaginação.
Imaginação maior, porém, tivera o destino, que reservara a Dora uma incomum história de amor... Ela se apaixonara, na juventude, por um galante rapazinho de grandes olhos azuis. Seu nome era Guido, um descendente de italianos vindos da Calábria.
Dora e Guido namoraram , às escondidas, por algum tempo, até que as tias descobrissem e impedissem o romance. O empecilho apontado pelas três solteironas era algo absurdo: o rapaz não era de família tradicional, não pertencendo "ao seu meio". E, segundo as más línguas, as tias desejavam que, como elas, a sobrinha não se casasse. Por puro egoísmo, diziam. E como realmente não era um aristocrata provinciano, Guido não tivera o aval da família da moça. Pouco tempo depois, o rapaz partia para a capital, em busca de melhores condições de vida.
A pobre moça perdera-se de tristeza com a partida do namorado. Trancafiou-se, durante meses, em seu quarto. Quem passasse pela rua podia perceber, através das venezianas entreabertas, seu choro convulsivo entrecortado por freqüentes soluços...

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Dora nunca mais namorou. Vários pretendentes arriscaram-se à difícil empreitada de conquistá-la. A professorinha, no entanto, não mais se deixou encantar. Alguns anos depois, soube do casamento do amado com uma conterrânea que também se mudara para a capital. Sofreu horrores! Mas a vida parecia incumbir-se de arrastá-la dia a dia. Finalmente, pareceu conformar-se... Envolvia-se, contudo, por uma nostalgia quase entranhada nas rugas que ia ganhando. Trouxera-lhe o tempo um sorriso curto e um olhar triste. Na verdade, seus olhos nunca sorriam...
Mas a continuidade da vida ganhava em seu apelo diário. E Dora adquirira novas raízes na prática do magistério: sua missão única de ensinar era quase um sacerdócio. Assim foi como eu a conhecera.
Avós, pais e filhos vinham sendo alfabetizados pela professora solitária. Na vida pessoal, perdera um grande amor, isto era certo... Mas construíra um grande nome e um poderoso arsenal de ex-alunos e amigos.
Tempos depois, ficara completamente só: Tia Pequenina morrera. Restavam-lhe apenas os cachorros, com as frequentes e esperadas baixas ocasionais. E Dora parecia habituar-se, gradativamente, àquele solitário jeito de viver.
Entretanto, quando já se acostumara perfeitamente àquela vidinha, um fato novo aconteceu... E, por uma dessas irônicas e miraculosas viradas do destino, cruzava as ruas da cidadezinha um automóvel diferente: um veículo incomum que parecia vasculhar os mistérios das ruas pacatíssimas de Vida Feliz...
Logo se soube que um senhor simpático – de ralos cabelos brancos e longo nariz romano – procurava Dora Costa, a professora. A pobre mulher quase morreu ao reencontrar o antigo namorado, que bateu à sua porta (e novamente ao coração!), dizendo-se desejoso de falar-lhe. Guido retornava, ainda que tardiamente. Disse-lhe: “Voltei para casar-me com você!”. Dora gelou.
Grande burburinho tomou conta do lugarejo. Todos ficaram sabendo da incrível história de Dora e Guido: a saga de um amor proibido e o “reencontro dos namorados” após mais de cinquenta anos! “Parece coisa de novela!”, era o que se dizia. O comentário alastrou-se pelos arredores e, em várias cidades vizinhas, se comentava sobre o conto de fadas de Vida Feliz.
Guido narrou, com a normalidade que o tempo infunde aos fatos mais descabidos: “Você sabe, Dora... Casei-me. O destino conduziu-me pela mão. Dei sorte nos negócios. Quanto à Cecília, não a odeie... Era uma boa mulher. Você precisava ver, Dora, como me falou na hora da morte: 'Guido, volte e case-se com Dora. Ela realmente o merece.' E aqui estou, para nos casarmos e realizarmos o nosso sonho de juventude!”...
Sonho de juventude, sonho dourado para Dora! Seu príncipe voltava! Dora ficou estática com o abrupto pedido de casamento. Não tinha dúvidas em aceitá-lo. Conteve-se, porém, pois desejava comunicar o fato ao irmão, o parente mais próximo que lhe restava no mundo. Este, contudo, se opôs duramente, pois achava aquilo uma “precipitação tardia”, algo incompreensível e insensato... depois de tanto silêncio e vácuo! Dora não pôde entender e, desta vez, não obedeceu! Decidiu casar-se e tentar ser feliz.


