segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O doce sabor da novidade



O mais fascinante da vida é a prerrogativa da novidade... Essa história de não sabermos o que está para acontecer, as mil e uma curvas sinuosas das esquinas da existência! Refiro-me àquelas surpresas mágicas que permeiam o nosso cotidiano sem que percebamos direito o que ocorre.

Com toda a franqueza, eu amo a novidade! Ter a possibilidade de ver, descobrir ou vivenciar mil coisas diferentes!... É como ter diante dos olhos uma gama variada de formas, cores e paladares, como um tabuleiro de 49 bombons decorados diferentemente para enfeitar e dar sabor à Ceia de Natal! Providenciei isso para a minha ceia deste ano, de modo que cada bombom do tal mosaico tivesse aparência e recheio diferentes dos demais. Assim, quando alguém levava à boca a guloseima, não sabia o que iria encontrar quando o chocolate espocava, deixando descobrir o seu licor: de cereja, anis, lichia, amora?! Em analogia, que sabor, cor ou emoção terão os novos e distintos fatos que comporão o seu mosaico do  novo calendário? Já pensou quanta surpresa (quanta novidade!) poderá compor a sua mesa de ofertas em acontecimentos no próximo ano?

Pensando em tais revelações, afirmo e reafirmo que não tenho medo do que sobrevirá à incógnita dos dias, e cultivo mesmo a dinâmica de acontecimentos inimagináveis e revolucionadores. Sabe aquelas pessoas que têm medo do novo e tremem ao simples pensamento de terem sua vida modificada? Pois é... Não sou uma delas; nunca fui! Ao contrário, carrego comigo uma espécie de sensor de novidade... A cada nova passada do tempo, faço a triagem do recente com o meus radares superpoderosos de sucção do marasmo. Isso mesmo: monotonia comigo não tem vez! Nunca soube o que é rotina; invento todos os dias fórmulas novas de viver. Faço coisas em horários diferentes, renovo sempre meu guarda-roupa, invento mil misturas de fragrâncias na hora do banho, mando preparar uma receita de bombons diferentes entre si e sonho sonhos novos, os mais recentes sempre mais ousados que os anteriores!

Assim é que – quando chega o fim do ano – e me ponho a fazer aquele célebre retrospecto do meu dois mil e tal, me deparo com as surpresas impactantes da velha e boa novidade... Isso é uma coisa que me encanta em todo pré-reveillon: a possibilidade infinita de irmos ao encontro de um mundo novo! E na hora propriamente dita da virada, sempre me pergunto: que surpresas me trará este novo ano? A propósito, você já parou para pensar sobre isso? Reflita e veja, por exemplo – com aquela sua potencial lente interior – os fatos que aconteceram neste ano que passou e você não esperava... Pensou? Percebeu como aconteceram coisas que você nem imaginaria: telefonemas, e-mails, convites, viagens, surpresas?!... enfim: novidades! Novidades boas, chamamentos da sorte, mudanças bruscas e similares!

A vida é, às vezes, uma espécie de roda-gigante: põe você numa rotativa cadeirinha mágica, levando-o a passear por aí, de parada em parada nas voltas dos ares, dando-lhe a cada estágio uma visão nova e outro pedaço do horizonte... Da minha cadeirinha mágica este ano, por exemplo, eu pude vislumbrar várias nuances de horizontes que se avizinharam de mim, e outras que são, ainda, um prenúncio na faixa rósea do céu das possibilidades!

Às vésperas do brinde ao próximo ano, aposto que um milhão de novidades estão por aí – borbulhantes e saltitantes no ar – prontas a serem apanhadas pelos humanos mais intrépidos! Não deixe que tudo fique apenas no ar, numa promessa de espuma! Faça como eu: capitaneie o time da busca pelo novo... brinde à surpresa feliz da renovação e deguste o doce sabor da novidade!

P.S.: Desejo a você, no tempo que se aproxima, um tabuleiro de novidades – diferentes, coloridas e prazerosas – como os bombons da fotografia! Que você possa usufruir de toda a variedade de imagens, cores e sabores da emoção que a vida tem para oferecer! Que o calendário anunciado seja como um atrativo mosaico de coisas novas!

Por Sayonara Salvioli


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... mais: Paz, amor, fortuna e bem-aventurança aos calorosos de coração!


Deus abençoe o Ano Novo!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Poderosa intuição


Imagem: Col. LS
Minha intuição é algo com que realmente posso contar. Pelo menos, na maior parte das vezes. Mais que isso, normalmente, ela é uma espécie de bússola, ou mesmo, uma poderosa arma no trato com o cotidiano.
Memoráveis são os casos de acerto preciso da minha antevisão intuitiva. Quero mostrar, com isso, as inúmeras vezes que previ algum fato com razoável antecedência. Normalmente, tal se dá por meio de sonhos. Costumo sonhar – na véspera ou com um intervalo de cinco a dez dias – com algo que está para acontecer. A revelação onírica pode ter conotações simbólicas ou, em casos especiais, mostrar cenas claras ou um fato evocativo sobre determinada pessoa ou situação.
Sendo mais clara, vou relatar aqui alguns desses casos intuitivos que posso classificar como especiais. Um deles aconteceu há cerca de quatro anos... Comecei a sentir, certo dia, algo estranho, uma sensação de perigo que rondava, com acurada precisão (não me deixava nenhuma dúvida) a figura de meu pai. Tremendo pânico tomou conta de mim, especialmente pelas fragilíssimas condições de saúde dele – agravadas, com o passar dos anos por uma lesão medular que lhe impedira a mobilidade natural. Diante disso, dificilmente uma ameaça, para mim, pairando sobre a cabeça de alguém seria mais grave do que aquela, terror premonitório, que apontava na direção inconteste de meu paizinho!... Coloquei uma foto dele na área de trabalho de meu computador e, na constância dos dias – ao longo de minhas atividades de escrita – fazia orações e procurava emanar eflúvios positivos na direção de seu olhar doce, estampado na minha tela. Além dos cuidados espirituais, também procurei tomar medidas práticas de prevenção: liguei para a minha mãe (eles moram a 300 Km de distância) e avisei sobre o perigo que pressentia. Alertei: Tome cuidado para que meu pai não se acidente, pois sinto que ele corre perigo por esses dias. Paralelamente a isso, pedia à minha filha, quando em vez, que também fizesse suas orações, já que infelizmente, sinto que algo irá acontecer a seu avô, sem demora.
Palavras de sibila! Cerca de dez dias depois, o telefone toca; era minha mãe... Antes mesmo que ela começasse a dizer qualquer coisa, in continenti, perguntei: O que aconteceu com meu pai? Atente-se para o detalhe de que ela me liga várias vezes durante o dia (sou filha única), mas naquele telefonema – precisamente naquele momento – minha intuição certeira me avisou do fato recentemente acontecido. Estava consumado: meu pai sofrera uma queda brutal e quebrara o fêmur; urgia ser feita uma cirurgia. Antes de tomar qualquer providência e viajar para lá, agradeci a Deus que a notícia não tivesse o atroz apelo de um ultimato. E rezei novamente para que ele se saísse bem de tudo aquilo, embora eu tivesse absoluta certeza de que – mesmo com o sucesso da operação, após a realização desta – ele não mais voltaria a andar. E assim foi.
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Outro episódio da série Intuição teve lugar numa manhã aparentemente comum, quando – depois de uma noite de sonhos truculentos – acordei com aquela estranha sensação de revelação. Da cama, com voz notadamente alterada, chamei minha filha, que tomava café da manhã. Ela veio até mim, já um pouco aflita e sem nada entender, quando lhe perguntei se ela pretendia ir ao cinema com as amigas naquele dia. Após sua negativa, eu lhe disse que então estava tudo tranqüilo, pois meu sonho premonitório de perigo só fazia sentido se ela fosse passar – com as colegas Fulana, Beltrana e Sicrana – pelo Cine Rockfield, reunindo-se com elas em frente a este. Relatei-lhe que sonhara com ela sendo assaltada, junto às colegas, na porta do cinema, num assalto em que lhes levavam os celulares.
Minha filha foi para o colégio, e eu voltei a dormir. O horário das aulas transcorreu normalmente e ela retornou a casa. Mais tarde, despertei efetivamente para o dia e fui trabalhar. No fim da tarde, o telefone tocou e Raquel o atendeu. Após ouvir uma pergunta e titubear por uns segundos, decidiu não aceitar o convite e, de modo sutil, prevenir as amigas quanto a qualquer resquício de perigo advindo dos sonhos da mãe. Isso de modo bem disfarçado, pois, como uma boa e usual adolescente, teria “brios” em falar dos poderes maternos manifestamente telepáticos (risos)... E suas amigas se dirigiram ao cinema. Horas mais tarde, minha filha fora surpreendida por novo telefonema das colegas, que, aflitas, lhe relatavam que haviam sido assaltadas em frente ao cinema e que os assaltantes levaram os seus celulares. Como o leitor pode constatar, mais precisa não poderia ter sido a minha intuição onírica.
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Outro fato, bem mais recente, aconteceu quando, após um desses painéis noturnos reveladores, acordei e disse para a minha filha: Vai acontecer alguma coisa hoje. Meu leitor, você bem pode imaginar o que não significam palavras assim emanadas de minha intuição, já célebre entre familiares e amigos. Minha filha, então (coitada!), a certo momento desenvolveu considerável pânico ante minhas bruscas e solenes declarações. E não foi diferente naquele dia, com certo agravante por parte de minha autoconsciência de preservação: constava da minha agenda um ida a determinada editora, localizada em subúrbio muito visado, ou seja, em zona de perigo. O problema, então, me parecia maior, mais forte e efetivo, de antemão. Provavelmente, algo diferente estava fadado mesmo a acontecer. Assim, contrariando Monteiro Lobato – que recomendava que as pessoas “não atentassem muito no perigo” –, acreditei na possível predestinação e comecei a tomar as prováveis providências. Primeiro, rezei. Depois, separei documentos e vi se a minha filha estava com cópias de chaves e cartões de banco. Por um ligeiríssimo átimo, até pensei em não ir à editora, mas desisti da desistência, alegando para mim mesma que eu não poderia suspender o ritmo da vida. Assim, por ser a um só tempo responsável e arrojada, impetuosa, peguei pela mão a minha coragem de sempre e tomei um táxi para a Zona Norte.
Incrivelmente, nas primeiras horas do dia, tudo parecia transcorrer com a calma sem graça das situações rotineiras. Felizmente, diga-se de passagem. E assim, no ritmo cordato das horas que se sucediam sem maiores alardes, passou toda a manhã. Bem mais atenta do que de costume (apesar da forte intuição, sou curiosa e ridiculamente distraída), durante o percurso até a editora, procurei observar, através da janela do táxi, todo o movimento do trânsito e das coisas à minha volta. Porém, nada de significativo parecia saltar às minhas vistas. Em paz também cheguei à editora. Lá chegando, tomei todas as providências de trabalho necessárias e, cerca de uma hora e meia depois, partia do local no trajeto de volta à Zona Sul.
Próximo à referida editora, existe um viaduto considerado de alta periculosidade. E profundo foi o meu suspiro de alívio ao cruzá-lo já na volta de minha missão àquele lugar. Quase não acreditei quando, após atravessá-lo – pela segunda vez, naquele dia de intenções escabrosas preconizadas –, pareci vencer o anunciado perigo. E talvez tenha sido exatamente nesse momento de relaxamento que ouvi um som truncado na traseira do automóvel. Meu coração quase saltou pela boca quando – acordada pela realidade exterior aos meus pensamentos –, pude perceber que um ônibus batera no táxi que me conduzia! Talvez vendo a minha expressão momentânea de leve pânico (risos nervosos), o taxista tentava acalmar-me: “Não foi nada, senhora. O ônibus raspou a traseira do meu táxi. Mas a senhora está bem, não está?” Ao que lhe afirmei estar bem e contei a minha história. O pobre homem ficou estupefato. Menos estarrecida só ficou a minha filha já treinada em grandes emoções... Após me conscientizar do ocorrido, peguei o celular e lhe disse: Fique calma: o perigo já passou. Imagine o que essa menina não passa, na constância dos dias!...
Após tais relatos, no entanto, eu gostaria de dizer ao leitor que também não tenho bola de cristal... Apenas sou avisada em certos momentos de perigo. E desejo, sinceramente, que em tais instantes graves, meus anjos nunca falhem. É bem verdade que – dadas as minhas vulnerabilidades humanas – há momentos em que eles podem estar dormindo... Aí a boa e velha intuição pode não me atingir a consciência a tempo, em vista, principalmente, de outras conjunções cósmicas que, porventura, possam atingir o céu da minha rotina. Ainda assim, prometo ao leitor que – na maior parte dos casos – procurarei desenvolver uma força telepática tal a ponto de livrar – com inspiração e iluminação divinas –, a mim e aos meus, dos perigos que rondam as vivências humanas. E, quem sabe, paralelamente a esse dom que tenho desenvolvido nos últimos anos, eu não possa chegar, por exemplo, a uma superclarividência lógica e desvendar os números premiados da Mega-Sena?... Aí, caro leitor, você pode apostar: não me esquecerei de sua prévia companhia aqui neste âmbito e o convidarei para integrar o bolão onírico da sorte!!!
Por Sayonara Salvioli

