sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A mulher e o gato



Texto publicado, em 1999, no site cultural Pátio, no espaço Crônica do Dia, e em 2000 na "Gatolândia", antologia editada pela Blocos.

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Conheci a mulher na vizinha casa dos Santos Abud. Lembro-me bem da primeira impressão que me causou: não me despertou simpatia. Suscitou-me, antes, um sentido de desconfiança, denunciado pela frieza do olhar. Sem querer parecer junguiana, costumo conceber, numa pretensa análise de almas, a grande variedade dos tipos humanos. Meu grande hábito é observar as pessoas, delas buscando intuir a essência do espírito. Assim vou acumulando um arsenal múltiplo de personalidades estudadas. E, estranhamente, aquela mulher desconhecida remetia-me a análises profundas da alma humana.

Era uma criatura opaca, dessas que o viço e a transparência há muito abandonaram. Mulher do povo que era, trabalhava como doméstica e emprestava à vida dos patrões um pouco da sua. Seu dia a dia confundia-se com o dos habitantes da casa, que adotara como sua responsabilidade. Apesar da impressão inicial negativa que me despertou, aos poucos foi ganhando a minha credibilidade.

Em seus sessenta e poucos anos, malfadados pelos maus-tratos do ofício, tinha rosto cansado e pele alquebrada. Trazia sempre um desbotado lenço estampado sobre a cabeça e trajava roupas preferencialmente exuberantes, numa perceptível desproporção e assimetria de cores e formas. Era morena, tinha o rosto achatado e um certo ar inflexível. O olhar era brilhante, porém calculista. Falava pelos cotovelos e, ao que se sabe, tal característica a impeliu, por diversas vezes, à perda do emprego. Essencialmente porque, ao falar tanto, já não sabia se fazer ouvir. Também raramente se predispunha a escutar o que lhe era dito, fator preponderante de irritação da patroa.

Sua rotina começava cedo; iniciava as tarefas da casa nas primeiras horas do dia. Entre ininterruptas narrativas e "uma coçadinha" de cabeça, mesclava seus afazeres. Era estabanada na execução de algumas funções, mostrando-se, porém, inigualável cozinheira. Seus pratos eram verdadeiros petiscos de deuses! Sabia, como ninguém, imprimir ao sabor da comida a prazerosa sensação de paladar satisfeito. O arroz-com-feijão de cada dia era uma verdadeira ambrosia; todos da casa lambiam-se de prazer à hora das refeições!...

Havia dias em que estava estupidamente mal-humorada, debatendo-se em reclamações constantes. Era realmente de causar mal-estar até mesmo à gentil Dona Cândida, que, como seu nome, emanava uma certa placidez de espírito. Esta era normalmente calma e paciente, irritando-se, contudo, com Dona Anísia. Vez por outra, perdia as estribeiras, a ponto de quase despedir a falastrona. 

Eu, que convivia no ambiente, passava a me interessar, cada vez mais, pelas estranhas atribuições pessoais daquela senhora. Ela misturava em si qualidades e defeitos que pareciam não combinar. Parecia pouco plausível que uma pessoa tão dedicada ao trabalho pudesse ter aquela expressão no olhar e nos gestos. Também era estranho que, com tanta respeitabilidade pessoal e moral (mostrava elementares princípios de ética), não se deixasse afetar pelo amor da convivência. Dona Anísia não fazia mal a ninguém, mas também não se tomava de amores por aqueles com quem convivia. Talvez sua vida passada de sacrifícios e sofrimentos pudesse explicar aquele jeito avesso.

Confidenciou-me, certo dia, que fora casada com um homem que não gostava de tomar banho. Afora as asquerosas condições higiênicas do companheiro, este ainda a maltratava e atrapalhava... Por causa do fulano, já até perdera "importantes empregos”... Seus filhos viviam longe, e a sua companhia era um bonito animalzinho branco e peludo: um gato angorá chamado Mano. Era esquisita e improvável a relação dos dois. Eu, que nunca estudara animais, vi-me subitamente interessada pela psicologia de ação do bichano. Este acompanhava a pobre solitária na ida e na vinda do trabalho. Dona Anísia morava dentro do espaço da chácara, a cinquenta metros da residência dos patrões. E, apesar da curta distância que a separava do local do emprego, compromissava-se o gato a fazer-lhe companhia, impreterivelmente, pela manhã e à noite.

O gato chegava logo cedo com Dona Anísia à casa dos Santos Abud. A seguir, Mano retornava ao casebre próximo da empregada, onde permanecia por todo o dia. Não se via ou ouvia qualquer sinal do animal, que se mantinha oculto no interior da casinha branca de Dona Anísia. Somente à noite o bichano apontava ao longe, ressabiado, desmascarado apenas pelo olhar ofuscante. Silencioso, prostrava-se sob uma árvore próxima à cozinha, diante da qual esperava, deitado, o retorno da amiga. Noite clara ou tenebrosa (nem mesmo tempestades o desobrigavam da missão, apesar da natural aversão de gatos por água), lá estava ele a perscrutar os passos da companheira, que com ele retornaria, mais uma vez, ao lar compartilhado...