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O casamento aconteceu numa tarde de outono. O templo da inusitada cerimônia não poderia ser outro: a escola onde Dora trabalhara e, mesmo, vivera anos a fio! Toda a cidade compareceu ao grande evento. Eu mesma fui até Vida Feliz para testemunhar tão tocante acontecimento: um casamento com uma noiva de setenta e seis anos, a qual reencontrara o primeiro namorado cinqüenta e três anos depois! Era coisa de fazer eriçar os pêlos da alma!... Todos os presentes se emocionaram; vislumbrei lágrimas nos olhos de muitos... Aquilo parecia mesmo fazer parte de um romance: senti-me dentro d’algum clássico de época! Que lindo conto parecia começar, estranhamente já num final feliz!...
As amarras do destino, porém, não se soltam a meros golpes de sorte. Os primeiros tempos do casal preencheram-se com passeios e divertimentos. Dora estava exultante! Novo brilho tomou conta de seu olhar e até ganhara alguns quilinhos... Fora o casal morar em outra cidade, onde Guido residia ultimamente. Também tinham uma casa na serra, para onde se dirigiam com certa frequência. Era compensador ver a amiga solitária agora, literalmente, respirando outros ares!
Sempre que podia, Dora visitava os conterrâneos e amigos. Tornara-se tão alegre que até piadas contava! Dava a impressão de haver renascido. Levara somente um cachorro para a nova casa. O marido alegava que o contato com o pêlo dos animais acirrava-lhe uma bronquite crônica. Parecia cuidar bem da esposa, namorada sagrada que o esperara “pura e invicta” – como ela sempre lembrava – por tantos anos!...
O tempo passou e tamanha paixão deu mostras de não cumprir, adequadamente, o seu destino. Guido mostrava-se incompreensivo e irritadiço com a antiga namorada. Parecia haver enjoado dela e se arrependido do casamento. Com críticas contínuas e, às vezes, uma indiferença cada vez maior, trazia à noiva do passado aborrecimentos que ela não tinha, antes, em sua vidinha reservada. Dora, porém, inacreditavelmente tudo suportava, pois se acostumara a um jeito peculiar de viver... E acreditava que não saberia mais viver sozinha.
Pobre Dora! O tempo pregara-lhe uma peça: trouxera-lhe um presente antigo, com ótima embalagem e defeitos de conteúdo! As pessoas à sua volta já começavam a perceber quaisquer nuances da atmosfera negativa que a envolvia... Cadê o príncipe que retornara da distância das décadas? O encanto havia se quebrado?
Certa tarde de verão, o casal saiu de carro. Guido dirigia nervosamente. Além das condições físicas (ele não andava muito bem de saúde), talvez um lampejo emocional mais forte o tenha atingido quando, subitamente, perdeu a direção... Em meio a uma chuva torrencial na subida da serra, o carro capotou, num acidente menos que brutal, mas que colocara em risco as suas vidas, já um tanto afetadas pelos anos.
Foi o casal socorrido por moradores das imediações, que tomaram as providências necessárias. Logo avisaram o irmão e os sobrinhos de Dora, bem como os filhos de Guido. Estes foram buscá-los.
Dora teve mais dificuldades para restabelecer-se, dada a depressão que se somatizava em seu corpo e em seu íntimo. Ela própria já antevira uma separação que, sabia, não aguentaria... Não mais saberia viver sem Guido. Dizia que preferia até mesmo algum sofrimento no trato diário a uma separação definitiva e sem promessas.
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No momento da saída do hospital, os próprios parentes, respectivamente, levaram seu doente particular. Dora e Guido ganharam novos e separados endereços. Segundo os familiares, aquela seria a maneira prática de cuidar dos doentes, frágeis e debilitados ante as consequências do acidente. Diziam que, como cada qual não poderia cuidar de si mesmo e, menos ainda, do outro, melhor seria que ficassem sob os cuidados dos próprios parentes.