P.S.: Falei hoje da minha intuição com revelados “poderes delatores do perigo”. Outro dia, no entanto, escreverei sobre outro tipo de poder intuitivo, o qual trata da sensação leve e de regozijo que é capaz de antever momentos meio mágicos, aqueles que não se atrelam, necessariamente, a circunstâncias cabais de riscos, doenças ou acidentes. Em 1988 e em 1999, passei por coisas assim. Mas isso é matéria – e profícua! – para outro post!

sábado, 20 de dezembro de 2008

Pádua renasce com o Natal...



Tolstoi disse, sabiamente: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia". Creio mesmo que poucas coisas afetem tanto os humanos como a lembrança e o amor de sua terra. A aldeia de cada um é sua identidade mais arraigada, seu elo mais forte e sua expressão mais genuína. Porque não há no mundo um lugar que se compare à sua própria terra.

Assim é que a nossa cidade é aquele pedaço de universo que mais nos diz respeito. Se um oceano ou uma cordilheira nos separam, ainda há uma força capaz de nos teletransportar a uma ordem de nosso desejo: o de lá retornar, sempre, para nos reabastecermos de energia. E realmente é necessária essa retroalimentação em relação à terra de origem.

Eu caminho sempre em direção ao que me chama, mas sem nunca deixar de voltar os olhos para o início de minha jornada. É por isso que trago comigo a herança da terra, uma espécie de código geográfico de um endereço que me define na cosmologia do tempo-espaço. Por isso é que trago em mim, fortemente, a cidade de Santo Antônio de Pádua.

Embora eu não seja paduana de nascimento, sou cidadã paduana: oficial, convicta, veemente. Vivi na cidade durante quinze anos, alguns dos mais importantes de minha vida, pois foram os que viram minha filha nascer e crescer. Tenho a alegria de saber que Raquel nasceu em solo gentil de pessoas gentis, cresceu por entre espaços cheios de liberdade, aprendeu a conviver e a desenvolver solidariedade numa sociedade harmônica e feliz. Tal núcleo de convivência, no entanto, vive hoje um momento difícil: filhos seus, de todos os bairros – e em todas as direções – se sentem perdidos diante da força arrebatadora das águas do Rio Pomba.

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Mesmo para quem está distante da cidade ou nunca viu de perto uma enchente, não é difícil imaginar o desespero que seja – de um momento para outro – ter a casa invadida por águas que transbordam e parecem adonar-se de todo o resto da paisagem. Independentemente de riscos maiores, vitais, e de desequilíbrios sociais mais graves, a questão material de ter os próprios pertences perdidos é algo muito sério. Eu fico imaginando – e com certeza, você pode imaginar também – que terrível sensação não deve ser o vácuo de uma casa invadida – de repente! – tendo seus móveis, seus livros, suas louças, suas roupas, seus eletrodomésticos e todos os itens da harmonia cotidiana levados ou corrompidos pelas águas. É claro que a vida é sempre o mais importante, e se ela permanece, todo o resto se reerguerá, por certo. Mas pense bem que tsunami na vida de uma família deve ser a chegada de uma correnteza amarela e brutal, dispersando as coisas mais sagradas de sua casa, aquelas que dão alma ao lugar e alimentam, todos os dias, a vida de seus moradores!... Casas em lugares mais altos ou próximas ao rio, bem equipadas ou humildes, habitadas ou fechadas, todas, assoladas sem mais nem menos por uma onda surpreendente de pavor! Num espaço de poucas horas – sem que as pessoas tivessem tempo de providenciar suportes para suspensão de seus móveis e objetos –, todos os apetrechos e construções da mão do homem pareceram tão frágeis como nunca antes se imaginou... Estabelecimentos comerciais inteiros perdendo seus artigos, alimentos perecendo, casas ilhadas sem comunicação ou acesso a quaisquer bens de consumo. Desliga-se a luz, emudecem os telefones, esgota-se a despensa... as padarias e os supermercados estão fechados; crianças precisam tomar sua mamadeira, mas o leite acabou e não há onde comprá-lo. Nem é possível ir a qualquer lugar sem um barco e uma coragem leonina!... Os hospitais estão inundados e os doentes sem proteção. Tudo é dificuldade! O homem duvida de si mesmo quando vê que o seu poder de decisão/ação está bem aquém do que lhe dita a natureza.

A tragédia é inevitável. Dos mais autônomos aos mais carentes, praticam-se perdas pessoais e desesperanças humanas. Para quem está longe, como eu, mostra-se o quadro desolador de um rio sem fim invadindo as praças, o átrio da igreja e todas as ruas que fazem a movimentação da cidade. É desalentador imaginar a face da destruição quando esta aparece sem avisar e se adianta contra tudo e todos. Fico muito triste ao ver e imaginar a equilibrada Santo Antônio de Pádua dançando o forçoso balé das águas de um cataclismo...

A comunidade precisou de ajuda e quase enlouqueceu no ocaso de um silêncio só cortado por barulho de correnteza. Esperaram-se providências da Defesa Civil, aguardou-se uma ajuda dos céus, e a população se desesperou quando não viu, acima de suas cabeças, helicópteros portando mantimentos, agasalhos ou quaisquer materiais de apoio. Apenas a solidariedade de alguns paduanos valorosos, que se aventuraram nas águas levando socorro a seus conterrâneos. Felizmente, dias depois, chegaram barcos em maior quantidade e os helicópteros da Marinha do Brasil. Paralelamente, a situação parecia amenizar-se, quando recursos da Defesa Civil e ações do Corpo de Bombeiros começavam a distribuir alguma tranquilidade.