Era profundamente impressionante ver a precisão cronológica do gato, que, na hora determinada e constante da saída da mulher, assomava à casa de seus patrões. Tal cumplicidade irracional (seria realmente?) chegava a assustar-me. Como poderia um animalzinho, com tanta acuidade, compreender e efetuar aquela sistemática de vida? Mano, notadamente, não sabia ver horas e falar, mas marcava o tempo como um humano, além de parecer aveludar, com falas caladas, a vida rústica daquela mulher.

Ainda hoje me lembro com carinho da pobre criatura, que abandonou a casa de meus vizinhos meses depois. Diante de seu natural desapego, ela não se fixava, permanentemente, em um emprego. Tal fato (como tudo nela) impressionava a quem quer que fosse, já que detinha em si algumas qualidades desejáveis. O caçula da casa, inclusive, apegara-se a ela. Acho que entendi o motivo: Dona Anísia imprimia uma certa ordem e segurança ao lar, apesar do quê de insatisfação e afastamento que, desde o início, percebi em seu olhar. Mas ela não criava raízes, simplesmente porque não as tinha em seu espírito. Seu liame era apenas o gato.

Valores e estranhezas à parte, a maior lembrança que tenho de Dona Anísia é a sua incomum relação de amizade. Normalmente, o cachorro é considerado o grande amigo do homem. Todavia, naquele caso, o amigo fraternal era um pequeno felino.

Minha alma de poeta faz-me, comumente, divagar por essa lembrança. Vez por outra, pareço vislumbrar em pensamento o olhar enigmático, longínquo e soturno de Mano... E, ainda que eu viva cem anos, nunca me esquecerei da estupenda história real daquela mulher e seu gato.


Por Sayonara Salvioli

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15 comentários:

mila gomes vaz disse...

Parece muito com uma empregada que eu tive!

dani lemos disse...

Que gato era esse? sEmpre tive cachorro. Não sabia que gato também era assim!

duda castro disse...

Gatos que brilham... como neon??? como assim a mídia não deu cobrtura a isso?!?! Não vi nenhuma notícia sobre.

rodrigo de paula disse...

Se a cronica retrata o dia a dia, essa empregada deve ter existido mesmo... Pela sua descriçao fiquei imaginando o manjar dos deuses que ela fazia! sera que ela quer passar uns meses la em casa???

lenita sousa disse...

Na minha casa tem oito gatos. Eles são animais muito meigos e apegados. Pra mim a amizade de Mano é muito facil de entender.

raphael campos disse...

Eu não acho isso que a pessoa acima falou não. Acho os gatos ressabiados, com um olhar traiçoero... Esse Mano parece um caso atipico.

tadeu disse...

parada surreal essa de gato que brilha no escuro!!!!

Raquel Salomão disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Entre letras disse...

Obrigado pelo elogio, isso me traz motivação e inspiração vindo de uma pessoa como vc.Espero ter sempre contato com vc e desejo saúde e paz na sua vida.

Helena Rubim disse...

Oi, amiga! Você não tinha me contado sobre essa premiação de publicação... junto com esses ícones todos... Veríssimo, Millôr, MOacyr Scliar, Gilberto Dimenstein, Mauricio de Souza.. e até a saudosa Rachel de Queiroz! Parabéns! Você merece!!! Há muito tempo que você já faz coisas bacanas!
Como vc tá vendo, li tudo e fui até no link da Crônica do Dia!... E principalmente comentei aqui, viu! Escreva mais pra gente que essa sua narrativa rica, como todo mundo diz, é uma delícia! A gente vê na mente as imagens todas do que você tá narrando! Adoro!

Cláudia Bento disse...

Sayonara, já tem um ano ou mais que não nos vemos! Mas sempre tenho notícias suas... Quando Helena me falou do blog fiquei feliz, pois vou poder acompanhar um pouco do seu trabalho por aqui!
Adorei a crônica!!!

Mark_rj disse...

Os gatos interagem de uma maneira muito peculiar haja vista sua retratação pelo egípcios - são "místicos" - percebem qualquer mudança de energia, bons companheiros e com uma beleza que estampa o olhar de algumas mulheres .. eu os adoro!

Parabéns pelo blog!

Beijos Marcelo Albuquerque

FINA FLOR disse...

queriiiida, que espaço mais charmoso :o)

obrigada por visitar o canteiro e partilhar suas impressões.

toda sorte do mundo por aqui.

beijos e boa semana

MM.

>>> depois venho com mais tempo e calma para ler tudo :o)

Mariana S. disse...

Essa D. Anísia deve ter existido mesmo! Como é uma crônica assim com ares líricos de um conto, fica a impressão de que ela foi alguém real, mas com características de personagem de ficção. Enfim, a leitura faz a gente viajar...

Entre letras disse...

Oi sayonara!!!como vc descobriu meu blog?Agora que sei o seu, visito sempre e colocarei seu blog na minha lista.Me visite sempre, fiquei satisfeito e orgulhoso com sua visita.Bjs e abraço e fique com deus.