Entretanto, após longa temporada de assistência, na pronta restauração dos dois, permaneceu a separação. Dora, amorosa, já habituada à companhia de Guido, não se conformava em perdê-lo de seu convívio. Num passe de mágica, do mesmo modo como chegara em sua vida, dela se desprendera, deixando a dor de uma saudade profunda, ainda maior que aquela da juventude!...
Numerosos esforços empreendeu Dora para reatar o casamento, mas o homem, frio e insensível a seus apelos, mostrou-se inacessível. A separação era ato consumado e irrevogável. Onde andava o encantamento que ditara o seu retorno ninguém sabia explicar...
Dora voltou a residir em sua antiga casa. Voltou à vidinha pacata de antes, do modo como vivera nas décadas anteriores. Mas agora, tudo era diferente. Ficaram o vácuo de uma lembrança real e o fantasma de uma saudade plena, invencível. Até porque o seu objeto de amor tornara-se algo palpável: Guido saíra de suas fantasias direto para a vida real! E agora novamente virava sombra, na névoa intransponível da solidão.
Antes aquele homem nunca tivesse voltado e Dora (acredito veementemente!) ainda viveria muitos e muitos anos, em placidez de paz e espírito. Ora, se ele não a queria para todo o resto de seu sempre, por que então voltar e arrancá-la de seu platonismo já contornado pelos anos?!...
Dora adoeceu gravemente. Manifestaram-se súbitos e inexplicáveis problemas em sua saúde, inabalável nos antigos tempos da solidão. Somatizaram-se os males na proliferação orgânica de uma tristeza implacável e sem volta. E a morte começou a rondar-lhe a velha casa amarela... Dora ficou acamada. Parecia que nada poderia arrancá-la do seu leito de dores.
Fato semelhante nunca se vira: um corpo que se aniquilava, uma vida que se esvaía, uma saudade que matava, um coração que morria... Dora não resistiu à dor da segunda e crucial perda. Após a separação, vivera pouco tempo mais! Não por causa de consequências do acidente (do qual se recuperara completamente), mas pelas seqüelas emocionais da separação de seu eterno amor. Pela morte do sonho, deu-se a morte da alma, ainda em vida. E o corpo não agüentou! A moça apaixonada, cujo espírito não envelhecera, ao reencontrar o namorado, havia transformado em ouro a poeira do sonho... Todavia, o ouro se desfazia e voltava ao seu estado de antes. E a morte começava a tomar conta da vida.
Dora morreu na primavera e seus sonhos se transformaram em flores. Toda a sua legião de amigos sofreu intensamente e reservou-se o direito de odiar ao insensível senhor, que se desmistificara a seus olhos. Eu, pessoalmente, não o perdoo pelo mal irreparável que causou à minha amiga. E vi, pela primeira vez, alguém que, literalmente, morreu de amores... como nos romances! E a minha mestra, apesar do muito que me ensinou, não pôde me mostrar, em suas lições, o teor de uma luz que se apaga, num sopro leve e sem graça... Eu assistia à morte do sonho e da pessoa... e não conseguia compreender tudo aquilo!...
Anos voam como poeira cósmica,
Como brisas leves e sorrateiras
E eu ainda não aprendi com a lógica
A calcular conseqüências inteiras!...


Minha professora também não pôde dominar essa lógica. Talvez nenhum humano possa. Por isso, também se morre de amor...
Por Sayonara Salvioli

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O comercial inesquecível...

Atendendo a pedidos, que chegaram também pelo Orkut, estou
inserindo o vídeo em si, o próprio objeto representativo
da postagem anterior...

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... um excelente modo - o melhor! - de vivenciar o texto...

E, depois de relembrar o comercial, nada como mergulhar na
leitura!