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As águas baixaram; o rio voltou a habitar sua antiga morada, mas um cenário de desoladora destruição é agora a visão da realidade. Moradores e amigos visitantes lançam-se, em mutirão, à limpeza das casas. Novamente se enxergam o solo, as ruas e os jardins. Pádua ressurge, mas por toda parte – posso pressupor – há uma aura de tristeza, um cântico silente, como se a entoar o som de algum estranho cortejo... Algo parece ter morrido; uma parte da integridade local e fragmentos da identidade da cidade parecem ter ido embora... É que Pádua foi invadida, violada, e parece ter perdido anos – talvez décadas – de sua saga urbanística. E isso deixa forte angústia no ar, principalmente porque há irmãos desabrigados, literalmente sem chão ou teto; outros, irremediavelmente afastados de parte de suas histórias de vida. Tem lugar, agora, a incineração de pertences destruídos pela força das águas. Tudo se dá como se num ritual de abandono da tragédia, ao se deixar a tristeza para trás. Vi fotos de pessoas nas praças, livrando-se das marcas de destruição deixadas em suas casas. Apesar da união solidária que enxerguei nas imagens, senti também um aperto no peito ao me certificar de que – muito além daquele desfazer – há pessoas recomeçando do zero, talvez sem a força necessária da esperança.

Na verdade, a natureza não é inimiga. Os últimos tempos têm dado conta, no entanto, de um distanciamento do homem de seu meio, exatamente em virtude do processo de desrespeito ao ambiente que vem aumentando com os anos. Cada vez mais, a relação entre o aquecimento global (e outros fatores) e os desastres ambientais tem redundado em tragédias, mortes e arrebatamentos brutais. Inúmeras catástrofes naturais, infelizmente, fizeram parte da história deste ano que termina. Dentre estas, as recentes enchentes em Santa Catarina e as que se deram em diversas cidades do Norte Fluminense, bem como as ocorridas em Minas Gerais, as quais convergiram para o atual estado de coisas em Pádua e imediações.

Sem dúvida, se faz necessário que os governos se organizem em estudos e execuções de políticas ambientais profiláticas, quando tanto já se perdeu pela mão desastrosa do homem. É certo que cataclismos e alguns outros fenômenos independem da eficácia da administração pública, mas – ante a terrível enchente ocorrida em nossa cidade – é imperioso que se estude um modo organizacional de se acolherem os dizimados pelas águas. Refiro-me não aos que tiveram perdas reparáveis, na medida em que uma situação mais abastada lhes permite uma reconstrução menos difícil. Falo daqueles que, agora sem casa ou destino, ficaram à mercê da solidariedade e da providência. Ergamos aqui uma voz que clama por uma forma qualquer – ante os recursos a serem oferecidos pelos órgãos e meios competentes – de se executar uma ação efetiva e eficaz de acolhida dos reais necessitados. Penso que também nós, cidadãos, podemos fazer aquilo a que normalmente chamamos “a nossa parte”. Assim foi que vários paduanos – alguns mesmo morando em outras cidades – se organizaram e criaram comunidades no Orkut, trocaram informações, providências e tiveram louváveis iniciativas, como a de se estabelecerem pontos receptores de donativos para os mais atingidos pela enchente.

Finalmente, gostaria de expressar que, apesar da tristeza sentida, é preciso secar as lágrimas, erguer o peito e arregaçar as mangas! É claro que, mesmo de longe, me detive – durante várias vezes – e chorei diante de fotos divulgadas na Internet. Minha filha, paduana amorosa, chorou por dois dias e não conseguiu se movimentar normalmente no Rio: perdeu festas a que ia e ficou atrelada ao telefone e ao Orkut, atenta a quaisquer notícias ou comunicados que precisasse transmitir. Mas, assim como você e eu, ela sabe da necessidade de todos – moradores ou não da cidade – colocarem um sorriso no rosto e saírem por aí, na dinâmica da vida, repondo os tijolos de sua rotina no lugar de antes, com a firmeza e a sensatez das construções sólidas. Para isso, a ordem deve ser lavar o solo, limpar a casa, retirar todo o lodo que restou... É momento de procurar o próximo e não ter medo! Agir e recomeçar, como pressupõe o resto das coisas que nos chamam em 2009. Creio que a esta situação se aplique algo que Dalai Lama disse: “...os fracos se intimidam; os fortes abrem as portas e acendem as luzes”. É hora, pois, de o paduano retornar à sua casa, abrir as portas, acender as luzes e recomeçar a sua história de vida do ponto onde parou. Certamente, assim será que – com as bênçãos de um renascer divino – Pádua renascerá com o Natal!

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Se você nunca pensou que uma cidade pode ter alma, acredite: Santo Antônio de Pádua tem...

Pádua, cidade das rochas, cidade das águas...
... Que o paduano ausente, feliz, rememora,
Junto a intentos, alegrias ou mágoas
Que leva consigo ao ir embora!

À margem do Pomba, ante a Ponte dos Arcos...
Infância e juventude, entre sonhos e lendas;
Em anos felizes e dourados, histórias e marcos:
Danças, folguedos, folclores, parlendas...

(...) Há no interior das cidades tal vida e magia
Que faz pitoresco um mero cotidiano...
Que dá ao dia simples certo teor de alegria
No calendário lento que perfaz cada ano...

(...) Hoje eu sou um paduano ausente
Que vive lá fora, em terra de outrem!
Mas cá estou vivo, em espírito, presente,
Sorrindo tenuamente, ao lembrar de ontem!...

Por Sayonara Salvioli


P.S. 1: Colabore com os atingidos pelas enchentes; doe roupas, alimentos ou quaisquer pertences que possam trazer benefícios aos que estão precisando de ajuda.

Pontos de recebimento de donativos para Santo Antônio de Pádua, Itaperuna e Região Norte / Noroeste Fluminense:

No Rio de Janeiro:

Grupo Bandeirantes de Televisão

Rua Álvaro Ramos, 350 - Botafogo - Rio de Janeiro - RJ

http://www.apontador.com.br/maps/?lbsid=@22X8J6X6#

Em Niterói:

Paróquia de São Judas Tadeu

Av. Ari Parreiras, s/n - Icaraí

http://www.paroquiadesaojudastadeu.org.br/

Especifique que suas doações se destinam ao Noroeste Fluminense.

Você também pode procurar qualquer quartel do Corpo de Bombeiros para fazer suas doações.

Colabore! O homem é aquilo que faz!

P.S. 2: As fotos que ilustram esta postagem representam apenas algumas nuances do terrível desastre que se abateu sobre a cidade. A ausência de créditos se deve ao fato de estarem sendo utilizadas coletivamente, em manifestações extensivas de solidariedade. Na verdade, as pessoas tiraram as fotografias na medida em que isso lhes era permitido, ante a dificuldade de locomoção. Em muitos casos, o fizeram das janelas de suas casas. Certamente, muitos outros ângulos - mostrando faces ainda mais severas da tragédia - talvez não tenham podido ser registrados diante da impossibilidade ou ausência absoluta de tecnologia em tais momentos ou lugares.

Além de agradecer a gentil cessão das fotos, que estão veiculando em Orkuts de amigos comuns, esclareço que - uma vez elucidados os respectivos créditos das imagens - aqui serão devidamente registrados.

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A todos os amigos e leitores deste blog, a minha mensagem de Natal, muito oportunamente, é uma espécie de reflexão, um chamamento para dentro de nós mesmos, em busca da essência humana que nos distingue dos outros seres da natureza. Aproveitemos o Natal para praticarmos paz e solidariedade! Assim, meu maior desejo é que você e sua família possam veicular amor, dentro e fora de suas casas.

Quanto a 2009, isto é matéria para outro post! Afinal, ainda nos comunicaremos antes do ano que vem...

sábado, 6 de dezembro de 2008

Viagem no tempo?!




Novamente, o tempo... O ano era 1984. E eu estava num lugar meio mágico, com um chão legitimamente outonal – aquele de folhas secas cobrindo o chão e pintando a paisagem de dourado. Mas não falo do outono europeu que “pintou” aí na sua imaginação. O meu lugar particular era um pomar bem nacional, com árvores de copas grandes e troncos seculares: uma fazenda no interior do Estado do Rio de Janeiro. Na verdade, o local tinha um quê de fantástico: parecia encontrar-se no âmago de um livro... folhas secas entre rizomas de celulose em forma de páginas perfiladas!...  
Não parecia, mas era um lugar real. E eu chegara lá sem a avidez das grandes vontades; apenas fora para agradar a meu pai, que trazia de volta para a família um patrimônio de gerações. Lá chegando, porém, olhei rapidamente para a sede de janelas coloniais e alpendre literário... Sem dúvida, aquele era um belo lugar! Mas a primeira paisagem que me sorriu não despertou o mesmo encantamento em meus lábios. Não quis adentrar o casarão, logo de início. Uma vontade maior moveu a minha mente e deslocou meus pés apressados em busca de algum lugar. Saí caminhando rápido, com aquela sensação de quem não sabe para onde está indo, mas conhece o caminho. E foi aí, que – clareiras depois – eu me vi rodeada de folhas por todos os lados. Aposto que, algum dia, você teve essa mesma sensação de já conhecer um lugar onde nunca esteve antes... Foi assim.  
Senti-me com a alma nos olhos, com a garganta ressequida, surpreendida pelo gosto não conhecido do inexplicável, do imponderável, do intangível. Sim, eu estava ali naquele pomar com a sensação absurda de nunca dele haver saído! Mas como, se jamais eu pisara a terra de meus avós? A lendária Santa Cruz do Retiro não passava do interessante núcleo das histórias recordadas pelo meu pai: as corridas de fantasmas, os medos-meninos, os enterros prematuros de patos... Do pomar e seu envolvente mistério, porém, ele nunca falara! Só se isso era coisa de minha bisavó, com quem tanto pareço segundo as conversas dos saudosistas. Ora, isso me parecia bem crível: a sorridente e festiva senhora devia mesmo gostar de ficar horas ali, estalando folhas pipocantes sob os pés, sentando-se naquele tapete de outono e lendo Alencar sorrindo! Praticamente um fiapo de lembrança arranhou as minhas vistas: foi como se eu a visse de repente ou – quem saberá algum dia? – trocasse de lugar com ela e sentisse, numa fração de segundo, o encantamento único daquele lugar.  
Acho que essa foi a maior sensação que tive de dé jàvu... E não falo, objetivamente, de conceitos de espiritualidade; também não estou defendendo, por outro lado, princípios de parapsicologia. Seja pelo espírito, seja pela mente, o fato é que meu pensamento voou, fazendo-me pairar por estâncias familiares estranhamente desconhecidas... Naquele instante, tive a impressão de estar revivendo os sentimentos e as impressões da minha bisavó. E, por um átimo, quase pude vislumbrá-la com seu vestido de época, sombrinha de rendas e... meu sorriso (?) na face!


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Algumas correntes científicas defendem a tese de que o dé jávu seria uma reação disparada por ação neuroquímica no cérebro, algo que não estaria ligado, de jeito nenhum, a determinada experiência do passado. Por outro lado, correntes populares e histórias pessoais manifestam uma verdade tal que sensações assim, tão fascinantes e enigmáticas, costumam permear os personagens da literatura e do cinema. E a imaginação das pessoas, é claro! Quem, por exemplo, não se deixou encantar pelo mistério romântico de Richard Collier e Elise Mackenna? (Em algum lugar do passado, 1980). Ou, ainda, não se envolveu na placidez contraditória das águas extemporâneas de Kate Foster e Alex Wyle? (A casa do lago, 2006). Mais recentemente – tenho certeza! – muitos foram os que deixaram o cinema fascinados com a experiência do agente especial Doug Carling (Dé Jàvu, 2007). Em qualquer dos três casos, um fio faz a interseção da história: a vertente ficcional (ou não) de uma viagem no tempo. 
Assisti também a dois curta-metragens que me atingiram em cheio o interesse e a curiosidade pelo fenômeno do tempo relativo: um nacional – Loop, escrito e dirigido por Carlos Gregório, com o desfecho impactante de um filme de seis minutos que, literalmente, extrapola a ideia convencional de tempo; e um alemão – escrito e dirigido por Chris Stenner, Arvid Uibel e Wittlinger Heidi, cuja temática dá conta de uma oscilação entre o tempo geológico e o tempo humano. Haja profundidade de enfoque!... 
Confesso que tenho a trilogia Back to the Future (1980) e – entre pipocas e Coca-Cola – sempre me reencontro com meu amigo Doc Brown, personagem inesquecível de Christopher Lloyd... Que genialidade a do Einsten pós-moderno criado pelo cinema quântico! Mas, voltando ao que eu dizia, a ideia de viajar no tempo, comum aos filmes que citei, constitui, a meu ver, um dos motes mais interessantes para a imaginação daqueles que sempre quiseram saber mais do que o mero e o palpável. Eu sempre fui uma dessas pessoas: quando criança desejei ser abduzida por uma equipe de cientistas verdes, tentei falar com fantasmas (ainda não consegui, mas continuo não tendo medo deles) e tive como sonho de consumo uma máquina do tempo! A certa altura, a obsessão era tão forte que eu acreditava mesmo poder embarcar em uma, e que – de algum modo – iria poder, a qualquer dia, descer na Grécia de Sócrates, desembarcar às margens do Nilo de Amenófis IV ou aportar num heliponto doméstico do século XXIII. No entanto, como o caprichoso Dr. Tempo ainda não me levou a conhecer o seu supersônico, vou me contentando com vôos esparsos nas galáxias da imaginação... Para tal, sei que não basta ler G. J. Whitrow, Guillaume Musso, Lee Smolin ou, ainda, J. J. Benítez. Também reconheço não ser suficiente conhecer avançadas teorias de Física Quântica. Aposto mais, mesmo, nas dimensões imaginárias – ou não – a que meu cérebro voador pode me levar... Estas, sim, representam as estâncias da possibilidade tornada real, esse tal gérmen do homem, que o tem feito inventar de bússola a ônibus espacial.  
Deixando um pouco de lado as verdades científicas, fascina-me mais a possibilidade de fazer uma viagem no tempo sem usar máquinas ou mecanismos complexos, como fez o teatrólogo de Em algum lugar do passado... Quando assisti ao filme pela primeira vez, ainda criança, eu tentei repetir a tática: deitei-me em meu quarto, fechei os olhos, tentei olhar para o mais profundo de meu cérebro e codificar a mensagem numérica de um outro ponto no tempo-espaço... Não adiantou, como você pode supor. Mas a minha vontade-menina permanece em mim e, sempre que travo contato com alguma aventura dessas no cinema, quase consigo me reportar a uma situação-verdade imaginativa, passando pela vereda – nem um pouco estreita – que meu cérebro me permite. Assim foi com a experiência atrativíssima de A casa do lago: dois apaixonados que se correspondem magicamente, havendo entre eles a divisória temporal de dois anos(?!)... Alex vivia em 2004, e Kate em 2006. Ele pôde travar rápido contato com ela no passado por meio das mensagens que recebia do futuro. Tinham em comum o fato de haverem morado na mesma casa e um desses amores dignos de cinema. O filme é tocante, em vários aspectos. E altamente inquietante é o paradoxo proposto em sua story line: uma médica assiste a uma morte e, por isso, se retira de sua rotina estressante, indo morar numa plácida casa sobre um lago. A partir daí se desenrola a trama. Mas como isso se torna possível se, somente daí em diante, irá se encontrar e conviver com aquele que, no início da trama, parece ser a pessoa que morre?!... Se ela saiu de um futuro em que ele morria sem que, de fato, o houvesse conhecido, como ele poderia estar no passado de sua nova casa e nos recônditos de um tempo-vácuo vivenciado por ambos? Uma história de trás pra frente?! Algo mágico, que pressupõe curvas dramáticas mirabolantes... Ora, paradoxos sempre existirão em histórias como essa, mas vê-las ou lê-las sempre vale a pena. Sem contar que a própria história da origem das espécies se esbarra com a primordial incógnita: afinal, quem surgiu primeiro: o ovo ou a ave?!


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Mas essa linguagem dos paradoxos parece ser mais facilmente compreendida por aqueles que conseguem conceber a teoria do pão de forma. Eu tenho uma amiga, por exemplo, que afirma algo nessa linha. Ela diz que – mesmo antes de ler a respeito – quando criança, ao divagar em suas brincadeiras, cogitava a hipótese de existência de várias versões de si mesma, cada qual num filete de tempo, de forma independente... Difícil de entender?! Pois foi justamente isso que nos propôs o roteirista de Dé Jàvu, quando – no desfecho da história – vemos duas versões do intrépido Doug: uma com ele parecendo sumir sob as águas e outra, antagônica, em que ele chega, ileso, de um passado que fora reinstalado. Aí também o paradoxo de uma vida e uma lembrança depositadas em algum ponto aparentemente desconhecido do passado... Se você viu o filme, pode me entender, por certo. Caso contrário, veja... ou apenas acredite: é uma experiência marcante uma tal possibilidade de se chegar a um lugar, se ver uma peça de roupa manchada de sangue, dentro de um cesto, e se ter a sensação de já haver visto aquele quadro antes... (e já se tinha visto, realmente!) Um dé jàvu sensacional, insólito, não um desses em que parece apenas que a alma voa, por uma circunstância de outra vida, numa esfera espiritualista... E, sim, um dé jàvu desta vida mesmo, apenas uma questão de passagem de tempo entre o que se vive agora e um passado próximo, no qual se pode readentrar, com a possibilidade de se fabricar um novo futuro e, com isso, modificar positivamente o presente. 
Pensando em toda essa história, mesmo que o leitor duvide das arrojadas e bem-engendradas teorias expressas no filme, impressionou-me muito a ótica principal da trama: a possibilidade científica de se viajar para o passado, utilizando-se o mecanismo de uma antevisão... É mais o menos o seguinte: uma equipe de agentes cientifizados observa, através de mecanismos extraordinários, cenas da vida real – do passado de alguns dias anteriores – da protagonista, cuja morte era investigada. Tais imagens, entretanto, diante da visão do agente Doug parecem evocar algo tão real que ele, impressionado, tem um insight: e se aquele painel ainda tivesse vida? E se aquela mulher (novamente, a teoria do pão de forma!) ainda estivesse vivendo aquele momento, do modo exato como as cenas mostravam? Sendo assim, era lógico que ele voltasse no tempo e pudesse encontrá-la, interferindo nos fatos e evitando assim sua tragédia... Uuuhhh... Que loucura!... 
Se deixei você com vários pontos de interrogação na mente, saiba que também os tenho, todos. E mais alguns que me impregnam os sentidos e a imaginação... Assim, para que ambos possamos nos localizar, de alguma forma, dentro desse intrincado labirinto espaço-tempo, será bom assistirmos aos vídeos abaixo (reportagem de algum tempo atrás, que encontrei e achei bem propícia na abordagem do tema, e o trailer do filme), que desenham dimensões de tão vasta concepção metafísica... Veja:


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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Os Jetsons estão entre nós




Ah, ele estava ontem às voltas com você, hoje o acompanha e amanhá continuará no seu encalço! Sim, falo do Senhor Tempo, essa entidade implacável!... Esse tal ente-fenômeno opulento e misterioso, capaz de inspirar, acalentar e assustar os humanos. 
Com todas as suas prerrogativas e encantamentos, trata-se de matéria inesgotável para sucessivas postagens eletrônicas, laudas celulósicas e produções audiovisuais. Neste último caso, a face mais contemporânea de uma produção antiga me remete aos Jetsons e sua rotina pós-galáctica com suas máquinas maravilhosas! Ultimamente, aliás, tenho constatado o quão a ficção do desenho se assemelha ao cotidiano atual. Nem parece que foi criada, pelos imaginativos William Hanna e Joseph Barbera, ainda no início dos anos 60... Impressionante! Naturalmente, nos remetemos à lembrança dos anos 80, quando de sua marcante exibição no Brasil (também há registros de outra mais antiga, pela Excelsior).

Parece que o futurista, simplesmente, se transformou em contemporâneo. Acho que nem mesmo nos demos conta, mas o fato é que temos hoje – tal como no contexto do desenho – robôs com expressões humanas e até o fantástico carro que voa! Este, se você ainda não viu, possui seu protótipo revolucionador nos Estados Unidos; notícia de 2007 já relatava sua criação e aprovação em testes. Prevê-se que, daqui a alguns anos, ele estará disseminado no mercado, com a diminuição gradual de seu custo, que hoje seria orçado entre 1,5 e 3,5 milhões de dólares.

Com esta notícia, temos que nos render: o futuro bate à nossa porta, ou melhor, nos lança aos ares!... Daqui a pouco, sem qualquer utopia, já teremos um trânsito congestionado num céu de carros voadores, exatamente como numa cena comum dos Jetsons! Ora, que maravilha seria fugir do trânsito caótico das ruas e emergir às alturas, ocupando os amplos espaços aéreos, não é mesmo? Foi pensando exatamente nisso que me dei conta de que os Jetsons estão entre nós! Pense comigo... Parece ou não coisa dos astrais personagens do desenho a telecomunicação interpessoal com imagem na tela (previsão consumada), a máquina de lavar pratos (lembra-se da de Jane Jetson?), os computadores arrojados – paineis cibernéticos inteiros no escritório de George e no gabinete de Mr. Spacely – os complexos sistemas virtuais e demais invenções multifuncionais dos paraísos da tecnologia?... Chegamos ao tal futuro e nem percebemos! Tudo isso já se tornou tão normal! Da fita-cassete ao iPod, da máquina de escrever ao Macintosh, da simples cafeteira à máquina de café expresso... Coroando todo esse mundo de seres do futuro e suas engenhosas invenções tecnocientíficas, temos o jornal eletrônico QR-LPD da Bridgestone... Como é isso?! Se você está lembrado do jornal de Mr. Jetson – “surgido” todas as manhãs naquela tela fininha, já na época um aparelho específico de recepção de noticiário –, então estamos falando da mesma coisa (o iPad que temos hoje?!)... Incrível, não?

Não indo tão longe, podemos relembrar as cotidianas conversas do Sr. Spacely com seu empregado George e vê-las, hoje, como flashes de uma realidade corriqueira, afinal o msn, o skype, a videoconferência... aí estão como versões contemporâneas do que aqueles roteiristas imaginaram para o ano de 2062! Muito do previsto, de fato, aconteceu e bem antes do esperado!

Home theaters, cirurgias mecanizadas, prédios inteligentes... E as esteiras eletrônicas, tão impossíveis para a época, que hoje encontramos em quaisquer centros comerciais, no metrô e nas casas?... Lembro-me, inclusive, de uma frase da Sra. Jetson: “Ah, essas esteiras são tão lentas que, acho, eu iria mais rápido se caminhasse normalmente!” Você nunca pensou isso, num dia de pressa, nos longos percursos da Cardeal Arcoverde? Eu, já, algumas vezes. Nessas horas, bem que seria útil o tal protótipo X1500, o traje voador, aquela roupa que Mr. Jetson usou por acidente e, com a força do pensamento, se pôs a voar em qualquer direção determinada pela sua vontade... Já pensou se pudéssemos fazer isso? Pois pasme: uma notícia fresquinha vinda de além-ar nos mostra a aventura de um homem cruzando um desfiladeiro com um jato acoplado ao corpo! Isso mesmo: um precursor chamado Eric Scott atravessou um abismo usando um jato pessoal movido a hidrogênio, atado às suas costas... Ora, homem voando sozinho – sem o invólucro de uma nave ou cápsula – já é uma autêntica aventura nas estrelas! Não importa se vôo movido a pensamento ou a hidrogênio, concorda? A certeza é que o tal tempo prometido já chegou. Como dizem os nossos adolescentes: fato!

Talvez o lado contraditório de toda essa história seja, apenas, o nosso descrédito inconsciente... Essa situação aparentemente improvável que nos apanha distraídos ante a evolução dos anos. Por vezes, ao caminharmos a passos largos, não fazemos pequenas paradas para admirarmos a paisagem. Um dia, então, passamos por ali e percebemos que tudo mudou. Tal se aplica ao progresso tecnológico no contexto de nosso cotidiano. É claro que a criatividade dos ficcionistas americanos se elevou a saltos inimagináveis, configurando coisas que até hoje parecem impossíveis, como a transformação do carro-nave de George Jetson em uma mala quando ele chega ao trabalho, por exemplo... Por certo, aí houve recurso para uma licença ficcional, pelo menos na concepção da ideia àquele tempo... sim, àquele tempo! Porque nos próximos – ou distantes – tempos, tudo poderá acontecer! Afinal, quem imaginaria uma época como a nossa, na qual se estabeleceriam comunicações em tempo real e se reproduziriam vidas – anda que imitativas – de seres como a ovelha Dolly ou gatos fluorescentes em laboratórios? Tais fenômenos, agora, não passam de coisas já sabidas, conhecidas, prováveis, reais; coisas até mesmo simples diante de outras exacerbações da ciência humana.

Afinal, o paradoxo entre ficção e realidade é ainda muito grande, porém aparentado com a viabilidade do vindouro e do susceptível. E foi certamente antevendo isso que os roteiristas da série The Jetsons conseguiram ser tão proféticos! Assista ao vídeo e passeie pelas deliciosas possibilidades imaginadas, já presentes na abertura da série...


Por Sayonara Salvioli




P.S.: Acesse também e confira, com seus próprios olhos biológicos, a matéria do robô que expressa emoções ( http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM917102-7823-ROBO+REPRODUZ+EXPRESSOES+FACIAIS+EM+TEMPO+REAL,00.html) e o vídeo do carro voador.





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quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Tic tac... tic tac... tic tac...

Foto: L.S.
Tenho feito posts bastante voltados a tipos humanos... Não que isso seja algo proposital. Na verdade, a lauda – eletrônica ou celulósica – sempre me concede a liberdade natural da franca Literatura! E o faço com a fluidez de nuances variadas que surgem espontaneamente, sem correntes ou correntezas...
E hoje a minha lauda quer falar do tempo e seus distintivos, os amigos – para alguns, opressores?! – relógios e similares...
Tic tac... tic tac... tic tac...
Não se trata de uma simples onomatopéia. Nem daquelas balinhas de progressivas mudanças de sabor, da famosa doceria italiana. É o alarido estridente de um relógio pequeno, mas desastroso, que veio parar em meu quarto. Por quatro ou cinco noites até convivi com o intruso... Mas lá pela quinta ou sexta – irritada que estava com o tic tac constante –, olhei para ele com aquele olhar de fulminância, levantei-me no ímpeto e avancei sobre a “criatura”! Alcancei-o como a uma presa indefesa e retirei-o do criado-mudo, levando-o para o ponto mais distante possível de meus tímpanos não menos irritados que afetados. Saí pela casa com uma postura quase maquiavélica de quem estuda todas as possibilidades de se livrar de um fenômeno indesejado. Juro que entendi a obsessão do Capitão Gancho (nunca pensei que pudesse estabelecer qualquer empatia com ele.. tsc tsc tsc)... Parecia mesmo que ouvia o tal crocodilo com o relógio na barriga o tempo todo! Um horror!
Mas o fato é que estou livre do estranho objeto metálico de engrenagens rotativas obsessivas. Talvez só não o tenha espatifado porque – além de ser contra destruições –, não costumo despender esforços demasiados por pequenas coisas; não gasto minha energia com situações menores. Sabe aquela história de não se tentar matar um mero mosquito com uma bala de canhão? É isso: o reloginho não era tão importante que merecesse maiores atenções ou intenções de minha parte, nada que demandasse mais do que três ou quatro minutos. Apenas o abandonei num canto qualquer.
Na verdade, não tenho nada contra relógios. Quando criança, até os colecionava. Em 1982, eu tinha vinte e oito relógios, inclusive um mais que pós-moderno, rosa pink (acredita?), o máximo para a época... tsc tsc tsc (estou com síndrome de HQ)... Mas, voltando aos tais instrumentos cronológicos, me dou bem com eles, essencialmente porque tenho uma ótima relação com o tempo. Sou apaixonada pela vida e, realmente, curto o que cada segundo pode me proporcionar; assim, lido com o tempo com toda a intensidade que me é peculiar. E – como todo humano mortal –, me utilizo de algumas formas para marcá-lo, procurando ajustá-lo às minhas necessidades de momento. Assim, nunca é cedo ou tarde para eu fazer determinada coisa; se é preciso fazê-la, fabrico ou manipulo tempo ou ocasião para a sua realização; se não dá para fazê-la durante a utilidade convencional do dia, providencio a ação para a noite, madrugada adentro... mas nada, absolutamente nada do que tenho a fazer, fica sem se realizar! Literalmente, não brinco em serviço.
De modo específico para acordar – como não costumo saudar a primeira face das manhãs, diga-se de passagem –, me utilizo de alguns “despertadores alternativos”: chamada 134 + dois celulares, tooodos tocando ao mesmo tempo! Assim, quando amanhece, todas as alvoradas de modernos galos eletrônicos retinem a meus ouvidos, abruptamente separados do onírico (meus vizinhos devem adorar!)... Mas a verdade é que eu nem preciso de tanto: tenho um despertador interno, supereficaz, que me chama no momento exato de despertar, uma intuição poderosa que não me deixa perder o compromisso. Tanto que, ao longo de toda a minha vida, poucas vezes perdi a hora... Na verdade, nem me lembro da última vez em que isso aconteceu.

Mas toda essa rotação de conteúdo em torno do instrumento de engrenagens robóticas trabalhando simultaneamente, por um breve instante de 30 segundos, me fez pensar no poder de Mister Chronos sobre a aventura humana. E aqui me ponho a um rápido retrospecto das buscas do homem através dos milênios: do original relógio de sol até os mais arrojados cronômetros atômicos, é impressionante a força devastadora do tempo, e igualmente instigante a nossa forma de vê-lo, dimensioná-lo e utilizá-lo com os melhores fins. Afinal, seja em que versão for, os marcadores temporais parecem dar-nos a dimensão exata do quanto é preciso nos empenharmos nesse sentido, do quanto necessitamos empreender para que o “nosso tempo” não passe em vão. Esse é um outro sentimento temporal que sempre tive: as contas que – sei – preciso ajustar com Mestre Tempo... Não coleciono mais relógios nem mesmo uso aquele convencional de pulso (desenvolvi alergia cutânea a seu uso constante), mas agora incumbo o celular de ser meu companheiro visionário das horas... 

Resta-nos agir com o que poderíamos chamar de consciência cronológica, a fim de satisfazermos as proposições do tempo, em seus arbítrios e movimentos irrecorríveis!
...tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac, tic tac...
Por Sayonara Salvioli
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P.S.: Partindo de referência que fiz no texto, sugiro a leitura da história dos engenhosos implementos formatados por Santos Dumont e Louis Cartier, na fascinante Paris do começo do século XX.

sábado, 8 de novembro de 2008

Motorista movido a álcool




Cosme era, autenticamente, um motorista movido a álcool. Força de expressão? Não! O álcool era a força motriz de um estranho organismo, um corpo frágil que andava daqui e para ali à base de ingestões seguidas de tragos etílicos. Complicado? Impossível?! Absolutamente, não! Beber sempre foi seu hábito mais sagrado, uma espécie de religião e modo de viver. Tristemente, o álcool era o seu prazer e a sua refeição.
Cosme era um sujeito magro, de olhos esbugalhados, meio manchados de vermelho, e dentes deformados. Quando não estava dirigindo, trazia invariavelmente um cigarro na mão esquerda e um copo na mão direita. Apresentava, também, algumas características que lhe marcavam a conturbada personalidade de bebedor profissional: risada solta, jeito displicente e passadas largas, meio que sem destino ou objetivo.

Cosme trazia os bolsos sempre cheios de cédulas de baixo valor – amassadas, de mau aspecto (arghh!) – e moedas, usadas para comprar suas doses homeopáticas de álcool. Aqui e ali, entre os diversos pontos do itinerário de seus patrões, ao parar o carro, as usava nos botecos que descobria nas proximidades. Não importando onde estivesse, ele sempre achava um. Era incrível: mesmo em locais distantes – onde antes ele nunca estivera –, ele se movimentava com uma facilidade tal que logo encontrava bares, e fazia seus novos e rasos amigos... Muito simpático e falastrão, se enturmava com qualquer trupe que falasse a sua linguagem de copos.

Diferentemente do motorista movido a álcool, era o seu irmão gêmeo: Damião. Este era tímido, reservado e – incrivelmente – não bebia! Isso mesmo: era um empregado-padrão, que nunca negligenciava suas obrigações. Andava sempre arrumado, com a barba feita, apresentando-se com a discrição de seu temperamento assentado. A única semelhança ou interseção entre os gêmeos era a sua sincronicidade em sensações... Aquela conhecida simultaneidade que ocorre, principalmente, com univitelinos: um passa mal e o outro sente. No caso dos dois, toda vez que Damião – que tinha uma saúde frágil (apesar de não beber!) – passava mal, Cosme apresentava o mesmo sintoma. Até onde se sabia, contudo, Damião não sofria as consequências das bebedeiras de Cosme. Sorte a dele, visto que – em caso contrário – não teria mais paz orgânica ou de espírito. Segundo alguns, no entanto, não seria “à toa que ele tinha aquela saúde tão ruim... Talvez fosse por causa dos hábitos alcoólicos do irmão"!

Cosme, na verdade, era um bebedor inveterado de cachaça, mas não desses que ficam cambaleantes, se arrastando e beijando o chão... Não! Ele andava pelo mundo, em sua costumeira alegria, de modo tranqüilo e descontraído. Junto ao volante ou longe dele, nunca deixava perceptível o grau de acometimento etílico de sua corrente sanguínea. Era impressionante como a ingestão contínua da droga alcoólica não lhe afetava as atitudes e, principalmente, os reflexos na condução de um veículo. Ainda assim, certa vez, o patrão o chamou:

– Cosme, assim não dá... Não é preciso nenhum bafômetro para perceber o seu “grau”. A partir de agora, você vai conduzir os veículos da empresa; não vai mais dirigir pra minha família.

E assim foi. O novo motorista da casa, Seu Nicanor, era um senhor cortês, polido, com ares e hábitos sérios, ou seja, não professava a fé da bebida; ao contrário, trazia sempre consigo uma Bíblia: seu alimento era o Evangelho. A patroa de Cosme, embora não desgostasse do antigo motorista, aprovou a nova contratação: Seu Nicanor era um motorista mais formal, dentro dos moldes convencionais exigidos pela profissão: concentrado, sensato e, essencialmente, sóbrio 24 horas por dia!

A rotina da casa pareceu ficar mais tranquila com a chegada do novo motorista: horários ingleses e chofer a postos no automóvel. Nada de “fugidas” para o bar mais próximo, deixando o carro sozinho. Nunca mais houve atrasos ou displicências. E assim tudo correu, maravilhosamente bem, por 17 dias. No 18º, Seu Nicanor bateu com o carro, estando a filha dos patrões, de oito anos, a bordo. Batidinha sem maiores conseqüências, nada grave, mas que constituiu fato suficiente para afastar o novo motorista da função. E para a alegria da menina – que era muito amiga de Cosme – voltava ao cargo o motorista que ela conhecia desde que se entendia por gente.

A verdade era que todos da família gostavam muito de Cosme e, mesmo, o preferiam aos outros que passaram pelo volante da casa. Ele era bom de se lidar, prestativo e bem-humorado, apesar dos problemas que enfrentava na rotina de seu próprio lar: vez por outra, segundo a empregada, lá chegava com os cabelos inundados de Mucilon... A mulher dele – talvez irritada ou com ciúmes da rival cachaça – derramava sobre a sua cabeça todo o conteúdo da mamadeira de Cosme Júnior.


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Probleminhas cotidianos à parte, Cosme retomou as funções em grande estilo e cheio de conversa:

– O Nicanor é bonzinho, coitado... Mas é barbeiro que só ele... Bater com a menina no carro! Vê se pode... Comigo isso nunca vai acontecer!

E não aconteceu mesmo. Cosme jamais deixou seu amigo álcool se apresentar diante da família do patrão. Segundo as pessoas da casa, a sua condição de bêbado era algo que não se percebia do banco de trás: “Vez por outra, um odorzinho desagradável se espraiava pelos ares, mas nada que trouxesse grandes incômodos".
Certamente, o conhecido “bafo” de Cosme não podia incomodar a distância a patroa e a patroinha. Além disso, era minimizado por um estratégico e constante consumo de "balinhas camuflantes"... E outros hábitos pouco ortodoxos do motorista já haviam se modificado com os anos; na verdade, quando fora admitido como “condutor oficial” da família, já fazia uma figura melhor: segundo os amigos, já até adquirira o hábito cotidiano do banho, prática que não adotava antes de trabalhar na casa. Segundo se conta – nos domínios do posto de gasolina onde trabalhava –, certa vez os colegas Bem-te-vi e Pardal o pegaram à força para uma limpeza devastadora: jogaram-no debaixo do chuveiro e aplicaram-lhe o tal “sabonete-do-diabo”. Para quem não conhece, este é um tipo falso de sabão, que, quanto mais friccionado na pele, mais a suja. Falou-se que fizeram a maior festa com o coitado. Parece até que foi a partir daí que Cosme se despediu da abstinência do banho.

Abstinência da bebida, porém, esta Cosme nunca conheceu. Não costumava almoçar ou jantar, mas fazia várias “refeições” líquidas por dia: um cardápio de diferentes aperitivos compunha a sua alimentação. Muito brincalhão, ao chegar à casa dos patrões, sempre procurava pela cozinheira – junto à qual fazia suas investidas –, pedindo-lhe um cafezinho:

– Me dá um cafezinho aí, minha fror.

Fror dava o cafezinho a ele. E ainda lhe oferecia comida, mas ele nunca aceitava. Houve um dia em que a patroa, ao ouvir a voz de Cosme na área de serviço, dirigiu-se até lá, para pedir à cozinheira que servisse almoço a ele. Lá chegando e o vendo sem camisa (a empregada estava tirando uma mancha de aveia do traje de motorista), ficou estarrecida com a magreza de Cosme e exclamou:

– Cosme, você precisa se alimentar e parar de beber. Se continuar assim, você vai morrer!

Mais proféticas não poderiam ter sido as palavras da patroa de Cosme. Não muito tempo depois, se soube que ele fora internado em estado grave. “Assim, de repente?!”, as pessoas se perguntavam. Não tão de repente assim. Na verdade, o álcool foi corroendo o seu organismo aos poucos, como um veneno letal de efeitos de longa duração. Segundo os médicos que o atenderam, seu esôfago estava "regado de sangue"... Na realidade, Cosme resistiu à morte o máximo que um organismo poderia suportar; provavelmente, a medicina refutaria a sua sobrivência, anos a fio, com aquela TAS tão elevadamente absurda!... Os males foram se acumulando e, um dia, numa dessas surpresas cabais da vilã doença, seu corpo – aparentemente sem sequelas – combaliu-se, de uma vez, e caiu por terra. Literalmente.

Depois de uns poucos dias no hospital, Cosme foi enterrado no alto de uma colina. Ao seu lado, em concomitância absoluta, jaz o seu irmão Damião, que havia morrido pouco tempo antes.

Apesar do desfecho fatídico de sua história, Cosme deixou um milhão de amigos e simpatizantes. Sempre que se lembram dele, as pessoas riem, descontraídas, numa espécie de recordação relaxante. Seu jeito alegre e descompromissado fazia dele uma pessoa leve, dessas que nos trazem boas lembranças. Neste caso, também se construiu um emblema: Cosme era o estereótipo perfeito do motorista movido a álcool!

Por Sayonara Salvioli


P.S.: Talvez o leitor que me conhece estranhe o conhecimento etílico aqui expresso (risos), mas é que fui testemunha da história de Cosme... Na verdade, o "Cosme da realidade" era meu empregado: foi meu motorista por dezesseis anos!
Apesar do fato de o protagonista desta história ter combinado, por muito tempo, dois elementos inconciliáveis: volante e bebida, fica aqui o alerta conhecido e compreensível: "Se beber não dirija; se dirigir, não beba!" A respeito, acesse:

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Também se morre de amor?!...

Imagem: Chris Raschka
No conto que postarei abaixo, abordo um tema pouco convencional, algo que parece fazer parte de um folhetim... Ou será uma espécie de romantismo exacerbado da vida real, com a aura em sépia das histórias envelhecidas?
Apesar da luta que nós, mulheres, empreendemos e vencemos – vitórias que ditam um comportamento feminino próprio e feliz, com emoções independentes –, é possível conceber a ideia de uma vida atrelada a um amor, assim de modo irreversível? Ao fim da leitura, opine: existem ainda romances como o da narrativa? A resposta, na realidade – embora possa suscitar interpretações variadas – esconde-se nos subterfúgios do improvável, aquela região das emoções humanas passível de abrigar o inusitado! Aliás, no terreno do humano, tudo pode acontecer... Com os devidos descontos de época, contexto e personalidade, claro... 

TAMBÉM SE MORRE DE AMOR?!...
Minha lembrança da velha senhora é dos mais remotos tempos da infância. Lembro-me de seu sorriso distante e complacente. Também não me saem da memória sua voz grave e seu ritmo apressado.
Ela fora a minha alfabetizadora efetiva;  houvera sido a mestra querida, a primeira amiga da infância e da escola! Não bastasse isso, atingiram seus sentimentos uma dessas paixões de livro... Aliás, o caso bem poderia figurar nos compêndios da mais insólita literatura, já que parece impossível e romanesco demais para ser verdade. Sua imagem e história fazem dessa lembrança algo muito vívido em minha mente...
Nostálgica conturbação me reporta a momentos longínquos na Praça São Geraldo. Todo início de tarde, ela passava para apanhar-me; íamos juntas para a escola. Lembro-me da sala de aula e das folhas mimeografadas, com carimbos de bichinhos. Lembra-me também a sua letra miúda e uniforme, uma verdadeira caligrafia, na conhecida assinatura: Dora.
Dora era uma magra senhora, com pouco mais de sessenta anos à época da minha infância. Vivia numa casa grande, em companhia de Tia Pequenina e oito cachorros também pequeninos.
Resumia-se a vida de Dora à missão diária de educar. Descortinava aos olhos de crianças o mundo extraordinário das letras decifradas. Assim alfabetizara cinco ou seis gerações da localidade.
Todos a conheciam em Vida Feliz. Apesar do nome, a pacata cidade era um lugar em que o tempo se arrastava, em constante pasmaceira... E Dora, todos os dias, ia e vinha em seu trajeto imutável: da casa para a escola, da escola para a casa. Quando não estava lecionando para crianças, estava brincando com os cachorros, seus amigos. Por causa deles, porém. eu até evitava visitá-la, às vezes... Não que eu não gostasse dos bichinhos, mas havia sido mordida pelo Ringo, um cachorro cinzento com cara de mau, na entrada da casa da Vovó Maria... E tinha ficado temporariamente traumatizada (risos de medo canino)... Embora eu amasse Dora e simpatizasse extremamente com Dona Pequenina, eu temia o contato com aqueles pequenos seres, que me arranhavam, pulavam em cima  e me faziam lembrar do galope de Ringo! Por isso, eu ficava assustada e incomodada com o cortejo dos oito cachorrinhos inofensivos, em que os mais festivos, furtivamente, me lambiam os pés... De vez em quando, porém, eu criava coragem e ia visitar as duas senhoras. A velha tia tinha quase noventa anos (criara a sobrinha, junto a outras duas irmãs já falecidas) e me parecia fascinante em suas histórias de saraus e acontecimentos antigos. Narrava-me fatos passados com tal vivacidade e ênfase que estes pareciam transportar-me em tempo e espaço! Afinal, sempre gostei de vasculhar fatos e memórias. E aquelas visitas vespertinas de sábado eram bastante estimulativas à minha imaginação.
Imaginação maior, porém, tivera o destino, que reservara a Dora uma incomum história de amor... Ela se apaixonara, na juventude, por um galante rapazinho de grandes olhos azuis. Seu nome era Guido, um descendente de italianos vindos da Calábria.
Dora e Guido namoraram , às escondidas, por algum tempo, até que as tias descobrissem e impedissem o romance. O empecilho apontado pelas três solteironas era algo absurdo: o rapaz não era de família tradicional, não pertencendo "ao seu meio". E, segundo as más línguas, as tias desejavam que, como elas, a sobrinha não se casasse. Por puro egoísmo, diziam. E como realmente não era um aristocrata provinciano, Guido não tivera o aval da família da moça. Pouco tempo depois, o rapaz partia para a capital, em busca de melhores condições de vida.
A pobre moça perdera-se de tristeza com a partida do namorado. Trancafiou-se, durante meses, em seu quarto. Quem passasse pela rua podia perceber, através das venezianas entreabertas, seu choro convulsivo entrecortado por freqüentes soluços...

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Dora nunca mais namorou. Vários pretendentes arriscaram-se à difícil empreitada de conquistá-la. A professorinha, no entanto, não mais se deixou encantar. Alguns anos depois, soube do casamento do amado com uma conterrânea que também se mudara para a capital. Sofreu horrores! Mas a vida parecia incumbir-se de arrastá-la dia a dia. Finalmente, pareceu conformar-se... Envolvia-se, contudo, por uma nostalgia quase entranhada nas rugas que ia ganhando. Trouxera-lhe o tempo um sorriso curto e um olhar triste. Na verdade, seus olhos nunca sorriam...
Mas a continuidade da vida ganhava em seu apelo diário. E Dora adquirira novas raízes na prática do magistério: sua missão única de ensinar era quase um sacerdócio. Assim foi como eu a conhecera.
Avós, pais e filhos vinham sendo alfabetizados pela professora solitária. Na vida pessoal, perdera um grande amor, isto era certo... Mas construíra um grande nome e um poderoso arsenal de ex-alunos e amigos.
Tempos depois, ficara completamente só: Tia Pequenina morrera. Restavam-lhe apenas os cachorros, com as frequentes e esperadas baixas ocasionais. E Dora parecia habituar-se, gradativamente, àquele solitário jeito de viver.
Entretanto, quando já se acostumara perfeitamente àquela vidinha, um fato novo aconteceu... E, por uma dessas irônicas e miraculosas viradas do destino, cruzava as ruas da cidadezinha um automóvel diferente: um veículo incomum que parecia vasculhar os mistérios das ruas pacatíssimas de Vida Feliz...
Logo se soube que um senhor simpático – de ralos cabelos brancos e longo nariz romano – procurava Dora Costa, a professora. A pobre mulher quase morreu ao reencontrar o antigo namorado, que bateu à sua porta (e novamente ao coração!), dizendo-se desejoso de falar-lhe. Guido retornava, ainda que tardiamente. Disse-lhe: “Voltei para casar-me com você!”. Dora gelou.
Grande burburinho tomou conta do lugarejo. Todos ficaram sabendo da incrível história de Dora e Guido: a saga de um amor proibido e o “reencontro dos namorados” após mais de cinquenta anos! “Parece coisa de novela!”, era o que se dizia. O comentário alastrou-se pelos arredores e, em várias cidades vizinhas, se comentava sobre o conto de fadas de Vida Feliz.
Guido narrou, com a normalidade que o tempo infunde aos fatos mais descabidos: “Você sabe, Dora... Casei-me. O destino conduziu-me pela mão. Dei sorte nos negócios. Quanto à Cecília, não a odeie... Era uma boa mulher. Você precisava ver, Dora, como me falou na hora da morte: 'Guido, volte e case-se com Dora. Ela realmente o merece.' E aqui estou, para nos casarmos e realizarmos o nosso sonho de juventude!”...
Sonho de juventude, sonho dourado para Dora! Seu príncipe voltava! Dora ficou estática com o abrupto pedido de casamento. Não tinha dúvidas em aceitá-lo. Conteve-se, porém, pois desejava comunicar o fato ao irmão, o parente mais próximo que lhe restava no mundo. Este, contudo, se opôs duramente, pois achava aquilo uma “precipitação tardia”, algo incompreensível e insensato... depois de tanto silêncio e vácuo! Dora não pôde entender e, desta vez, não obedeceu! Decidiu casar-se e tentar ser feliz.


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O casamento aconteceu numa tarde de outono. O templo da inusitada cerimônia não poderia ser outro: a escola onde Dora trabalhara e, mesmo, vivera anos a fio! Toda a cidade compareceu ao grande evento. Eu mesma fui até Vida Feliz para testemunhar tão tocante acontecimento: um casamento com uma noiva de setenta e seis anos, a qual reencontrara o primeiro namorado cinqüenta e três anos depois! Era coisa de fazer eriçar os pêlos da alma!... Todos os presentes se emocionaram; vislumbrei lágrimas nos olhos de muitos... Aquilo parecia mesmo fazer parte de um romance: senti-me dentro d’algum clássico de época! Que lindo conto parecia começar, estranhamente já num final feliz!...
As amarras do destino, porém, não se soltam a meros golpes de sorte. Os primeiros tempos do casal preencheram-se com passeios e divertimentos. Dora estava exultante! Novo brilho tomou conta de seu olhar e até ganhara alguns quilinhos... Fora o casal morar em outra cidade, onde Guido residia ultimamente. Também tinham uma casa na serra, para onde se dirigiam com certa frequência. Era compensador ver a amiga solitária agora, literalmente, respirando outros ares!
Sempre que podia, Dora visitava os conterrâneos e amigos. Tornara-se tão alegre que até piadas contava! Dava a impressão de haver renascido. Levara somente um cachorro para a nova casa. O marido alegava que o contato com o pêlo dos animais acirrava-lhe uma bronquite crônica. Parecia cuidar bem da esposa, namorada sagrada que o esperara “pura e invicta” – como ela sempre lembrava – por tantos anos!...
O tempo passou e tamanha paixão deu mostras de não cumprir, adequadamente, o seu destino. Guido mostrava-se incompreensivo e irritadiço com a antiga namorada. Parecia haver enjoado dela e se arrependido do casamento. Com críticas contínuas e, às vezes, uma indiferença cada vez maior, trazia à noiva do passado aborrecimentos que ela não tinha, antes, em sua vidinha reservada. Dora, porém, inacreditavelmente tudo suportava, pois se acostumara a um jeito peculiar de viver... E acreditava que não saberia mais viver sozinha.
Pobre Dora! O tempo pregara-lhe uma peça: trouxera-lhe um presente antigo, com ótima embalagem e defeitos de conteúdo! As pessoas à sua volta já começavam a perceber quaisquer nuances da atmosfera negativa que a envolvia... Cadê o príncipe que retornara da distância das décadas? O encanto havia se quebrado?
Certa tarde de verão, o casal saiu de carro. Guido dirigia nervosamente. Além das condições físicas (ele não andava muito bem de saúde), talvez um lampejo emocional mais forte o tenha atingido quando, subitamente, perdeu a direção... Em meio a uma chuva torrencial na subida da serra, o carro capotou, num acidente menos que brutal, mas que colocara em risco as suas vidas, já um tanto afetadas pelos anos.
Foi o casal socorrido por moradores das imediações, que tomaram as providências necessárias. Logo avisaram o irmão e os sobrinhos de Dora, bem como os filhos de Guido. Estes foram buscá-los.
Dora teve mais dificuldades para restabelecer-se, dada a depressão que se somatizava em seu corpo e em seu íntimo. Ela própria já antevira uma separação que, sabia, não aguentaria... Não mais saberia viver sem Guido. Dizia que preferia até mesmo algum sofrimento no trato diário a uma separação definitiva e sem promessas.
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No momento da saída do hospital, os próprios parentes, respectivamente, levaram seu doente particular. Dora e Guido ganharam novos e separados endereços. Segundo os familiares, aquela seria a maneira prática de cuidar dos doentes, frágeis e debilitados ante as consequências do acidente. Diziam que, como cada qual não poderia cuidar de si mesmo e, menos ainda, do outro, melhor seria que ficassem sob os cuidados dos próprios parentes.
Entretanto, após longa temporada de assistência, na pronta restauração dos dois, permaneceu a separação. Dora, amorosa, já habituada à companhia de Guido, não se conformava em perdê-lo de seu convívio. Num passe de mágica, do mesmo modo como chegara em sua vida, dela se desprendera, deixando a dor de uma saudade profunda, ainda maior que aquela da juventude!...
Numerosos esforços empreendeu Dora para reatar o casamento, mas o homem, frio e insensível a seus apelos, mostrou-se inacessível. A separação era ato consumado e irrevogável. Onde andava o encantamento que ditara o seu retorno ninguém sabia explicar...
Dora voltou a residir em sua antiga casa. Voltou à vidinha pacata de antes, do modo como vivera nas décadas anteriores. Mas agora, tudo era diferente. Ficaram o vácuo de uma lembrança real e o fantasma de uma saudade plena, invencível. Até porque o seu objeto de amor tornara-se algo palpável: Guido saíra de suas fantasias direto para a vida real! E agora novamente virava sombra, na névoa intransponível da solidão.
Antes aquele homem nunca tivesse voltado e Dora (acredito veementemente!) ainda viveria muitos e muitos anos, em placidez de paz e espírito. Ora, se ele não a queria para todo o resto de seu sempre, por que então voltar e arrancá-la de seu platonismo já contornado pelos anos?!...
Dora adoeceu gravemente. Manifestaram-se súbitos e inexplicáveis problemas em sua saúde, inabalável nos antigos tempos da solidão. Somatizaram-se os males na proliferação orgânica de uma tristeza implacável e sem volta. E a morte começou a rondar-lhe a velha casa amarela... Dora ficou acamada. Parecia que nada poderia arrancá-la do seu leito de dores.
Fato semelhante nunca se vira: um corpo que se aniquilava, uma vida que se esvaía, uma saudade que matava, um coração que morria... Dora não resistiu à dor da segunda e crucial perda. Após a separação, vivera pouco tempo mais! Não por causa de consequências do acidente (do qual se recuperara completamente), mas pelas seqüelas emocionais da separação de seu eterno amor. Pela morte do sonho, deu-se a morte da alma, ainda em vida. E o corpo não agüentou! A moça apaixonada, cujo espírito não envelhecera, ao reencontrar o namorado, havia transformado em ouro a poeira do sonho... Todavia, o ouro se desfazia e voltava ao seu estado de antes. E a morte começava a tomar conta da vida.
Dora morreu na primavera e seus sonhos se transformaram em flores. Toda a sua legião de amigos sofreu intensamente e reservou-se o direito de odiar ao insensível senhor, que se desmistificara a seus olhos. Eu, pessoalmente, não o perdoo pelo mal irreparável que causou à minha amiga. E vi, pela primeira vez, alguém que, literalmente, morreu de amores... como nos romances! E a minha mestra, apesar do muito que me ensinou, não pôde me mostrar, em suas lições, o teor de uma luz que se apaga, num sopro leve e sem graça... Eu assistia à morte do sonho e da pessoa... e não conseguia compreender tudo aquilo!...
Anos voam como poeira cósmica,
Como brisas leves e sorrateiras
E eu ainda não aprendi com a lógica
A calcular conseqüências inteiras!...


Minha professora também não pôde dominar essa lógica. Talvez nenhum humano possa. Por isso, também se morre de amor...
Por Sayonara Salvioli